James Fraser no futuro
O Batismo de Tinta e o Despertar da Curiosidade
A manhã em Inverness tinha um cheiro diferente daquelas que Jenny Murray conhecia em Lallybroch. Não era apenas o aroma da turfa ou da chuva iminente, mas um odor metálico, de fumaça de canos de escape e de algo que Claire chamava de "asfalto". Jenny ajustou o xale sobre os ombros, sentindo-se estranhamente exposta naquele vestido de algodão que Claire lhe emprestara — uma peça que terminava pouco abaixo dos joelhos e que a fazia sentir como se tivesse esquecido metade das suas roupas em casa.
— Eu me sinto uma desavergonhada, Ian — sussurrou ela, apertando o braço do marido enquanto caminhavam em direção ao grande prédio de tijolos vermelhos. — Olhe para essas mulheres. Elas andam como se não tivessem um pingo de recato. E essas calças... Pelos ossos de São Columba, parece que o mundo virou do avesso.
Ian Murray, caminhando com a ajuda de sua nova bengala de metal leve — um presente de Brianna que ele considerava uma maravilha da engenharia —, soltou uma risada curta.
— Ora, Jenny, você sobreviveu a casacas-vermelhas e a Invernos que congelariam o próprio inferno. Vai se deixar abater por um pouco de tornozelo à mostra? Além disso, olhe para os meninos. Eles parecem prontos para conquistar o castelo.
À frente deles, o jovem Ian e o pequeno Jamie caminhavam com mochilas de lona nas costas, um acessório que Brianna insistira que era essencial para "estudantes modernos". O jovem Ian, agora com quase dezesseis anos, tentava manter uma postura de indiferença, mas seus olhos brilhavam com uma curiosidade feroz. O pequeno Jamie, por outro lado, saltitava, fascinado pela quantidade de bicicletas estacionadas perto do portão.
— Claire disse que aqui eles não batem nos alunos com varas de salgueiro — comentou o pequeno Jamie, olhando para o prédio com desconfiança. — Ela disse que os professores usam giz e quadros negros.
— Se eles não usarem a disciplina, vocês não aprenderão nada — resmungou Jenny, embora seu coração estivesse batendo forte de ansiedade. — Mas Claire garantiu que este lugar, a Academia de Inverness, é o melhor para que vocês entendam este século. Se vamos viver aqui, vocês precisam saber ler os mapas de papel e entender as máquinas de calcular.
Eles atravessaram o portão principal e foram recebidos pelo som cacofônico de centenas de crianças e adolescentes correndo e gritando. Para quem crescera no silêncio das colinas, o barulho era quase físico.
— É como um campo de batalha, mas sem as espadas — observou o jovem Ian, parando diante da porta principal.
Lá dentro, Claire os esperava. Ela estava impecável em seu traje de médica, uma figura de autoridade e calma que servia de âncora para a família deslocada no tempo. Ao seu lado, um homem de meia-idade com óculos de aros grossos e um terno cinza segurava uma prancheta.
— Jenny, Ian! Que bom que chegaram — disse Claire, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Jenny. — Este é o Sr. Henderson, o diretor. Eu já expliquei a ele que vocês vieram de uma zona rural muito... isolada das Highlands e que o ensino dos meninos foi feito em casa até agora.
— Isolada é uma palavra gentil, Dra. Randall — disse o Sr. Henderson, estendendo a mão para Ian. — É um prazer receber novos alunos. Temos muitos rapazes da região, mas o sotaque de vocês... é fascinante. Parece quase arcaico.
Ian apertou a mão do homem com firmeza, a força de anos de trabalho no campo quase fazendo o diretor recuar.
— Somos homens de poucas palavras, senhor — disse Ian com sua voz calma e profunda. — Mas meus filhos são trabalhadores. Eles sabem o valor do esforço. Só precisam entender como o mundo funciona agora.
— Muito bem. — O Sr. Henderson gesticulou para que entrassem na secretaria. — Precisamos preencher os formulários de matrícula. Nomes completos, datas de nascimento e histórico de vacinação.
Jenny sentiu um nó na garganta. "Datas de nascimento". Como explicar que o jovem Ian nascera em 1745? Claire, percebendo o pânico nos olhos da cunhada, interveio rapidamente.
— Eu já preparei toda a documentação, Sr. Henderson. Como sou a guardiã legal deles aqui na cidade, cuidei dos registros de saúde e das certidões.
Jenny observou Claire entregar uma pasta cheia de papéis que pareciam oficiais, com carimbos e assinaturas que Jamie e Claire haviam conseguido através de meios que Jenny preferia não questionar. Para ela, aquilo era uma forma de magia moderna: transformar uma mentira necessária em uma verdade de papel.
— Bem, Ian Murray Junior e James Murray — leu o diretor, anotando na prancheta. — Vocês serão colocados em turmas de nivelamento inicialmente, para que possamos avaliar o conhecimento de vocês em matemática e ciências modernas.
— O que são ciências modernas? — perguntou o pequeno Jamie, os olhos arregalados.
— Ah, rapaz, você vai aprender sobre eletricidade, sobre como o corpo humano funciona e até sobre o espaço sideral — respondeu o Sr. Henderson com um sorriso paternal.
Jenny cruzou os braços, sentindo uma pontada de ciúme.
— O corpo humano funciona pela vontade de Deus e um pouco de canja de galinha quando se está doente — murmurou ela, mas um olhar de advertência de Claire a fez calar-se.
Enquanto os meninos eram levados por uma inspetora para conhecerem as salas de aula, Jenny e Ian permaneceram no corredor, sentindo-se subitamente vazios sem a presença constante dos filhos.
— Eles vão ficar bem, Jenny — disse Claire, aproximando-se. — Brianna prometeu vir buscá-los à tarde e levá-los para tomar um sorvete.
— Sorvete — repetiu Jenny, balançando a cabeça. — Outra invenção deste século para deixar as crianças mimadas. No meu tempo, o único gelo que conhecíamos era o que tínhamos que quebrar no balde para dar de beber aos animais.
— O mundo é mais gentil agora, Jenny — disse Ian, colocando a mão nas costas da esposa. — Pelo menos para as crianças. Não há guerra no horizonte, não há fomes que dizimam vilas inteiras. Se o preço para isso é um pouco de sorvete e livros coloridos, eu pago com alegria.
Eles começaram a caminhar pelos corredores da escola. Jenny parava diante de cada cartaz, maravilhada com as cores e a perfeição das letras impressas. Ela parou diante de uma sala de aula cuja porta estava entreaberta. Lá dentro, uma professora escrevia em um quadro negro com uma facilidade que Jenny achava hipnotizante.
— Olhe para isso, Ian — sussurrou ela. — Ela escreve como se as palavras estivessem vivas. E as crianças... elas têm livros só para elas. Cada uma delas!
— Brianna me disse que aqui todos têm direito a aprender — comentou Ian, observando os globos terrestres e os mapas pendurados nas paredes. — Não é como em nosso tempo, onde o saber era guardado pelos lairds ou pelos padres.
De repente, o som de um sinal estridente ecoou por todo o prédio. Jenny deu um pulo, quase caindo nos braços de Ian.
— Pelos santos! O que foi isso? Um alarme de incêndio?
— É apenas o sinal para a troca de aulas, Jenny — explicou Claire, rindo baixo. — Significa que uma hora acabou e outra vai começar. Tudo aqui é cronometrado.
— Cronometrado — resmungou Jenny. — Como se pudéssemos colocar o tempo em uma caixa e dizer a ele quando correr. Jamie sempre disse que você era uma mulher que vivia pelo relógio, Claire. Agora entendo por quê.
Ao chegarem ao pátio externo, viram um grupo de rapazes jogando futebol. O jovem Ian estava parado em um canto, observando a bola de couro ser chutada de um lado para o outro. Um dos meninos, um ruivo alto que lembrava vagamente um jovem Jamie Fraser, chutou a bola na direção de Ian.
— Ei, novato! — gritou o rapaz. — Sabe chutar ou só sabe ficar parado olhando para o sol?
O jovem Ian olhou para a bola a seus pés. Ele nunca vira nada parecido, mas o instinto de um Highlander era sempre o de responder a um desafio. Ele deu um chute forte, enviando a bola diretamente para as mãos do goleiro do outro lado do campo.
— Nada mal! — gritou o outro rapaz. — Venha jogar!
Jenny sentiu um aperto no peito ao ver o filho correr para o meio dos outros meninos. Ele parecia pertencer ali, apesar das roupas estranhas e do fato de ter nascido duzentos anos antes daqueles garotos.
— Ele vai se adaptar mais rápido do que nós, Ian — disse Jenny, a voz embargada. — Ele já está falando como eles, correndo como eles.
— Isso é bom, Jenny — respondeu Ian, apertando a mão dela. — Significa que ele tem um futuro. Um futuro de verdade, sem sombras.
Eles caminharam de volta para o carro de Claire, um veículo que Jenny ainda tratava com a mesma cautela que reservaria a um dragão adormecido. Enquanto Claire manobrava para sair do estacionamento, Jenny olhou para trás, para o prédio da escola.
— Claire — chamou ela —, você disse que existem escolas para adultos também, não disse?
Claire olhou para ela pelo retrovisor, surpresa.
— Sim, Jenny. Existem cursos noturnos, bibliotecas públicas... Por quê?
Jenny endireitou as costas, um brilho de determinação em seus olhos escuros.
— Se meus filhos vão aprender sobre o espaço e sobre as máquinas de calcular, eu não vou ficar para trás. Eu quero saber o que o mundo andou fazendo enquanto eu estava em Lallybroch. Quero entender como este século funciona para que ninguém possa enganar os Murray.
Ian sorriu, um sorriso cheio de orgulho.
— Eu disse a você, Claire. Minha Jenny nunca foi de ficar sentada enquanto o mundo passa por ela.
— Então está decidido — disse Claire, radiante. — Vou levar você à biblioteca central amanhã. Brianna pode ajudar com os livros de história moderna.
— História moderna — murmurou Jenny, olhando para as ruas de Inverness passando pela janela. — Para nós, Claire, a história é o que deixamos para trás. Mas aqui... aqui parece que a história é o que estamos construindo agora.
Ao chegarem em casa, Jamie as esperava no jardim, trabalhando em uma cerca de madeira com ferramentas que Brianna lhe trouxera. Ele levantou os olhos e sorriu ao ver a família reunida.
— E então? — perguntou Jamie, limpando o suor da testa. — Os meninos foram devorados pelos professores ou eles é que devoraram os livros?
— Eles estão jogando futebol, Jamie — respondeu Ian, descendo do carro com dificuldade, mas com um brilho nos olhos. — E o jovem Ian já fez um amigo.
— Futebol? — Jamie franziu a testa. — É aquele jogo onde homens correm atrás de uma bexiga de couro? Eu vi na televisão ontem. Parece um desperdício de energia, a menos que haja uma aposta envolvida.
— É mais do que isso, Jamie — disse Jenny, descendo do carro e caminhando até o irmão. — É o começo de uma vida nova. E eu decidi que também vou estudar.
Jamie soltou uma gargalhada, jogando a cabeça para trás.
— Você, Jenny? Estudando? Vai ensinar aos professores como se administra uma propriedade ou como se coloca um irmão teimoso no lugar dele?
— Vou aprender a ler os jornais deste tempo, James Fraser. E vou aprender sobre o tal "espaço sideral". Se os homens podem ir à lua, eu certamente posso aprender a entender o que aconteceu com a Escócia nestes últimos duzentos anos.
Jamie parou de rir e olhou para a irmã com uma seriedade profunda. Ele colocou a mão no ombro dela, o mesmo gesto que fizera tantas vezes em Lallybroch antes de uma batalha ou de uma partida.
— Você sempre foi a pessoa mais inteligente que eu conheci, Jenny. Se há alguém que pode conquistar este século, esse alguém é você.
Naquela noite, a casa dos Fraser estava cheia de uma energia nova. Brianna trouxera os meninos da escola, e eles não paravam de falar sobre as canetas que escreviam sozinhas (esferográficas), sobre os mapas que mostravam o mundo inteiro e sobre a comida da cantina, que o pequeno Jamie descreveu como "estranha, mas comestível".
Jenny sentou-se à mesa com um dos livros de Brianna, passando os dedos pelas páginas brancas e lisas. Ela olhou para Ian, que polia sua nova bengala de metal, e para Jamie e Claire, que conversavam em voz baixa perto da lareira.
— Ian — sussurrou ela.
— Sim, Jenny?
— Eu estava com medo. Quando atravessamos aquelas pedras, achei que tínhamos morrido e ido para um purgatório barulhento. Mas hoje, na escola... vi que o conhecimento é a única coisa que não envelhece.
— Você está certa, minha querida — disse Ian, pegando a mão dela. — O tempo pode ter mudado, mas o coração dos Murray ainda bate forte.
Jenny abriu o livro. A primeira página tinha uma ilustração do sistema solar. Ela não entendia nada daquilo ainda, mas sentia que, pela primeira vez desde que chegara a 1961, ela não era mais uma estrangeira fugindo do passado. Ela era uma estudante do futuro.
— Olhe, Ian — disse ela, apontando para o sol no centro da página. — Claire diz que a Terra gira em torno disso. Parece loucura, não parece?
— Parece — admitiu Ian. — Mas se Claire diz, e se o livro diz, quem somos nós para duvidar?
— Pois eu vou descobrir por que ela gira — declarou Jenny, fechando o livro com firmeza. — E depois vou ensinar ao Jamie. Ele sempre foi meio lento para entender as coisas que não envolvem espadas.
O riso de Ian ecoou pela sala, misturando-se ao som do rádio que Brianna ligara e ao murmúrio constante de uma família que, apesar de ter perdido seu tempo, finalmente encontrara seu lugar. O batismo de tinta fora concluído, e para Jenny Murray, o século XX acabara de se tornar muito menor e muito mais interessante.