Jujutsu kaisen juai 2
O Crepúsculo das Almas Partidas
O ar na casa na árvore estava pesado, saturado com o cheiro de ozônio e madeira úmida. Hitoshi sentia o peso do segredo esmagando seus pulmões a cada respiração. Ele havia tentado se limpar, esfregado a pele até que ficasse vermelha no banho da escola, mas sabia que, para um ser feito de essência espiritual e percepção de almas, esconder o rastro de outro humano era como tentar esconder o sol com a mão.
Mahito estava sentado no canto, as pernas cruzadas, brincando distraidamente com um pedaço de arame que ele transfigurava em formas grotescas e depois voltava ao normal. Quando Hitoshi subiu o último degrau, a maldição não sorriu. Seus olhos heterocromáticos se fixaram no feiticeiro com uma intensidade cirúrgica.
— Você está com um cheiro diferente, Hitoshi-kun — disse Mahito, a voz desprovida de sua habitual leveza infantil.
Hitoshi sentiu um calafrio, mas manteve a expressão gélida, a máscara de ruivo indiferente que ele usava como armadura.
— Eu estive treinando. O suor e o esforço têm esse efeito nos humanos.
Mahito levantou-se em um movimento fluido, como uma sombra se alongando. Ele se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Hitoshi, e inclinou o rosto para o pescoço do rapaz, aspirando profundamente.
— Não é suor. É o receptáculo. O cheiro do Itadori está impregnado na sua alma, não apenas na sua pele. É um cheiro de... aceitação. De algo doce e nojento.
Hitoshi deu um passo para trás, o coração martelando.
— O Itadori é assim, Mahito. Ele é grudento, vive encostando nas pessoas, abraçando. É típico dele. Não significa nada.
Mahito parou. Seus olhos se arregalaram levemente e, por um instante, a maldição pareceu processar uma informação que não fazia parte de sua lógica de destruição. Ele sentiu algo. Não era uma emoção humana, era algo mais primitivo e devastador. Foi como se uma corda esticada dentro de sua essência se rompesse com um estalo seco. Um vazio súbito, uma pontada no peito que ele não sabia nomear.
Sem dizer uma palavra, Mahito se transformou. Suas costas expeliram asas membranosas e, em um borrão de velocidade que fez a casa na árvore tremer, ele saltou pela janela, desaparecendo na densidão da floresta como um espectro em fuga.
Hitoshi ficou sozinho, tremendo. A raiva começou a suplantar o medo. Raiva de Mahito por ser uma criatura impossível, raiva de si mesmo por ser tão fraco, e raiva de Itadori por ser tão... bom.
Ao retornar para a escola técnica, a tensão de Hitoshi explodiu. Ele caminhava pelo pátio quando Yuuji o avistou e acenou, vindo em sua direção com aquela preocupação genuína que agora irritava Hitoshi profundamente.
— Hitoshi! Você sumiu de novo, eu estava pensando se a gente podia...
— Dá para você me deixar em paz por um maldito segundo, Itadori? — rugiu Hitoshi, parando bruscamente. — Você é sufocante! Fica agindo como se fôssemos algo, como se você pudesse me salvar de alguma coisa. Eu não pedi sua caridade emocional!
Yuuji recuou, o choque estampado no rosto.
— Eu... eu só queria saber se você estava bem, Hitoshi. Eu me importo com você.
— Pois pare de se importar! — Hitoshi deu um passo à frente, os olhos vermelhos brilhando com uma fúria depressiva. — Você é só um garoto brincando de herói. Eu não sou um dos seus problemas para você resolver!
— Já chega, Konami. — A voz de Megumi Fushiguro surgiu, fria e cortante. Ele se colocou entre Yuuji e Hitoshi, os olhos semicerrados. — O Itadori só está tentando ser legal. Não desconte suas frustrações nele só porque você não sabe lidar com o que sente.
— Ah, o protetor chegou — debochou Hitoshi, embora sua voz estivesse falhando. — Vocês dois se merecem. Fiquem na bolha de vocês e me esqueçam.
Hitoshi deu as costas aos dois, sentindo o olhar de mágoa de Yuuji queimar suas costas. Ele correu para o seu dormitório e trancou a porta. O silêncio do quarto era opressor. Ele se sentou no chão e, usando sua técnica de manipulação de sentimentos, buscou aquele fio invisível que o ligava a Mahito — o acordo, a conexão distorcida que haviam criado. Com um esforço mental violento, Hitoshi visualizou o vínculo e o cortou.
A quilômetros dali, em um prédio abandonado, Mahito caiu de joelhos. O corte da conexão foi como uma amputação espiritual. Ele levou as mãos ao peito, sentindo uma pressão insuportável. Seus olhos, que nunca haviam conhecido a umidade do pesar, começaram a transbordar. Líquido salgado escorreu por suas cicatrizes.
— O que é isso? — murmurou Mahito, a voz quebrada. — Dói... por que dói tanto se eu não fui ferido?
Ele soluçou, um som estranho e inumano, escondendo o rosto entre as mãos para que nem mesmo as sombras de Kenjaku pudessem ver sua fraqueza. A maldição que desprezava os humanos acabara de descobrir a forma mais pura de sofrimento humano: o abandono.
O dia na escola arrastou-se como um funeral. No fim da tarde, uma batida suave soou na porta de Hitoshi. Eram Yuuji e Megumi. O clima entre eles era pesado, mas não havia mais raiva.
— Hitoshi? — Yuuji chamou. — A gente conversou. O Megumi e eu.
Hitoshi abriu a porta, o rosto inchado e os olhos vazios.
— O que vocês querem?
— A gente gosta de você — disse Yuuji, direto, embora suas bochechas estivessem coradas. — E eu gosto do Megumi. A gente pensou que... talvez, pudéssemos tentar algo. Nós três. Um trisal. Você não precisa escolher, e nem precisa ficar sozinho.
Megumi assentiu levemente, embora parecesse desconfortável com a exposição emocional.
Hitoshi olhou para eles, para a oferta de um porto seguro, de um amor que ele tanto desejara um dia. Mas ele sentiu o peso das marcas em seu corpo, o cheiro de Mahito que ainda parecia impregnado em sua alma, e a escuridão que cultivara por tanto tempo.
— Eu não posso — disse Hitoshi, a voz sem vida. — Eu já amei você, Megumi. E eu amo você, Yuuji. Mas eu sou um erro. Eu não me encaixo na luz de vocês. Eu só... eu só quero ficar sozinho. Por favor, vão embora.
Yuuji parecia que ia chorar novamente, mas Megumi colocou a mão no ombro do amigo e o puxou gentilmente. Eles se retiraram, deixando Hitoshi no vácuo de sua própria escolha.
Sozinho, Hitoshi caminhou até sua escrivaninha. Ele abriu a gaveta e retirou uma adaga pequena, de lâmina fria e afiada. Era um objeto de sua adolescência, um hábito que ele pensou ter enterrado junto com seus piores dias. Ele olhou para o metal, vendo seu reflexo distorcido.
Na manhã seguinte, Hitoshi caminhava pelo refeitório com as mangas do uniforme devidamente abaixadas. Nobara Kugisaki, sua prima, estava sentada em uma mesa próxima. Quando Hitoshi esticou o braço para pegar uma bandeja, a manga subiu levemente, revelando as bandagens brancas e novas em seu antebraço.
Nobara congelou. Seus olhos se fixaram no branco impecável do curativo que escondia a dor autoinfligida. Ela abriu a boca para dizer algo, mas a garganta fechou. Ela desviou o olhar rapidamente, segurando o choro que ameaçava transbordar, sentindo a impotência de ver o primo se afogar em si mesmo.
Mais tarde, Satoru Gojo o interceptou no corredor. O mestre não tinha seu habitual sorriso brincalhão.
— Konami. Vamos conversar?
Eles foram para o terraço. O vento soprava forte, balançando os cabelos de Hitoshi.
— Eu não tenho nada para dizer, Gojo-sensei. É apenas o azar que me persegue. Eu sou um ímã para coisas ruins.
Gojo suspirou, olhando para o horizonte.
— Eu sei que tivemos nossos momentos estranhos no passado, Hitoshi. Eu sei que projetei coisas em você que não eram suas. E você foi forte o suficiente para me recusar.
Hitoshi não respondeu. A lembrança de Gojo tentando encontrar o fantasma de Geto nele ainda era uma ferida aberta.
— Mas escute — continuou Gojo, a voz séria. — Você não é o seu azar. Meus alunos gostam de você. Eu me importo com você. Não deixe a escuridão vencer agora. Você tem pessoas que querem te segurar, se você deixar.
— É tarde demais para deixar, sensei — murmurou Hitoshi, olhando para as próprias mãos.
Gojo colocou a mão no ombro do rapaz, um gesto de respeito mútuo e proteção, mas sentiu a rigidez do corpo de Hitoshi.
Enquanto a conversa morria no terraço, em algum lugar nas sombras da cidade, Mahito permanecia encolhido. A maldição não brincava mais, não ria, não transfigurava. Ele apenas existia no silêncio, sentindo o eco do vínculo rompido, aprendendo que o prazer que Hitoshi lhe ensinara tinha um preço que ele nunca imaginou pagar: a solidão absoluta de uma alma que, pela primeira vez, se sentia partida.