Jujutsu kaisen possibilidades
A Metamorfose da Paternidade
O sol da tarde entrava preguiçosamente pela janela da sala, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Hitoshi Konami, agora um homem na casa dos trinta anos, com as raízes pretas de seu cabelo ruivo ainda mais marcantes e um semblante que carregava a maturidade de quem sobreviveu a guerras espirituais, observava Mahito. A maldição, que há muito tempo havia deixado de ser um inimigo para se tornar o centro de sua vida, estava sentada no tapete, observando atentamente uma família que passava na calçada do outro lado do vidro.
Mahito não era mais a criatura puramente caótica de anos atrás. O amor — ou o que quer que uma maldição sentisse por um humano tão quebrado quanto ele — o havia moldado. Ele ainda tinha as cicatrizes costuradas no rosto e a pele pálida, mas seu olhar, antes preenchido apenas por sadismo, agora carregava uma melancolia estranha, quase humana.
— Hitoshi — chamou Mahito, sem desviar os olhos da janela, onde um pai carregava um bebê nos ombros enquanto a mãe ria ao lado. — Eu acho que eu queria que nós fôssemos uma família.
Hitoshi largou o livro que lia e franziu o cenho, embora um sorriso suave brincasse em seus lábios.
— Mahito, nós já somos uma família. O que exatamente você quer dizer com isso?
A maldição se virou, os olhos heterocromáticos brilhando com uma intensidade nova.
— Eu queria um bebê. Um pequeno humano... ou algo assim. Nosso.
Hitoshi soltou uma risada curta, a mente voltando instantaneamente para os seus instintos mais básicos.
— Sem problema, Mahito. A gente pode subir e tentar fazer um agora mesmo se você estiver tão animado assim.
Mahito fez um bico, cruzando os braços com uma indignação infantil que ainda mantinha.
— Não, cacete! Eu estou falando sério. Eu queria um filho mesmo. Queria saber qual é a sensação de ser um pai, de ver algo crescer, de ensinar coisas... como aquele humano ali fora está fazendo.
O silêncio se instalou na sala. Hitoshi suspirou, passando a mão pelo rosto. O peso da realidade sempre era o seu papel na relação.
— Mahito, olha... eu já estou com trinta e poucos anos. E você, bom, você é uma entidade milenar, mas fisicamente é um adulto. Eu não sei se a gente está preparado para ter um filho.
— Por que não? — Mahito inclinou a cabeça, curioso. — Eu sou forte, você é forte. Quem ousaria mexer com nosso filhote?
— Não é sobre força, seu bobo — explicou Hitoshi, levantando-se e sentando ao lado dele no tapete. — Filho é responsabilidade. Não é só um bebê fofinho que fica parado. Eles choram, eles ficam doentes, eles precisam de atenção vinte e quatro horas por dia. Não é um brinquedo, Mahito. É uma vida.
Mahito ficou em silêncio por um longo tempo, processando as palavras.
— Ah... entendi.
Nos dias que se seguiram, Hitoshi observou, entre o fascínio e a preocupação, a dedicação obsessiva de Mahito. A maldição passava horas em frente ao computador ou ao celular, assistindo a vídeos sobre puericultura, como trocar fraldas, a importância da amamentação (o que gerou perguntas anatômicas muito complexas) e como higienizar mamadeiras.
— Hitoshi! — Mahito exclamou certa noite, surgindo do nada com o celular na mão. — Sabia que bebês não podem comer sólidos até os seis meses? E que eles não podem encostar em mel por causa de uma bactéria? Eu anotei tudo.
Hitoshi sorriu, achando a cena surreal. Uma das maldições mais perigosas da história estava preocupada com o botulismo infantil.
— Sim, eu sei. Bebês são frágeis, Mahito. Gastam muito dinheiro, precisam de fraldas constantes, comida especial... e eles crescem. Eles viram adolescentes rebeldes, depois adultos. É um compromisso para sempre.
— Eu sei disso agora — disse Mahito, com uma determinação ferrenha. — E eu estou pronto. Eu estudei tudo.
Hitoshi ainda hesitou.
— Você tem noção de que teremos que acordar às três da manhã porque ele está chorando por causa de cólica ou fome?
Mahito deu de ombros, sorrindo de orelha a orelha.
— Hitoshi, eu nem durmo, lembra? Maldições não precisam de sono de beleza. Eu posso ficar de olho no pequenininho a noite inteira enquanto você descansa a sua beleza humana.
Hitoshi olhou para os olhos sinceros de Mahito. A solidão que ambos compartilharam por tanto tempo parecia pedir por um novo capítulo.
— Então tá bom — cedeu Hitoshi, sentindo o coração acelerar. — Vamos tentar.
O que se seguiu foi um período de meses que testou a sanidade de ambos. Graças à técnica de Mahito, a *Transfiguração Ociosa*, ele era capaz de alterar sua própria alma e, consequentemente, sua biologia. Ele moldou seu corpo para criar um útero, um sistema que pudesse sustentar uma vida humana alimentada pela energia amaldiçoada e pelo material genético de Hitoshi.
Mas a teoria era mais simples que a prática. A primeira tentativa falhou em poucas semanas. A segunda, em um mês. Toda vez que o corpo de Mahito rejeitava a gestação, ele entrava em um estado de depressão profunda, quase catatônico.
— Por que eu não posso simplesmente ser um humano igual a você? — Mahito choramingou certa noite, encolhido nos braços de Hitoshi. — Seria muito mais fácil. Minha natureza está lutando contra isso, não está?
Hitoshi beijou o topo da cabeça dele, sentindo a própria frustração.
— Não é simples para ninguém, Mahito. Somos dois homens, na teoria isso nem deveria ser possível. O fato de estarmos chegando perto já é um milagre. Não se culpe por ser o que você é.
— Eu não quero mais tentar — murmurou Mahito, as lágrimas escorrendo pelo rosto costurado. — Dói muito quando para de bater.
Hitoshi segurou o rosto dele, forçando-o a olhar para cima.
— Vamos tentar uma última vez. Se essa última vez não der certo, a gente aceita que não era para ser e focamos apenas em nós dois. O que acha?
Mahito assentiu, limpando o rosto.
A última tentativa foi diferente. Houve um cuidado quase religioso. Mahito mantinha sua forma humana o tempo todo, evitando qualquer uso desnecessário de energia amaldiçoada. Semanas viraram meses. Os sintomas começaram a aparecer: os enjoos matinais de Mahito eram épicos, e seu humor oscilava de forma aterrorizante.
Um dia, Mahito saiu do banheiro segurando um teste de farmácia que Hitoshi havia comprado sob o olhar julgador do farmacêutico.
— Hitoshi... deu os dois risquinhos. De novo. Mas desta vez... eu sinto que ele está preso de verdade.
Hitoshi não sabia se ria ou se chorava.
— E como cacetes nós vamos acompanhar isso com um médico? — perguntou Hitoshi, em pânico. — Você é uma maldição, Mahito! Se te colocarem num ultrassom, o médico vai achar que você é um alienígena ou chamar os feiticeiros!
Hitoshi teve que recorrer a contatos antigos. Ele procurou Shoko Ieiri, que agora era uma médica ainda mais exausta e cínica. Após muitas explicações e uma quantidade considerável de suborno em forma de cigarros caros e bebidas, Shoko aceitou realizar os exames em seu consultório particular.
— É a coisa mais bizarra que já vi na minha carreira — disse Shoko, observando a imagem granulada na tela do ultrassom. — Mas o coração está batendo. É um feto humano, alimentado por energia amaldiçoada pura. Ele vai ser... interessante.
Nove meses depois, em um parto que exigiu toda a concentração de Mahito para não transfigurar o quarto inteiro de dor, nasceu Kikuu. Era um bebê pequeno, de pele muito clara e fios de cabelo que já mostravam a mistura do ruivo de Hitoshi com o acinzentado de Mahito.
A primeira semana foi o caos absoluto.
— Mahito, a fralda! — gritou Hitoshi às quatro da manhã.
— Eu estou tentando! — Mahito respondeu, as mãos trêmulas enquanto tentava prender o adesivo. — Por que ele não para de se mexer? Ele é feito de gelatina?
— Não usa a sua técnica para segurar ele, Mahito! — Hitoshi advertiu, pegando o bebê no colo. — Ele é um bebê, não um experimento!
Mahito estava com os hormônios à flor da pele, algo que ele achava profundamente injusto.
— Por que eu estou chorando porque a propaganda de fraldas passou na TV? — Mahito soluçava, abraçado a um travesseiro. — Eu sou uma maldição! Eu deveria estar rindo do sofrimento alheio!
— É consequência da transfiguração, querido — dizia Hitoshi, exausto, mas achando a cena hilária. — Você moldou seu corpo para ser mãe, agora aguenta os hormônios.
Apesar dos erros, das mamadeiras que Mahito esquentava demais e das vezes em que ele quase entrava em colapso porque o bebê espirrava, havia uma doçura nova na casa. Mahito descobriu que seus braços eram o lugar favorito de Kikuu para dormir, e o modo como a maldição olhava para o filho era algo que Hitoshi nunca se cansaria de ver.
Ao final da primeira semana, a poeira finalmente baixou. Kikuu dormia profundamente no berço, um anjinho alheio ao fato de que seus pais eram um ex-feiticeiro traumatizado e uma maldição regenerada.
Hitoshi e Mahito estavam jogados no sofá, os corpos entrelaçados, desfrutando do primeiro momento de silêncio em dias.
— Sabe — murmurou Hitoshi, fechando os olhos e encostando a cabeça no ombro de Mahito —, eu estou muito feliz que somos uma família agora. Você foi, e continua sendo, a melhor pessoa — ou maldição — da minha vida.
Mahito sorriu, beijando a têmpora de Hitoshi.
— Eu também estou feliz. Eu tenho certeza de que vamos ser ótimos pais. Ele é tão pequeno... e tão nosso.
Eles ficaram ali por um tempo, ouvindo a respiração suave que vinha do berço. O amor que Hitoshi sentia por Mahito havia se expandido, criando algo novo e puro, uma ponte entre dois mundos que nunca deveriam ter se tocado.
Hitoshi abriu um olho, olhando para o rosto sereno de Mahito.
— Ei, Mahito...
— Hum?
— Quer ter outro bebê daqui a uns dois anos?
Mahito abriu os olhos imediatamente, a expressão de terror voltando ao seu rosto enquanto ele se lembrava das contrações, dos enjoos e das fraldas explosivas.
— Mas nem fodendo, Hitoshi! Nem fodendo!
Hitoshi explodiu em uma gargalhada alta, que rapidamente abafou com a mão para não acordar o pequeno Kikuu, enquanto Mahito o empurrava de leve, resmungando sobre como os humanos eram insaciáveis. Ali, naquela sala bagunçada e cheia de brinquedos, o abismo e o sol finalmente tinham encontrado a paz.