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Infantilismo

O Diário de Veludo e a Tempestade de Neve

A semana seguinte ao jantar beneficente começou com uma calmaria enganosa. Jungkook, tentando cumprir sua promessa de ser mais presente, passou a levar Nari para a empresa nas tardes de quarta-feira. No entanto, o ambiente corporativo era um campo minado para alguém com a sensibilidade de Nari.

Sentada em uma poltrona de veludo no canto da sala de reuniões, Nari desenhava com giz de cera em um caderno de capa dura. Jungkook estava na cabeceira da mesa, discutindo termos técnicos com três diretores. O tom de voz dele era monótono, profissional e, para os ouvidos de Nari, profundamente entediante.

— Kookie, olha! — Nari exclamou, levantando o desenho de um sol com olhos grandes e azuis. — O sol está usando óculos escuros igual ao segurança mal-encarado!

Jungkook nem sequer virou o rosto. Seus olhos permaneciam fixos em uma planilha projetada na parede.

— Agora não, Nari. Estou em uma conferência importante. Continue desenhando em silêncio — disse ele, a voz curta e desprovida de qualquer calor.

Nari sentiu o peito apertar. Era sempre assim. Ele a trazia, mas não a "via". Para Jungkook, tê-la ali era apenas uma forma de garantir que ela não estivesse com Taehyung ou Jimin, mas ele se esquecia de que a presença física não significava companhia.

Minji entrou na sala carregando uma bandeja com cafés expressos. Ao passar por Nari, ela deu um sorriso condescendente, aquele tipo de sorriso que se dá a um bichinho de estimação que faz algo engraçado.

— Que desenho lindo, Nari — disse a secretária, aproximando-se de Jungkook para entregar o café dele primeiro. — Senhor Jeon, o diretor da filial de Busan ligou. Ele quer confirmar o jantar de amanhã. O senhor vai levar a sua... acompanhante?

A pausa que Minji fez antes de dizer "acompanhante" não passou despercebida por Nari. A palavra soou como se Nari fosse um acessório incômodo, um detalhe que precisava ser planejado como a reserva do hotel.

— Ainda não decidi — Jungkook respondeu, pegando o café sem olhar para Minji, mas também sem defender Nari. — Veremos como estará a agenda.

Nari fechou o caderno com força. O som do papel batendo ecoou na sala silenciosa, fazendo os diretores olharem para ela com irritação.

— A Nari não é "acompanhante"! — ela gritou, levantando-se da poltrona. — A Nari é a namorada! E a Nari não quer ir para jantar nenhum com gente de terno cinza!

— Nari! — Jungkook finalmente olhou para ela, mas seus olhos estavam faiscando de raiva. — Sente-se. Agora. Você está interrompendo o meu trabalho.

— O seu trabalho é chato! — Nari rebateu, as lágrimas de frustração já nublando sua visão. — Você gosta mais de falar com essa moça do que de olhar para o meu sol de óculos! Eu quero ir embora! Eu quero o Tio Tae!

O nome de Taehyung foi o gatilho. Jungkook se levantou, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.

— Senhores, a reunião está encerrada. Terminaremos isso por e-mail — declarou ele, a voz vibrando de uma autoridade que fez os diretores saírem da sala em segundos.

Minji hesitou na porta, mas um olhar gélido de Jungkook a fez recuar rapidamente. Assim que a porta se fechou, o silêncio na sala tornou-se pesado, quase sufocante.

— O que você pensa que está fazendo? — Jungkook perguntou, caminhando lentamente até ela. — Eu te trouxe aqui para ficarmos perto, e você faz um escândalo desses na frente dos meus sócios?

— Você não estava perto! — Nari soluçou, jogando o caderno de desenho no chão. — Você estava longe, lá dentro daquela parede de números! A moça da saia apertada chega perto, mas a Nari tem que ficar no canto como se fosse um brinquedo velho!

— Eu sou um empresário, Nari! Eu tenho responsabilidades! — ele gritou, perdendo a paciência. — Eu não posso parar uma reunião de milhões de dólares para olhar um desenho de sol! Você tem vinte anos, aja como tal pelo menos uma vez!

O silêncio que se seguiu foi cortante. Nari recuou, como se tivesse sido atingida fisicamente. Jungkook nunca tinha sido tão direto sobre o infantilismo dela de uma forma depreciativa. Ele sempre dizia que a amava como ela era, mas aquelas palavras — "aja como tal" — feriram a alma de Nari.

— Então... o Kookie tem vergonha da Nari? — ela perguntou, a voz agora pequena e rouca.

Jungkook passou a mão pelo cabelo, sentindo o arrependimento imediato. Ele não tinha vergonha dela, ele tinha medo. Medo de não saber equilibrar os dois mundos, medo de que a pureza dela fosse manchada pela sujeira do mundo corporativo que ele habitava.

— Eu não disse isso — ele murmurou, tentando se aproximar.

— Disse sim. Você quer uma namorada grande. Uma namorada que entenda de Busan e de café amargo — Nari limpou o rosto com a manga do vestido. — A Nari vai embora. E não precisa chamar o motorista. O Jimin está me esperando lá embaixo.

Jungkook parou, o corpo inteiro ficando tenso.

— O quê? Como assim o Jimin está lá embaixo?

— Eu mandei mensagem para ele — Nari disse, pegando sua mochila de coelho. — Ele disse que ia me levar para ver os patos no parque. Patos não falam de Busan. Patos só fazem "quack" e são felizes.

Jungkook sentiu o sangue ferver. A ideia de Nari saindo da sua empresa, chorando, para se refugiar nos braços de Jimin era insuportável. Ele correu até a porta e a trancou, guardando a chave no bolso do paletó.

— Você não vai a lugar nenhum com aquele garoto — ele sentenciou, a frieza voltando para mascarar seu desespero. — Você vai ficar aqui até eu terminar meu expediente.

— Eu odeio você! — Nari gritou, começando a socar o peito dele com suas mãos pequenas. — Me solta! Você é um monstro de gelo!

Jungkook não se moveu. Ele a deixou bater, sentindo cada golpe como uma punição merecida. Ele a segurou pelos pulsos, não com força, mas com uma firmeza que a obrigou a parar.

— Pode me odiar, Nari. Mas você é minha. E eu não vou deixar você correr para ele só porque eu fui um idiota.

Ele a carregou até o sofá e a sentou à força, sentando-se ao lado dela e bloqueando qualquer saída. Nari virou o rosto, recusando-se a olhar para ele. Durante as duas horas seguintes, nenhum dos dois disse uma palavra. Jungkook tentou trabalhar em seu tablet, mas não conseguia processar uma única linha de texto. Ele só conseguia ouvir os soluços baixos que ela tentava esconder.

Quando o sol começou a se pôr, tingindo a sala de laranja, Jungkook finalmente quebrou o silêncio.

— Nari... olha para mim.

Ela não se moveu.

— Por favor.

Lentamente, ela virou o rosto. Seus olhos estavam inchados e o nariz vermelho. Ela parecia tão pequena naquela poltrona enorme que o coração de Jungkook se apertou dolorosamente.

— Eu não tenho vergonha de você — ele começou, a voz baixa e vulnerável. — Eu tenho vergonha de mim. Vergonha de não saber como ser o homem que você precisa que eu seja. Eu passo o dia inteiro sendo um tubarão, dando ordens, sendo frio... e quando eu chego perto de você, eu tenho medo de que meu gelo te congele.

Nari piscou, processando as palavras dele.

— O Kookie tem medo?

— Muito — ele admitiu, pegando a mão dela e levando-a aos lábios. — Eu tenho medo de que você se canse de esperar por mim. Tenho medo de que o Jimin ou o Taehyung te deem a alegria que eu não sei dar. Por isso eu sou tão duro, por isso eu sou tão ciumento. É uma defesa, Nari. Uma defesa burra.

Nari inclinou a cabeça, a raiva começando a ser substituída pela sua natureza doce e compreensiva.

— Mas a Nari não quer o Jimin ou o Tio Tae para morar. A Nari só quer brincar com eles. Para morar, eu só quero o Kookie. Mesmo que o Kookie seja um cubo de gelo às vezes.

Jungkook sorriu, um sorriso triste, e a puxou para o seu colo. Nari se aninhou ali, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Eu vou tentar melhorar — ele prometeu. — Amanhã, eu vou cancelar o jantar de Busan. Vamos ficar em casa. Eu vou comprar aquela tinta de dedo que você queria e vamos pintar a parede do corredor.

Nari se afastou, os olhos brilhando de surpresa.

— A parede branca? Aquela que você disse que custou muitos dinheiros?

— Aquela mesma — Jungkook disse, beijando a ponta do nariz dela. — Se ela ficar colorida com os seus desenhos, vai valer muito mais para mim.

Nari soltou uma risadinha e o abraçou apertado.

— O Kookie é um gatinho bobo. Mas é o meu gatinho.

No entanto, a paz durou pouco. O celular de Jungkook tocou. Era uma mensagem de vídeo de Taehyung. Jungkook, por um impulso de curiosidade masoquista, abriu.

No vídeo, Taehyung e Jimin estavam em uma loja de brinquedos. Eles seguravam uma boneca enorme e falavam para a câmera.

— Ei, Jungkook! — Taehyung dizia, rindo. — Estamos comprando o presente de aniversário adiantado da Nari. Ela disse que você nunca daria algo tão "infantil" para ela. Estamos indo levar aí na sua empresa agora!

Jungkook sentiu o maxilar travar. Eles estavam vindo para cá. No seu território. Com um presente que ele deveria ter dado.

— Eles estão vindo — Jungkook murmurou, a voz ficando sombria novamente.

— O Tio Tae e o Jimin? — Nari pulou do colo dele, animada. — Eba! Eles trazem presentes!

Jungkook se levantou, a possessividade tomando conta de cada fibra do seu ser. Ele caminhou até o telefone da mesa e ligou para a recepção.

— Aqui é o Jeon Jungkook. Se Kim Taehyung e Park Jimin aparecerem no saguão, não os deixe subir. Digam que estou em uma reunião confidencial e que a Senhorita Kim já foi embora.

— Kookie! Isso é feio! — Nari protestou, puxando a mão dele. — Eles são meus amigos!

— Eles são oportunistas — Jungkook retrucou, pegando as coisas dela. — Vamos sair pela garagem privativa. Agora.

— Não! Eu quero ver a boneca! — Nari começou a chorar de novo, mas desta vez era uma birra de frustração.

Jungkook não cedeu. Ele a pegou no colo, ignorando os protestos e os pequenos chutes, e a levou direto para o elevador privativo. No carro, o clima era de guerra fria. Nari estava sentada no canto, de braços cruzados, recusando-se até a olhar para o pirulito que Jungkook tentou lhe oferecer como suborno.

— Você é muito malvado, Kookie — ela disse, a voz cheia de mágoa. — Você não quer que ninguém seja legal com a Nari.

— Eu quero ser o único legal com você — ele confessou, apertando o volante com força. — Eu não quero dividir o seu sorriso com ninguém. Especialmente com eles.

Ao chegarem na cobertura, Nari correu para o quarto e trancou a porta. Jungkook ficou na sala, sentindo-se o vencedor de uma batalha, mas o perdedor da guerra. Ele se sentou no sofá e abriu o tablet, tentando focar no trabalho, mas a imagem de Nari chorando por causa da boneca não saía de sua mente.

Uma hora depois, o interfone tocou. Era o segurança da portaria.

— Senhor Jeon, o Senhor Kim Taehyung deixou uma encomenda aqui para a Senhorita Kim. Ele disse que, já que o senhor estava "muito ocupado", era para eu entregar pessoalmente.

Jungkook suspirou.

— Suba com isso.

Quando a caixa chegou, era enorme. Jungkook a levou até a porta do quarto de Nari e bateu suavemente.

— Nari? O seu presente chegou.

Houve um silêncio, e então o som da chave girando. Nari abriu a porta apenas uma fresta, os olhos vermelhos espiando para fora. Ao ver a caixa, ela abriu a porta completamente.

Jungkook ajudou-a a abrir. Era uma casa de bonecas vitoriana, feita de madeira, com detalhes minuciosos que Nari sempre amou. Havia um cartão preso no topo: "Para a nossa princesa favorita. Não deixe o dragão do castelo queimar seus sonhos. Com amor, Tae e Jimin."

Jungkook sentiu uma fisgada de ódio pelo bilhete, mas ao ver a expressão de puro maravilhamento no rosto de Nari, ele se calou. Ela começou a tirar os pequenos móveis da caixa, esquecendo-se momentaneamente da briga.

— É tão linda, Kookie... olha o mini sofá! — ela exclamou, pegando uma peça minúscula.

Jungkook se sentou no chão ao lado dela, sentindo-se deslocado em seu terno caro no meio de tapetes coloridos e brinquedos.

— É bonita, Nari. Realmente bonita.

Nari parou de brincar e olhou para ele. Ela viu o cansaço nos olhos dele, o conflito entre o homem que ele precisava ser e o homem que ele queria ser para ela.

— O Kookie está triste porque não foi ele que deu? — ela perguntou com aquela honestidade brutal que só ela tinha.

— Um pouco — ele admitiu. — Eu deveria ter prestado atenção no que você queria.

Nari se aproximou e sentou no colo dele, segurando o mini sofá de madeira.

— O Kookie deu a parede para pintar — ela disse, encostando a cabeça no ombro dele. — Paredes são maiores que casas de boneca. E a parede é só nossa. O Tio Tae não pode pintar a nossa parede.

Jungkook sentiu uma onda de alívio. Ele a apertou em seus braços, sentindo que, apesar de todas as suas falhas e de seu ciúme doentio, ela ainda o escolhia.

— Eu te amo, Nari. Mesmo quando eu sou um monstro de gelo.

— A Nari também ama o monstro — ela sussurrou. — Mas amanhã, o monstro tem que usar a tinta azul nos dedos.

— Combinado — ele riu, beijando o topo da cabeça dela.

Naquela noite, Jungkook não voltou para o escritório. Ele ficou no chão do quarto de Nari, ajudando-a a montar a casa de bonecas, aprendendo onde cada pequeno móvel deveria ficar. Ele ainda ficaria furioso na próxima vez que Taehyung ligasse, e ainda sentiria o sangue ferver quando Jimin desse um doce a ela, mas ali, naquele momento, o gelo tinha derretido completamente.

O mundo de Jeon Jungkook era feito de aço e vidro, mas o mundo de Nari era feito de algodão e cores. E, de alguma forma, no meio daquela confusão de sentimentos e infantilismo, eles estavam construindo um mundo só deles, onde o CEO mais temido de Seul não se importava em ter as mãos sujas de tinta e o coração entregue a uma menina que via o sol usando óculos escuros.