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Jujutsu kaisen juai 2

O Eclipse da Alma em Shibuya

O cenário de Shibuya era o próprio inferno manifestado na Terra. O cheiro de metal queimado, poeira de concreto e o odor acre de sangue fresco pairavam sobre o que antes era o centro pulsante de Tóquio. Hitoshi Konami corria entre os escombros, seus olhos vermelhos agora injetados de sangue pelo esforço e pela falta de sono. Ele lutava ao lado de Megumi e Itadori, movendo-se como uma sombra letal entre as maldições menores, mas sua mente estava em outro lugar. Gojo fora selado. O equilíbrio do mundo havia colapsado.

Hitoshi sentia um vazio no peito que nada tinha a ver com a batalha. Desde que cortara o vínculo com Mahito, ele sentia como se uma parte de sua própria alma tivesse sido arrancada. Ele tentava se convencer de que era o certo, que sua lealdade pertencia a Yuuji e aos seus companheiros, mas a dor da ausência de Mahito era uma tortura constante, mais profunda do que qualquer corte que a maldição já lhe infligira.

De repente, o ar vibrou. Uma pressão esmagadora de energia amaldiçoada emanou de uma das plataformas inferiores. Hitoshi sentiu o rastro imediatamente. Era ele.

Ao chegar ao local, a cena era de puro caos. Yuuji Itadori, com o rosto desfigurado pela fúria e pelo luto, e Aoi Todo, o colosso de Quioto, estavam encurralando Mahito. A maldição retalhada parecia mais monstruosa do que nunca, uma forma evoluída de puro instinto assassino, mas ele estava ferido. Suas gargalhadas infantis haviam dado lugar a grunhidos de esforço.

Hitoshi parou no topo de uma viga retorcida, observando. Ele viu o momento exato em que Yuuji concentrou toda a sua dor e ódio em seu punho. O ar ao redor do receptáculo de Sukuna começou a estalar com faíscas negras. O Black Flash estava vindo. Seria o fim de Mahito.

— Agora, Mahito! — gritou Yuuji, sua voz rasgando a garganta.

O tempo pareceu congelar para Hitoshi. Ele viu Mahito, exausto, olhando para a morte iminente. Naquele milésimo de segundo, todas as lições de moral, toda a lealdade à Escola Jujutsu e todo o esforço para ser "bom" evaporaram. O instinto masoquista, o amor distorcido e a necessidade de proteger sua perdição falaram mais alto.

Hitoshi saltou.

Ele se interpôs entre Yuuji e Mahito no exato momento em que o golpe seria desferido. Mas ele não apenas bloqueou. Ele expandiu sua própria essência.

— Expansão de Domínio: Jardim das Lamentações Silenciosas! — A voz de Hitoshi ecoou, não como um grito, mas como um sussurro fúnebre que dominou o ambiente.

O mundo ao redor deles se transformou. O concreto cinzento de Shibuya deu lugar a um campo infinito de flores pálidas, quase brancas, sob um céu perenemente nublado. Era o cenário dos dias que eles passavam juntos na casa na árvore, os dias em que o sol não brilhava e o mundo parecia pertencer apenas aos dois.

Dentro do domínio, Todo e Itadori foram momentaneamente repelidos pela barreira, deixando Hitoshi e Mahito sozinhos no centro do campo de flores. Mahito caiu de joelhos, voltando à sua forma mais humana, ofegante.

— Hitoshi...? — Mahito murmurou, os olhos heterocromáticos arregalados. — O que você...

— Silêncio, Mahito — disse Hitoshi, caminhando até ele. As flores murchavam por onde o feiticeiro passava. — Este é o peso da alma.

A técnica de Hitoshi atingiu Mahito com força total. Diferente de outras expansões, a dele não buscava a destruição física imediata, mas a sobrecarga emocional. Mahito, que sempre brincou com as almas alheias, foi subitamente inundado por cada gota de dor que já causara. Ele sentiu o terror de Junpei, a agonia de Nobara, os gritos das milhares de pessoas que transfigurara em Shibuya. Mas, acima de tudo, ele sentiu a dor de Hitoshi. A depressão, o vazio, o masoquismo e a agonia de ter sido abandonado e de ter abandonado.

Mahito arqueou as costas, gritando de uma forma que nunca gritara antes. Não era um grito de dor física, mas o som de uma alma sendo esmagada pelo próprio peso.

Hitoshi ajoelhou-se diante dele, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto pálido.

— Eu te amo, Mahito — confessou Hitoshi, sua voz quebrada pela primeira vez. — Eu sempre amei. Eu tentei escolher meus amigos, tentei ser o feiticeiro que eles queriam que eu fosse... mas eu não consigo. Eu sinto muito por ter te deixado. Eu não queria ter feito aquilo.

Mahito olhou para ele através do véu de agonia, as mãos cravadas na terra do domínio.

— Hitoshi... — a maldição tentou falar, mas o peso do domínio era esmagador.

— Você me perdoa agora? — perguntou Hitoshi, estendendo a mão para tocar o rosto retalhado. — Você pode me perdoar por tentar ser humano?

Antes que Mahito pudesse responder, o céu nublado do domínio rachou.

Um estrondo negro e vermelho rompeu a barreira. Yuuji Itadori, impulsionado por uma vontade que transcendia os limites humanos, atravessou a Expansão de Domínio. O Black Flash que estava destinado a Mahito encontrou um novo alvo.

O punho de Yuuji atravessou o peito de Hitoshi.

O impacto foi tão violento que o domínio começou a colapsar instantaneamente. O campo de flores derreteu em um lodo escuro, o céu nublado tornou-se um vermelho sangrento e o ar tornou-se irrespirável.

— Hitoshi! — Yuuji gritou, seus olhos arregalados ao perceber o que fizera. Mas era tarde demais. O golpe fora mortal.

Hitoshi cuspiu uma golfada de sangue, caindo para trás. O domínio se dissipou por completo, devolvendo-os ao chão frio e sujo de Shibuya.

Mahito, subitamente livre do peso da técnica, rastejou até o corpo de Hitoshi. O choque da dor que sentira no domínio ainda o fazia tremer, mas ver Hitoshi imóvel, com um buraco no peito, causou algo pior. Ele começou a soluçar, um som engasgado e desesperado.

— Não... não, não! — Mahito agarrou o corpo de Hitoshi, tentando fechar a ferida com as mãos, mas sua técnica de Transfiguração Ociosa não podia curar danos daquela magnitude em outros sem distorcê-los. — Hitoshi, volta! Eu te perdoo! Eu te perdoo, seu idiota! Acorda!

Yuuji estava parado a poucos metros, o braço ainda estendido, coberto pelo sangue de seu amigo. Seu olhar era frio, morto, as pupilas reduzidas a pontos mínimos. Ele queria chorar, queria gritar por ter matado a única pessoa que tentara salvar, mas o trauma de Shibuya o transformara em uma casca vazia.

— Ele escolheu você — disse Yuuji, sua voz saindo como um sussurro de ultratumba. — Ele morreu por um monstro.

Mahito olhou para Yuuji com um ódio que superava qualquer maldade que ele já sentira. Ele tentou se levantar para atacar, mas seu corpo estava no limite. Ele tropeçou, caindo com Hitoshi nos braços.

— Eu vou levar ele — sibilou Mahito, tentando arrastar o corpo de Hitoshi para longe. — Você não vai tocar nele de novo.

Yuuji não se moveu. Ele apenas observou, com um olhar de quem já viu o mundo acabar tantas vezes que uma morte a mais não fazia diferença. Ele deu as costas e começou a caminhar na direção oposta, deixando a maldição e o cadáver do feiticeiro para trás.

Mahito arrastou-se até um beco escuro, exausto, sentindo sua própria energia esvair-se. Ele sabia que Kenjaku estava por perto, esperando para absorvê-lo. Ele estava perdido.

— Então... é assim que termina? — murmurou Mahito, abraçando o corpo frio de Hitoshi. — Eu finalmente entendi o que é ser humano... e agora não sobrou nada.

— Não precisa terminar assim.

Mahito levantou a cabeça bruscamente. Diante dele, flutuando nas sombras, estava uma figura bizarra. Tinha a forma de um cubo mágico flutuante, mas com um olho gigante e amarelado no centro, que girava freneticamente.

— Quem é você? — rosnou Mahito, tentando proteger Hitoshi.

— Eu sou Jaakuna — respondeu a entidade. A voz parecia vir de mil direções ao mesmo tempo. — Eu sou a maldição nascida do medo que os humanos têm dos feiticeiros. O medo daquele poder que eles não entendem.

O olho fixou-se no corpo de Hitoshi.

— Você quer que ele seja salvo, Mahito?

Mahito não hesitou. O orgulho de ser uma maldição superior, o desejo de evolução, tudo fora substituído por uma necessidade desesperada de ver aqueles olhos vermelhos se abrirem novamente.

— Sim. Salve ele. Faça o que for preciso.

— O preço é alto — disse Jaakuna, o cubo girando mais rápido. — Eu preciso de uma parte substancial da sua essência. Você ficará fraco, vulnerável. Talvez nunca recupere sua forma completa.

— Pegue tudo! — gritou Mahito. — Só não deixe ele morrer!

Jaakuna aproximou-se. Tentáculos de energia negra saíram do cubo, conectando-se ao peito de Mahito e, simultaneamente, à ferida aberta de Hitoshi. Mahito sentiu uma dor agonizante enquanto sua energia era drenada, mas ele não desviou o olhar.

Lentamente, a carne no peito de Hitoshi começou a se regenerar. As veias voltaram a pulsar, e a cor retornou às suas bochechas pálidas.

Nesse exato momento, Kenjaku surgiu das sombras, com seu sorriso enigmático e o corpo de Geto Suguru.

— Ora, ora... o que temos aqui? — disse Kenjaku, aproximando-se para consumir Mahito, que agora estava enfraquecido e entregue.

Mas Jaakuna, tendo terminado o processo de cura, brilhou com uma intensidade ofuscante. Em um movimento calculado, a maldição do cubo se lançou contra Kenjaku.

— Você queria uma maldição poderosa para seus planos, não é? — a voz de Jaakuna ecoou. — Pois pegue a mim.

Kenjaku, surpreso pela manobra, não teve tempo de reagir antes que Jaakuna se forçasse para dentro de sua técnica de manipulação. O vilão riu, aceitando a troca.

— Interessante. Uma maldição de conceito tão puro... você servirá bem para o Jogo do Abate.

Enquanto Kenjaku se distraía com a absorção de Jaakuna, Mahito usou o último resquício de força que lhe restava. Ele pegou Hitoshi, que agora respirava suavemente, embora ainda inconsciente, e desapareceu pelas sombras dos túneis de metrô, fugindo de Shibuya, fugindo de Kenjaku e fugindo do destino que parecia selado.

Longe dali, em um esconderijo seguro nos arredores da cidade, o sol começava a nascer sobre um novo mundo de caos. O Jogo do Abate estava prestes a começar.

Hitoshi abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que viu foi o rosto retalhado de Mahito, que parecia mais cansado e humano do que nunca.

— Você voltou... — sussurrou Mahito, encostando a testa na dele.

Hitoshi sentiu a cicatriz em seu peito, um lembrete permanente de que ele morrera por amor e renascera por um sacrifício.

— Onde estamos? — perguntou Hitoshi, a voz fraca.

— Longe de tudo — respondeu Mahito, segurando sua mão com força. — Agora, somos apenas nós. Em um mundo que está desmoronando, mas estamos juntos.

Hitoshi fechou os olhos novamente, sentindo o calor da mão de Mahito. A batalha de Shibuya terminara, mas para eles, a verdadeira luta pela sobrevivência em um mundo de sombras estava apenas começando. Eles não eram mais feiticeiro e maldição; eram apenas duas almas quebradas, caminhando de mãos dadas em direção ao fim de todas as coisas.

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