Inexperiente
Sombras e Segundas Intenções
A noite caiu sobre o condomínio com uma temperatura amena, mas o clima dentro do apartamento 502 estava carregado de uma eletricidade silenciosa. Sua observava Lexy terminar de prender o cabelo branco em um rabo de cavalo alto. A amiga parecia radiante, alheia — ou talvez muito ciente — do caos que sua presença estava causando no ecossistema social do prédio.
— Tem certeza de que quer ir? — perguntou Sua, ajustando a alça da mochila. — O pessoal pode ser meio... intenso.
— Ah, qual é, Sua? — Lexy sorriu, os olhos azuis brilhando de diversão. — Você me disse que eles iam se reunir na quadra. Eu quero ver de perto esse tal "tratamento de namorada" da garota rosa. E, honestamente, eu adoro uma confusão.
Sua suspirou, mas não discutiu. Elas desceram juntas.
Quando chegaram à quadra poliesportiva, o grupo já estava lá. Luka e Hyuna pareciam conspirar em um canto, enquanto Ivan tentava, sem sucesso, puxar assunto com um Till que parecia querer ser abduzido por alienígenas. Mizi estava sentada em cima de uma mesa de pingue-pongue, balançando as pernas.
Assim que Sua e Lexy entraram no campo de visão do grupo, o silêncio caiu por um segundo. Mizi travou o movimento das pernas. Seus olhos dourados faíscaram ao ver Lexy caminhando tão próxima de Sua, quase roçando os ombros.
— E aí, galera! — Hyuna quebrou o gelo, com sua animação habitual. — Trouxe reforços, Sua?
— Essa é a Lexy, uma amiga minha — apresentou Sua, a voz contida.
— Prazer, Lexy! — disse Luka, educado como sempre.
Mizi não disse nada. Ela apenas deu um sorriso forçado, daqueles que não chegavam nem perto dos olhos. Por dentro, ela sentia uma queimação incômoda no estômago. Quem era aquela garota de cabelo branco? E por que ela parecia tão à vontade ao lado da *sua* vizinha?
— Bom, já que estamos todos aqui — começou Hyuna, trocando um olhar cúmplice com Luka —, tivemos uma ideia para passar o tempo. Vamos jogar esconde-esconde.
— Esconde-esconde? Sério? — Till resmungou, cruzando os braços. — A gente tem quantos anos? Cinco?
— Cinquenta contos para a última dupla que não for achada — Luka interveio, ajustando os óculos. — O condomínio inteiro está valendo, exceto o interior dos apartamentos.
O interesse de Till subiu instantaneamente. Cinquenta reais eram cinquenta reais.
— As duplas já estão decididas — anunciou Hyuna, pegando um papel imaginário. — Eu e o Luka. O Ivan e o Till. A Lexy e a Sua. E a Mizi... bom, a Mizi vai ser a nossa caçadora. Ela conta.
Mizi arqueou uma sobrancelha. Ela percebeu a jogada na hora. Hyuna e Luka queriam forçar Ivan e Till a passarem um tempo sozinhos em algum lugar apertado. O que eles não perceberam — ou não se importaram — era que tinham acabado de jogar Sua nos braços da "concorrência".
— Tudo bem por mim — disse Mizi, a voz saindo mais fria do que o normal. — Eu adoro caçar.
— Ótimo! — Hyuna bateu palmas. — Mizi, você conta até cem na entrada da quadra. O resto, corram!
O grupo se dispersou rapidamente. Ivan praticamente arrastou Till em direção ao estacionamento coberto, enquanto Luka e Hyuna sumiram nos jardins. Lexy agarrou a mão de Sua e a puxou em direção à área dos blocos residenciais.
Mizi fechou os olhos e encostou a testa no portão de ferro da quadra.
— Um... dois... três...
Enquanto Mizi contava, o plano de Hyuna começava a dar frutos, embora não da forma que ela imaginava. No subsolo do estacionamento, atrás de uma pilha de pneus novos e uma lona de cobertura, Ivan e Till estavam espremidos. O espaço era tão pequeno que o peito de Ivan encostava no braço de Till a cada respiração.
— Dá pra você parar de se mexer? — sussurrou Till, o rosto vermelho de irritação.
— Eu estou tentando ficar confortável, estressadinho — Ivan provocou, a voz baixa e rouca. — Sabia que você fica muito bonito quando está tentando não ser notado?
— Cala a boca, Ivan. Ela vai ouvir a gente.
— Deixa ela ouvir. A gente ganha os cinquenta contos e eu ainda saio no lucro.
Till olhou para ele, confuso.
— Que lucro?
Ivan não respondeu com palavras. Ele simplesmente jogou a real. Em um movimento rápido e inesperado, ele segurou o rosto de Till e o beijou. Foi um beijo urgente, calando qualquer protesto que o garoto de cabelo cinza pudesse ter. Por um segundo, Till congelou, mas logo suas mãos agarraram a jaqueta de Ivan, retribuindo com a mesma intensidade confusa.
Enquanto isso, Mizi já havia terminado a contagem. Ela não estava com pressa. Seus passos eram silenciosos enquanto ela caminhava pelo pátio. Ela achou Luka e Hyuna em menos de cinco minutos; eles estavam escondidos atrás de um balcão na portaria, rindo baixo enquanto tentavam subornar o porteiro para não contar onde estavam.
— Achei os dois pombinhos — disse Mizi, sem muita emoção. — Voltem para a quadra.
Ela continuou sua busca. O ódio silencioso por Lexy era o combustível que a mantinha focada. Ela não queria achar Ivan e Till. Ela queria achar *elas*.
No andar térreo do Bloco B, em um vão estreito entre a parede da escada de emergência e um depósito de materiais de limpeza, Sua e Lexy tentavam se manter imóveis. O lugar era escuro e terrivelmente apertado.
— Acho que ela não vem por aqui — sussurrou Lexy.
— A Mizi conhece cada canto desse lugar, Lexy. Você não tem noção — Sua respondeu, sentindo a respiração da amiga em seu pescoço.
Lexy tentou mudar de posição para aliviar a cãibra na perna, mas o chão estava levemente úmido. Seus pés escorregaram.
— Opa! — Lexy exclamou baixinho.
Para não cair, ela se agarrou aos ombros de Sua, mas o impulso fez com que ambas perdessem o equilíbrio. Lexy acabou caindo por cima de Sua, prendendo-a contra a parede. Na confusão de braços e pernas, a posição ficou, no mínimo, comprometedora: Lexy estava com o rosto a centímetros do de Sua, uma perna entre as dela para se estabilizar, e as mãos espalmadas na parede, cercando a amiga.
Foi exatamente nesse milésimo de segundo que a porta do vão foi aberta.
A luz do corredor iluminou a cena. Mizi estava parada ali, a expressão endurecida. O brilho dourado de seus olhos parecia ter se transformado em metal frio. Ela olhou para Lexy por cima de Sua, e depois para Sua, que estava com os olhos arregalados de choque.
— Achei vocês — disse Mizi. A voz dela não tinha nenhum traço da Mizi divertida ou provocadora. Era seca, desprovida de qualquer calor.
— Mizi, não é o que parece, a gente só escorregou... — Sua tentou explicar, começando a se desvencilhar de Lexy.
Mizi nem esperou o fim da frase. Ela deu meia-volta, pegou o celular e digitou rapidamente no grupo.
*Mizi: "Podem sair. Ivan e Till ganharam. Acabou o jogo."*
— Mizi, espera! — Sua chamou, saindo do esconderijo, mas a garota de cabelos rosa já estava no fim do corredor, caminhando a passos largos, sem olhar para trás.
Lexy saiu logo atrás, limpando a poeira da calça.
— Uau — disse Lexy, com uma careta de culpa. — Acho que a gente acabou de explodir o reator nuclear dela.
— Eu disse que ela era intensa — Sua murmurou, sentindo um vazio estranho no peito.
Quando todos se reuniram novamente na quadra, o clima era uma mistura bizarra de sentimentos. Ivan e Till chegaram por último. Ivan tinha um sorriso de orelha a orelha e o cabelo mais bagunçado que o normal. Till estava com o rosto permanentemente ruborizado e evitava olhar diretamente para qualquer pessoa, mantendo os olhos fixos nos próprios pés.
Hyuna e Luka perceberam na hora. O jeito como Ivan e Till permaneciam próximos, mas sem se tocarem, irradiava uma tensão nova e muito óbvia.
— Então... — Hyuna começou, olhando para Ivan — parece que o esconde-esconde foi produtivo para algumas pessoas.
Ivan apenas piscou para ela, confirmando as suspeitas sem dizer uma palavra.
No entanto, a alegria da descoberta de Hyuna e Luka foi rapidamente ofuscada pelo clima pesado que vinha do outro lado da quadra. Mizi estava encostada na rede, de braços cruzados, olhando fixamente para o nada. Ela não fez piada sobre os cinquenta contos, não provocou Till e nem sequer olhou para Luka.
Sua e Lexy estavam paradas a alguns metros. Sua tentava buscar o olhar de Mizi, mas era ignorada sistematicamente.
— Mizi? — Luka chamou, estranhando o comportamento da irmã. — Tudo bem? Você parece que viu um fantasma.
— Eu estou ótima, Luka — respondeu Mizi, a voz gélida. — Só estou cansada. Acho que a brincadeira de hoje já deu o que tinha que dar.
— O que aconteceu lá fora? — Hyuna perguntou, olhando de Mizi para Sua.
Mizi deu um sorriso cínico, olhando finalmente para Sua, mas o olhar era como uma lâmina.
— Nada demais. Só achei a Sua e a amiga dela em um momento... bem íntimo. Não queria atrapalhar a diversão das visitas, sabe como é.
Sua sentiu o rosto queimar.
— Não foi nada disso, Mizi! A gente caiu!
— Claro — Mizi deu de ombros, descendo da rede. — As pessoas caem em posições bem específicas hoje em dia, né? Que coincidência.
Lexy deu um passo à frente, tentando intervir.
— Escuta, garota rosa, você está entendendo tudo errado...
— Eu não estou entendendo nada, porque eu não me importo — interrompeu Mizi, mentindo descaradamente. — O condomínio é grande, vocês fazem o que quiserem. Só não esperem que eu fique para assistir.
Mizi caminhou em direção à saída da quadra. O silêncio que ela deixou para trás era sufocante. Ivan e Till se entreolharam, a alegria do momento deles sendo drenada pela toxicidade do ar. Luka e Hyuna trocaram um olhar preocupado; o plano de aproximar Ivan e Till tinha funcionado, mas o custo colateral parecia ser a sanidade — e o coração — de Mizi.
Sua ficou parada no centro da quadra, observando a silhueta rosa desaparecer na escuridão do pátio. Ela sentiu a pulseira de couro em seu pulso, o presente que Mizi lhe devolvera. Naquele momento, a joia parecia pesar toneladas, um lembrete constante de que, no jogo de esconde-esconde da vida real, Mizi tinha acabado de se esconder em um lugar onde Sua talvez não conseguisse achar o caminho de volta.