James Fraser no futuro
O Convite do Pretendente e o Choque de Séculos
O outono de 1961 pintava as Highlands com tons de cobre e ouro, mas dentro da nova casa dos Fraser, o clima era de uma tensão silenciosa e quase elétrica. Jamie Fraser estava sentado à cabeceira da mesa de carvalho que ele mesmo terminara de restaurar, polindo uma peça de metal de sua forja com uma intensidade que sugeria que ele preferia estar enfrentando um regimento de casacas-vermelhas a estar ali, esperando.
— Jamie, por favor, pare de encarar a porta — disse Claire, colocando uma travessa de assado no centro da mesa. Ela usava um vestido de lã azul que Jamie adorava, mas seus olhos mostravam a mesma ansiedade que ele tentava esconder. — É apenas um jantar. Brianna quer que conheçamos o rapaz.
— Um rapaz — murmurou Jamie, a voz profunda vibrando com desaprovação. — Um rapaz que ela conheceu na universidade. Um rapaz que não pediu minha permissão para cortejá-la, que não enviou uma carta e que, pelo que entendi, dirige uma daquelas máquinas barulhentas em alta velocidade.
— É 1961, Jamie — lembrou Ian, que estava sentado ao lado, tentando inutilmente ensinar o pequeno Ian a usar um garfo de maneira "civilizada" para os padrões do século XX. — Os costumes mudaram. Até em Lallybroch as coisas estariam diferentes agora.
— Em Lallybroch, se um homem quisesse minha filha, ele teria que, no mínimo, provar que sabe manejar uma espada ou cuidar de um rebanho — rebateu Jamie, guardando o pano de polir. — E ele teria que olhar nos meus olhos antes de levá-la para passear naquelas... "discotecas".
Jenny, que entrava na sala carregando uma cesta de pães quentes, soltou uma risada seca.
— Ora, Jamie, deixe de ser um urso velho. Você se esqueceu de como era quando rondava Claire pelas florestas de Leoch? Você não pediu permissão a ninguém, se bem me lembro.
— Isso foi diferente — Jamie resmungou, sentindo as orelhas ficarem vermelhas. — Eu estava protegendo a vida dela.
O som de um motor roncando do lado de fora interrompeu a conversa. Era um som mais agudo que o jipe de Brianna, algo mais esportivo. Jamie levantou-se instintivamente, os ombros largos preenchendo o espaço da sala.
— Ele chegou — anunciou o jovem Jamie, espiando pela janela. — E ele tem um carro vermelho! É muito brilhante, tio!
Claire tocou o braço de Jamie, um gesto suave para acalmá-lo.
— Lembre-se, Jamie: ele é importante para ela. Seja o Laird, não o carrasco.
A porta da frente abriu-se e a voz vibrante de Brianna ecoou pelo corredor.
— Mãe? Pai? Estamos aqui!
Brianna entrou na sala radiante. Ela usava calças de veludo cotelê e um suéter creme, o cabelo ruivo solto sobre os ombros. Atrás dela, um jovem alto, de cabelos escuros e óculos de aros grossos, parecia tentar decidir se deveria sorrir ou fugir. Ele usava uma jaqueta de couro e carregava uma garrafa de vinho e um buquê de flores.
— Família, este é Roger — disse Brianna, aproximando-se de Jamie. — Roger MacKenzie. Roger, estes são meus pais, Jamie e Claire Fraser. E meus tios, Ian e Jenny, e meus primos.
Roger deu um passo à frente, estendendo a mão. Ele parecia genuinamente impressionado pela estatura de Jamie.
— É um prazer conhecê-los, Sr. e Sra. Fraser. Brianna fala muito de vocês. Ou melhor... ela fala muito sobre como este lugar é incrível.
Jamie olhou para a mão estendida de Roger por um segundo longo demais antes de apertá-la. A força do aperto de Jamie fez Roger piscar, mas o rapaz não recuou.
— MacKenzie, disse ela? — Jamie perguntou, a voz como um trovão baixo. — De qual ramo dos MacKenzie você descende, rapaz? Do clã de Castle Leoch ou dos MacKenzie de Kintail?
Roger soltou um riso nervoso, ajustando os óculos.
— Bem, eu sou de Inverness, na verdade. Meu pai era um ministro... mas minha árvore genealógica remonta aos MacKenzie de Cranesmuir. Sou historiador, Sr. Fraser. Gosto de pensar que conheço meus ancestrais, embora não tão bem quanto o senhor parece conhecer os seus.
Jamie estreitou os olhos. "Cranesmuir", ele pensou. O nome trazia memórias de Geillis Duncan e segredos sombrios, mas ele manteve a compostura.
— Um historiador — Jamie repetiu. — Então você vive de livros, não de suor.
— Jamie! — Claire interveio, aproximando-se com um sorriso diplomático. — Roger, que flores lindas. Muito obrigada. E o vinho é perfeito para o assado. Por favor, sentem-se.
O jantar começou com uma coreografia estranha. De um lado da mesa, os Fraser de 1761 observavam cada movimento de Roger como se ele fosse uma espécie exótica de pássaro. Do outro, Roger tentava processar o fato de que estava jantando com pessoas que pareciam ter uma intensidade e uma presença física que ele apenas encontrara em descrições de heróis épicos.
— Então, Roger — começou Ian, tentando quebrar o gelo —, Brianna disse que você também canta?
— Ah, sim. Eu toco violão e canto algumas baladas tradicionais — respondeu Roger, relaxando um pouco. — Na verdade, estou pesquisando as canções folclóricas das Highlands que se perderam após as Highlands Clearances.
— Canções que se perderam? — Jenny perguntou, inclinando a cabeça. — As canções não se perdem se as pessoas continuarem a cantá-las para seus filhos.
— Infelizmente, o mundo mudou muito, Sra. Murray — disse Roger gentilmente. — Muitas famílias foram forçadas a sair de suas terras. As tradições foram sufocadas. Eu tento resgatar o que sobrou.
Jamie observava Roger com mais atenção agora. O rapaz falava com paixão sobre a Escócia, e isso era algo que o Highlander respeitava. No entanto, a visão de Roger colocando o braço sobre o encosto da cadeira de Brianna ainda o incomodava.
— E quais são suas intenções com minha filha, Sr. MacKenzie? — Jamie perguntou abruptamente, cortando um pedaço de carne com tanta precisão que Roger engoliu em seco.
— Jamie, por favor — sussurrou Claire, mas Brianna não recuou.
— Pai, Roger e eu estamos nos conhecendo. Ele é um homem bom e inteligente. Ele me ajudou muito com as pesquisas sobre... sobre a família.
Roger olhou de Jamie para Brianna e tomou um gole de água antes de falar.
— Sr. Fraser, eu sei que sou um estranho entrando em sua casa. E sei que sou um homem moderno, talvez não o tipo de guerreiro que o senhor esperaria para sua filha. Mas eu a amo. Eu a respeito acima de tudo. E eu faria qualquer coisa para garantir que ela seja feliz e segura.
Jamie sentiu um puxão de reconhecimento. Ele já ouvira aquelas palavras antes, ou melhor, ele já as sentira em seu próprio peito quando enfrentara o mundo por Claire.
— Você diz que faria qualquer coisa — disse Jamie, inclinando-se para a frente. — Mas você sabe o que isso significa? Se o mundo desabasse amanhã, se não houvesse mais luz elétrica ou carros vermelhos, se você tivesse que protegê-la com nada além de suas mãos e sua coragem... você seria capaz?
Roger sustentou o olhar azul e penetrante de Jamie. Pela primeira vez, a aura de acadêmico de Oxford desapareceu, revelando uma teimosia escocesa muito antiga.
— Eu não tenho uma espada, Sr. Fraser. Mas tenho uma alma escocesa. E se o tempo me ensinou algo através dos meus estudos, é que o que importa não é a arma que você carrega, mas o que você está disposto a perder por quem ama. Sim, eu seria capaz.
O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o tique-taque do relógio de parede. Claire segurava a respiração. Jenny e Ian trocaram um olhar de surpresa.
Lentamente, Jamie relaxou os ombros. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu no canto de sua boca.
— Ele tem língua afiada, Brianna — disse Jamie, voltando-se para a filha. — E um pouco de fogo nas veias. Para um MacKenzie, ele não é de todo ruim.
Brianna soltou um suspiro de alívio e apertou a mão de Roger por baixo da mesa.
— Isso é o máximo que você vai conseguir de um elogio hoje, Roger — ela brincou.
— Eu aceito — disse Roger, limpando o suor da testa. — Com prazer.
Após o jantar, a tensão dissipou-se um pouco. Roger começou a contar histórias sobre a Inverness moderna, e os rapazes ficaram fascinados com as descrições de jogos de futebol e cinemas. Ian e Roger acabaram discutindo a genealogia dos clãs, enquanto Jenny, surpreendentemente, começou a questionar Roger sobre como funcionavam os bancos modernos.
— Então você quer dizer que eu coloco meu dinheiro em uma caixa e eles me dão um papel dizendo que ele está lá? — Jenny perguntava, incrédula. — E se a caixa sumir?
— É um pouco mais complexo que isso, Sra. Murray — ria Roger —, mas o governo garante que ele não suma.
Enquanto isso, Jamie e Claire caminharam até a varanda. A noite estava estrelada, e o silêncio das colinas era um bálsamo.
— Ele é um bom homem, Jamie — disse Claire, encostando a cabeça no ombro dele. — Frank teria gostado dele. E Brianna brilha quando está perto dele.
— Eu sei — admitiu Jamie, suspirando. — É difícil, Sassenach. Olhar para ela e ver não apenas o bebê que perdi, mas a mulher que ela se tornou. E perceber que outro homem agora terá o direito de protegê-la.
— Você sempre será o pai dela. E você sempre será o Laird. Mas veja... — Ela apontou para dentro da sala, onde Roger pegara um violão que Brianna guardava e começava a dedilhar uma melodia antiga.
A voz de Roger era um barítono rico e quente. Ele cantava "The Skye Boat Song", mas a versão que ele conhecia era a melodia tradicional, sem as letras que Claire conhecia do futuro.
*“Speed, bonnie boat, like a bird on the wing...”*
Jamie parou para ouvir. A música atravessava o tempo, conectando o homem de 1761 ao rapaz de 1961. Era uma ponte de som.
— Ele canta com o coração — observou Jamie. — Há uma tristeza na voz dele que pertence a alguém que entende a perda.
— Ele perdeu os pais muito cedo — explicou Claire. — Roger sabe o que é estar sozinho no mundo. Talvez seja por isso que ele se sinta tão em casa com nossa família barulhenta.
Jamie assentiu. Ele entrou na sala novamente, desta vez sem a armadura de desconfiança. Roger terminou a canção e todos aplaudiram, até mesmo o pequeno Ian, que estava quase dormindo no sofá.
— Uma boa canção, MacKenzie — disse Jamie. — Mas você conhece a "The Haughs of Cromdale"?
— Conheço a melodia, mas não todos os versos — admitiu Roger.
— Então pegue seu instrumento — ordenou Jamie, com um brilho desafiador nos olhos. — Eu vou lhe ensinar como um Fraser canta quando está pronto para a batalha.
O que se seguiu foi uma noite que nenhum deles esqueceria. O contraste entre o Highlander gigante e o historiador moderno cantando juntos, suas vozes harmonizando em gaélico e inglês, preencheu a casa com uma energia que parecia curar as feridas deixadas pelo tempo.
Mais tarde, quando Roger se preparava para ir embora, Jamie o acompanhou até o carro vermelho.
— Sr. Fraser — disse Roger, parando diante da porta do motorista —, obrigado por me receber. Eu sei que não é fácil para o senhor... tudo isso.
Jamie colocou uma mão pesada no ombro de Roger.
— Escute-me bem, rapaz. Eu não entendo metade das coisas deste seu século. Não entendo suas máquinas, suas leis ou por que vocês não carregam uma arma para proteger sua honra. Mas eu entendo de homens. E vejo que você tem honra.
Ele apertou o ombro de Roger com firmeza.
— Brianna é o meu tesouro mais precioso. Ela atravessou mais do que você pode imaginar para estar aqui. Se você a magoar, se você falhar com ela... não haverá lugar neste mundo, ou em qualquer outro, onde você possa se esconder de mim. Entendido?
Roger não desviou o olhar. Ele sentia o peso da promessa de Jamie, uma promessa que carregava o peso de séculos.
— Entendido, Sr. Fraser. Eu não vou falhar.
Jamie assentiu e deu um passo para trás, observando Roger entrar no carro e partir, as luzes traseiras desaparecendo na escuridão da estrada.
Brianna aproximou-se do pai, abraçando-o pela cintura.
— Você foi bonzinho com ele no final — ela disse, sorrindo.
— Eu fui justo — corrigiu Jamie, beijando o topo da cabeça ruiva da filha. — Ele é um MacKenzie, afinal. Eles sempre foram bons com as palavras. Só espero que ele seja tão bom com as ações quando chegar a hora.
— Ele será, papai. Eu sei que será.
Eles voltaram para dentro da casa, onde Claire os esperava com duas xícaras de chá. A cozinha estava quente, cheia do cheiro de pão e do calor da família.
— Então? — perguntou Jenny, cruzando os braços. — O rapaz passou no teste?
— Ele sobreviveu ao jantar com Jamie Fraser — riu Ian. — Acho que isso é prova suficiente de coragem para qualquer homem.
Jamie sentou-se à mesa, olhando para as pessoas que amava. O futuro ainda era um mistério para ele, um mapa cheio de terras desconhecidas e perigos invisíveis. Mas enquanto houvesse música, terra sob seus pés e sua família reunida, Jamie sentia que poderia enfrentar qualquer século.
— Sim — disse Jamie, olhando para Claire e depois para Brianna. — Ele passou. Mas amanhã... amanhã eu vou ensiná-lo a trocar um pneu sem usar aquela máquina de ar. Um homem precisa saber usar as mãos, não importa em que ano viva.
O riso de Claire preencheu a sala, e por um momento, o tempo parou de ser um inimigo ou um fardo. Era apenas o presente, e para os Fraser, isso era tudo o que importava. No coração das Highlands de 1961, o passado e o presente haviam finalmente encontrado um ritmo comum, uma melodia que falava de amor, sobrevivência e a eterna promessa de que, enquanto houvesse um Fraser vivo, o clã nunca morreria.