Jujutsu kaisen juai 2
O Eco do Sangue e o Peso da Alma
Hitoshi Konami abriu os olhos e a primeira coisa que sentiu foi o peso do ar. Não era o ar frio e purificado da Escola Jujutsu, nem o cheiro de mofo da casa na árvore; era um odor metálico, denso, misturado com o cheiro de terra molhada e a energia residual de uma cura forçada. Suas pálpebras pesavam, e cada batida de seu coração ecoava em seus ouvidos como um tambor de guerra.
Ao seu lado, Mahito estava sentado, observando-o. O rosto da maldição estava diferente. Não havia mais aquela alegria sádica e maníaca que costumava iluminar seus olhos heterocromáticos. Ele parecia... gasto. Suas cicatrizes pareciam mais profundas, e a energia que emanava dele era apenas uma fração do que fora um dia.
— Por que você fez isso? — A voz de Hitoshi saiu rouca, uma vibração seca que arranhou sua garganta.
Mahito inclinou a cabeça, um gesto que outrora seria infantil, mas que agora carregava uma gravidade sombria.
— Você ia morrer, Hitoshi-kun. Eu não podia deixar a sua alma se apagar.
Hitoshi tentou se levantar, mas uma dor lancinante atravessou seu peito, exatamente onde o punho de Yuuji o havia perfurado. Ele soltou um gemido de agonia e caiu de volta contra o chão frio.
— Era exatamente isso que deveria ter acontecido! — gritou Hitoshi, a raiva borbulhando em meio à dor. — Eu deveria estar morto, Mahito! Eu escolhi aquele fim. Eu me joguei na frente daquele golpe para que tudo acabasse. Agora eu estou aqui, vivo, e vou ter que carregar cada maldita escolha que fiz. Vou ter que lembrar do rosto do Itadori quando ele percebeu que me matou... e de como eu traí todo mundo.
Mahito soltou um suspiro longo, algo que Hitoshi nunca o vira fazer com tanta sinceridade.
— Esqueça os humanos, Hitoshi. Esqueça o Itadori, o Fushiguro e até aquela garota de cabelo castanho que você tanto olhava. Eles fazem parte de um mundo que não te pertence mais.
Hitoshi parou, o ar congelando em seus pulmões. Ele fixou os olhos vermelhos nos de Mahito, uma suspeita terrível crescendo em seu peito.
— A garota de cabelo castanho...? Você está falando da Nobara? Você a viu em Shibuya?
Mahito desviou o olhar por um breve segundo, mas logo voltou a encarar o feiticeiro com uma frieza renovada.
— Eu a transfigurei. Ela parecia ser alguém muito importante para o receptáculo do Sukuna. Eu queria ver a alma dele quebrar, e ela foi a ferramenta perfeita.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração errática de Hitoshi. De repente, ele avançou, ignorando a dor no peito, e agarrou a gola da roupa de Mahito, sacudindo-o com uma força que não deveria ter.
— Ela era minha prima, seu desgraçado! — berrou Hitoshi, as lágrimas de ódio escorrendo livremente. — Nobara era a única família real que eu tinha naquele lugar! Ela era tudo para mim, a única que entendia o peso de carregar o nome Konami e a responsabilidade de ser um feiticeiro. E você a destruiu? Eu nem sei se ela está viva ou se é apenas um daqueles seus monstros deformados agora!
Mahito não tentou se soltar. Ele aceitou a fúria de Hitoshi com uma passividade perturbadora.
— Então volta — disse Mahito, sua voz subitamente baixa e cortante. — Volta para os seus amiguinhos. Vai lá, tenta explicar para eles por que você protegeu a maldição que matou a Kugisaki. Me deixa aqui, sozinho, exatamente como você fez daquela outra vez quando cortou o nosso vínculo.
Hitoshi soltou a gola de Mahito, suas mãos tremendo. Ele recuou, encostando-se na parede de pedra do esconderijo, sentindo-se pequeno e miserável.
— Eu não consigo — sussurrou Hitoshi, a voz quebrada. — Eu te odeio por tudo o que você fez, eu odeio o que você me tornou... mas eu não consigo te deixar. Eu te amo, Mahito. E é por isso que eu sou o monstro aqui, não você.
Um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu nos lábios da maldição.
— Eu sabia disso — disse Mahito. — No fundo da sua alma, onde a escuridão e o prazer se encontram, você sempre soube que pertencemos um ao outro.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. O som do vento uivando do lado de fora era o único lembrete de que o mundo ainda existia além daquelas paredes. Mahito aproximou-se lentamente e sentou-se ao lado de Hitoshi, mantendo uma distância respeitosa.
— Me desculpa — disse Mahito, e as palavras pareciam estranhas em sua língua. — Por tudo. Quando você expandiu o seu domínio em Shibuya, você me mostrou o peso. Eu senti a sua dor, o seu vazio... e a dor de todos que eu toquei. Eu acho que, de alguma forma distorcida, você acabou me tornando mais humano por causa disso. E sim, Hitoshi... eu te perdoo por querer ser um humano. É da sua natureza lutar contra o que você realmente é.
Hitoshi cobriu o rosto com as mãos, soltando um riso seco e sem alegria.
— Nada disso importa agora. O mundo acabou, Nobara se foi, e eu sou um traidor. Eu estou puto, Mahito. Com você, comigo, com tudo. Eu preciso de tempo. Fique longe de mim por enquanto.
Mahito assentiu, levantando-se sem questionar.
— Tudo bem. Eu vou ver como as coisas estão lá fora.
Nos dias que se seguiram, Hitoshi permaneceu confinado em seu próprio silêncio, escondido no canto daquele abrigo improvisado, enquanto Mahito vagava pelas ruínas de Tóquio. O feiticeiro passava as horas olhando para as próprias mãos, sentindo a energia amaldiçoada fluir de forma diferente em seu corpo após a intervenção de Jaakuna. Ele se sentia mais forte, mas também mais oco.
Uma tarde, Mahito retornou. Ele não entrou com sua agitação habitual, mas com uma expressão de urgência que Hitoshi reconheceu imediatamente.
— Eles entraram — disse Mahito, parando na entrada.
— Quem? — perguntou Hitoshi, sem levantar a cabeça.
— O Itadori e o Fushiguro. Eles entraram no Jogo do Abate. Kenjaku deu início ao ritual, e as colônias estão sendo formadas. Seus amigos estão lá dentro agora, lutando por pontos, lutando para sobreviver a esse jogo doentio.
Hitoshi finalmente levantou o olhar. O brilho vermelho em seus olhos pareceu se intensificar.
— Se você quiser tentar se redimir com eles... — Mahito continuou, dando de ombros — ...eu não vou te impedir. Você pode ir até lá, tentar salvá-los ou morrer tentando. Eu não vou interferir na sua escolha desta vez.
Hitoshi soltou um suspiro pesado, sentindo o peso da decisão.
— Eu não sei se consigo sozinho — admitiu ele, tocando a cicatriz no peito que ainda latejava ocasionalmente. — Eu ainda estou machucado, e minha técnica... ela mudou depois de Shibuya. Eu me sinto instável.
Mahito bufou, revirando os olhos com uma impaciência tipicamente infantil que parecia estar retornando aos poucos.
— Tá, tá bom! Eu vou com você então, cacete! Não posso deixar você ser morto por algum jogador de nível baixo antes que eu possa me divertir mais com você.
Hitoshi olhou para a maldição, surpreso.
— Você iria comigo para ajudar o Itadori?
— Eu vou com você para garantir que você sobreviva — corrigiu Mahito. — O receptáculo é apenas um bônus que eu posso ou não tentar matar depois. Mas antes de irmos, precisamos treinar. Você sabe exatamente o que é o Jogo do Abate?
Hitoshi negou com a cabeça. Mahito, então, começou a explicar a mecânica cruel de Kenjaku. Falou sobre as colônias, os administradores, os pontos por vida tirada e a barreira que forçava a evolução da humanidade através do conflito. Cada palavra tornava o cenário mais sombrio.
— Kenjaku quer criar um caos sem precedentes — explicou Mahito, os olhos brilhando com uma curiosidade intelectual. — Ele quer fundir a humanidade com o Mestre Tengen. O Jogo do Abate é apenas o pavio para essa explosão.
— Então não podemos ir agora — decidiu Hitoshi, levantando-se com dificuldade, mas com determinação. — Se o mundo vai se tornar um campo de batalha constante, eu preciso dominar o que me tornei. Precisamos treinar, Mahito.
Mahito sorriu, um corte largo e familiar cruzando seu rosto. Ele se colocou em posição de combate, sua forma começando a oscilar levemente, testando os limites de sua energia reduzida.
— Como nos velhos tempos? — perguntou Mahito, referindo-se aos confrontos brutais que tiveram quando se conheceram, onde a dor era a única linguagem que compartilhavam.
Hitoshi limpou um rastro de sangue seco do canto da boca e ativou sua energia amaldiçoada. O ar ao seu redor começou a vibrar com uma tonalidade púrpura escura, carregada de sentimentos de perda e rancor.
— É — respondeu Hitoshi, seus olhos vermelhos fixos nos da maldição. — Mas não pense que dessa vez eu vou realmente pegar leve com você. Eu tenho muita raiva acumulada, e você é o único alvo que eu não me importo de quebrar.
Mahito soltou uma gargalhada alta, a primeira desde a queda de Shibuya.
— É assim que eu gosto, Hitoshi-kun! Mostre-me o quão humano você pode ser quando decide se tornar um monstro!
E, sob a luz pálida do entardecer, o feiticeiro e a maldição avançaram um contra o outro, iniciando um treinamento que selaria o destino de ambos nas colônias sangrentas que os aguardavam.