Jujutsu kaisen possibilidades
Sombras de um Passado, Cores de um Presente
A luz suave do abajur no quarto de Satoru Gojo criava uma atmosfera que Hitoshi Konami nunca imaginou habitar. O silêncio era preenchido apenas pelo som rítmico da tesoura e o deslizar do pente. Hitoshi estava sentado no chão, entre as pernas do homem mais forte do mundo, sentindo os dedos longos e ágeis de Gojo manipularem suas mechas. O cabelo ruivo, que outrora fora sua marca, agora era uma lembrança desbotada; as raízes pretas haviam crescido tanto que os fios escuros já batiam no meio de suas costas, pesados e densos.
Gojo trabalhava com uma delicadeza atípica. Ele, que podia pulverizar montanhas com um gesto, tratava cada fio de cabelo de Hitoshi como se fosse feito de vidro. No entanto, o silêncio de Hitoshi era profundo demais, uma névoa que Gojo conhecia bem.
— Você está muito quieto, Hitoshi — comentou Satoru, sua voz aveludada quebrando a quietude. — Alguma coisa está errada com o corte? Prometo que não vou deixar você parecendo o entulho que o Megumi invoca.
Hitoshi soltou um suspiro longo, seus olhos vermelhos fixos em um ponto qualquer da parede.
— Não é o cabelo, Satoru. É... a gente.
A tesoura parou por um segundo. Gojo inclinou a cabeça, observando o topo da cabeça negra de seu aluno.
— O que tem a gente?
— Eu andei pensando — começou Hitoshi, a voz vacilante. — Nobara diz que isso é um escândalo, que um professor e um aluno é algo errado em todos os níveis possíveis. Mas não é só isso. Às vezes, quando você olha para mim... eu sinto que você não está me vendo de verdade.
Gojo suspirou, deixando a tesoura de lado e apoiando as mãos nos ombros de Hitoshi. Ele sabia exatamente onde aquela conversa chegaria.
— Você acha que eu estou tentando preencher um buraco, não é? — perguntou Gojo, a voz perdendo o tom brincalhão. — Acha que eu vejo o Suguru em você.
— E não vê? — Hitoshi virou-se levemente, o olhar afiado e melancólico. — Eu sei da história de vocês. Sei como ele era importante. Eu sou quieto, sou reservado, tenho esse jeito... às vezes sinto que sou apenas um substituto conveniente para uma ferida que você nunca deixou cicatrizar.
Satoru ficou em silêncio por um longo momento. Ele olhou para as próprias mãos, depois para o rosto jovem e pálido à sua frente. Hitoshi tinha uma centelha de calma que realmente lembrava Geto, mas havia uma crueza nele, uma instabilidade depressiva que era puramente sua.
— Hitoshi — disse Gojo, sério —, se você se sente assim, se acha que eu sou incapaz de te amar pelo que você é... talvez devêssemos seguir caminhos diferentes. Eu não quero ser o motivo da sua insegurança.
Hitoshi baixou o olhar. O coração apertou, mas ele não desviou do assunto.
— Eu não disse que queria terminar. É estranho, mas... de certa forma, eu gosto de me sentir especial para o cara mais forte do mundo. Mesmo que seja por um motivo torto.
Gojo soltou uma risada soprada e puxou Hitoshi para um abraço desajeitado, ainda sentado no chão.
— Você é um caso sério, sabia? Vamos fazer o seguinte: chega de discussões pesadas por hoje. Vamos ser apenas um casal normal.
A noite seguiu com uma normalidade quase surreal para dois feiticeiros jujutsu. Eles assistiram a filmes bobos na televisão de Gojo, comeram besteiras e conversaram sobre coisas triviais. Hitoshi acabou pegando no sono primeiro, aninhado no braço de Satoru.
Gojo, no entanto, não conseguiu pregar o olho. Ele ficou observando o rosto sereno de Hitoshi sob o luar que entrava pela janela. O pensamento era inevitável: o quanto ele se assemelhava a Suguru Geto naquele ângulo. A culpa o atingiu como um golpe físico. Ele amava Hitoshi ou estava apenas viciado na sensação de ter alguém "parecido" por perto para aliviar o luto eterno? Ele precisava de uma resposta, tanto para si quanto para o garoto.
Na manhã seguinte, Hitoshi acordou e encontrou o lado da cama vazio. Um frio percorreu sua espinha — o medo do abandono era uma constante em sua vida. Ele se levantou, vestiu o uniforme e foi para o pátio de treinamento, onde Nobara e Megumi já estavam.
— Onde você estava? — Nobara perguntou, com um sorriso malicioso. — O "professor favorito" deu falta de você?
Hitoshi apenas deu de ombros, começando a aquecer, até que a figura alta e imponente de Gojo surgiu no pátio, com as mãos nos bolsos e o sorriso radiante de sempre.
— Bom dia, crianças! — exclamou Gojo. — Tenho ótimas notícias. O conselho está ocupado brigando por burocracia e eu decidi que todos vocês estão livres hoje. Treinamento cancelado!
Nobara soltou um grito de alegria e Megumi apenas suspirou, aliviado por não ter que apanhar de um grau especial logo cedo. Gojo caminhou até Hitoshi e tocou seu ombro.
— E você, Hitoshi, vai sair comigo. Vamos dar uma volta.
Hitoshi hesitou, mas aceitou. Eles pegaram um trem para um dos distritos mais caros de Tóquio. O shopping onde pararam exalava luxo, com vitrines que exibiam roupas que custavam mais do que o salário anual de um feiticeiro de nível baixo.
— Satoru, o que estamos fazendo aqui? — perguntou Hitoshi, sentindo-se deslocado com seu jeito reservado em meio a tanta gente elegante.
— Vamos passear, jantar... aproveitar o dia — respondeu Gojo, caminhando ao lado dele. — Sabe o que eu realmente gosto em você, Hitoshi?
Hitoshi olhou para ele, curioso.
— É o fato de você ser gentil. Mesmo quando está nesse seu casulo, você se mantém presente para quem precisa. Você tem uma força silenciosa que é só sua.
Hitoshi sentiu o rosto esquentar.
— Obrigado... eu acho.
— Pô, só isso? — Gojo fez um bico dramático. — Não vai falar nada legal de mim também não?
— Ah, sei lá... você é bonitão e tal — murmurou Hitoshi, tentando esconder o sorriso.
— Só isso? — Gojo fingiu indignação, colocando a mão no peito. — Você está comigo só pela minha aparência deslumbrante? Que superficial, Hitoshi! Estou chocado!
— Não, não é isso, é que... — Hitoshi começou a gaguejar, entrando em pânico com a brincadeira.
— Relaxa, garoto! — Gojo riu, bagunçando o cabelo negro de Hitoshi. — Eu sei que você me adora. Olha só, um fliperama!
Eles entraram no local barulhento e Gojo arrastou Hitoshi para aquela máquina de dança com setas no chão. O contraste era cômico: o homem mais alto da sala e o jovem ruivo-agora-moreno tentando seguir o ritmo frenético da música pop japonesa. Gojo era surpreendentemente bom, movendo-se com uma agilidade sobre-humana, enquanto Hitoshi tropeçava nas próprias pernas até começar a rir da situação.
Ao final da partida, exaustos e rindo, Hitoshi acabou encostando a cabeça no peito de Gojo enquanto recuperavam o fôlego. Ambos ficaram em silêncio por um momento, sentindo os olhares curiosos das pessoas ao redor, mas Gojo não se afastou. Pelo contrário, ele envolveu Hitoshi em seus braços.
— Me desculpa — sussurrou Gojo, a voz agora séria e próxima ao ouvido de Hitoshi. — Me desculpa se eu fiz você pensar que era apenas um substituto. Isso não é verdade. Eu demorei para perceber, mas eu gosto de você por quem você é. Pelos seus traços, pelas suas manias... até por esse seu mau humor matinal.
Hitoshi apertou a camisa de Gojo, sentindo um nó na garganta.
— Satoru...
— E quer saber? — continuou Gojo, afastando-se um pouco para olhá-lo nos olhos. — Eu sinto falta do seu cabelo laranja. Se você quiser, eu te ajudo a pintar de novo. E a cortar também. Eu não sou nenhum cabeleireiro profissional, mas posso tentar.
Hitoshi corou violentamente, mas um sorriso genuíno iluminou seu rosto.
— Eu gostaria disso.
Pela primeira vez em público, Hitoshi não se afastou. Ele segurou o braço de Gojo enquanto caminhavam para um restaurante no topo do shopping. Ao ver o cardápio, Hitoshi quase teve um enfarte.
— Caramba, Satoru! Os preços daqui são um crime. Eu sou pobre, não tenho dinheiro para pagar nem a entrada disso aqui.
— E quem disse que é você que vai bancar o jantar? — Gojo piscou, puxando a cadeira para ele.
— Então eu vou escolher a coisa mais barata — retrucou Hitoshi, folheando as páginas nervosamente.
— Nada disso — disse Gojo, cobrindo o cardápio com a mão. — Se a gente vai levar isso a sério, eu vou te mimar o quanto eu puder. Escolha o que quiser. O dinheiro é o de menos.
Hitoshi sentiu-se como um personagem de shojo mangá, totalmente "boiola" pela atenção que recebia. Durante o jantar, Gojo não perdeu a oportunidade de flertar. Em um momento, ele pegou a taça de vinho e passou a língua pela borda de forma deliberadamente lenta, mantendo o contato visual com Hitoshi.
— A bebida está... deliciosa — disse Gojo, com um tom de voz que fez Hitoshi quase engasgar com a massa.
— Satoru! — repreendeu Hitoshi em um sussurro, olhando ao redor para ver se alguém tinha notado. — Controle-se, estamos em público!
Após o jantar, eles decidiram não voltar para a escola imediatamente. Gojo alugou um quarto em um hotel boutique ali perto. O ambiente era luxuoso e acolhedor. Gojo pegou um kit que havia comprado no shopping e fez Hitoshi sentar-se em um banco no banheiro.
Com cuidado, ele cortou o cabelo de Hitoshi, deixando-o em um corte mais moderno e leve.
— Vamos deixar para pintar amanhã na escola — disse Gojo, passando a mão pelo pescoço de Hitoshi. — Não quero manchar as toalhas brancas desse hotel, ou a conta vai vir dobrada.
— Obrigado, Satoru — murmurou Hitoshi, olhando-se no espelho. — Sabe... no começo, eu achei que você era só um cara arrogante e chato.
Gojo parou, com o pente na mão, esperando a continuação.
— E...?
— E nada — Hitoshi sorriu de canto. — Você continua sendo arrogante e chato pra caralho.
— Poxa! — Gojo exclamou, fingindo estar ofendido. — Depois de todo esse dia romântico, é assim que você me trata? Eu sou uma alma sensível, Hitoshi!
— Mas... — Hitoshi hesitou, sentindo o coração bater mais forte — você também é a pessoa mais incrível que eu já conheci. Você é protetor, é engraçado e... faz eu me sentir seguro.
Gojo suavizou a expressão. Ele caminhou até a cama e deitou-se, batendo no espaço ao seu lado.
— Vem aqui.
Hitoshi deitou-se no peito de Satoru, sentindo o batimento cardíaco constante do homem. O calor do corpo de Gojo era o seu refúgio. Em poucos minutos, o cansaço do dia o venceu e ele adormeceu profundamente. Gojo ficou ali, acariciando o cabelo curto de Hitoshi, sentindo uma lágrima solitária escorrer por seu rosto. Ele finalmente entendeu: Hitoshi não era o passado. Ele era o presente que Satoru precisava para continuar caminhando.
Na manhã seguinte, o sol inundou o quarto. Gojo acordou e, por um segundo, o pânico o atingiu ao não sentir Hitoshi ao seu lado.
— Hitoshi? — chamou ele, sentando-se abruptamente, o coração disparado. — Hitoshi!
A porta do quarto se abriu e Hitoshi entrou carregando uma bandeja com café, torradas e frutas.
— O que foi? Por que esse desespero? — perguntou o mais novo, confuso. — Eu só fui buscar o café da manhã para a gente.
Gojo soltou um suspiro de alívio tão grande que seus ombros caíram.
— Ah... eu achei que você tivesse fugido. Sabe como é, eu sou chato pra caralho, né?
Hitoshi riu, colocando a bandeja na cama.
— Você é um bobo, Satoru.
Eles tomaram café juntos, trocando piadas e risadas como se o mundo lá fora, cheio de maldições e perigos, não existisse. Em um momento de seriedade, Hitoshi olhou para ele.
— Você vai contar para o conselho? Sobre nós?
Gojo tomou um gole de café, pensativo.
— Não. Aqueles velhos iam transformar nossa vida num inferno burocrático. É melhor mantermos isso entre nós e os nossos amigos mais próximos por enquanto. A gente dá um jeito de esconder.
— Por mim tudo bem — concordou Hitoshi. — Eu prefiro assim.
Gojo inclinou-se para frente e selou a promessa com um beijo suave, carregado de um carinho que não precisava de semelhanças com o passado para ser real.
— Eu te amo, Hitoshi. Pelo ruivo, pelo preto e por tudo o que tem aí dentro.
Hitoshi sorriu, sentindo que, finalmente, as cores de sua vida estavam voltando ao lugar.