Ítaca
O Silêncio das Estrelas e o Peso da Promessa
A escuridão sobre o Mar Jônico era absoluta, quebrada apenas pelo rastro de espuma prateada que o pequeno barco de guerra deixava para trás. O som rítmico da água batendo no casco servia como uma canção de ninar hipnótica, contrastando com a tensão que ainda vibrava nos nervos de quem sobrevivera à emboscada em Pilos.
Kuro Hatake despertou lentamente. Sua mente, treinada para estar em alerta constante, levou alguns segundos para processar que o perigo imediato passara. Ele estava encostado na lateral de madeira do barco, em uma posição meio sentada que normalmente seria desconfortável, mas que agora parecia o lugar mais seguro do mundo. O motivo estava pesado e quente sobre seu peito.
Tatsuyo estava profundamente adormecida. Ela se acomodara entre as pernas de Kuro, com a cabeça descansando logo abaixo do ombro dele, o rosto pardo sereno sob a luz do luar. Um de seus braços envolvia a cintura de Kuro em um abraço instintivo, enquanto a mão dele, sem que ele se lembrasse exatamente de quando a colocara ali, repousava protetoramente sobre as costas da princesa, mantendo-a firme contra seu corpo enquanto o barco balançava.
O coração de Kuro deu um salto descompassado ao perceber a proximidade. Ele podia sentir a respiração calma dela contra seu pescoço, o cheiro de maresia e do perfume floral que ela sempre usava, agora misturado ao leve odor de ferro das espadas.
— Ela tem o sono pesado quando confia em quem a protege — disse uma voz profunda vinda da popa.
Kuro levantou o olhar rapidamente, tentando não mover o tronco para não acordar Tatsuyo. Obito Uchiha estava sentado ao leme, com uma das mãos controlando a direção e a outra apoiada no joelho. Ele não parecia ter pregado o olho; sua silhueta musculosa contra o horizonte parecia uma estátua de bronze inabalável.
— General... — sussurrou Kuro, sentindo o rosto esquentar — Peço desculpas, eu não pretendia... nós estávamos apenas exaustos.
Obito deu um meio sorriso, um gesto raro que suavizou as cicatrizes em seu rosto.
— Não peça desculpas por ser o porto seguro dela, Kuro. Eu passei quatro anos em uma terra onde a confiança era mais rara que ouro. Ver minha filha dormir assim, no meio de uma guerra pessoal, me diz mais sobre o seu caráter do que qualquer relatório de batalha.
Kuro relaxou minimamente, embora ainda estivesse consciente de cada centímetro de pele onde Tatsuyo o tocava.
— Ela é forte, senhor. Mais do que qualquer um em Ítaca imagina. No templo, ela lutou como...
— Como uma Uchiha — interrompeu Obito, os olhos pretos brilhando com orgulho —. Eu vi. Ela tem a técnica que eu ensinei, mas tem a fluidez da Rin. É uma combinação perigosa para os inimigos dela.
O silêncio caiu entre os dois por alguns minutos, preenchido apenas pelo vento nas velas. Obito observou o jovem de cabelos brancos por um longo tempo, analisando a forma como Kuro ajustava o braço sutilmente para que Tatsuyo ficasse mais confortável, mesmo que isso significasse deixar o próprio braço dormente.
— Você cuidou bem dela nesses quatro anos — comentou Obito, mudando o peso do corpo —. Rin me escreveu algumas vezes, através de mercadores de confiança, antes das rotas serem fechadas. Ela sempre mencionava que o "filho de Hatake" era a sombra de Tatsuyo.
— Era o meu dever, senhor. E minha vontade — respondeu Kuro honestamente.
Obito inclinou a cabeça para o lado, uma expressão de curiosidade quase travessa surgindo em seu rosto severo.
— Kuro, deixe-me perguntar uma coisa de homem para homem. Já que estamos sozinhos com as estrelas e ela não vai acordar tão cedo.
— Sim, General?
— Você e Tatsuyo... vocês já transaram? — perguntou Obito, com a naturalidade de quem pergunta sobre a previsão do tempo.
Kuro sentiu como se o barco tivesse sido atingido por um raio. Seus olhos quase saltaram das órbitas e sua respiração travou na garganta. Ele tentou falar, mas apenas um som engasgado saiu. O choque foi tão grande que ele quase empurrou Tatsuyo sem querer, recuperando o equilíbrio no último segundo.
— O quê?! Não! Pelos deuses, General! — Kuro sussurrou o mais alto que ousava, o rosto agora vermelho como uma brasa — Não! Nunca! Eu jamais... ela é a princesa! E o senhor é... bem, o senhor é o senhor!
Obito soltou uma risada baixa e rouca, um som que vibrou pelo convés.
— Acalme-se, garoto. Você vai ter um ataque do coração antes de chegarmos a Ítaca.
— Como o senhor pode perguntar isso com tanta calma? — Kuro tentava recuperar a compostura, o coração ainda martelando contra as costelas.
— Porque eu conheço o sangue que corre nas veias dela — disse Obito, voltando a olhar para o mar —. E conheço o fogo da juventude. Eu e Rin... bom, nós não éramos muito diferentes de vocês quando tínhamos a mesma idade. O amor em tempos de incerteza tende a ser urgente.
Kuro balançou a cabeça freneticamente, ainda horrorizado com a direção da conversa.
— Não, senhor. Eu juro pela minha vida e pela minha honra. Eu e Tatsuyo somos... nós somos muito próximos, sim. Eu morreria por ela sem hesitar. Mas nunca cruzamos essa linha. Na verdade... — Kuro hesitou, baixando a voz ainda mais — ... nós nunca nem nos beijamos.
Obito arqueou uma sobrancelha, genuinamente surpreso.
— Nem um beijo? Quatro anos sozinhos, treinando todos os dias, protegendo um ao outro de nobres gananciosos... e nenhum beijo?
— Eu a respeito demais para forçar qualquer coisa — explicou Kuro, olhando para o rosto tranquilo de Tatsuyo em seu colo —. E, para ser honesto, eu sempre tive medo de que, se eu tentasse algo e ela não sentisse o mesmo, eu perderia a única pessoa que realmente importa para mim. Além disso, com Antinous e os outros abutres circulando, ela já tinha pressão demais sobre os ombros. Eu queria ser o lugar onde ela não precisasse se preocupar com expectativas.
Obito ficou em silêncio, processando as palavras do jovem. Sua postura relaxou visivelmente. Ele viu em Kuro algo que raramente encontrava nos campos de batalha: uma lealdade que nascia da abnegação, não do desejo de posse.
— Você é um homem bom, Kuro Hatake — disse Obito, sua voz agora carregada de uma sinceridade pesada —. Poucos teriam essa contenção. Mas não se engane... eu vi como ela olha para você quando você não está olhando. Minha filha herdou a teimosia dos Uchiha. Se ela não quisesse estar exatamente onde está agora, dormindo no seu peito, você estaria sentado do outro lado do barco com um olho roxo.
Kuro olhou para Tatsuyo, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios pela primeira vez. Ele acariciou levemente o cabelo ondulado e preto dela, sentindo a maciez dos fios.
— Ela me assusta às vezes — admitiu Kuro —. O temperamento dela é... explosivo.
— Ela é um incêndio — concordou Obito —. E Ítaca está cheia de madeira seca esperando para queimar. Quando chegarmos, o mundo deles vai desabar.
— O senhor acha que a Rainha Rin está bem? — perguntou Kuro, a preocupação voltando à tona.
Obito apertou o leme, os nós dos dedos ficando brancos.
— Rin é o coração de Ítaca. Enquanto esse coração bater, a ilha resiste. Mas eu sei que ela está sofrendo. A solidão da coroa é pior do que qualquer ferimento de lança. Eu falhei com ela ao demorar tanto.
— O senhor não falhou — disse Kuro com convicção —. O senhor sobreviveu. Para ela, isso é tudo o que importa. Ela nunca parou de olhar para o mar, General. Todos os dias, ao pôr do sol, ela subia ao terraço.
Obito fechou os olhos por um breve momento, como se pudesse visualizar a cena. A imagem de Rin, com seus cabelos castanhos ao vento, esperando por um fantasma, era o que o mantivera vivo em meio aos naufrágios e às ilhas de monstros.
— Quando desembarcarmos — disse Obito, retomando o tom de comando —, não vamos direto ao palácio. Antinous tem espiões em cada esquina do porto. Vamos usar as trilhas das montanhas, as que eu ensinei a você quando era criança.
— Eu me lembro delas — afirmou Kuro —. Elas levam diretamente aos fundos dos jardins reais.
— Exato. Quero ver a cara daquele verme quando ele perceber que o Rei de Ítaca não voltou sozinho, mas trouxe a justiça com ele.
Tatsuyo soltou um pequeno suspiro durante o sono, apertando mais o abraço em Kuro e murmurando algo ininteligível. Kuro congelou novamente, temendo que ela tivesse acordado e ouvido a conversa sobre "transar", mas ela apenas se acomodou melhor, o rosto enterrado na curva do pescoço dele.
Obito observou a cena com uma mistura de melancolia e satisfação. Ele sabia que os dias de paz seriam curtos. A guerra de Troia podia ter acabado, mas a limpeza de sua própria casa seria sangrenta. No entanto, ver aqueles dois juntos dava a ele uma esperança que ele achava ter perdido nas areias de Troia.
— Kuro — chamou Obito, enquanto o céu começava a dar os primeiros sinais de um azul acinzentado, anunciando a aurora —. Se sairmos vivos dessa... se eu retomar meu trono e expulsar aqueles porcos do meu salão...
— Sim, senhor?
— Você terá minha permissão. Para o beijo. E para o resto, quando for a hora certa.
Kuro quase engasgou com a própria saliva novamente, mas desta vez, ele conseguiu segurar o riso nervoso.
— Obrigado, General. Eu... eu vou levar isso em consideração.
— É bom que leve — disse Obito, voltando os olhos para a frente —. Porque se você a fizer chorar, não haverá mar ou terra onde você possa se esconder de mim. Entendido?
— Perfeitamente entendido, senhor.
O sol começou a despontar no horizonte, tingindo a água de um laranja vibrante. Ao longe, as falésias escarpadas de Ítaca começaram a surgir da névoa matinal. O perfil da ilha, com suas montanhas verdes e o palácio de pedra branca no topo, parecia um paraíso distante que finalmente estava ao alcance.
Tatsuyo começou a se mexer. Seus olhos pretos se abriram devagar, piscando contra a claridade do amanhecer. Por um momento, ela pareceu desorientada, sentindo o calor de Kuro sob ela. Ela levantou a cabeça, encontrando o olhar de Kuro, que estava a poucos centímetros do seu.
— Bom dia — sussurrou Kuro, sua voz um pouco rouca.
Tatsuyo não se afastou imediatamente. Ela deu um pequeno sorriso sonolento, a mão ainda pousada sobre o coração dele.
— Bom dia... Eu dormi muito?
— O suficiente para perdermos metade das piadas do seu pai — brincou Kuro.
Tatsuyo olhou para a popa e viu Obito observando-os. Ela corou levemente ao perceber a posição em que estava, mas, em vez de saltar de susto, ela apenas se sentou devagar, mantendo-se perto de Kuro.
— Estamos perto? — perguntou ela, olhando para as falésias de Ítaca.
— Estamos em casa, Tatsuyo — respondeu Obito, sua voz carregada de uma emoção contida —. Olhem bem para aquelas praias. Hoje, elas pertencem aos usurpadores. Amanhã, elas pertencerão novamente aos Uchiha.
Tatsuyo levantou-se, o sono desaparecendo completamente, substituído pela determinação que herdara dos pais. Ela olhou para Kuro e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar.
— Pronta para a última batalha? — perguntou Kuro, segurando a mão dela com firmeza.
— Eu nasci pronta para isso, Kuro — respondeu ela, apertando os dedos dele —. Especialmente com você ao meu lado.
Obito manobrou o barco para dentro da sombra das rochas costeiras, evitando as rotas principais. O tempo da espera acabara. O Rei estava de volta, a herdeira estava armada e o guardião estava pronto para sangrar. Ítaca não sabia, mas o amanhecer trazia consigo o fim de uma era de sombras.
Enquanto o barco deslizava silenciosamente em direção a uma enseada escondida, Kuro sentiu o peso da promessa que fizera a Rin e a Obito. Mas, mais do que isso, ele sentiu o peso do olhar de Tatsuyo sobre ele. Eles ainda não tinham se beijado, e a guerra ainda não tinha terminado, mas ali, sob o sol nascente de sua terra natal, ele sabia que não havia outro lugar no mundo onde preferiria estar.
— Vamos — disse Obito, saltando na água rasa assim que o barco atingiu a areia —. Temos uma rainha para resgatar e um trono para limpar.
A odisseia estava chegando ao seu clímax sangrento, e o destino de Ítaca seria decidido antes que o sol se pusesse novamente.