Inexperiente
Entrelinhas e Ressacas
A luz da manhã de domingo era impiedosa, atravessando as cortinas finas do quarto de Sua e forçando-a a encarar a realidade de mais um dia. O primeiro reflexo dela, quase mecânico, foi esticar o braço e tatear o criado-mudo em busca do celular. A tela brilhou, exibindo a notificação do Twitter.
Mizi havia respondido ao seu post melancólico da madrugada.
— Céus nublados são bons para dormir! Amanhã o sol volta e a gente toma sorvete de novo! — Sua leu em voz alta, a voz rouca de sono.
Ela franziu o cenho. O comentário parecia tão... desconexo. Tão alegremente estúpido diante da tristeza contida que ela tentara expressar. Sua suspirou, sentindo uma pontada de irritação misturada com a já familiar sensação de invisibilidade. Ela simplesmente ignorou a notificação, jogando o celular de lado e levantando-se para enfrentar o café da manhã.
Na cozinha, o cenário era o caos habitual. Ivan já estava lá, devorando uma fatia de torrada enquanto tentava equilibrar uma caneca de café e o celular. Ele vestia uma camiseta velha e o cabelo parecia um ninho de ratos.
— Bom dia, raio de sol — ironizou Ivan, percebendo a cara de poucos amigos da irmã.
Sua não respondeu. Ela pegou o celular novamente, abriu a câmera e, num impulso raro de querer registrar algo, tirou uma foto da mesa. No fundo, Ivan percebeu o clique e, no exato momento, fez uma careta grotesca, cruzando os olhos e puxando as bochechas.
Sua postou a foto com a legenda curta: *"Café da manhã com uma aberração genética."*
Não demorou muito para as notificações começarem a pipocar.
*Till: "Finalmente uma foto que faz jus à cara dele. Pêsames, Sua."*
*Hyuna: "KKKKKKKK Ivan, você tá horrível! Sua, você é uma guerreira por aguentar isso todo dia."*
*Mizi: "Ahhh, que fofos! O Ivan de manhã é um conceito artístico! 💖"*
Sua olhou para o comentário de Mizi e sentiu um aperto no peito. Mizi parecia ter um elogio pronto para tudo e todos, o que tornava difícil saber se algo ali era minimamente especial.
O resto do dia arrastou-se. O domingo no condomínio era silencioso, quase parado. Sua passou a maior parte do tempo perto da janela da sala, fingindo ler, mas seus olhos frequentemente derivavam para a área comum lá embaixo. Por volta das nove da noite, ela viu uma figura familiar cruzando o estacionamento em direção à entrada do prédio.
Era Mizi. Mas não a Mizi de sempre. Ela caminhava de um jeito estranho, pendendo para os lados, os passos incertos e "tortos". Ela parecia estar lutando contra a própria gravidade.
— Ela está bêbada? — murmurou Sua para si mesma, observando a garota de cabelos rosa desaparecer sob a marquise do bloco.
Alguns minutos depois, às 21:34 exatamente, o celular de Sua vibrou. Era uma mensagem de Hyuna no grupo que agora todos compartilhavam.
*Hyuna: "Quadra. Agora. Só pra trocar ideia e não morrer de tédio antes da segunda-feira. Apareçam!"*
Ivan deu um pulo do sofá.
— Bora, Sua. Eu preciso de interação humana que não seja você me olhando com desprezo.
— Eu não quero ir, Ivan.
— Ah, para de ser chata. Vamos logo.
Relutantemente, ela foi. Quando chegaram à quadra, o grupo estava reunido perto da mesa de pingue-pongue. Luka estava lá, parecendo um pouco desconfortável com a situação, enquanto Hyuna ria de algo que Till dizia. E, no meio deles, sentada no chão e encostada na perna de uma mesa, estava Mizi.
O estado dela era deplorável, mas de um jeito estranhamente magnético. Mizi estava com as bochechas muito coradas, os olhos meio apertados e um sorriso bobo e permanente. Assim que viu Sua entrar na quadra, o rosto de Mizi se iluminou de uma forma exagerada.
— Sua! — gritou Mizi, a voz arrastada e um pouco alta demais. — Minha vizinha favorita! Vem cá, me dá um abraço!
Mizi tentou se levantar, mas vacilou, acabando por se agarrar ao braço de Sua assim que ela se aproximou. O cheiro de álcool era evidente, misturado ao perfume doce de sempre.
— Você está bêbada — constatou Sua, tentando manter a compostura enquanto Mizi se inclinava perigosamente em sua direção, quase encostando os narizes.
— Eu tô... flutuando — murmurou Mizi, rindo e passando a mão pelo ombro de Sua de um jeito muito íntimo. — Você é tão bonitinha, sabia? Por que você é tão séria? Eu queria te guardar num potinho.
Sua sentiu o rosto arder. Mizi estava sendo extremamente direta, os dedos brincando com a gola da blusa de Sua, o olhar dourado fixo em seus lábios. O coração de Sua martelava contra as costelas. Ela não sabia como reagir àquela invasão de espaço.
Till, que observava a cena com um sorrisinho de canto, resolveu intervir. Ele sabia muito bem que Mizi era lésbica — o grupo todo sabia desde sempre —, mas o jeito como Sua estava travada e claramente afetada era uma oportunidade de ouro para uma brincadeira.
— Relaxa, Sua — disse Till, cruzando os abraços. — Não leva a sério. A Mizi fica assim quando bebe, mas você sabe, né? Ela é hétero convicta.
Hyuna, percebendo a deixa, soltou uma risadinha e entrou na onda.
— Pois é, uma pena. Ela é a maior "hétero top" desse prédio. Esse jeito dela é só... charme de amiga.
Luka apenas ajeitou os óculos, soltando um suspiro que poderia ser interpretado como concordância ou apenas cansaço pela palhaçada dos amigos. Mizi, em seu estado grogue, nem processou a mentira. Ela apenas continuou pendurada em Sua, rindo de algo que só ela ouvia.
Sua sentiu um balde de água gelada cair sobre si. "Hétero". A palavra ecoou em sua mente, trazendo consigo uma onda de autodesprezo. Ela se afastou bruscamente de Mizi, que quase caiu se não fosse por Hyuna a segurando.
— Eu vou tomar um ar — disse Sua, a voz cortante.
Ela caminhou até a área dos balanços, o único lugar onde a escuridão era suficiente para esconder sua frustração. Sentou-se e começou a se balançar devagar, sentindo o vento frio no rosto.
Alguns minutos se passaram até que ela ouviu o som da areia sendo esmagada. Mizi surgiu da penumbra, ainda andando de forma instável, mas parecendo um pouco mais consciente do ambiente. Ela se sentou no balanço ao lado de Sua.
— Por que você fugiu? — perguntou Mizi, inclinando a cabeça para o lado. — A gente estava se divertindo.
— Mizi, para com isso — disse Sua, sem olhar para ela. — Está chato.
Mizi piscou, confusa.
— Chato? O que eu fiz?
— Esse seu jeito — Sua gesticulou vagamente. — Esse flerte constante. Você não precisa fazer isso comigo só porque está bêbada.
— Ué — Mizi soltou uma risadinha arrastada —, mas você não pediu para parar antes. Você parecia estar gostando.
Sua parou o balanço bruscamente, virando-se para encarar a garota de cabelos rosa.
— Eu só não estou com vontade de receber flerte de hétero, Mizi. É cansativo. E é cruel quando você sabe que a pessoa do outro lado não está brincando.
Mizi franziu a testa, o processamento lento devido ao álcool parecendo entrar em curto-circuito.
— O quê? — Mizi soltou um som que era metade risada, metade confusão. — Do que você tá falando? Eu não sou hétero, Sua. De onde você tirou essa ideia maluca?
Sua revirou os olhos, levantando-se do balanço.
— Você está bêbada, Mizi. Nem sabe o que está dizendo. Boa noite.
Sua saiu andando apressada, ignorando os chamados confusos de Mizi atrás dela. Ela subiu para o apartamento, trancou-se no quarto e tentou ignorar o fato de que seu coração ainda batia acelerado.
Na manhã seguinte, o clima estava pesado. Sua acordou com uma sensação de ressaca moral, apesar de não ter bebido uma gota. Ela abriu o Twitter e a primeira coisa que viu foi um post de Mizi.
Era uma foto de Mizi abraçada a uma garota morena, muito bonita, que Sua nunca tinha visto no condomínio. Ambas estavam sorridentes, com luzes de festa ao fundo. A legenda dizia: *"A festa de ontem foi incrível! Te amo tanto, Magie! 💖✨"*
Sua sentiu um nó na garganta. Então era isso. Mizi tinha saído, ficado bêbada, voltado para o condomínio, dado em cima dela por puro esporte e agora postava declarações de amor para outra garota.
Ivan, que estava sentado na mesa da sala tomando café, também viu o post. Ele olhou para a irmã, que tinha uma expressão de puro gelo no rosto.
— Vish — murmurou Ivan. — Quem é essa Magie?
Ele não resistiu. Ivan adorava colocar lenha na fogueira, especialmente quando via que Sua estava tentando esconder o que sentia. Ele abriu o post de Mizi e comentou: *"Quem é essa? A Sua está perguntando aqui. 👀"*
Sua, ao ver o comentário do irmão, quase arremessou o celular na parede.
— Ivan! Por que você fez isso?! — gritou ela, o rosto vermelho de raiva e vergonha.
— Ué, para ver o circo pegar fogo — respondeu ele, calmamente.
Enquanto isso, no sétimo andar, Mizi estava jogada no sofá do apartamento de Hyuna. Ela tinha uma dor de cabeça lancinante e as memórias da noite anterior eram flashes desconexos e borrados. Ela pegou o celular e viu o comentário de Ivan.
— Hyuna — chamou Mizi, a voz fraca. — Olha isso aqui.
Hyuna se aproximou e leu o comentário de Ivan. Ela soltou uma gargalhada.
— O Ivan é um gênio do caos.
— Mas... por que a Sua estaria perguntando? — Mizi perguntou, genuinamente confusa. — Do nada? Eu postei uma foto com a Magie, minha prima que veio de fora. Por que a Sua estaria interessada nisso?
Hyuna parou de rir e olhou para Mizi com uma expressão de "você é muito burra ou está fingindo?".
— Mizi, você não lembra de nada de ontem à noite, né?
— Eu lembro de... chegar no prédio. E de ver a Sua na quadra. O resto é um borrão de luzes e manchetes de vôlei.
Hyuna suspirou, sentando-se ao lado da amiga.
— Mizi, ontem você quase engoliu a Sua na frente de todo mundo. E o Till, aquele idiota, disse para ela que você era hétero só para ver a reação dela. A Sua saiu de lá parecendo que tinha levado um tiro.
Mizi sentou-se ereta no sofá, ignorando a pontada de dor na têmpora.
— O Till disse o quê?! E a Sua... ela achou que eu estava brincando com ela?
— Exatamente — confirmou Hyuna. — E agora ela vê você postando "te amo" para uma garota que ela não conhece. O que você acha que ela está pensando?
Mizi cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido de frustração.
— Meu Deus, eu sou uma idiota. Eu preciso falar com ela.
— Agora não — aconselhou Hyuna. — Deixa a poeira baixar. Ela está bolada. Se você for lá agora, ela vai te expulsar do andar dela com um chute.
Mizi olhou para o celular, para a foto com a prima e para o comentário de Ivan. Ela sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com a ressaca. Sua achava que ela era hétero. E pior, achava que ela era uma mentirosa.
No quinto andar, Sua fechou a porta do seu quarto e encostou a cabeça na madeira fria. Ela olhou para a pulseira de couro em cima da mesa. Aquele pequeno objeto, que antes parecia um símbolo de uma conexão nascente, agora parecia apenas um lembrete de que, no mundo de cores vibrantes de Mizi, Sua era apenas uma sombra passageira, fácil de ser notada, mas ainda mais fácil de ser esquecida assim que o álcool passasse.