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Insane

O Labirinto de Vidro e o Doce de Cereja

A segunda-feira amanheceu com um céu cor de chumbo, mas o clima dentro da escola era de puro incêndio. O fim de semana tinha sido um hiato torturante para os fofoqueiros de plantão, e o retorno às aulas prometia ser o clímax de uma novela que ninguém conseguia parar de assistir.

Sua atravessou os portões sentindo o peso de mil olhos sobre si. O término com Acorn ainda era o assunto principal nas rodas de conversa, mas nada a preparou para a visão que teve ao chegar perto dos armários.

Mizi estava lá, mas não era a Mizi radiante ou a Mizi sarcástica de sempre. Ela vestia um moletom preto largo, o cabelo rosa estava um ninho de fios desordenados e seus olhos dourados pareciam injetados, semicerrados contra a luz fluorescente do corredor. O cheiro de álcool barato e cansaço emanava dela a metros de distância. Mizi estava bêbada. E Mizi bêbada era sinônimo de perigo.

Quando seus olhos encontraram os de Sua, não houve brilho de diversão. Houve apenas um escárnio frio.

— Olha só quem chegou... a "nuvem" puritana — Mizi arrastou as palavras, a voz rouca e carregada de veneno. — Veio me dar outro sermão sobre "noção", Sua?

Sua parou, apertando as alças da mochila. Ela nunca tinha visto Mizi tão... escrota.

— Você está péssima, Mizi. Deveria ir para casa — disse Sua, tentando manter o tom neutro, apesar do aperto no peito.

Mizi soltou uma risada seca, revirando os olhos com uma força que parecia doer.

— Ah, me poupa dessa sua preocupação de fachada. Escuta aqui... — Ela deu um passo trôpego à frente, apontando o dedo no peito de Sua. — Se você não queria nada, tudo bem. Eu não vou forçar a barra, não sou desesperada. Mas não espere que eu continue tentando, tá? Você perdeu a sua chance de ser interessante. Agora sai da minha frente antes que eu vomite na sua cara.

Ela passou por Sua dando um encontrão no ombro, deixando a garota estática no meio do corredor. O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Mizi não estava perdoando ninguém; ela rosnou para um calouro que cruzou seu caminho e quase começou uma briga com um monitor por causa de um boné.

O intervalo foi um desastre. Mizi continuava um caco, sentada com Marty em uma mesa afastada, recusando-se a comer e olhando para o nada com um ódio palpável. A escola inteira esperava que, na terça-feira, ela chegasse com um pedido de desculpas ou pelo menos um pouco de vergonha na cara.

Mas Mizi não era feita de desculpas.

Na terça, ela apareceu sóbria, mas com uma aura de irritação que afastava qualquer um. Ela agia como se as palavras cruéis da segunda fossem a mais pura verdade. Até que, no intervalo, ela avistou Sua sentada com Hyuna, Till, Ivan e Luka.

Mizi estava conversando com Marty, mas seus olhos travaram em Sua. O sarcasmo voltou, mas dessa vez, tingido com uma impaciência perigosa. Ela caminhou até a mesa deles, ignorando os outros, focando apenas na garota de cabelos curtos.

— Ainda se fazendo de difícil, Sua? — Mizi perguntou, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se sobre ela. — O término com o cuia não te deu nem um pouco de coragem?

— Eu não estou me fazendo de nada, Mizi — Sua respondeu, sem desviar o olhar, embora sentisse o sangue ferver. — Eu só tenho padrões.

Mizi perdeu a paciência. O olhar dela mudou drasticamente; a irritação deu lugar a uma fome crua e uma raiva latente, algo predatório que fez o grupo inteiro emudecer. Ela se aproximou do ouvido de Sua, mas não se deu ao trabalho de sussurrar baixo o suficiente para não ser ouvida.

— Você quer padrões? Eu vou te dar um padrão — Mizi sibilou, a voz vibrando de forma sugestiva e sombria. — Eu estou cansada desse seu joguinho de santinha. O que eu realmente queria era te prender contra essa parede agora mesmo, enfiar a mão por baixo dessa sua saia de menina comportada e descobrir se você geme tão baixo quanto fala. Eu ia te foder com tanta força que você esqueceria até o próprio nome, muito menos o daquele seu ex idiota. Então para de me olhar assim, porque eu não tenho paciência para quem quer ser comida mas finge que não tem apetite.

Mizi se afastou, deixando Sua em um estado de choque catatônico, o rosto explodindo em um vermelho escarlate. Sem esperar resposta, Mizi deu as costas e saiu do refeitório a passos largos, deixando um rastro de silêncio absoluto e bocas abertas.

— Puta... que... pariu — Ivan murmurou, limpando o suor da testa. — Isso foi... muito gráfico.

Sua não conseguia respirar. As palavras de Mizi ecoavam como marteladas em sua mente. O resto do dia foi um borrão de ansiedade.

Na hora da saída, o clima ainda era pesado. Mizi estava perto do portão, encostada em um poste, bebendo um energético de latinha enquanto Marty falava alguma coisa. Ela parecia estar no limite, puro ódio concentrado.

Do outro lado, o pequeno Hamin, o irmão de seis anos de Sua, estava parado perto do portão. Ninguém na escola sabia que Sua tinha um irmão; ela sempre era discreta sobre sua vida familiar. Sua mãe estava no carro, um pouco mais afastada, mas Sua ainda não tinha saído do prédio.

Hamin, confuso por não ver a irmã, começou a andar entre os adolescentes. Ele se sentiu perdido e, por puro instinto de criança, foi pedir ajuda para a pessoa que parecia mais "colorida" ali.

— Moça? — Hamin puxou a jaqueta de Mizi.

Mizi olhou para baixo, pronta para dar um coice, mas parou ao ver o garotinho de olhos grandes e bochechas redondas. Sua expressão suavizou instantaneamente de uma forma que ninguém ali jamais vira.

— Oi, pequeno. O que foi? — Mizi perguntou, agachando-se para ficar na altura dele.

— Eu não acho a minha irmã — disse Hamin, quase chorando.

— Calma, não chora — Mizi disse, tirando um pirulito de cereja do bolso (o seu hábito de sempre) e entregando a ele. — Como ela é?

Ela pegou Hamin no colo com uma naturalidade surpreendente.

— Ela tem o cabelo curto e preto — explicou o menino, desembrulhando o doce.

Mizi começou a caminhar pelo pátio com o menino no colo, perguntando para ele se tal garota era a irmã dele, apontando para várias pessoas enquanto Hamin negava com a cabeça. Mizi estava tão distraída cuidando do menino que nem percebeu que Sua tinha acabado de sair do prédio e corrido em direção ao carro da mãe.

— Sua! Cadê o seu irmão? — a mãe perguntou, saindo do carro preocupada. — Ele disse que ia te esperar na porta!

Sua sentiu o coração disparar e começou a procurar desesperadamente, até que viu a cena mais improvável do universo: Mizi, a garota que tinha acabado de dizer as coisas mais perversas do mundo para ela, estava carregando Hamin no colo, rindo de algo que o menino dizia, enquanto ele comia um pirulito.

Sua correu até eles, ofegante.

— Hamin! — ela gritou.

Mizi parou e olhou para Sua. O choque foi mútuo.

— Sua? — Mizi perguntou, olhando do menino para a garota. — Ele é seu irmão?

— É... é sim. Obrigada, Mizi — Sua disse, pegando Hamin do colo dela apressadamente. — Hamin, você não pode sair de perto do carro!

— A moça rosa me ajudou, Sua! — Hamin exclamou, feliz.

Sua não conseguiu sustentar o olhar de Mizi. Ela apenas acenou com a cabeça e correu para o carro, entrando e fechando a porta com o coração na boca.

No dia seguinte, a paz era um conceito inexistente. Alguém — provavelmente o mesmo "cu" de sempre — tinha tirado fotos de Mizi com Hamin no colo. As imagens estavam em todos os lugares. As legendas eram cruéis de tão fofas: "O casal perfeito e o filho que elas já têm", "Mizi treinando para ser mãe", "A família que a gente não sabia que precisava".

Sua estava surtando. Ela passou as primeiras aulas escondida na biblioteca, mas a pressão interna era demais. Ela não sabia lidar com a dualidade de Mizi: a Mizi que falava obscenidades e a Mizi que cuidava de uma criança com doçura.

No intervalo, ela puxou Hyuna para um canto escondido atrás das quadras.

— Hyuna, eu vou morrer. Eu vou literalmente entrar em combustão — Sua disse, cobrindo o rosto com as mãos.

— Amiga, respira! O que foi? A foto com o Hamin?

— Tudo! — Sua desabafou, a voz saindo em um sussurro desesperado. — Eu não consigo mais fingir, Hyuna. Eu gosto dela. Eu gosto dela desde o primeiro dia que vi aquele cabelo rosa idiota. Mas ela é demais, entende? Ela é um furacão e eu sou... eu sou só eu. E o que ela disse ontem... as coisas que ela falou no meu ouvido... eu não consigo parar de pensar nisso!

Hyuna arregalou os olhos, absorvendo a confissão.

— Uau... então a "nuvem" finalmente admitiu. Sua, escuta — Hyuna segurou os ombros da amiga —, a Mizi não é "demais". Ela é só uma garota que faz muito barulho pra ninguém ver que ela também está perdida. Se ela te disse aquelas coisas, é porque ela está louca por você. E se ela cuidou do seu irmão daquele jeito...

— O que eu faço, Hyuna? — Sua perguntou, com os olhos roxos brilhando de lágrimas contidas. — Eu neguei ela na frente de todo mundo. Eu fiz ela parecer uma idiota.

— Você não fez ela parecer uma idiota, você desafiou ela. E a Mizi ama um desafio — Hyuna deu um sorriso encorajador. — Você precisa parar de fugir. O próximo passo não é dela, Sua. É seu.

Sua olhou para o pátio, onde Mizi estava sentada sozinha, girando uma latinha de energético entre as mãos, parecendo pensativa. O pirulito de cereja ainda era o cheiro que Sua sentia quando fechava os olhos.

— Eu vou falar com ela — Sua disse, a voz subindo de tom, decidida. — Mas se eu morrer de vergonha, você escreve o meu epitáfio.

— Pode deixar — riu Hyuna. — Mas acho que você vai estar ocupada demais perdendo o fôlego para morrer de vergonha.

Sua respirou fundo e começou a caminhar. O roxo e o ouro estavam prestes a colidir novamente, e dessa vez, Sua não ia deixar a gravidade decidir o impacto. Ela ia mergulhar de cabeça no caos rosa de Mizi.

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