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Insane

O Gosto Proibido da Cereja

O pátio da escola parecia um campo de minas. Cada passo que Sua dava em direção a Mizi era acompanhado pelo silêncio súbito das conversas ao redor. O post das "Cores Inversas" ainda era o tópico número um, e a imagem de Mizi carregando Hamin no colo no dia anterior havia criado uma aura de expectativa quase insuportável.

Mizi estava sentada em um banco de concreto, isolada da multidão. Ela girava uma latinha de alumínio entre os dedos longos, o olhar perdido em algum ponto do horizonte cinzento. Não havia sarcasmo em seu rosto naquele momento, apenas uma exaustão melancólica que fazia o coração de Sua apertar.

Quando a sombra de Sua projetou-se sobre ela, Mizi não levantou a cabeça de imediato. Ela apenas parou de girar a latinha.

— Veio conferir se eu ainda estou em condições de falar baixarias, Sua? — A voz de Mizi saiu baixa, sem a agressividade da véspera, mas ainda tingida de amargura.

Sua respirou fundo, sentindo o cheiro familiar de chiclete que sempre rodeava a outra garota. Ela não recuou.

— Eu vim falar sobre o que você disse — começou Sua, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — E sobre como você tem agido. Mizi, aquilo que você falou no corredor... foi demais. Foi pesado. Eu não sou um objeto para você usar nos seus desafios de ego.

Mizi finalmente levantou o olhar. Seus olhos dourados estavam nublados, desprovidos do brilho predatório de antes.

— Eu sei — murmurou Mizi, surpreendendo Sua. — Eu estava bêbada na segunda e irritada na terça. Eu desconto as coisas nas pessoas, você já deve ter percebido.

— Eu percebi — disse Sua, suavizando a expressão. — Mas também vi como você cuidou do Hamin. Ninguém que diz aquelas coisas consegue ser tão gentil com uma criança sem ter algo bom guardado aí dentro.

Mizi deu um sorriso de lado, curto e sem graça.

— Ele é um garoto legal. Diferente da irmã, ele não parece ter medo de mim.

— Eu não tenho medo de você, Mizi — Sua deu um passo à frente, quebrando a barreira da distância. — Eu só tenho medo do que você faz comigo. Mas... eu cansei de fugir. Minha mãe vai fazer um jantar hoje. Você quer ir lá em casa?

Mizi estancou. A latinha de energético quase escapou de suas mãos. Ela arqueou uma sobrancelha, o brilho dourado voltando aos olhos com uma intensidade renovada. Um sorriso lento e perigoso começou a desenhar-se em seus lábios.

— Na sua casa, Sua? — Mizi inclinou o corpo para a frente. — Seus pais não estão, por acaso?

Sua sentiu o rosto esquentar instantaneamente, mas manteve o contato visual.

— Minha mãe vai estar lá. E o Hamin também. Não vai ser nada do que você está imaginando na sua cabeça suja.

O rosto de Mizi murchou visivelmente. O desapontamento foi tão óbvio que Sua quase sentiu pena.

— Ah... um jantar em família. Que emocionante — ironizou Mizi, recostando-se no banco.

— Você vai ou não? — pressionou Sua.

Mizi olhou para ela por um longo tempo, estudando cada detalhe do rosto pálido de Sua, os olhos roxos que agora brilhavam com uma determinação inédita.

— Eu vou. Só porque o seu irmão é mais divertido que você.

***

A noite chegou com uma garoa fina que embaçava as janelas da casa de Sua. Ela já havia avisado a mãe que uma "amiga da escola" viria jantar, omitindo, é claro, que a tal amiga era a pessoa que estava virando sua vida do avesso.

Quando a campainha tocou, Sua sentiu um frio no estômago que nenhum casaco poderia aquecer. Ela abriu a porta e deu de cara com Mizi. Ela usava uma jaqueta de couro por cima de um vestido preto simples, o cabelo rosa preso em um coque bagunçado que deixava alguns fios caírem sobre o pescoço.

— Oi — disse Mizi, parecendo estranhamente deslocada naquele ambiente doméstico.

Antes que Sua pudesse responder, um vulto pequeno passou correndo por suas pernas.

— Moça rosa! — gritou Hamin, agarrando-se à perna de Mizi com um entusiasmo genuíno.

Mizi riu, e foi um som real, sem sarcasmo. Ela se agachou e pegou o menino no colo, entregando a ele um pirulito de cereja que trazia no bolso.

— Oi, capitão. Pronto para mais aventuras?

O jantar foi, no mínimo, surreal. A mãe de Sua parecia encantada com Mizi, que conseguia ser perfeitamente educada e charmosa quando queria. Mas o verdadeiro protagonista da noite foi Hamin. Ele "roubou" Mizi completamente. Levou-a para ver seus desenhos, fez com que ela sentasse no chão para brincar de blocos e não a deixou ter um segundo de conversa privada com Sua.

Sua observava da cozinha, sentindo uma mistura de alívio e frustração. Mizi parecia tão natural ali, rindo das bobagens de Hamin, que era difícil reconciliar aquela imagem com a garota que prometera coisas pervertidas no corredor da escola.

Eventualmente, a energia de Hamin acabou. Ele começou a bocejar e, em menos de dez minutos, dormiu profundamente no colo de Mizi enquanto ela lia um livro para ele. Com um cuidado infinito, Mizi o ajeitou no sofá e cobriu-o com uma manta.

— Ele é um anjo quando está dormindo — sussurrou Mizi, levantando-se e ajeitando a roupa. — Acho que minha hora deu, Sua. Minha carona chega em cinco minutos.

Sua sentiu um aperto no peito. A noite tinha sido agradável, mas não tinha havido "o momento". Elas não tinham conversado sobre o que importava.

— Eu te acompanho até o portão — disse Sua.

As duas saíram para o lado de fora. O ar estava úmido e fresco, o cheiro de terra molhada misturando-se ao perfume de Mizi. Elas pararam perto da calçada, sob a luz alaranjada do poste.

Mizi virou-se, as mãos nos bolsos da jaqueta, voltando a usar aquela máscara de indiferença que Sua tanto odiava.

— O jantar estava bom, Sua. Diga à sua mãe que ela cozinha bem.

— Mizi, espera — Sua deu um passo à frente, bloqueando o caminho dela. — A gente não terminou de conversar.

— Sobre o quê? Sobre o fato de que eu fui babá por três horas em vez de fazer o que eu realmente queria? — Mizi deu um sorriso amargo. — Eu já entendi, Sua. Você queria me mostrar que tem uma vida perfeita e que eu não me encaixo nela.

— Não é isso! — Sua exclamou, a frustração transbordando. — Eu chamei você porque eu queria que você visse que eu não tenho medo do seu mundo, mas eu queria que você conhecesse o meu. Eu joguei a real para você na escola, Mizi. Eu disse que não gostava de você daquele jeito... mas eu menti.

Mizi parou. O sarcasmo morreu em seu rosto.

— Eu menti porque eu estava assustada — continuou Sua, aproximando-se até que seus peitos quase se tocassem. — Eu gosto de você. Gosto de verdade. Mas eu não quero ser só mais uma diversão passageira na sua lista de conquistas.

Mizi não respondeu com palavras. Em um movimento rápido e possessivo, ela envolveu a cintura de Sua com os dois braços, puxando-a para perto com uma força que tirou o fôlego da garota mais baixa. Sua sentiu as mãos de Mizi firmes em suas costas, o calor atravessando o tecido fino de sua blusa.

— Você fala demais, Sua — sussurrou Mizi.

E então, ela a beijou.

Não foi um beijo calmo ou romântico de filme. Foi um choque de necessidade e fome reprimida. O gosto de cereja do pirulito que Mizi estivera comendo ainda estava lá, doce e viciante. Sua correspondeu com a mesma intensidade, enroscando os dedos no cabelo rosa de Mizi, sentindo a eletricidade percorrer cada nervo de seu corpo. O mundo ao redor — a escola, a enquete, o Acorn, a chuva — tudo desapareceu. Só existia o toque firme de Mizi e o som de suas respirações misturadas.

Quando se separaram, Mizi não a soltou. Ela manteve Sua presa contra o próprio corpo, os olhos dourados agora acesos com uma luxúria sombria que fez as pernas de Sua tremerem.

Mizi inclinou-se, os lábios roçando a orelha de Sua, a voz baixando para um tom perversamente rouco.

— Você não tem ideia do que acabou de fazer, "nuvem". Você acha que o que eu disse no corredor foi pesado? Aquilo foi o trailer.

Sua soltou um arfar involuntário.

— Eu prometo a você — continuou Mizi, a mão descendo perigosamente pelas costas de Sua até o início de seu quadril, apertando a carne ali com firmeza — que na próxima vez que a gente estiver sozinha, e sem a sua mãe no cômodo ao lado, eu vou cumprir cada palavra que eu disse. Eu vou fazer você implorar para eu não parar. Eu vou marcar cada centímetro dessa sua pele pálida até você entender que você é minha.

Mizi afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos roxos e dilatados de Sua. Ela deu um sorriso de canto, aquele sorriso que prometia o paraíso e o inferno ao mesmo tempo.

— Esteja pronta, Sua. Porque eu não sou de deixar promessas pela metade.

Mizi soltou a cintura dela, virou as costas e caminhou em direção ao carro que acabara de encostar na esquina. Ela não olhou para trás, apenas levantou a mão em um aceno casual antes de sumir dentro do veículo.

Sua ficou parada sob a chuva fina, as mãos trêmulas tocando os próprios lábios que ainda formigavam. O gosto da cereja ainda estava lá, mas agora vinha acompanhado de uma promessa que a deixava aterrorizada e, ao mesmo tempo, desesperadamente ansiosa.

Ela entrou em casa e fechou a porta, encostando as costas na madeira fria. Ela olhou para Hamin dormindo no sofá e sentiu uma pontada de choque com a dualidade da noite.

— Eu estou tão fodida — sussurrou para o silêncio da sala.

Literalmente, ela sabia que estava. E, pela primeira vez, Sua não queria ser salva. Ela queria que Mizi cumprisse cada uma daquelas promessas proibidas.

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