Inexperiente
Fricção e Fatos Distorcidos
A manhã de segunda-feira na portaria do condomínio tinha o cheiro metálico de asfalto quente e o som distante de motores. Sua estava parada ao lado de Lexy, que segurava a alça de sua mala com uma mão e ajustava os óculos escuros com a outra. A despedida era silenciosa, típica da dinâmica entre as duas, mas o clima estava pesado.
O silêncio foi quebrado pelo som de um motor potente parando em frente ao portão principal. Um carro preto, brilhante e caro, estacionou com precisão. Sua desviou o olhar a tempo de ver a porta do passageiro se abrir. Mizi saiu do prédio carregando uma mochila pequena, o cabelo rosa vibrante parecendo uma mancha de tinta em um mundo cinza. Ela não olhou para trás. Sem um aceno, sem uma provocação, ela entrou no carro, que arrancou segundos depois.
— Lá vai o furacão rosa — comentou Lexy, observando o rastro do veículo. — Ela ainda parece querer cometer um crime contra a minha existência.
— Ela foi embora — murmurou Sua, o peito apertando de uma forma que ela odiava.
— Ela volta, Sua. Pessoas como ela sempre voltam para causar impacto. — Lexy deu um passo à frente e abraçou a amiga. — E quando ela voltar, você explica que eu sou só a sua amiga de infância que tem a mania péssima de tropeçar em cima das pessoas.
Sua assentiu, mas a sensação de que algo tinha se quebrado era persistente. Ela entrou no condomínio com a resolução de que, assim que Mizi voltasse, ela colocaria um fim naquele mal-entendido. O problema era que Mizi não voltou no dia seguinte. Nem no outro.
Uma semana se passou. Sete dias em que o condomínio pareceu estranhamente vazio, apesar de ser habitado por centenas de pessoas.
No sábado à tarde, o sol castigava a quadra poliesportiva. Till e Hyuna estavam sentados no banco de madeira, dividindo uma garrafa de isotônico. Sua se aproximou, tentando manter a expressão neutra que era sua marca registrada.
— Oi — disse Sua, parando à frente deles.
— E aí, vizinha? Sobreviveu à semana sem a Mizi te aloprando? — Hyuna perguntou, limpando o suor da testa com as costas da mão.
— Onde ela está? — Sua foi direta, ignorando a provocação. — Não a vejo há uma semana.
Hyuna trocou um olhar rápido com Till, que deu de ombros, chutando uma pedrinha na areia.
— Ela foi passar uns dias na casa de uma amiga, a Vianna — explicou Hyuna. — Sabe como a Mizi é, né? Quando ela fica brava ou estressada, ela precisa de plateia nova para esquecer os problemas.
Sua sentiu uma pontada de amargura. "Esquecer os problemas". Ela era um problema que precisava ser esquecido?
Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, o cenário era bem diferente. O quarto de Vianna estava mergulhado em uma penumbra preguiçosa, com roupas espalhadas pelo chão e o cheiro doce de narguilé no ar. Vianna, com seus cabelos pretos longos e pele pálida, era o oposto solar de Mizi, mas tinha uma energia que sempre dava corda para os impulsos da amiga.
— Você ainda está pensando nela, não está? — perguntou Vianna, soprando uma nuvem de fumaça para o teto. — Na vizinha gótica.
Mizi, deitada de bruços na cama, bufou contra o travesseiro.
— Eu não estou pensando em ninguém, Vianna. Eu só quero me divertir.
Vianna deu um sorriso de lado, aproximando-se. Ela sabia que Mizi estava vulnerável, irritada e buscando qualquer forma de distração que validasse seu ego ferido.
— Então para de reclamar e vem aqui.
Mizi não hesitou. Ela precisava de algo real, algo que não fosse o silêncio cortante de Sua ou a imagem dela nos braços de outra. Se Vianna estava oferecendo uma fuga, Mizi aceitaria com as duas mãos.
Horas depois, o silêncio reinava no quarto. Vianna estava apagada sob as cobertas, apenas o topo da cabeça de cabelos pretos aparecendo, parecendo um pequeno animal hibernando. Mizi, sentada na beira da cama, observou a cena. Ela pegou o celular, o brilho da tela incomodando seus olhos cansados. Em um impulso de pura imprudência e raiva reprimida, tirou uma foto da cama, focando na silhueta de Vianna dormindo.
Ela abriu o Instagram e postou nos stories com uma legenda curta e direta: *"Comi, galera. ✌️🔥"*
O efeito foi imediato.
No condomínio, os celulares começaram a vibrar quase simultaneamente.
Till, deitado em seu quarto, viu o post e soltou um "Puta que pariu" audível. Hyuna, na cozinha, quase derrubou o copo de água. Luka apenas fechou os olhos e suspirou, sentindo a dor de cabeça da irmã por tabela. Ivan, no sofá, deu uma gargalhada alta, comentando logo em seguida: *"A mãe não perde tempo, hein? O luto durou pouco!"*
Sua estava deitada em sua cama quando a notificação apareceu. Ela abriu a imagem e sentiu como se o chão tivesse desaparecido. O estômago revirou. A imagem de Mizi com outra, a legenda vulgar, o deboche implícito... tudo doeu mais do que ela estava disposta a admitir. Sua enterrou o rosto no travesseiro e, pela primeira vez em muito tempo, permitiu que as lágrimas caíssem, soluçando baixinho na segurança do seu quarto escuro.
O domingo chegou com um céu cinzento e pesado. Sua estava na quadra com Ivan e Till. Os dois pombinhos pareciam estar em seu próprio mundo, com Ivan fazendo piadas idiotas e Till tentando disfarçar que estava gostando da atenção. Sua sentia-se a maior vela do universo, um lembrete vivo de que o amor — ou seja lá o que fosse aquilo — era fácil para os outros.
Hyuna e Luka chegaram cerca de quarenta minutos depois. O clima estava morno, até que o som de passos confiantes ecoou no portão da quadra.
Mizi tinha voltado.
Ela usava óculos escuros, uma jaqueta jeans e parecia mais radiante do que nunca, como se a semana fora tivesse recarregado suas baterias de carisma.
— Sentiram minha falta? — perguntou Mizi, abrindo um sorriso largo para o grupo.
Sua sentiu o sangue ferver. Ela se levantou bruscamente, sem dizer uma palavra, e começou a caminhar em direção à saída.
— Eita, o que deu nela? — perguntou Ivan, mas Mizi já estava se movendo.
— Eu resolvo — disse Mizi, a voz subitamente séria.
Ela seguiu Sua até o estacionamento, longe dos olhos dos outros. O eco dos passos de Sua era rápido, furioso.
— Ei! Sua! Para de fugir! — gritou Mizi, alcançando-a perto de um dos pilares de concreto.
Sua virou-se, o rosto banhado em lágrimas de raiva que ela não conseguia mais conter.
— Me deixa em paz, Mizi! Vai lá ficar com a sua amiguinha, vai lá comer ela de novo e me esquece! — A voz de Sua falhou no final, um grito abafado pela mágoa.
— Do que você está falando? — Mizi retrucou, a irritação subindo. — Eu postei aquilo porque eu quis! Eu estava livre, você estava lá se pegando com a sua amiga de cabelo branco no esconderijo!
— Eu não estava me pegando com ninguém! — Sua gritou, avançando um passo. — A gente caiu, Mizi! Ela escorregou! Mas você não acredita, porque para você é mais fácil acreditar que todo mundo é tão superficial quanto você!
Sua tentou passar por Mizi, mas a garota de cabelos rosa foi mais rápida. Mizi a segurou pelo braço e, em um movimento brusco, enfiou a mão no cabelo de Sua, na nuca, puxando levemente para trás. O gesto obrigou Sua a olhar para cima, encarando os olhos dourados que agora faiscavam de uma fúria possessiva.
— Olha para mim — ordenou Mizi, a voz baixa e perigosa. — A Vianna foi um erro. Eu estava com raiva, eu estava bêbada de ciúmes e fiz merda. Mas não vem me dizer que eu sou a única errada aqui quando eu vi você com aquela garota.
— Você não viu nada! — Sua soluçou, tentando se soltar, as mãos empurrando os ombros de Mizi. — Se você não acredita em mim, é porque eu não significo nada para você! Você só queria um troféu, e como eu não fui fácil, você foi buscar em outro lugar!
— Cala a boca! — Mizi rosnou.
Em um movimento fluido, Mizi prensou Sua contra o capô de um carro estacionado. Ela se impulsionou para cima, sentando no capô e ficando exatamente entre as pernas de Sua, prendendo-a com o próprio corpo. Antes que Sua pudesse protestar, Mizi a beijou.
Não foi um beijo doce. Foi um ataque. Mizi beijava com fome, com uma urgência que misturava desejo e uma necessidade desesperada de possessão. Sua tentou resistir no primeiro segundo, as mãos fechadas em punhos contra o peito de Mizi, mas a barreira desmoronou rápido demais. Ela soltou um gemido abafado e abriu a boca, permitindo que a língua de Mizi invadisse seu espaço.
Sua se agarrou aos ombros de Mizi, seus dedos enterrando-se no cabelo rosa, puxando-a para mais perto. Mizi desceu uma das mãos para a cintura de Sua, enquanto a outra subia pela coxa, por baixo da saia branca que a vizinha usava. Ela apertou a carne macia da coxa de Sua, arrancando um arfar necessitado da garota.
Elas se separaram por um breve segundo, apenas para buscar ar, os rostos colados.
— Eu odeio você — sussurrou Sua, os olhos roxos nublados de desejo e lágrimas.
— Eu sei — respondeu Mizi, voltando a atacar, mas desta vez descendo para o pescoço de Sua.
Mizi beijava e mordia a pele sensível, deixando marcas que seriam impossíveis de esconder. Sua jogou a cabeça para trás, o corpo tremendo sob o toque de Mizi. A mão de Mizi deslizou para dentro da calcinha de Sua, mas ela não penetrou. Seus dedos apenas encontraram o clitóris, pressionando e estimulando com movimentos lentos e torturantes.
— Mizi... por favor... — Sua implorou, a voz sumindo.
Mizi sorriu contra a pele dela, sentindo a umidade e o calor de Sua. Ela queria mais, queria tudo, mas o som de vozes vindas da direção da quadra as trouxe de volta à realidade. Moradores estavam se aproximando.
Mizi se afastou abruptamente, limpando a boca com as costas da mão e ajeitando a jaqueta. Sua permaneceu encostada no carro, tentando recuperar o fôlego, o rosto vermelho e o corpo ainda em choque térmico.
— A gente termina isso depois — disse Mizi, o tom de voz voltando ao sarcasmo habitual, embora seus olhos ainda estivessem escuros.
Mizi caminhou de volta para a quadra como se nada tivesse acontecido. Sua, trêmula, conseguiu se recompor o suficiente para subir direto para o seu apartamento. Ela passou pela mãe na sala sem dizer uma palavra e trancou-se no banheiro.
Debaixo do chuveiro, a água quente batia em seus ombros, mas Sua só conseguia pensar nos dedos de Mizi. Ela tentou se tocar, fechando os olhos e imaginando o rosto de Mizi, a pressão contra o carro, o cheiro de morango. Mas não era a mesma coisa. Ela era péssima naquilo, e a frustração de não conseguir atingir o ápice apenas tornava o desejo por Mizi mais insuportável.
Ela saiu do banho, vestiu um pijama largo e deitou-se na cama, pegando o celular. Com o coração ainda descompassado, ela postou uma mensagem curta no Twitter, sem contexto: *"O que foi isso? 😳"*
Segundos depois, as respostas vieram.
*Hyuna: "Ih, a vizinha gótica bugou. O que a Mizi aprontou agora?"*
*Ivan: "Pelo visto o acerto de contas no estacionamento foi... intenso. Me conta tudo depois, maninha!"*
Sua desligou a tela e olhou para o teto. O condomínio de luxo nunca pareceu tão pequeno, e ela sabia que, a partir daquele momento, não havia mais esconderijo no mundo onde ela pudesse se ocultar de Mizi.