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Jujutsu kaisen juai

Labirinto de Almas e Desejos Distorcidos

Hitoshi Konami encarava o espelho do banheiro com uma determinação que não sentia há meses. O cheiro forte de amônia e produtos químicos preenchia o ambiente pequeno, mas ele não se importava. Com movimentos precisos, ele aplicava a tinta ruiva vibrante sobre as raízes pretas que tanto o incomodaram nas últimas semanas. Ele não estava fazendo aquilo por vaidade. Era uma medida de contenção. Ele havia decidido que, dali em diante, nenhum fio escuro apareceria. Se Gojo Satoru precisava de um limite visual para parar de projetar fantasmas nele, Hitoshi daria esse limite. Ele seria o ruivo artificial, a cor que gritava "eu sou outro", para que o mestre pudesse, finalmente, enxergar o presente.

— Pronto — sussurrou ele, lavando o excesso de tinta. Os olhos vermelhos brilharam sob a luz fluorescente, agora emoldurados por um carmesim que parecia sangue fresco. — Agora, chega de fantasmas.

A rotina na Escola Jujutsu seguiu seu curso caótico. Nobara Kugisaki, em um de seus raros momentos de "folga", arrastou Hitoshi para um passeio por Tóquio. Foram horas exaustivas de discussões sobre as novas tendências de maquiagem, críticas ácidas às vitrines de luxo e sacolas que Hitoshi era forçado a carregar. Ele aguentava em silêncio, apreciando a energia vibrante da prima, que era o oposto perfeito de sua própria apatia.

— Você precisa de um corretivo novo, Hitoshi — disse Nobara, gesticulando com uma sacola de papel. — Essas olheiras estão começando a ter vida própria. Daqui a pouco elas viram uma maldição de nível especial.

— Elas são parte do meu charme, Nobara — respondeu ele, a voz arrastada pelo cansaço. — E, tecnicamente, eu já sou um imã de maldições. Não preciso de mais uma no meu rosto.

O clima leve foi interrompido quando eles passavam perto de uma escola secundária em uma área residencial mais afastada. O ar subitamente ficou pesado, denso com um resíduo de energia amaldiçoada que fez os pelos da nuca de Hitoshi se arrepiarem. Era um cheiro de metal e algo orgânico em decomposição. Um som de impacto e gritos abafados veio da direção da quadra poliesportiva.

— Nobara, fique aqui — disse Hitoshi, sua postura mudando instantaneamente. A apatia sumiu, substituída pela frieza cortante de um feiticeiro em combate.

— Ficou maluco? Eu vou com você! — protestou ela, já alcançando seu martelo.

— Não. Eu sinto algo... diferente lá dentro. Deixe que eu cuido disso. Se eu não sair em dez minutos, você entra com tudo. Por favor.

Nobara hesitou, mas viu a seriedade no olhar carmesim do primo.

— Dez minutos, Konami. Nem um segundo a mais.

Hitoshi correu em direção à quadra. Ao atravessar as portas duplas, a cena que encontrou foi um caos absoluto. O local estava distorcido por uma técnica de cortina interna. No centro, Nanami Kento, o feiticeiro de primeiro grau, estava em uma postura defensiva, enquanto alguém que Hitoshi julgava estar morto — Yuji Itadori — desferia golpes frenéticos contra uma criatura que desafiava a lógica biológica.

A maldição tinha o corpo retalhado, coberto por cicatrizes e costuras, com uma expressão de puro deleite sádico no rosto. Mahito.

— Itadori?! — Hitoshi exclamou, o choque paralisando-o por um segundo.

— Konami-kun? Saia daqui! — gritou Itadori, mas era tarde demais.

Mahito, percebendo a nova presença, soltou uma risada infantil e bizarra. Ele esticou seu braço como se fosse feito de borracha, lançando um ataque em direção a Nanami. Hitoshi, agindo por puro instinto, sacou uma adaga amaldiçoada que escondia sob o casaco e saltou para interceptar o movimento, tentando cortar a conexão da maldição.

— Ora, ora, mais um brinquedo! — Mahito desviou com uma agilidade sobrenatural, girando o corpo no ar.

O movimento brusco de Mahito criou uma onda de choque que desequilibrou Hitoshi. Ele tentou se recuperar, mas o chão estava escorregadio com resíduos de transfiguração. Hitoshi tropeçou e, em um momento de puro azar coreográfico, caiu diretamente sobre Itadori, que tinha acabado de recuar de um golpe.

O impacto levou os dois ao chão. Hitoshi caiu por cima, suas mãos prendendo os ombros de Itadori contra o piso frio da quadra. Seus rostos ficaram a centímetros de distância. Hitoshi conseguia sentir a respiração quente de Itadori e ver a confusão absoluta nos olhos castanhos do rapaz. O cérebro de Hitoshi, geralmente frio e calculista, entrou em um curto-circuito de pânico e constrangimento.

— Ah... oi, Itadori — murmurou Hitoshi, o rosto queimando em um tom que rivalizava com seu cabelo novo.

— Konami-kun! Você está bem? Se machucou? — A preocupação de Itadori era genuína, desprovida de qualquer malícia, o que só tornava a situação mais absurda para Hitoshi.

Mahito aproveitou o momento de distração cômica.

— Que fofo! Mas eu tenho coisas a fazer. Tchauzinho, receptáculo! — Com um movimento fluido, a maldição transfigurou seus pés em algo que lembrava nadadeiras e deslizou pelas sombras das arquibancadas, desaparecendo antes que Nanami pudesse alcançá-la.

Nanami guardou sua espada curta, soltando um suspiro de frustração.

— Ele fugiu. E vocês dois... poderiam se levantar?

Hitoshi levantou-se como se tivesse levado um choque, limpando o uniforme freneticamente. Itadori levantou-se logo em seguida, coçando a nuca e sorrindo como se nada tivesse acontecido.

Nos dias que se seguiram, o fato de Itadori estar vivo tornou-se o assunto principal, mas Hitoshi estava obcecado por outra coisa. Ele procurou Itadori nos jardins da escola, encontrando-o treinando sozinho.

— Itadori — chamou Hitoshi, aproximando-se com as mãos nos bolsos. — Eu queria... me desculpar por aquele incidente na escola. Eu fui descuidado e acabei atrapalhando.

— Ah, aquilo? — Itadori riu, fazendo um sinal de descaso. — Relaxa, Konami-kun! Eu nem me importei. Foi só um tombo. O importante é que ninguém se feriu gravemente, tirando o Junpei... — A expressão de Itadori escureceu por um momento.

Hitoshi sentiu uma necessidade impulsiva de saber se Itadori estava sendo honesto ou se apenas escondia a dor. Ele ativou sua técnica de Manipulação de Sentimentos, estendendo seus fios invisíveis em direção à alma de Itadori.

— *Sondagem de Essência* — sussurrou.

No momento em que sua técnica tocou o âmago de Itadori, o mundo ao redor de Hitoshi desapareceu. Ele não encontrou apenas a bondade ensolarada de Yuji. Ele foi puxado para um vazio gélido e majestoso, um trono feito de ossos sob um céu de sangue.

Sentado ali, com um sorriso de escárnio, estava Ryomen Sukuna. O Rei das Maldições olhou para Hitoshi como se ele fosse um inseto interessante.

— Então você é o pirralho que brinca com as emoções alheias? — A voz de Sukuna ecoou na mente de Hitoshi, carregada de uma autoridade que faria qualquer um desmaiar.

Hitoshi, no entanto, não recuou. Seus olhos vermelhos encontraram os quatro olhos de Sukuna. Ele sentiu o medo, sim, mas seu masoquismo e sua curiosidade eram mais fortes. Ele permaneceu ali, firme, observando a entidade.

— Você tem coragem, rato — disse Sukuna, apoiando o rosto na mão. — Aquele que você viu na escola, o retalhado... ele se chama Mahito. Ele não manipula sentimentos como você, seu tolo. Ele toca a alma. Ele a distorce, a transfigura, a molda como argila até que ela se quebre. Ele traz a morte através da mudança absoluta.

A conexão foi cortada abruptamente. Hitoshi voltou à realidade, ofegante, o suor escorrendo por sua têmpora. Itadori o segurava pelos ombros, parecendo preocupado.

— Konami-kun? Você ficou pálido de repente!

Hitoshi não ouviu. As palavras de Sukuna ecoavam em sua mente. *Tocar a alma. Transfigurar. Moldar.*

Para alguém que vivia em um estado de depressão crônica, onde a própria alma parecia um peso morto e imutável, a ideia de Mahito era fascinante. Hitoshi imaginou o que aconteceria se Mahito tocasse sua alma. Poderia ele transfigurar sua tristeza em algo produtivo? Ou talvez, em um momento de puro desejo masoquista, Mahito pudesse simplesmente moldá-lo até que ele deixasse de sentir qualquer coisa. Mahito não era apenas uma maldição; para Hitoshi, ele parecia uma pílula de paz definitiva.

Uma obsessão sombria começou a germinar no peito de Hitoshi. Ele precisava encontrar Mahito. Ele precisava daquela transfiguração.

Mais tarde, Hitoshi estava sentado no parapeito da janela do dormitório de Nobara. Ele parecia diferente. Seus olhos, antes apáticos, tinham um brilho febril, quase maníaco.

— Você está estranha hoje, Hitoshi — comentou Nobara, pintando as unhas. — Desde aquele rolo na escola com o Itadori, você parece... ligado na tomada. O que aconteceu?

— Eu encontrei algo, Nobara — disse ele, um sorriso mínimo e perturbador surgindo em seus lábios. — Eu encontrei um propósito. Pela primeira vez, eu sinto que existe uma saída para esse vazio.

Nobara parou de pintar a unha, olhando-o com desconfiança.

— Um propósito? Que tipo de propósito? Você não vai virar um daqueles fanáticos religiosos ou algo assim, vai?

— Não. É algo mais... fundamental. Eu finalmente entendi o que eu sou e o que eu posso ser. Eu me sinto vivo, Nobara. De verdade.

Nobara deu de ombros, embora uma ponta de preocupação ainda estivesse lá.

— Bem, se isso significa que você vai parar de reclamar da insônia a cada cinco minutos, eu fico feliz por você. Só não faça nada idiota.

Ela soprou as unhas e mudou de assunto com a sutileza de um trator.

— E por falar em coisas idiotas, como está o seu "treinamento especial" com o Gojo-sensei? Ele parou de te olhar como se você fosse um pedaço de bolo ou ele ainda está naquela fase de flertes ridículos?

O brilho febril nos olhos de Hitoshi desapareceu instantaneamente, sendo substituído por sua carranca habitual de irritação profunda.

— Pelo amor de tudo que é sagrado, Nobara, não comece. Ele é um idiota. Eu pintei o cabelo justamente para ele parar de projetar o passado em mim, e agora ele age como se eu fosse um desafio pessoal de conquista.

— Ah, admita, você gosta da atenção! — provocou ela, rindo da expressão de desgosto do primo.

— Eu prefiro ser transfigurado por uma maldição a ter que ouvir mais uma das cantadas de "infinito" dele — resmungou Hitoshi, cruzando os braços. — Que saco. Eu vou para o meu quarto.

— Não esquece o corretivo! — gritou Nobara enquanto ele saía.

Hitoshi caminhou pelo corredor escuro, sua mente voltando rapidamente para a imagem de Mahito. O mundo dos feiticeiros jujutsu era feito de dor e sacrifício, mas Hitoshi Konami acabara de decidir que, se ele ia sofrer, seria sob seus próprios termos. Ele encontraria a maldição das costuras. E ele deixaria que Mahito tocasse o que ninguém mais conseguia alcançar.

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