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Infantilismo

O Labirinto de Vidro e o Doce Sabor da Redenção

A manhã que se seguiu à tempestade foi banhada por um sol pálido que atravessava as cortinas de linho da cobertura, mas o calor não chegava ao interior do apartamento. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico do relógio de pêndulo na sala de estar. Jeon Jungkook não havia dormido. Ele permanecera sentado na poltrona de couro do escritório, observando as câmeras de segurança e os relatórios financeiros, tentando ignorar o aperto sufocante em seu peito.

Ele sabia que tinha sido duro. Sabia que a imagem de Nari soluçando no chão da cozinha o assombraria por semanas. Mas, em sua mente lógica e fria, a disciplina era a única forma de manter o mundo dela intacto. Ele se levantou, ajeitou o terno — uma armadura cinza-chumbo — e caminhou até o quarto de Nari.

Ao girar a chave e abrir a porta, encontrou-a encolhida na ponta da cama. Ela não estava mais chorando, mas seus olhos estavam opacos, fixos em um ponto qualquer do tapete. O coelho de pelúcia estava jogado no chão, abandonado.

— Nari — chamou ele, a voz baixa, buscando um equilíbrio entre a autoridade e a preocupação.

Ela não respondeu. Nem sequer piscou.

— Nari, olhe para mim — ele ordenou, aproximando-se. — Eu pedi para a governanta preparar suas panquecas favoritas. Você precisa comer.

— A Nari não está com fome — ela disse, a voz soando sem vida, desprovida da doçura infantil que costumava irritar e encantar Jungkook ao mesmo tempo. — A Nari quer ir para a escola. O Jimin vai estar lá.

O maxilar de Jungkook travou instantaneamente. O nome de Jimin agia como um ácido em suas veias.

— Você não vai para a escola hoje. E não vai ver o Jimin — ele sentenciou, sentando-se na beirada da cama. — Você vai ficar aqui e refletir sobre o seu comportamento. O que aconteceu ontem foi inaceitável.

— O Kookie é um monstro — ela murmurou, finalmente olhando para ele. — Você trancou a Nari. Você gritou. Você expulsou o Tio Tae.

— Eu protegi você, Nari! — ele rebateu, a frustração transbordando. — Você não entende que o mundo não é um desenho animado? O que o Taehyung fez foi uma quebra de confiança imperdoável. Ele expôs você a algo que sua mente não consegue processar sem se ferir.

— A Nari processa sim! — ela gritou, sentando-se abruptamente. — A Nari sabe que você tem vergonha de me tocar porque eu sou pequena na cabeça! Você prefere a secretária porque ela é normal!

Jungkook sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Ele segurou os ombros dela, obrigando-a a encará-lo.

— Nunca mais diga isso — ele sibilou, os olhos escuros brilhando com uma intensidade assustadora. — Eu não toco em você dessa forma porque eu te respeito. Porque eu quero que você seja feliz, e não usada. Você acha que eu não te desejo? Você acha que é fácil para um homem como eu dormir ao seu lado todos os dias e apenas beijar sua testa?

Nari paralisou, a confusão nublando seus traços.

— Então... o Kookie quer?

Jungkook fechou os olhos, respirando fundo para recuperar o controle.

— Sim, Nari. Eu quero. Mas não como um experimento de um filme que o Taehyung te mostrou. Eu quero quando você entender o peso disso. Agora, levante-se. Vou levá-la ao escritório comigo. Não confio em deixar você sozinha nem por um segundo.

O dia na Jeon Enterprises foi um exercício de tortura psicológica para ambos. Jungkook estava mais frio do que o habitual, distribuindo reprimendas e exigindo perfeição absoluta de seus funcionários. Nari, por sua vez, estava em um estado de rebeldia silenciosa. Ela se recusava a desenhar, recusava o chocolate quente que Minji tentou lhe oferecer e passava o tempo todo encarando a parede de vidro, observando as nuvens.

No meio da tarde, Minji entrou na sala com uma pasta de couro. Ela parecia nervosa, ciente do clima tenso que emanava do chefe.

— Senhor Jeon, o representante da conta de Londres está na linha dois. Ele insiste em falar sobre a cláusula de rescisão — informou a secretária, inclinando-se um pouco mais do que o necessário sobre a mesa.

Jungkook suspirou, massageando as têmporas.

— Peça para ele aguardar cinco minutos. Minji, você revisou os termos que eu pedi?

— Sim, senhor. Estão aqui — ela entregou os papéis, e seus dedos roçaram propositalmente a mão de Jungkook.

Nari, que parecia alheia a tudo, virou o rosto instantaneamente. O ciúme, visceral e imaturo, saltou em seu peito. Ela se levantou e caminhou até a mesa de carvalho, parando entre Jungkook e a secretária.

— Sai daqui, moça feia — Nari disse, a voz gélida, imitando inconscientemente o tom de Jungkook.

— Nari! — Jungkook repreendeu, mas não havia a força habitual em sua voz.

— Não! Ela está encostando no meu Kookie de novo! — Nari pegou a pasta de papéis da mão de Minji e a jogou no chão, espalhando as folhas por todo o carpete caro. — O Kookie é meu! Ele me trancou no quarto porque me ama, não porque quer você!

Minji ficou vermelha de vergonha e raiva, mas não ousou dizer nada diante do olhar de Jungkook.

— Saia, Minji — ordenou o CEO, sem desviar os olhos de Nari. — Agora.

Assim que a porta se fechou, Jungkook levantou-se lentamente. Ele contornou a mesa e parou diante de Nari, que mantinha o queixo erguido, apesar do tremor em suas mãos.

— Você está sendo malcriada, Nari. De novo.

— Eu não ligo! — ela exclamou. — Você diz que me protege, mas deixa ela ficar perto! Você é frio comigo, mas aceita o café dela com sorriso! Se eu sou sua, então me mostre!

Jungkook a prensou contra a mesa, as mãos espalmadas na madeira, cercando-a. O perfume amadeirado dele a envolveu, e a frieza de seus olhos pareceu derreter por um instante, revelando uma possessividade sombria.

— Você quer que eu te mostre, Nari? Quer que eu pare de ser o "Kookie bonzinho" que te dá doces e comece a ser o homem que realmente sou? — ele perguntou, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — Porque se eu começar, não haverá volta para o seu mundo de algodão-doce.

Nari engoliu em seco. O coração dela martelava contra as costelas. Ela queria aquilo, mas o medo também estava lá.

— A Nari não tem medo de você — ela mentiu, a voz falhando.

Jungkook soltou uma risada curta e sem humor. Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido, fazendo-a estremecer.

— Deveria ter. Porque eu sou egoísta, Nari. Eu quero cada pensamento seu, cada suspiro. Eu quero que você dependa de mim para tudo. O Taehyung e o Jimin... eles são distrações. Eu sou a sua realidade.

Ele se afastou abruptamente, voltando para sua cadeira como se nada tivesse acontecido.

— Junte os papéis do chão. Agora. É o seu castigo por ter sido desrespeitosa com a minha funcionária.

Nari obedeceu, soluçando baixinho enquanto se ajoelhava para recolher as folhas. Ela sentia que estava perdendo a batalha. Jungkook era uma fortaleza inexpugnável, e cada tentativa dela de ser "adulta" ou de reivindicá-lo parecia apenas reforçar o controle dele sobre ela.

No final do expediente, o telefone de Jungkook vibrou. Era uma mensagem de Jimin, enviada para o número profissional dele, já que o pessoal estava bloqueado.

"Jeon, a Nari esqueceu o caderno de artes comigo. Ela estava tão feliz ontem... Por que você insiste em apagar o brilho dela? Deixe ela ser livre uma vez na vida."

Jungkook sentiu uma vontade avassaladora de quebrar o aparelho. Ele olhou para Nari, que estava sentada no sofá, abraçada aos próprios joelhos, parecendo tão pequena e frágil. A liberdade que Jimin mencionava era, para Jungkook, sinônimo de perigo. Se ela fosse livre, ela veria que ele era um homem quebrado, um homem que só sabia amar através do controle.

— Vamos para casa — ele disse, pegando as chaves.

No carro, o silêncio era tão denso que chegava a ser doloroso. Nari olhava para as luzes de Seul, sentindo uma saudade imensa das brincadeiras de Taehyung e da leveza de Jimin. Com Jungkook, tudo era pesado. Tudo era importante. Tudo era gelo.

Ao chegarem na cobertura, Jungkook a levou direto para a sala de jantar. A governanta já havia saído, deixando um jantar impecável sobre a mesa.

— Coma — ele instruiu, sentando-se à cabeceira.

— A Nari quer o Tio Tae — ela murmurou, sem tocar nos talheres.

Jungkook largou o garfo com força, o som do metal contra a porcelana ecoando como um tiro.

— O Taehyung não existe mais para você, Nari! Entenda isso! Ele traiu a minha confiança, ele mexeu com a sua cabeça! Se você mencionar o nome dele mais uma vez, eu vou quebrar cada brinquedo que ele já te deu na vida!

Nari arregalou os olhos, o terror finalmente superando a rebeldia. Ela começou a chorar, um choro silencioso e convulsivo que partiu o que restava do autocontrole de Jungkook. Ele se levantou, caminhou até ela e a puxou da cadeira, abraçando-a com uma força que beirava o desespero.

— Por que você faz isso comigo? — ele sussurrou contra o cabelo dela. — Por que você me obriga a ser esse monstro? Eu só quero te manter segura. Eu só quero que você seja minha e de mais ninguém.

— Mas dói, Kookie... — ela soluçou, agarrando-se à camisa dele. — O seu amor dói. Você é frio como a neve. A Nari quer o sol.

Jungkook a afastou um pouco, segurando o rosto dela entre as mãos. Seus polegares secaram as lágrimas, mas sua expressão ainda era rígida.

— Eu sou a única coisa que você tem, Nari. O sol queima. A neve... a neve apenas preserva. Eu vou te preservar, mesmo que você me odeie por isso.

Ele a pegou no colo e a levou para o quarto, mas desta vez, não a deixou sozinha. Ele se deitou ao lado dela, mantendo-a presa em seus braços. Nari tentou se soltar no início, mas o calor do corpo de Jungkook e a batida forte de seu coração acabaram por acalmá-la.

— Você é minha pequena — ele murmurou, a voz ficando rouca pelo cansaço. — Minha e de mais ninguém. O Jimin, o Taehyung... eles são apenas sombras. Eu sou o seu dono.

Nari fechou os olhos, sentindo-se emaranhada naquela teia de possessividade e carinho distorcido. Ela sabia que ele a amava, mas era um amor que exigia tudo dela.

— O Kookie vai me dar um doce amanhã? — ela perguntou, a regressão voltando como um mecanismo de defesa contra a dor do conflito.

Jungkook sentiu um aperto no peito. Ele a beijou no topo da cabeça, a frieza derretendo por um breve momento.

— Vou, Nari. Vou te dar todos os doces do mundo. Contanto que você nunca mais olhe para outro homem.

— Prometo — ela sussurrou, já entregue ao sono.

Jungkook ficou acordado por muito tempo, observando-a dormir. Ele sabia que a batalha não havia terminado. Jimin ainda tentaria contato, Taehyung não desistiria tão fácil, e a própria Nari continuaria a lutar entre o desejo de crescer e o conforto de ser cuidada.

Mas, enquanto ele a segurava, ele se sentia o rei de um império de vidro. Frágil, transparente, mas absolutamente dele. Ele era o empresário bem-sucedido, o homem de gelo, o namorado ciumento. E Nari era o seu algodão-doce, a sua única fraqueza em um mundo de tubarões.

No dia seguinte, ele dobraria a segurança. Ele trocaria o número do celular dela. Ele a manteria sob seus olhos vinte e quatro horas por dia. Alguns chamariam aquilo de obsessão; Jungkook chamava de sobrevivência. Porque, sem o brilho caótico de Nari, ele seria apenas um bloco de gelo flutuando em um oceano escuro e vazio.

E, no fundo de sua mente, ele sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a curiosidade que Taehyung despertara nela. Mas não hoje. Hoje, ele apenas a protegeria do mundo, mesmo que o mundo incluísse os próprios desejos dela.

— Durma, minha pequena — ele sussurrou na escuridão. — O dragão está aqui. E ninguém vai te tirar de mim.

O silêncio voltou a reinar na cobertura, mas era um silêncio diferente. Não era mais o silêncio da solidão, mas o de uma posse absoluta. Jeon Jungkook finalmente tinha o que queria: o controle total sobre o seu pequeno tesouro. E ele queimaria o mundo inteiro antes de deixar que um único raio de sol externo tocasse a sua preciosa neve.