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Jujutsu kaisen juai

Labirinto de Carne e Obsessão

As olheiras de Hitoshi Konami haviam se tornado crateras profundas, testemunhas de uma insônia que agora não era apenas biológica, mas deliberada. Nas últimas três semanas, ele havia transformado a noite de Tóquio em seu próprio tabuleiro de caça. Enquanto seus colegas dormiam ou descansavam do peso das missões, Hitoshi deslizava pelas sombras, um espectro de cabelos ruivos vibrantes — a cor que ele mantinha religiosamente para se distanciar de qualquer fantasma do passado — em busca de algo que a maioria dos feiticeiros daria a vida para evitar.

Ele não buscava redenção. Ele não buscava glória. Ele buscava a mão de Mahito.

A ideia de que sua alma poderia ser moldada, de que sua depressão crônica e o vazio que sentia no peito poderiam ser simplesmente transfigurados em outra coisa, tornara-se uma droga. Sukuna lhe dissera que Mahito tocava a essência. E Hitoshi, em seu masoquismo mais sombrio, desejava esse toque mais do que qualquer conforto humano.

Naquela madrugada fria, o rastro de energia amaldiçoada o levou a um distrito industrial abandonado, onde o cheiro de ozônio e carne queimada era quase insuportável. Hitoshi caminhou entre contêineres enferrujados até ouvir um som úmido, como algo sendo esticado além do limite.

No final de um beco sem saída, sob a luz vacilante de um poste quebrado, Mahito estava agachado sobre o que restava de um vigia noturno. A criatura estava sendo transformada em uma massa disforme de olhos e dentes, soltando gemidos que não eram mais humanos. Mahito ria, seus dedos longos e costurados movendo-se com a delicadeza de um escultor.

Hitoshi parou a poucos metros, os passos ecoando no asfalto úmido.

Mahito parou o que estava fazendo. Ele inclinou a cabeça, as mechas cinzas de seu cabelo caindo sobre o rosto retalhado. Ele se virou lentamente, um sorriso infantil e predatório surgindo em seus lábios.

— Ora, ora. Um feiticeiro? — Mahito levantou-se, limpando o sangue das mãos em sua roupa. — Você está bem longe do seu dormitório, passarinho. Veio tentar me exorcizar sozinho? Que coragem... ou que burrice.

Hitoshi não sacou sua adaga. Ele não assumiu uma postura de combate. Ele apenas o encarou com aqueles olhos vermelhos que brilhavam com uma intensidade doentia.

— Finalmente — disse Hitoshi, a voz rouca pela falta de uso. — Eu finalmente te achei, Mahito.

A maldição arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigada.

— Você me conhece? Ah, entendi. Sou famoso entre o pessoal do Gojo Satoru. Mas você é diferente... sua energia está uma bagunça de desespero. É delicioso.

— Eu não estou aqui para lutar com você — continuou Hitoshi, dando um passo à frente, ignorando o perigo óbvio. — Eu vim pedir um favor.

Mahito soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.

— Um favor? Um feiticeiro jujutsu pedindo um favor para uma maldição? Essa é nova! O que você quer? Dinheiro? Informação? A cabeça do seu professor num prato?

— Eu quero que você me transfigure — disse Hitoshi, a voz firme. — Toque a minha alma. Mude o que eu sou. Eu não aguento mais o peso de ser eu mesmo.

O riso de Mahito morreu instantaneamente. Ele estreitou os olhos, aproximando-se de Hitoshi até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância. Ele conseguia sentir o cheiro da tinta de cabelo fresca e o desespero cru que emanava do rapaz.

— Você quer ser um dos meus humanos transfigurados? — perguntou Mahito, a voz agora baixa e perigosa. — Você sabe que eles não sobrevivem por muito tempo, não sabe? Eles viram monstros, perdem a consciência, sentem uma dor que você nem consegue imaginar.

— Eu sou um masoquista, Mahito — respondeu Hitoshi, um sorriso pálido e perturbador surgindo em seus lábios. — A dor é a única coisa que me faz sentir que eu existo. E a consciência... eu ficaria feliz em perdê-la se isso significasse o fim desse vazio.

Mahito lambeu os lábios, seus olhos brilhando com uma curiosidade sádica.

— Interessante. Muito interessante. Mas eu não dou presentes de graça. Eu sou um artista, e um artista precisa de inspiração. Se você quer que eu trabalhe na sua alma, você tem que tornar isso divertido para mim.

A maldição saltou para trás, criando uma distância segura. Seus braços se transformaram em lâminas longas e curvas.

— Lute comigo! — exclamou Mahito. — Sem se segurar. Se você conseguir me entreter, se me mostrar que sua alma vale o esforço, eu farei o que você pede. Mas se você for chato, eu apenas mato você e sigo meu caminho.

Hitoshi suspirou, tirando o casaco e jogando-o no chão. Ele não queria lutar, mas se aquele era o preço, ele pagaria.

— Tudo bem. Mas eu não vou usar minha técnica de manipulação emocional em você. Maldições como você não têm os sentimentos que eu costumo usar. Vai ser apenas físico.

— Ótimo! — gritou Mahito, avançando como um raio.

A batalha começou com uma violência súbita. Hitoshi era rápido, treinado por Maki e endurecido pelas missões, mas Mahito era imprevisível. A maldição mudava de forma constantemente, transformando membros em clavas, espinhos ou chicotes.

No entanto, Mahito logo percebeu algo errado. Hitoshi não estava tentando desferir golpes fatais. Ele estava se lançando contra as lâminas, deixando que os ataques o arranhassem, buscando o contato físico de forma quase desesperada. Em vez de esquivar, ele mergulhava na direção das mãos de Mahito, tentando forçar o toque da *Mutação Ociosa*.

Mahito parou abruptamente, bloqueando um soco de Hitoshi com a palma da mão, mas sem ativar sua técnica.

— Pare com isso! — rosnou a maldição, empurrando Hitoshi com força. — Assim não tem graça nenhuma! Você está se jogando em cima de mim como uma fã apaixonada. Onde está o instinto de sobrevivência? Onde está a luta pela vida?

— Eu já te disse o que eu quero — respondeu Hitoshi, limpando o sangue que escorria de um corte na bochecha. — Me transfigure de uma vez.

— Não! — Mahito bateu o pé, parecendo uma criança mimada. — Eu só vou transfigurar você se você me vencer. Se você provar que é forte o suficiente para que sua alma resista à mudança sem se despedaçar em um segundo. Se você continuar se entregando, eu vou embora agora mesmo e deixo você aqui com o seu tédio.

Hitoshi estacou. Ele olhou para Mahito e percebeu que a maldição estava falando sério. O desejo de ser mudado era tão grande que ele estava disposto a lutar por isso, mesmo que fosse contraditório.

— Entendi — disse Hitoshi. — Então eu vou te vencer.

Desta vez, a atmosfera mudou. Hitoshi canalizou sua energia amaldiçoada não para fora, mas para dentro, reforçando seus músculos e seus reflexos. Ele avançou com uma ferocidade que surpreendeu Mahito. Seus golpes eram precisos, visando as articulações e os pontos cegos da maldição. Ele usou o cenário ao seu redor, chutando contêineres para criar distrações e usando a própria sombra para ocultar seus movimentos.

Mahito estava adorando. Ele ria enquanto desviava de um chute que quase lhe arrancou a cabeça.

— Isso! É disso que eu estou falando! Sinta a adrenalina, Konami! Sua alma está brilhando agora!

Hitoshi conseguiu encurralar Mahito contra uma parede de metal. Ele desferiu uma sequência de socos carregados de energia, cada impacto fazendo o metal gemer. Ele estava ganhando terreno, sua obsessão dando-lhe uma força que ele nunca soube que possuía. Ele estendeu a mão, pronto para agarrar o pescoço de Mahito e exigir o pagamento da aposta.

Mas, antes que seus dedos tocassem a pele costurada, um brilho familiar de energia amaldiçoada cortou o beco.

— *Kokusen!* — Um grito ecoou, e um soco carregado de faíscas negras atingiu o flanco de Mahito, arremessando a maldição para longe de Hitoshi.

Yuji Itadori aterrissou no centro do beco, os punhos ainda soltando fumaça. Logo atrás dele, Nobara Kugisaki e Megumi Fushiguro surgiram das sombras, com as armas em punho e expressões de puro terror e alívio.

— Hitoshi! Você está bem?! — gritou Nobara, correndo para o lado do primo. — Nós seguimos o seu rastro de energia! O que você estava pensando, enfrentando essa coisa sozinho?!

Hitoshi ficou paralisado, a mão ainda estendida para o vazio onde Mahito estava um segundo atrás. Uma fúria fria começou a borbulhar em seu peito. Eles haviam estragado tudo.

Mahito, recuperando-se do impacto, levantou-se e limpou a poeira do ombro. Ele olhou para o grupo de feiticeiros e depois para Hitoshi, que parecia prestes a explodir de frustração.

— Ah, que pena — disse Mahito, sua voz cheia de deboche. — Seus amigos chegaram para estragar a festa. E o receptáculo do Sukuna está aqui... hoje não é o meu dia de sorte para brincadeiras longas.

— Mahito! — gritou Itadori, preparando-se para avançar novamente.

— Calma, Itadori — disse Mahito, transformando suas pernas em molas potentes. — Eu já me diverti o suficiente por hoje.

Ele olhou diretamente para Hitoshi e piscou.

— Você foi quase lá, Konami. Mantenha essa chama acesa. Quem sabe na próxima?

Com um salto sobre-humano, Mahito desapareceu sobre os telhados dos galpões, sua risada ecoando pela noite até sumir completamente.

— Maldição! Ele fugiu de novo! — Megumi praguejou, desfazendo a invocação de seus cães.

Itadori virou-se para Hitoshi, colocando a mão em seu ombro.

— Konami-kun, você deu sorte de estarmos por perto. Esse cara é um monstro. Ele teria matado você.

Hitoshi afastou a mão de Itadori com um movimento brusco. Ele não olhou para nenhum deles. Seus olhos estavam fixos no ponto onde Mahito desaparecera.

— Eu vou te encontrar de novo — sussurrou Hitoshi, tão baixo que apenas o vento ouviu. — Eu prometo.

Nobara tentou dizer algo, mas o olhar que Hitoshi lhe deu foi tão carregado de uma escuridão desconhecida que ela recuou um passo. Eles o levaram de volta para a escola, acreditando que ele estava em choque pelo combate. Mal sabiam que o verdadeiro choque era o fato de ele ter sido "salvo" do que mais desejava.

***

Enquanto isso, em uma localização escondida nos esgotos de Tóquio, Mahito deslizava pelas sombras até chegar a uma câmara ampla onde o grupo de maldições de nível especial se reunia.

Kenjaku, no corpo de Suguru Geto, estava sentado em uma poltrona improvisada, lendo um livro antigo. Jogo, Hanami e Dagon estavam por perto, discutindo planos para o selamento de Gojo Satoru.

Mahito entrou saltitando, com um sorriso de orelha a orelha.

— Você parece animado — comentou Kenjaku, sem desviar os olhos do livro. — Encontrou algo interessante na sua caminhada noturna?

— Oh, você não faz ideia! — Mahito sentou-se no chão, balançando as pernas. — Encontrei um feiticeiro. Um dos alunos do Gojo. Mas ele é... especial. Ele não queria me exorcizar. Ele queria que eu o transfigurasse. Ele implorou por isso!

Jogo soltou uma baforada de fumaça pelo topo da cabeça.

— Humanos são criaturas patéticas e confusas. Por que perder tempo com um suicida?

— Porque ele não é apenas um suicida, Jogo — disse Mahito, seus olhos brilhando com a memória da batalha. — Ele tem uma alma fascinante. É como um abismo que quer ser preenchido. Ele lutou comigo só para ganhar o direito de ser tocado.

Kenjaku finalmente fechou o livro, olhando para Mahito com um interesse clínico.

— Um feiticeiro que busca a transfiguração... isso pode ser útil. Se ele estiver disposto a cruzar a linha por desejo próprio, ele pode se tornar uma peça valiosa no nosso tabuleiro.

— O que devo fazer se encontrá-lo de novo? — perguntou Mahito.

Kenjaku sorriu, aquele sorriso calmo e aterrorizante.

— Aproveite a adrenalina, Mahito. Deixe que ele se aproxime. Se a alma dele é tão maleável quanto você diz, talvez possamos criar algo que nem mesmo Gojo Satoru consiga prever. Deixe-o brincar até que ele não consiga mais voltar.

Mahito deitou-se de costas, olhando para o teto úmido do esgoto. Ele conseguia sentir o calor da energia de Hitoshi ainda em suas mãos.

— Hitoshi Konami... — murmurou a maldição para o silêncio. — Eu finalmente achei alguém novo para brincar. E eu tenho a sensação de que essa brincadeira vai durar muito, muito tempo.

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