Jujutsu kaisen juai
Ecos de um Fantasma de Marfim
O tempo na Escola Jujutsu não curava feridas; ele apenas as cobria com camadas de cicatrizes e novas obrigações. Para Hitoshi Konami, os meses que se seguiram foram marcados por uma transformação visual que refletia sua própria estagnação interna. Ele desistira de retocar o ruivo. O vermelho vibrante, que antes era uma declaração de rebeldia, agora era apenas um rastro desbotado nas pontas, enquanto o preto natural de suas raízes tomava conta de sua cabeça. Nobara, sua bússola moral e prima barulhenta, estava ocupada demais treinando com Maki Zenin para notar que Hitoshi estava voltando à sua monocromia original.
No entanto, havia alguém que notava cada fio de cabelo novo.
Satoru Gojo tornara-se uma presença constante e perturbadora. O que começou como um interesse pedagógico e flertes irritantes evoluiu para algo mais denso. Hitoshi percebia a mudança no olhar de Gojo quando o observava treinar. Havia momentos em que o mestre perdia o foco, os olhos azuis fixos na maneira como Hitoshi limpava o suor da testa ou na forma como ele se movia — uma economia de movimentos graciosa e fria que, para Gojo, evocava memórias que deveriam estar enterradas.
Os momentos de tensão entre eles escalaram. Hitoshi, com seu masoquismo latente, permitia que Gojo se aproximasse. Houve noites na enfermaria, após missões exaustivas, em que a respiração de Gojo roçava seu pescoço, e a mão do feiticeiro mais forte do mundo hesitava sobre o peito de Hitoshi. Eram quase-momentos, situações carregadas de uma eletricidade sexual que ameaçava romper o tecido da realidade, mas que sempre terminavam com Hitoshi desviando o olhar e Gojo recuando com um sorriso forçado.
Gojo, convencido de que sua audácia estava assustando o rapaz, decidiu mudar de tática. Em uma tarde de sábado, ele apareceu no dormitório de Hitoshi sem a venda, vestindo roupas civis que o faziam parecer menos um deus e mais um homem perigosamente atraente.
— Konami-kun, vamos sair — anunciou ele, não dando espaço para recusas. — Sem maldições, sem dedos de Sukuna, apenas comida boa e luzes de neon.
Hitoshi, exausto demais para lutar contra a vontade de Gojo, apenas vestiu um casaco escuro e o seguiu. Eles acabaram em um restaurante de luxo no topo de um arranha-céu em Shinjuku. A vista era deslumbrante, mas Hitoshi sentia-se deslocado. Ele preferia a escuridão de seu quarto àquela opulência.
— Você está muito quieto hoje — comentou Gojo, girando uma taça de vinho. — Mais do que o normal.
— Estou tentando entender o propósito disso, Gojo-sensei — respondeu Hitoshi, seus olhos vermelhos refletindo as luzes da cidade. — O senhor não gasta seu tempo assim sem um motivo.
Gojo suspirou, deixando a máscara de bobo da corte cair completamente. Ele se inclinou sobre a mesa, a intensidade de sua presença fazendo o ar ao redor de Hitoshi vibrar.
— O motivo é que eu não consigo parar de pensar em você, Hitoshi. E não é sobre seu potencial como feiticeiro. É sobre... como você me faz sentir. Eu gosto de você. De verdade.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Hitoshi sentiu o estômago revirar. Ele olhou para Gojo e, pela primeira vez, não viu o mestre intocável. Ele viu uma vulnerabilidade que o assustou.
— Eu não posso aceitar isso — disse Hitoshi, a voz firme, mas desprovida de emoção. — Eu respeito o senhor como meu professor e como a inspiração que me mantém nesta escola. Mas não sinto o mesmo. E, honestamente? Acho que o senhor também não sente.
Gojo pareceu levar um golpe físico. Ele abriu a boca para protestar, mas Hitoshi se levantou, deixou o dinheiro da sua parte na mesa e saiu sem olhar para trás.
As semanas seguintes foram marcadas por uma distância glacial. Eles evitavam se olhar nos treinos. Gojo parou com as piadas e Hitoshi mergulhou ainda mais fundo em sua própria apatia. Mas a dúvida corroía o ruivo — agora quase totalmente moreno. Ele precisava saber.
O confronto final aconteceu no terraço da escola, sob uma lua minguante que parecia uma cicatriz no céu. Hitoshi encontrou Gojo encostado na grade, olhando para o horizonte.
— Gojo-sensei — chamou Hitoshi.
O homem não se virou.
— Veio me dar mais um fora, Konami-kun?
— Vim confessar um crime — disse Hitoshi, aproximando-se até ficar a poucos passos de distância. — Naquela noite, no restaurante... eu usei minha técnica em você.
Gojo finalmente se virou, a surpresa estampada no rosto.
— O Infinito deveria ter bloqueado.
— Deveria — concordou Hitoshi, seus olhos brilhando com uma tristeza profunda. — Mas você estava tão vulnerável, tão aberto, que a barreira simplesmente não existia para o que eu queria sentir. Eu entrei na sua mente, Gojo. Eu queria saber se o que você sentia por mim era real.
Gojo estreitou os olhos.
— E o que você viu?
Hitoshi soltou um suspiro trêmulo, as mãos escondidas nos bolsos para esconder o tremor.
— Eu vi alguém quebrado. Vi uma culpa que consome sua alma todos os dias e uma dor que você mascara com sorrisos de marfim. Mas, acima de tudo, eu senti uma saudade avassaladora. Uma saudade de alguém que eu nem conheço, mas que o senhor vê em mim toda vez que eu luto ou que deixo meu cabelo natural aparecer.
Gojo ficou imóvel, o rosto empalidecendo.
— Eu recusei você porque sabia que não era amor, Satoru — continuou Hitoshi, usando o nome de batismo do mestre pela primeira e última vez. — Era apenas a sua solidão tentando preencher um buraco com a primeira sombra que se parecesse com o que você perdeu. Você não gosta de Hitoshi Konami. Você gosta do eco de Suguru Geto que você acha que eu sou.
As palavras de Hitoshi cortaram o ar como uma lâmina. Gojo fechou os olhos, e por um momento, a aura de poder absoluto que o cercava pareceu murchar. Ele não negou. Não podia negar a verdade que um manipulador de sentimentos acabara de extrair de suas entranhas.
— Você é perigoso, Konami-kun — sussurrou Gojo, a voz rouca.
— Eu sou um feiticeiro jujutsu — retrucou Hitoshi. — E como seu aluno, vou lhe dar um conselho: não abaixe a guarda assim de novo. Nem para mim, nem para ninguém. Se eu fosse um inimigo, você estaria morto agora, perdido em suas próprias memórias. Se você continuar se deixando levar por fantasmas, vai acabar ferido de verdade.
Hitoshi deu um passo à frente, não para abraçá-lo, mas para colocar uma mão firme no ombro de Gojo, um gesto de camaradagem sombria.
— Eu sinto muito pela sua perda. Mas eu não sou o seu passado. Eu mal consigo lidar com o meu próprio presente.
Gojo soltou uma risada fraca, desta vez genuína em sua derrota. Ele cobriu a mão de Hitoshi com a sua por um breve segundo antes de o rapaz se afastar.
— Obrigado pelo aviso, Hitoshi — disse Gojo, voltando a olhar para a lua. — E obrigado por ser honesto. Acho que eu precisava que alguém me desse um choque de realidade.
— De nada — respondeu Hitoshi, já se afastando em direção à porta do terraço. — Agora, se me der licença, eu realmente preciso tentar dormir. A insônia está me matando.
Hitoshi desceu as escadas sentindo um peso sair de seus ombros. Ele ainda era uma pessoa fria, ainda tinha olheiras profundas e ainda achava o mundo um lugar tedioso. Mas, ao olhar para suas mãos, ele percebeu que não sentia mais a necessidade de pintar o cabelo. O preto era quem ele era. E, pela primeira vez, ele estava confortável em ser apenas Hitoshi Konami — nem ruivo, nem fantasma de ninguém.
Lá em cima, Gojo Satoru permaneceu no frio. Ele sentia o respeito mútuo que agora solidificava a relação deles, uma barreira muito mais saudável do que a obsessão melancólica de antes. Ele ainda estava quebrado, sim. Mas agora, ele sabia exatamente onde estavam os cacos. E, de certa forma, saber que seu aluno era forte o suficiente para rejeitar até mesmo o homem mais forte do mundo lhe dava uma estranha e distorcida paz.