James Fraser no futuro
O Eco de Lallybroch e as Engrenagens do Amanhã
O sol de 1961 não perdoava a pele clara dos Fraser, mas Jamie sentia que o calor daquela manhã era um aliado. Ele estava de joelhos na terra batida, ao lado do carro de Roger MacKenzie, com as mangas da camisa de linho dobradas até os cotovelos. O jovem historiador observava com uma mistura de admiração e pavor enquanto Jamie explicava, com a paciência de um mestre de obras, como trocar um pneu usando apenas a força bruta e o equilíbrio de uma alavanca de ferro.
— Veja bem, MacKenzie — disse Jamie, limpando o suor da testa com as costas da mão —, as máquinas deste seu tempo são como cavalos de ferro. Elas são rápidas, sim, mas se você não souber como ferrá-las quando o metal se desgasta, elas são apenas um peso morto na beira da estrada.
— Eu entendo, Sr. Fraser — respondeu Roger, tentando segurar a chave de roda com a mesma firmeza que Jamie. — É que, na universidade, geralmente chamamos o serviço de assistência.
Jamie soltou uma risada profunda que pareceu vibrar no solo.
— Assistência? E se você estiver nas colinas, com o vento uivando e Brianna ao seu lado, esperando que o homem dela resolva o problema? Você vai pedir ajuda às fadas ou aos corvos? Um homem deve ser a sua própria assistência, rapaz.
Longe dali, na varanda da casa, Claire observava a cena com um sorriso enviesado. Ela segurava uma xícara de café, sentindo o aroma misturar-se ao cheiro de urze e óleo de motor. Ao seu lado, Jenny Murray cruzava os braços sobre o peito, observando o irmão e o "pretendente" com olhos de falcão.
— Jamie vai acabar quebrando o rapaz antes de ensiná-lo a ser um homem — comentou Jenny, embora houvesse um brilho de aprovação em seu olhar. — Mas admito, Claire... o MacKenzie tem bons ombros. E ele não foge quando Jamie ruge. Isso é raro.
— Ele é mais forte do que parece, Jenny — disse Claire, tomando um gole do café. — Roger tem uma força que vem de dentro. Ele enfrentou o fato de que Jamie é um homem de outro século sem questionar a sanidade de ninguém. Isso exige uma coragem que nem todos os guerreiros possuem.
Jenny bufou, mas não discordou. Ela se virou para a porta da cozinha, onde Ian e o jovem Jamie carregavam sacos de sementes para o novo galpão.
— O mundo aqui é estranho, Claire. Ontem vi Brianna lendo um livro sobre como o homem quer chegar à lua. À lua! Por que alguém iria querer ir a um lugar tão frio e sem vida quando temos as Highlands?
— É a curiosidade humana, Jenny. O desejo de ver o que está além do horizonte. Jamie sempre teve isso, você sabe.
— Jamie sempre teve o desejo de se meter em encrenca — corrigiu Jenny com um sorriso amargo. — Mas veja-o agora. Ele parece... em paz.
Era verdade. Jamie parecia ter encontrado um equilíbrio precário entre a ferocidade do Highlander que fora e a curiosidade do homem que estava se tornando. Ele terminou de apertar os parafusos do pneu e levantou-se, batendo as mãos para tirar a poeira.
— Agora, Roger — disse Jamie, usando o primeiro nome do rapaz pela primeira vez —, vamos ver se você consegue fazer o mesmo no outro lado. Sem minha ajuda.
Roger assentiu, determinado. Enquanto ele se abaixava para começar o trabalho, Brianna saiu de dentro da casa, vestida com calças jeans e uma camisa xadrez, o cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo prático.
— Papai! — chamou ela. — Chegou uma correspondência para você. É um telegrama de Londres.
Jamie franziu a testa. O termo "telegrama" ainda soava para ele como algo urgente e, quase sempre, perigoso. Ele caminhou até a filha e pegou o papel amarelado. Seus olhos percorreram as letras impressas com rapidez.
— O que diz, Jamie? — perguntou Claire, aproximando-se rapidamente.
— É do escritório do advogado que nos ajudou com a terra — Jamie respondeu, a voz ficando subitamente séria. — Parece que Randall-Forester não aceitou a derrota tão facilmente. Ele está contestando a validade dos documentos que encontramos na caverna. Alega que são falsificações modernas feitas com papel antigo.
— Mas isso é ridículo! — exclamou Brianna. — Nós vimos você tirá-los da terra!
— O mundo das leis de 1961 é feito de provas técnicas, Bree — disse Claire, sentindo uma pontada de preocupação. — Se eles pedirem uma análise química da tinta e do papel, e descobrirem que a conservação é "perfeita demais", podem criar um problema.
Roger, que ouvira a conversa, levantou-se e limpou as mãos em um trapo.
— Sr. Fraser, se me permite... como historiador, eu conheço alguns especialistas no Museu Britânico. Homens que sabem distinguir uma falsificação de um documento preservado por condições geológicas específicas. Se Randall-Forester quer uma guerra técnica, podemos dar a ele os melhores aliados.
Jamie olhou para Roger. O rapaz não estava mais apenas tentando "ferrar o cavalo de ferro"; ele estava oferecendo sua própria espada, mesmo que fosse feita de contatos e conhecimento acadêmico.
— Você faria isso, MacKenzie? — perguntou Jamie. — Iria contra um homem de influência em Londres por causa de umas pedras na Escócia?
— Eu iria contra qualquer um pela família de Brianna — respondeu Roger com uma firmeza que silenciou até mesmo Jenny, que se aproximara para ouvir.
Jamie colocou a mão no ombro de Roger, desta vez sem a intenção de testar sua força, mas como um gesto de camaradagem.
— Então prepare suas malas, rapaz. E leve Brianna com você. Se esse Randall quer lutar nas sombras de Londres, ele deve saber que os Fraser não lutam sozinhos.
A decisão foi tomada rapidamente. Enquanto Brianna e Roger se organizavam para a viagem, a casa tornou-se um centro de atividade. Ian e Jenny decidiram que era hora de começar a plantar as primeiras mudas de batata e aveia, um trabalho que os conectava à terra de uma forma que nenhuma disputa legal poderia apagar.
À noite, Jamie e Claire caminharam até o alto da colina, onde as pedras de Craigh na Dun vigiavam o vale. O vento soprava frio, trazendo o cheiro do inverno que se aproximava.
— Você acha que algum dia pararemos de lutar, Sassenach? — perguntou Jamie, envolvendo Claire em seu casaco pesado.
— Acho que a luta faz parte de quem somos, Jamie. Mas olhe para o que construímos aqui em tão pouco tempo. Temos Ian, Jenny, os meninos... e temos Brianna. Ela não é mais uma sombra ou um sonho. Ela é real.
Jamie olhou para as pedras, as superfícies cinzentas brilhando sob a luz da lua.
— Às vezes eu sinto o chamado delas — confessou ele em um sussurro. — Não o desejo de voltar, mas o zumbido. Como se elas estivessem me lembrando de que o tempo é um círculo. Que tudo o que vivemos lá atrás está acontecendo agora, e tudo o que vivemos agora já aconteceu.
— É uma teoria interessante — disse Claire, abraçando-o pela cintura. — Mas eu prefiro pensar que o tempo é um caminho. Às vezes ele se dobra sobre si mesmo, sim, mas nós estamos caminhando para frente. Juntos.
— Juntos — repetiu Jamie, beijando-lhe a testa.
Na manhã seguinte, a partida de Brianna e Roger foi carregada de emoção. Jenny entregou a Brianna um pote de geleia e um amuleto de prata que pertencera à mãe de Jamie.
— Leve isso, menina — disse Jenny. — Londres é um lugar de gente fria e pedras cinzentas. Lembre-se de quem você é.
— Eu lembrarei, tia Jenny — prometeu Brianna, abraçando-a.
Jamie aproximou-se de Roger. O rapaz estava visivelmente nervoso, mas mantinha a postura.
— MacKenzie — disse Jamie —, cuide dela. Se um único fio de cabelo ruivo for tocado por aquele homem ou por qualquer outro...
— Eu sei, Sr. Fraser — interrompeu Roger com um meio sorriso. — O senhor me encontrará, não importa o século.
Jamie sorriu de volta e apertou a mão do rapaz.
— Vá. E traga boas notícias.
Enquanto o carro de Roger desaparecia na estrada, Jamie sentiu um vazio momentâneo, mas foi logo preenchido pela mão de Claire na sua.
— Eles vão ficar bem, Jamie.
— Eu sei que vão. Mas agora, Sassenach, tenho um trabalho a fazer. Ian me disse que o trator que compramos está fazendo um barulho estranho. Ele acha que é um espírito maligno, mas eu acho que é apenas um parafuso solto.
Claire riu, o som ecoando pelas Highlands.
— Um Laird consertando um trator. Quem diria?
— Um homem faz o que deve para manter sua terra — respondeu Jamie com um brilho nos olhos.
Os dias que se seguiram foram de trabalho árduo. Jamie e Ian passavam horas no campo, aprendendo a lidar com as ferramentas modernas, enquanto Jenny e Claire transformavam a cozinha em um laboratório de conservas e remédios. A integração dos Murray e dos Fraser ao século XX não era perfeita — houve incidentes com o forno elétrico e uma tarde inteira perdida tentando entender como funcionava o rádio —, mas havia uma alegria vibrante em cada descoberta.
Certa tarde, enquanto Jamie trabalhava na forja, o jovem Jamie aproximou-se com uma expressão pensativa.
— Tio Jamie? — chamou o rapaz.
— Sim, rapaz?
— Eu estava pensando... se o senhor não tivesse impedido Culloden no passado, nós estaríamos aqui agora?
Jamie parou de bater no metal e olhou para o sobrinho. Era uma pergunta que ele mesmo se fazia nas noites de insônia.
— O destino é como um tecido, Jamie. Se você puxa um fio, o padrão muda. Eu não sei o que teria acontecido, mas sei que a Escócia que deixamos estava viva. E se mudamos a história para que vocês pudessem crescer sem o cheiro de sangue e fumaça em suas portas, então cada minuto de dor valeu a pena.
O rapaz assentiu, satisfeito com a resposta, e voltou para suas tarefas. Jamie, no entanto, permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando as faíscas que saltavam do ferro.
Uma semana depois, o telefone na sala tocou. Claire atendeu, e o som de sua voz alegre trouxe todos para perto.
— É a Brianna! — anunciou ela. — Jamie, Roger conseguiu! Eles apresentaram os documentos a um painel de especialistas. O veredito foi unânime: os papéis são autênticos e a preservação foi explicada pela mineralogia da caverna. Randall-Forester retirou a contestação. Ele sabe que perdeu.
Um grito de triunfo ecoou pela casa. Ian abraçou Jenny, e os meninos começaram a pular. Jamie sentiu um peso imenso sair de seus ombros. A terra era deles. O futuro era deles.
Naquela noite, eles fizeram uma fogueira no pátio. O fogo ardia alto, iluminando os rostos da família reunida. Jamie pegou uma garrafa de uísque — um malte antigo que Claire guardara para uma ocasião especial — e serviu pequenas quantidades para todos, até mesmo para os meninos.
— Um brinde — disse Jamie, levantando seu copo. — À nossa terra, que nos guardou por duzentos anos. À nossa família, que o tempo não pôde destruir. E à Escócia, que é nossa, não importa o ano em que vivamos.
— À família! — responderam todos em uníssono.
Enquanto bebiam, Jamie olhou para Claire. Ela estava linda sob a luz das chamas, o rosto suavizado pela felicidade. Ele percebeu que, embora tivessem perdido vinte anos um do outro, o tempo fora generoso ao devolvê-los em um mundo onde poderiam envelhecer juntos, sem o medo constante da guerra.
— Sassenach — sussurrou ele, aproximando-se dela —, você lembra do que me disse uma vez? Que o amor não conhece o tempo?
— Eu lembro, Jamie.
— Você estava certa. Eu te amei em 1743, te amei enquanto era um fantasma na caverna, e te amo agora, entre essas máquinas e luzes estranhas. Você é o meu lar, Claire. Sempre foi.
Claire encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração firme que batia com a força de um clã inteiro.
— E você é o meu, Jamie. Em qualquer século.
Longe dali, em Londres, Brianna e Roger caminhavam pelas margens do Tâmisa, planejando o retorno para as Highlands. Eles sabiam que o caminho à frente teria desafios — a adaptação final, a restauração completa da fazenda, o mistério contínuo das pedras —, mas não tinham medo. Eles eram herdeiros de uma história que desafiara a própria eternidade.
De volta à fazenda, a fogueira começou a baixar, restando apenas brasas vermelhas que lembravam o brilho de uma forja. Jamie Fraser olhou para o céu estrelado e, pela primeira vez em sua vida longa e turbulenta, ele não sentiu necessidade de vigiar o horizonte em busca de inimigos.
Ele estava em casa. O círculo se completara. E enquanto o eco de Lallybroch vivia em cada palavra gaélica dita ao redor daquela mesa moderna, Jamie sabia que o futuro não era algo a ser temido, mas algo a ser construído, batida por batida, como o ferro sob seu martelo. O Highlander de 1761 tornara-se o patriarca de 1961, e a história, finalmente, pertencia a eles.