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Inexperiente

Ângulos Agudos e Cadarços Desamarrados

A segunda-feira no condomínio tinha aquele peso característico de começo de semana. O sol da tarde batia contra as janelas espelhadas do prédio, criando reflexos que cegavam qualquer um que olhasse para cima. Sua caminhava em direção à portaria, arrastando os pés e sentindo o peso da mochila escolar. O uniforme — uma camisa social branca e uma saia xadrez plissada em tons de roxo e cinza — parecia apertar mais do que o normal.

Ela estava exausta. Não fisicamente, mas mentalmente. A imagem da foto de Mizi com a tal "Magie" não saía de sua cabeça, funcionando como um lembrete constante de que ela era apenas uma vizinha nova e sem graça em meio ao mundo vibrante da garota de cabelos rosa.

Ao entrar no hall do prédio, Sua apertou o botão do elevador. O visor indicava que ele estava descendo. Quando a porta se abriu, ela entrou e, antes que pudesse apertar o botão do quinto andar, uma mão impediu que a porta se fechasse.

Era Mizi.

Ela vestia um top preto e uma calça de moletom larga, com o cabelo preso em um coque desleixado. Ao ver Sua, os olhos dourados de Mizi brilharam, mas não com o deboche de antes, e sim com uma espécie de alívio ansioso.

— Sua! — Mizi exclamou, entrando no cubículo metálico. — Que sorte a minha. Eu ia bater na sua porta agora mesmo.

Sua apertou o botão do seu andar, mantendo o olhar fixo no painel.

— O que você quer, Mizi?

— Pedir perdão — disse Mizi, a voz soando surpreendentemente séria. — A Hyuna me contou o que o Till disse ontem. Aquele idiota estava me zoando. Eu não sou hétero, Sua. Nunca fui. E a Magie... ela é minha prima. Ela veio de fora passar o fim de semana e a gente saiu para comemorar o aniversário dela.

Sua sentiu um pequeno estalo no peito, como se uma corda tensionada tivesse se partido. Ela olhou para Mizi de soslaio.

— Por que você está me dizendo isso?

Mizi deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre elas. O perfume de morango inundou o elevador novamente.

— Porque eu não quero que você pense que eu estava brincando com você. Eu posso estar bêbada ou sóbria, mas quando eu digo que você é interessante, eu estou falando sério.

Mizi sorriu, e desta vez o flerte era palpável, carregado de uma intenção que fez as mãos de Sua suarem.

— Você fica linda nesse uniforme, sabia? — Mizi murmurou, os olhos descendo pela silhueta de Sua. — Mas seu cadarço está desamarrado. Você vai acabar caindo e eu não quero que esse rostinho sofra nenhum arranhão.

Antes que Sua pudesse protestar, Mizi se abaixou. Ela ficou de joelhos no chão do elevador para amarrar o tênis de Sua. Foi um gesto de cuidado, mas o ângulo era perigoso.

Sua estava de saia. E, no momento em que Mizi terminou o laço e levantou o olhar para cima, ainda ajoelhada, a visão foi direta. A saia plissada não oferecia muita proteção contra aquele ângulo inferior. Mizi viu exatamente o que não deveria: a lingerie de renda preta de Sua.

O silêncio no elevador tornou-se ensurdecedor. Mizi congelou por um segundo, os olhos dourados se arregalando levemente, antes de um sorriso malicioso e lento surgir em seus lábios.

— Renda preta? — Mizi comentou, a voz agora um sussurro rouco enquanto se levantava devagar. — Quem diria que a vizinha santinha tinha esse lado...

O elevador apitou, chegando ao quinto andar. Sua sentiu o sangue subir para o rosto com tanta força que sua visão chegou a latejar. Ela não disse uma palavra. Simplesmente saiu disparada do elevador, quase tropeçando nos próprios pés, o coração batendo na garganta.

Mizi continuou no elevador, rindo alto enquanto as portas se fechavam.

— Até mais, Sua! — gritou ela, divertida.

Sua entrou no apartamento e correu para o quarto, jogando-se na cama e cobrindo o rosto com o travesseiro. Ela queria evaporar. A humilhação era completa, mas, no fundo, havia aquele formigamento persistente de que, pela primeira vez, Mizi a tinha visto de verdade.

***

Mais tarde naquela noite, o grupo de amigos estava ativo nas redes sociais. Mizi, sentindo-se vitoriosa e com a adrenalina lá no alto, postou um print de uma partida de um jogo de tiro online. Ela tinha dizimado o time adversário.

A legenda era típica dela: *"A mãe é braba. Quem quiser perder, é só chamar."*

Sua, ainda escondida em seu quarto, viu a postagem e, num momento de coragem súbita, comentou:

*"Braba nada, o time adversário que era cego."*

Till não demorou a aparecer logo abaixo:

*"Concordo com a Sua. Mizi só ganha porque o ping dela é de luxo nesse prédio."*

Mizi respondeu ao comentário de Sua com uma figurinha de um gato sapeca e, logo em seguida, postou algo nos seus "stories" que fez o coração de Sua parar.

*"Amanhã vou tratar ela que nem namorada. Preparem o coração."*

O post era misterioso o suficiente para não citar nomes, mas específico o suficiente para deixar o grupo em polvorosa.

*Hyuna: "EITA! Quem é a vítima da vez? Mizi, você não presta!"*

*Luka: "Espero que seja alguém com paciência, porque você é insuportável, irmã."*

*Ivan: "Seja quem for, meus pêsames. Mas eu quero ver o show de camarote."*

Ninguém sabia de quem Mizi estava falando. Ivan e Luka comentaram achando que era alguma brincadeira interna ou algum novo alvo de Mizi na faculdade. Mas Sua... Sua sentiu o estômago dar voltas. Ela tinha certeza de que Mizi estava falando de outra pessoa. Provavelmente a tal "namorada" que ela mencionara no post.

"Ela já gosta de alguém", pensou Sua, sentindo uma melancolia profunda se instalar. "E eu aqui, passando vergonha em elevador."

***

Na noite de terça-feira, o condomínio estava calmo. Sua precisava sair do apartamento; a presença constante de Ivan, que não parava de perguntar se ela tinha visto o post da Mizi, estava a deixando louca. Ela desceu para a sala de jogos, esperando encontrar o lugar vazio.

A sala de jogos era ampla, com luzes baixas e mesas de sinuca de feltro azul. Não havia ninguém. Sua pegou um taco, ajeitou as bolas e começou a jogar sozinha. O som seco das batidas era relaxante, ajudando-a a organizar os pensamentos.

Ela estava concentrada em uma jogada difícil na caçapa de canto quando ouviu a porta se abrir. O cheiro de morango chegou antes da imagem.

Mizi entrou na sala com um sorriso radiante. Ela usava um vestido curto de alças, algo que a deixava ainda mais bonita sob a luz suave da sala.

— Oi, meu amor — disse Mizi, a voz doce e carregada de uma intimidade súbita.

Sua quase errou a tacada. Ela olhou para Mizi, confusa.

— "Meu amor"? Mizi, você bebeu de novo?

— Nem uma gota — respondeu Mizi, aproximando-se da mesa de sinuca. — Eu disse que ia tratar ela como namorada hoje, não disse? E eu cumpro minhas promessas.

Sua sentiu o ar faltar.

— Ela... você estava falando de mim?

— E de quem mais seria? — Mizi riu, parando do outro lado da mesa. — Você é a única que me faz querer amarrar cadarços alheios.

Sua tentou focar no jogo, ignorando o tremor em suas mãos.

— Você é ridícula, Mizi.

— E você está prestes a errar essa tacada — provocou Mizi.

Sua se inclinou sobre a mesa, apoiando a mão no feltro azul para mirar na bola branca. Ela estava concentrada, o corpo tenso. De repente, sentiu um calor nas suas costas.

Mizi tinha se posicionado logo atrás dela. Ela não apenas se aproximou, ela colou o corpo no de Sua. Mizi colocou as mãos sobre as de Sua no taco, inclinando-se sobre ela. O peso do corpo de Mizi forçou Sua a se inclinar ainda mais contra a borda da mesa de sinuca.

— O ângulo está errado, Sua — sussurrou Mizi, a respiração quente batendo diretamente na orelha da garota de olhos roxos. — Você tem que relaxar o ombro. Assim...

Mizi deslizou a mão pelo braço de Sua, guiando o taco com uma precisão que nada tinha a ver com o jogo. A proximidade era absoluta. Sua podia sentir cada curva de Mizi contra as suas costas, o calor da pele dela através da roupa. O mundo parecia ter se reduzido àquela mesa e ao toque de Mizi.

— Mizi... — Sua tentou dizer, mas a voz saiu como um suspiro falho.

— Shhh. Foca na bola — Mizi murmurou, a voz vibrando contra o pescoço de Sua.

Mizi deu a tacada. O som da bola branca batendo na vermelha e o ruído da caçapa sendo atingida ecoaram na sala silenciosa. Foi uma jogada perfeita.

Mizi não se afastou imediatamente. Ela permaneceu ali, inclinada sobre Sua, os braços envolvendo-a como se a estivesse protegendo — ou prendendo.

— Viu? — Mizi disse, virando o rosto para que seus lábios ficassem a milímetros da bochecha de Sua. — Comigo, você sempre ganha.

Sua finalmente conseguiu se virar, ficando de frente para Mizi, mas ainda presa entre o corpo dela e a mesa. Os olhos roxos encontraram os dourados. A provocação de Mizi estava lá, mas havia algo mais profundo, algo que Sua nunca tinha visto em ninguém: um interesse genuíno e feroz.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou Sua, a voz firme apesar do coração disparado.

Mizi estendeu a mão e tocou a pulseira de couro no pulso de Sua, a mesma que ela tinha devolvido na primeira noite.

— Porque você é a única pessoa neste prédio que não tenta me impressionar. E porque, desde que eu te vi naquele balanço, eu não consigo parar de pensar no que acontece se eu conseguir fazer você sorrir de verdade.

Mizi deu um passo para trás, quebrando o contato físico, mas mantendo a intensidade do olhar.

— O tratamento de namorada continua amanhã. Esteja pronta.

Ela piscou para Sua e saiu da sala de jogos com a mesma espontaneidade com que entrou, deixando para trás uma Sua trêmula, segurando um taco de sinuca como se fosse sua única âncora em um mar de rosa e morango.

Sua olhou para a mesa, para a bola vermelha que Mizi tinha encaçapado. Ela finalmente entendeu. Mizi não era um sol distante; ela era um incêndio que estava começando a cercá-la. E, pela primeira vez em sua vida melancólica, Sua não queria apagar as chamas.

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