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Infantilismo

O Despertar da Curiosidade e a Fúria do Dragão

A manhã na cobertura de Jeon Jungkook começou com o som frenético de notificações de mensagens e chamadas perdidas. Um problema crítico em uma das subsidiárias de Busan exigia a presença imediata do CEO. Jungkook, com o rosto rígido e os movimentos precisos, vestia o paletó enquanto dava ordens pelo viva-voz do celular.

Nari, sentada na mesa de café da manhã, observava o namorado com os olhos marejados. Ela detestava quando o "Kookie de gelo" assumia o controle total, ignorando o biquinho que ela fazia para tentar convencê-lo a ficar.

— Nari, escute bem — disse Jungkook, aproximando-se dela e segurando seu rosto com uma das mãos, enquanto a outra ainda digitava no aparelho. — Eu preciso sair. É uma emergência. O motorista vai ficar de prontidão e a governanta chega em uma hora. Não abra a porta para estranhos e, por favor, não me ligue a menos que a casa esteja pegando fogo. Entendido?

— O Kookie vai demorar? A Nari não gosta de ficar sozinha com o silêncio — ela murmurou, abraçando seu coelho de pelúcia contra o peito.

— Vou tentar ser rápido. Comporte-se — ele deu um beijo casto na testa dela e saiu, o som dos seus sapatos ecoando no mármore como uma contagem regressiva para a solidão de Nari.

Assim que a porta se fechou, Nari sentiu o peso do apartamento luxuoso e vazio. Ela tentou desenhar, tentou brincar com a casa de bonecas vitoriana, mas nada preenchia o vazio. Foi então que ela pegou o celular proibido. Sua mente infantil não processava as regras de Jungkook como ordens absolutas, mas como sugestões que podiam ser contornadas quando a tristeza apertava.

— Tio Tae? — ela disse, assim que a chamada foi atendida. — O Kookie foi embora e a Nari está com medo dos monstros do corredor. Você pode vir brincar?

Do outro lado, Kim Taehyung hesitou. Ele sabia que entrar na casa de Jungkook sem permissão era como entrar na jaula de um leão faminto. Mas o choro contido de Nari era seu ponto fraco.

— Chego em quinze minutos, pequena princesa. Prepare a pipoca.

Quando Taehyung chegou, a atmosfera mudou. Ele trouxe doces, risadas e uma energia que Jungkook raramente permitia. Eles decidiram assistir a um filme no enorme home theater da sala. Nari, querendo parecer "adulta" para que Jungkook não a chamasse mais de mimada, escolheu um título aleatório em uma plataforma de streaming que parecia "sério".

— Tem certeza, Nari? Esse filme parece meio... pesado — comentou Taehyung, olhando para a classificação indicativa que piscava discretamente no canto da tela.

— A Nari é grande, Tio Tae! O Kookie disse que eu tenho que agir como se tivesse vinte anos. Pessoas de vinte anos veem filmes de pessoas grandes — ela afirmou, cruzando os braços com teimosia.

Taehyung deu de ombros. Ele tinha uma visão mais liberal sobre o amadurecimento de Nari. Talvez, se ela entendesse mais sobre o mundo real, Jungkook parasse de tratá-la como uma boneca de porcelana.

O filme, no entanto, avançou para cenas que nenhum dos dois esperava. O que começou como um drama romântico logo escalou para sequências íntimas explícitas, com beijos ardentes e corpos entrelaçados sob lençóis de seda. Nari ficou paralisada, os olhos arregalados, a pipoca esquecida na mão.

— Tio Tae... — ela sussurrou, a voz carregada de uma confusão inocente. — Por que eles estão fazendo aquela luta sem roupa? Eles estão se machucando?

Taehyung limpou a garganta, sentindo o suor frio escorrer pela nuca. Ele deveria desligar a TV, mas a pergunta de Nari era genuína.

— Não é uma luta, Nari — explicou ele, tentando encontrar as palavras certas. — Isso se chama sexo. É o que adultos fazem quando se amam muito e querem ficar o mais perto possível um do outro.

— O Kookie e a Nari se amam — ela refletiu, a mente processando a informação com uma lógica infantil. — Mas a gente nunca fez essa luta de amor. O Kookie só me dá beijo na testa e na bochecha. Ele diz que eu sou a pequena dele.

— Bem... — Taehyung suspirou, sentando-se de frente para ela. — O Jungkook protege você demais. Ele acha que você é um cristal que vai quebrar. Mas você já é uma mulher, Nari. O sexo é algo natural entre namorados. É como... o nível máximo de carinho.

Nari inclinou a cabeça, fascinada.

— Então, se a Nari fizer isso com o Kookie, ele vai parar de ser frio? Ele vai me amar mais?

— Ele já te ama muito, pequena. Mas talvez, se vocês fizessem coisas de namorados adultos, ele parasse de te tratar só como uma criança — Taehyung disse, acreditando sinceramente que estava ajudando no desenvolvimento dela. — É uma forma de união.

Eles conversaram por mais algum tempo sobre "coisas de adultos", com Taehyung explicando de forma simplificada o que significava intimidade física. Nari ouvia tudo como se fosse um conto de fadas novo e proibido. Pouco antes do horário em que Jungkook costumava voltar, Taehyung se despediu, deixando Nari com a cabeça cheia de ideias e o coração batendo forte de expectativa.

Quando a porta se abriu às seis da tarde, Jungkook entrou parecendo exausto. Ele afrouxou a gravata e jogou a pasta sobre o sofá, mal notando a iluminação suave que Nari havia preparado.

— O dia foi um inferno — murmurou ele, fechando os olhos por um momento. — Nari? Onde você está?

Ela saiu do quarto usando uma camisola de seda que Jungkook havia comprado, mas que ela raramente usava por preferir pijamas de bichinhos. Ela caminhou até ele com uma postura que tentava ser sedutora, mas que ainda mantinha a doçura inerente ao seu infantilismo.

— O Kookie chegou — ela disse, parando na frente dele. — A Nari sentiu saudade.

Jungkook abriu os olhos e a observou. Algo estava diferente. O olhar dela não era apenas carente; havia uma curiosidade brilhando ali que o deixou em alerta.

— Você está bonita, Nari. Mas por que não está de pijama? Já está tarde.

— A Nari não quer dormir agora — ela deu um passo à frente, segurando as lapelas do paletó dele. — Kookie... a Nari andou pensando. A gente se ama, não ama?

— Claro que sim. Por que essa pergunta agora? — ele perguntou, franzindo o cenho, sentindo uma pontada de desconfiança.

— Então... a gente podia fazer sexo, não podia? — ela disparou, com a naturalidade de quem pergunta se pode comer um doce. — Porque a gente é namorado e eu sou grande. Eu quero fazer a luta de amor com o Kookie para a gente ficar bem juntinho.

O mundo de Jeon Jungkook pareceu parar. Ele sentiu o sangue fugir do rosto, substituído por uma onda de choque que rapidamente se transformou em uma raiva borbulhante. Ele segurou os ombros de Nari, afastando-a levemente para olhar bem em seus olhos.

— O que você disse? — a voz dele saiu baixa, rouca e perigosa. — Nari, quem te ensinou essa palavra? Quem falou sobre isso com você?

Nari se encolheu um pouco, percebendo que a reação dele não era a que ela esperava.

— É coisa de namorado, Kookie! — ela tentou explicar, a voz começando a tremer. — É carinho de adulto. A Nari quer ser adulta para você não ser mais gelado comigo.

— Nari! — ele exclamou, e o som do seu nome ecoando com aquela autoridade a fez estremecer. — Eu te faço uma pergunta e quero a verdade. Agora. Quem colocou essas ideias na sua cabeça? Você não aprendeu isso sozinha.

— A Nari viu no filme! — ela soluçou, as lágrimas começando a cair. — E o Tio Tae explicou tudo! Ele disse que o Kookie me trata como bebê, mas que eu sou mulher e que a união de amor é boa!

O silêncio que se seguiu foi aterrador. Jungkook soltou os ombros dela e deu um passo para trás, as mãos fechadas em punhos tão apertados que os nós dos dedos estavam brancos. A fúria que ele sentia era algo que ele raramente experimentava em tal intensidade. Era uma mistura de ciúme possessivo, sentimento de traição e o desejo de destruir qualquer um que tivesse corrompido a pureza que ele tanto tentava preservar.

— O Taehyung... — Jungkook sibilou o nome como se fosse um veneno. — Ele esteve aqui? Eu proibi você de chamar qualquer pessoa enquanto eu estivesse fora! Eu dei uma ordem direta, Nari!

— Mas a Nari estava sozinha! — ela gritou de volta, a rebeldia surgindo em meio ao medo. — Você me deixa no gelo! O Tio Tae é bom, ele me ouve! Ele me ensinou coisas que você esconde de mim!

— Eu escondo para te proteger! — Jungkook explodiu, chutando a mesa de centro, fazendo os objetos saltarem. — Você não tem noção do que está pedindo! Você tem infantilismo, Nari! Sua mente não processa o mundo como a minha, e aquele desgraçado se aproveitou da sua inocência para falar de coisas que ele não tem o direito de mencionar!

— Ele não se aproveitou! — Nari bateu o pé, chorando copiosamente. — Ele disse que eu sou linda e que você tem que me ver como namorada de verdade! Você é que é o monstro! Você quer que a Nari seja sua boneca para sempre!

Jungkook caminhou até ela, a aura de gelo agora transformada em um incêndio de autoridade.

— Chega! — ele sentenciou. — Você mentiu para mim. Você desobedeceu a minha única regra de segurança e deixou aquele manipulador entrar na minha casa para encher sua cabeça de lixo.

Ele pegou o celular e discou o número de Taehyung. Nari tentou pegar o aparelho, mas ele a afastou com um braço firme.

— Taehyung? — Jungkook falou assim que a ligação foi atendida, a voz tão fria que parecia capaz de congelar o sinal de satélite. — Eu vou te dar exatamente dez minutos para sumir de Seul antes que eu acabe com a sua carreira e com a sua vida. Como você ousa? Como você ousa falar de intimidade com a Nari? Ela é minha! E você quebrou a única confiança que ainda restava. Nunca mais chegue perto dela. Se eu vir sua sombra perto desta cobertura, eu não vou responder por mim.

Ele desligou o telefone e o jogou no sofá. Nari estava soluçando no chão, escondendo o rosto nas mãos.

— Você expulsou o Tio Tae... — ela murmurou entre soluços. — Você é mau, Kookie. Eu te odeio.

Jungkook sentiu uma fisgada no peito ao ouvir aquelas palavras, mas a raiva ainda era maior. Ele se agachou na frente dela, mas não a tocou.

— Eu não sou mau, Nari. Eu sou o único que realmente se importa com o que resta da sua inocência. O sexo não é um jogo, não é uma "luta de amor" de um filme qualquer. É algo sagrado que eu queria te poupar até que você estivesse pronta, se é que algum dia estaria. Mas o Taehyung estragou tudo. Ele plantou uma semente que eu não posso arrancar.

— Eu estou pronta! — ela gritou, olhando para ele com os olhos vermelhos. — Eu quero saber o que é! Eu quero que você me toque como o homem do filme!

— Pare com isso! — Jungkook segurou o rosto dela com força, obrigando-a a encará-lo. — Você não sabe o que está dizendo. Você está agindo por influência de um idiota. Você vai para o seu quarto agora. E amanhã, nós vamos ter uma conversa muito séria com o seu terapeuta.

— Não! — Nari se soltou e correu para a cozinha, pegando um copo de vidro e jogando-o no chão, onde ele se estilhaçou em mil pedaços. — A Nari não é mais um bebê! Se você não me quer como namorada de verdade, então me deixa ir embora! Deixa eu morar com o Jimin ou com o Tio Tae!

Jungkook soltou uma risada amarga, uma risada que não continha humor, apenas dor e possessividade.

— Você não vai a lugar nenhum. Você é minha, Nari. Entenda isso de uma vez por todas. Eu te sustento, eu te protejo, eu te amo de uma forma que aqueles dois nunca seriam capazes. Eles querem a parte divertida de você, a parte que ri e brinca. Eu fico com a parte que chora, a parte que quebra, a parte que precisa de cuidado vinte e quatro horas por dia.

Ele caminhou até ela e, apesar dos protestos, pegou-a no colo. Nari se debatia, batendo em seus ombros, mas Jungkook era uma parede de músculos e determinação. Ele a levou para o quarto e a colocou na cama.

— Você vai ficar aqui até se acalmar. Eu vou limpar os vidros que você quebrou, como sempre faço. — Ele parou na porta, olhando para ela uma última vez antes de apagar a luz. — E nunca mais, Nari... nunca mais peça para fazer sexo comigo como se estivesse pedindo um brinquedo novo. Isso me ofende. E me machuca mais do que você imagina.

Ele fechou a porta e trancou-a por fora, algo que ele raramente fazia, mas sentia que era necessário naquela noite de caos. No corredor, Jungkook encostou a cabeça na parede e deslizou até o chão. Suas mãos tremiam. Ele estava perdendo o controle. A linha entre ser o protetor de Nari e seu carcereiro estava se tornando perigosamente tênue.

Dentro do quarto, Nari se encolheu sob as cobertas, chorando baixinho. Ela não entendia por que o amor de adulto era tão complicado e por que o Kookie ficava tão bravo quando ela tentava crescer. Em sua mente infantil, ela só queria que o gelo desaparecesse, mas parecia que, naquela noite, ela havia provocado uma tempestade de neve que nenhum dos dois sabia como parar.

A confiança entre o empresário frio e a menina de algodão-doce havia sido estilhaçada como o copo na cozinha, e os pedaços eram afiados demais para serem recolhidos sem que alguém saísse sangrando. Jungkook ficou ali, sentado no corredor escuro, vigiando a porta como o dragão que ele realmente era, enquanto Nari sonhava com um mundo onde o amor não precisasse de regras, chaves ou segredos escondidos atrás de uma tela de cinema.