Voltar ao resumo

Inexperiente

Reflexos de Vidro e Sombras de Ciúme

O apartamento no quinto andar parecia subitamente mais iluminado, não pelo sol que se punha no horizonte, mas pela presença vibrante de Lexy. Sentada no tapete da sala, cercada por algumas almofadas, a garota de cabelos brancos longos e cílios da mesma cor parecia uma criatura saída de um conto de inverno. Seus olhos azuis brilhavam com uma curiosidade atenta enquanto ela ouvia Sua falar.

— Então você está me dizendo que esse lugar não é apenas um prédio de luxo, mas um cenário de drama adolescente? — Lexy riu, a voz soando como pequenos sinos. — E essa tal de Mizi... ela realmente te prendeu contra uma mesa de sinuca?

Sua sentiu o rosto esquentar, desviando o olhar para o livro aberto em seu colo, cujas páginas ela não lia há pelo menos vinte minutos.

— Ela é... intensa, Lexy. — Sua suspirou, tentando encontrar as palavras certas. — Ela tem esse cabelo rosa vibrante e parece que o mundo inteiro gira em torno dela. Ela disse que ia me tratar como namorada por um dia e, honestamente, eu não sei o que fazer com isso.

Lexy inclinou a cabeça, observando a amiga. Ela conhecia Sua há anos e sabia que, por trás daquela fachada melancólica e silenciosa, havia alguém que sentia tudo com uma profundidade avassaladora.

— Você gosta dela. — Não era uma pergunta.

— Eu não sei. — Sua fechou o livro com um estalo seco. — Ela é o oposto de tudo o que eu sou. Mas quando ela está por perto... parece que o silêncio não é tão pesado.

Enquanto as duas conversavam no quinto andar, a vida pulsava em outras partes do condomínio.

Na área externa, nos balanços de madeira que agora eram o ponto de encontro favorito do grupo, Mizi e Till aproveitavam o fim de tarde. A menininha do sétimo andar, que já se tornara uma espécie de mascote não oficial, corria ao redor deles, tentando fazer Mizi entrar em uma brincadeira de pega-pega.

— Você não me pega! — gritava a criança, rindo enquanto desviava dos braços longos de Mizi.

— Ah, é? Espera só eu levantar daqui, sua fugitiva! — Mizi brincava, embora permanecesse sentada, aproveitando o balanço suave.

Till, ao lado dela, mantinha uma expressão ranzinza, mas seus olhos verdes não mostravam irritação real. Ele chutava a areia com o bico do tênis, observando o movimento. De repente, a mãe da menina apareceu na varanda do térreo e chamou-a para o banho. Com um tchau apressado e um abraço rápido nas pernas de Mizi, a pequena desapareceu.

O silêncio caiu sobre os dois. Mizi suspirou, recostando a cabeça nas cordas do balanço.

— O que foi, Till? Você está mais quieto que o normal. E olha que você já é um bicho do mato.

— Nada, Mizi. Só pensando. — Ele deu de ombros, o cabelo cinza bagunçado caindo sobre os olhos. — Esse condomínio é estranho. As pessoas são estranhas.

Mizi riu, chutando o ar.

— Você que é estranho, Till. Mas a gente gosta de você assim, seu emo revoltado.

Simultaneamente, no sétimo andar, o apartamento de Luka e Mizi servia de quartel-general para uma reunião improvável. Ivan estava jogado no sofá de couro, enquanto Hyuna ocupava a poltrona e Luka permanecia sentado à mesa, com um tablet à frente, mas sem estudar por uma vez na vida.

— Eu estou falando sério, gente — disse Ivan, girando um pirulito na boca. — O Till. Ele tem aquela vibe de "eu odeio o mundo", mas quando ele fica bravo e as orelhas dele ficam vermelhas... é a coisa mais engraçada e, sei lá, bonita que eu já vi.

Hyuna soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Ivan, você é patético! — Ela exclamou, limpando uma lágrima imaginária. — Você está realmente caidinho pelo garoto mais difícil do prédio?

— Ele não é difícil — Ivan retrucou, com um sorriso convencido. — Ele só precisa de alguém que saiba cutucar os botões certos. E eu sou mestre nisso.

Luka, que até então apenas observava, ajeitou os óculos e deu um leve sorriso de canto.

— Se você quer mesmo se aproximar dele, Ivan, precisa de uma estratégia menos... irritante. O Till valoriza a sinceridade, embora ele mesmo tenha dificuldade com ela.

— Exato! — Hyuna apontou para Luka, os olhos azuis brilhando. — A gente vai te ajudar, Ivan. Vamos criar situações onde você e o Till tenham que colaborar. Talvez um jogo em dupla ou um projeto aqui no condomínio.

— Vocês fariam isso por mim? — Ivan fingiu emoção, colocando a mão no peito.

— A gente quer ver o entretenimento, querido — Hyuna piscou. — E, honestamente, vocês dois combinam no caos.

De volta ao quinto andar, Lexy se levantou e esticou os braços.

— Chega de falar de garotas de cabelo rosa por um segundo. Me mostra o resto desse castelo, Sua. Quero ver a piscina que você mencionou.

Sua concordou, sentindo que precisava de um pouco de ar fresco. Elas desceram pelo elevador e começaram a caminhar pelas áreas comuns. Lexy olhava tudo com deslumbramento, comentando sobre a arquitetura moderna.

Ao longe, perto da área dos balanços, Lexy parou e estreitou os olhos azuis.

— Ei, Sua... aquela garota ali. De cabelo rosa, sentada no balanço com o garoto de cabelo cinza. É ela?

Sua olhou na direção indicada. Mizi estava rindo de algo que Till dissera, o corpo inclinado para o lado, a imagem da descontração. O coração de Sua deu um solavanco incômodo.

— É — respondeu Sua, a voz subitamente mais seca. — É ela.

— Ela é realmente bonita — comentou Lexy, observando a interação. — Mas parece bem ocupada agora. Vamos para a piscina?

As duas seguiram para a área aquática. O sol já havia se posto, e as luzes subaquáticas da piscina criavam um tom azul néon hipnotizante. Sua trocou-se no vestiário, colocando um biquíni branco simples que contrastava com sua pele pálida. Lexy optou por um maiô azul claro que combinava com seus olhos.

Elas mergulharam, aproveitando a água morna. Lexy nadava com agilidade, enquanto Sua preferia ficar na borda, observando o reflexo das torres do condomínio na superfície da água. Por um momento, ela conseguiu esquecer as provocações de Mizi e a confusão em sua mente.

— Você nada bem — comentou Sua, vendo Lexy emergir.

— É a única coisa que me mantém sã na escola — Lexy riu, jogando o cabelo branco para trás.

Depois de quase uma hora, o frio da noite começou a incomodar. Elas saíram da água, enrolaram-se em toalhas felpudas e caminharam em direção ao elevador. Lexy ia passar a noite no apartamento, então subiam para tomar um banho decente e pedir pizza.

O elevador chegou ao térreo e as portas se abriram.

Lá dentro, sozinha, estava Mizi.

O sorriso que Mizi costumava carregar desapareceu instantaneamente ao ver a cena. Sua estava com o cabelo molhado, a toalha levemente caída sobre os ombros, revelando o biquíni branco. E ao lado dela, uma garota que Mizi nunca vira: pálida, de cabelos brancos longos, olhos azuis intensos e uma beleza etérea que parecia complementar a de Sua de um jeito irritantemente natural.

Sua e Lexy entraram no elevador. O silêncio que se seguiu foi denso, quase sólido.

Mizi, que normalmente falaria até o elevador parar, permaneceu de braços cruzados, encostada no canto. Sua expressão era fechada, as sobrancelhas levemente franzidas. Ela olhava para o painel de números como se fosse a coisa mais fascinante do mundo, mas sua visão periférica estava totalmente focada na interação entre as duas à sua frente.

Lexy, percebendo a tensão, olhou para Sua e depois para Mizi, um sorriso travesso começando a se formar em seus lábios. Ela sabia exatamente quem era aquela garota.

— O dia foi ótimo, não foi, Sua? — Lexy disse, de propósito, aproximando-se um pouco mais da amiga e colocando a mão em seu ombro. — A água estava perfeita.

Sua, alheia ao jogo de Lexy, apenas assentiu.

— Foi bom. Eu precisava disso.

Mizi soltou um ruído anasalado, algo entre um suspiro e um bufo de indignação. Ela sentiu uma pontada aguda de ciúme que a pegou desprevenida. Quem era aquela garota? E por que Sua não tinha mencionado que receberia uma visita? "Tratar como namorada", ela pensara. Mas como ela poderia fazer isso se Sua parecia ter sua própria companhia especial?

O elevador parou no quinto andar.

— Tchau, Mizi — disse Sua, olhando rapidamente para a garota de cabelo rosa antes de sair.

Mizi não respondeu. Ela apenas deu um aceno curto com a cabeça, o rosto ainda amarrado. Quando as portas se fecharam, deixando-a sozinha para subir até o sétimo andar, ela socou levemente a parede acolchoada do elevador.

— Que porra foi essa? — resmungou Mizi para si mesma.

No corredor do quinto andar, Lexy começou a rir assim que as portas se fecharam.

— Meu Deus, Sua! Se olhares matassem, eu teria virado um picolé lá dentro.

— O que você quer dizer? — Sua perguntou, pegando a chave do apartamento.

— A Mizi! Ela ficou completamente bolada! — Lexy exclamou, entrando no apartamento. — Ela achou que eu era sua namorada ou algo assim. A cara dela fechou na hora.

Sua parou no meio da sala, processando a informação. Mizi... com ciúmes? A garota que flertava com o condomínio inteiro e agia como se tudo fosse uma grande piada tinha ficado em silêncio por causa de Lexy?

— Você acha? — perguntou Sua, uma ponta de esperança — e de confusão — surgindo em seu peito.

— Eu tenho certeza. — Lexy jogou a toalha no sofá e olhou para a amiga. — Sua, aquela garota não está apenas brincando de ser sua namorada por um dia. Ela está realmente interessada. E agora ela acha que tem concorrência.

Sua sentou-se no sofá, o coração acelerado. Ela olhou para a pulseira em seu pulso. O jogo de Mizi tinha acabado de ganhar regras novas, e pela primeira vez, Sua sentia que talvez, apenas talvez, ela não fosse a única a estar em perigo de perder o coração naquele condomínio de luxo.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.