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Kart e um novo amor

Engrenagens da Vida e o Pulsar do Coração

O apartamento em Oxford estava, finalmente, com cara de lar. As caixas de papelão haviam sido substituídas por estantes repletas de livros de direito internacional e troféus de automobilismo que brilhavam sob a luz suave do entardecer inglês. O cheiro de baunilha, marca registrada de Malu, agora se misturava ao aroma de café fresco e ao couro dos sofás novos. Era o cenário perfeito para a calmaria, se a vida de Leonardo Yudi e Maria Luiza não fosse uma constante corrida contra o tempo.

Yudi havia acabado de voltar de uma sessão exaustiva no simulador. Seus ombros doíam e sua mente ainda processava os dados da telemetria da última curva de Silverstone. Ao abrir a porta, ele encontrou Malu sentada à mesa de jantar, mas não havia relatórios da ONU à sua frente. Ela apenas olhava para o jardim, com uma expressão que ele não conseguia decifrar de imediato.

— A embaixada decidiu dar trégua ou você finalmente aprendeu a regra número um? — perguntou Yudi, aproximando-se por trás e depositando um beijo demorado na curva do pescoço dela.

Malu estremeceu levemente, sentindo o calor do corpo dele. Yudi ainda usava a camiseta justa da equipe, que marcava os músculos definidos por anos de treinamento físico rigoroso.

— A regra número um é sagrada, Leo — disse ela, virando-se na cadeira para encará-lo. — Mas hoje o silêncio está me ganhando de dez a zero.

Yudi notou que ela estava pálida. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, segurando suas mãos.

— Você está bem? Parece que viu um fantasma ou que o Brasil perdeu uma votação importante no conselho.

— Só um pouco de tontura. Deve ser o estresse da viagem para Genebra na semana passada. O jet lag está me cobrando o preço agora.

Yudi não disse nada, apenas puxou-a para um abraço apertado. Ele sentiu o coração dela bater contra o seu peito, um ritmo que ele conhecia tão bem quanto o som do motor de seu carro. O desejo, sempre latente entre eles, despertou com força. A tensão do dia de trabalho precisava de uma válvula de escape, e o toque de Malu era o único interruptor que Yudi conhecia para desligar o mundo exterior.

— Deixe o estresse para os diplomatas e engenheiros — sussurrou ele, a voz descendo uma oitava. — Agora, eu só quero ser o seu marido.

Ele a levantou da cadeira sem esforço, os braços fortes sustentando-a enquanto a levava em direção ao quarto. Malu entrelaçou as pernas na cintura dele, sentindo a urgência no beijo de Yudi. Quando a porta do quarto se fechou, o resto do mundo deixou de existir.

Yudi a colocou sobre a cama de lençóis escuros, desfazendo-se da própria camiseta em um movimento rápido. Malu observou o torso dele, as cicatrizes leves de pequenos incidentes nas pistas e a definição atlética que sempre a deixava sem fôlego. Ela puxou-o para si, as mãos explorando o abdômen rígido enquanto ele descia o zíper do vestido dela.

— Você é a minha melhor volta, Malu — disse ele, a respiração quente contra a pele dela. — Sempre.

O contato físico era uma dança de reconhecimento. Cada toque de Yudi era carregado de uma paixão que parecia aumentar com o tempo de casados. Ele conhecia cada ponto sensível, cada suspiro que ela tentava abafar no travesseiro. Quando ele se uniu a ela, foi com uma intensidade que beirava o desespero, uma necessidade mútua de reafirmar que, apesar da distância física que as carreiras impunham, eles eram uma só engrenagem.

Malu arqueou o corpo, sentindo Yudi preencher cada espaço seu. O prazer era uma onda avassaladora, fazendo-a esquecer a tontura, o trabalho e as preocupações. Naquele momento, no silêncio de Oxford, eles eram apenas dois jovens que se amavam com a mesma fúria dos dezesseis anos, mas com a entrega total de quem sabia que o tempo era precioso.

Após o clímax, o cansaço finalmente os abraçou. Yudi ficou deitado de lado, observando Malu recuperar o fôlego. Ele acariciou o rosto dela, notando novamente uma sombra de desconforto.

— Malu, sério. Essa tontura... você tem certeza de que é só estresse?

— Tenho, Leo. E talvez a comida daquele jantar oficial. O peixe não parecia muito fresco. — Ela tentou sorrir, mas sentiu uma pontada súbita no estômago. — Vou tomar um banho e descansar. Amanhã estarei nova.

Mas o amanhã não trouxe a melhora esperada.

Nas duas semanas seguintes, o que Malu chamava de "jet lag" transformou-se em algo mais persistente. O café da manhã, que ela sempre adorou, tornou-se seu pior inimigo. O aroma do café fresco, que Yudi preparava religiosamente, fazia com que ela corresse para o banheiro antes mesmo de dar o primeiro gole.

— Malu, isso não é normal — disse Yudi, parado à porta do banheiro enquanto ela se recuperava de mais uma crise de enjoo matinal. — Você está assim há dez dias. Eu vou ligar para o médico da equipe.

— O médico da equipe trata de luxações e desidratação, Leo — disse ela, limpando o rosto com uma toalha úmida. — Eu não bati o carro a trezentos por hora.

— Mas você está pálida e mal consegue comer. Se fosse um problema no motor do meu carro, eu já teria parado no box. Por que você insiste em continuar correndo com o motor falhando?

— Eu tenho uma reunião importante hoje, Yudi! Não posso simplesmente faltar porque estou com o estômago sensível.

Yudi cruzou os braços, a expressão de piloto focado assumindo seu rosto.

— Você não vai à embaixada hoje. Eu vou te levar ao hospital. Ou você vai por bem, ou eu te carrego como fiz na noite de núpcias, mas desta vez não vai ser romântico, vai ser por teimosia.

Malu suspirou, sabendo que não ganharia aquela discussão. Yudi podia ser o homem mais doce do mundo, mas quando entrava em modo de proteção, ele era irredutível.

No hospital, o ambiente asséptico e o cheiro de desinfetante só pioraram a náusea de Malu. Yudi segurava a mão dela na sala de espera, a perna balançando nervosamente. Ele estava acostumado a enfrentar perigos em alta velocidade, mas a incerteza sobre a saúde de Malu o deixava aterrorizado.

— Sra. Yudi? — chamou a enfermeira.

Após uma série de exames de sangue e uma espera que pareceu durar mais do que um Grande Prêmio de resistência, o médico finalmente os chamou. Dr. Harrison olhava para os resultados com um sorriso contido.

— Bem, o "problema no motor", como o Sr. Yudi descreveu na recepção, não é exatamente uma falha mecânica — disse o médico, ajustando os óculos. — Maria Luiza, você está grávida. Aproximadamente oito semanas.

O silêncio que se seguiu na sala foi absoluto. Malu sentiu o mundo girar, mas desta vez não era de enjoo. Ela olhou para Yudi, esperando ver choque ou preocupação. Em vez disso, viu o rosto dele se iluminar de uma forma que ela nunca tinha visto, nem mesmo quando ele conquistou seu primeiro pódio na Fórmula 1.

— Grávida? — repetiu Yudi, a voz falhando. — Um bebê?

— Sim, Sr. Yudi. Os sintomas de náusea e tontura são perfeitamente normais nesta fase.

Ao saírem do consultório, eles caminharam até o carro em silêncio. Quando entraram no veículo, Yudi não deu a partida. Ele apenas segurou o volante com força, as mãos tremendo levemente.

— Malu... — começou ele, virando-se para ela. — Um bebê. A nossa pista de kart nos fundos da casa... ela não vai ser mais só um plano para o futuro distante.

Malu sentiu as lágrimas escorrerem. A diplomata pragmática e a mulher ambiciosa haviam dado lugar a algo novo, algo que ela ainda não conseguia nomear.

— Leo, e as nossas carreiras? Você está disputando o título. Eu estou no meio de uma renegociação de tratados. Como vamos fazer isso?

Yudi soltou o volante e a puxou para um abraço, beijando-lhe a testa com ternura.

— A gente sempre deu um jeito, Malu. Desde os quinze anos. A gente correu em continentes diferentes, a gente enfrentou a distância, a gente casou no meio do caos. Isso? Isso é apenas o nosso maior desafio técnico. E nós somos a melhor equipe que eu conheço.

— Eu estou com medo, Leo — admitiu ela, soluçando contra o peito dele. — Medo de não ser boa nisso. De não conseguir conciliar tudo.

— Você é a mulher que negocia com embaixadores difíceis antes do café da manhã, Malu. Um bebê vai ser moleza para você. E eu... eu vou ser o melhor segundo piloto que esse filho poderia ter.

As semanas seguintes foram uma montanha-russa de emoções. A notícia foi recebida pelas famílias com uma festa que quase exigiu intervenção policial em São Paulo de tanta comemoração. Mas, no dia a dia em Oxford, a realidade se impunha.

Malu sofria com desejos inusitados no meio da madrugada.

— Leo... — sussurrou ela, cutucando-o às três da manhã.

— O que foi? O bebê está chutando? — perguntou ele, acordando em alerta máximo. — Ele só tem o tamanho de um limão, Malu, não pode estar chutando.

— Não é isso. Eu quero pão de queijo. Com goiabada. Agora.

Yudi sentou-se na cama, esfregando os olhos.

— Malu, estamos na Inglaterra. Onde eu vou achar pão de queijo às três da manhã em Oxford?

— Você é um piloto de elite, Leonardo. Dê um jeito. Use sua telemetria para encontrar uma padaria brasileira aberta.

Yudi riu, derrotado. Ele se levantou, vestiu um casaco e saiu na noite fria inglesa. Acabou acordando um amigo brasileiro que morava perto e que, por sorte, tinha uma mistura pronta no armário. Quando voltou para casa, Malu o esperava na cozinha, enrolada em um cobertor.

— Você conseguiu? — perguntou ela, os olhos brilhando.

— Eu deveria ganhar um troféu por isso — disse ele, começando a assar os pães. — Mas só aceito o pagamento em beijos.

Enquanto esperavam o pão assar, Yudi sentou-se no chão da cozinha com Malu. Ele encostou a orelha na barriga dela, que ainda estava perfeitamente plana.

— O que você está fazendo? — perguntou ela, acariciando o cabelo dele.

— Escutando o motor — disse ele, sério. — Acho que ele vai ser rápido, Malu. O coração dele bate como um motor de alta rotação.

— Ou ela — corrigiu Malu. — Pode ser uma diplomata que vai colocar ordem nessa sua vida bagunçada.

— Seja o que for, vai ter o melhor box do mundo.

No entanto, nem tudo eram flores e pães de queijo. O desafio da gravidez em meio às viagens constantes começou a pesar. Yudi precisava viajar para o GP do Japão, e Malu, por recomendação médica devido a um pequeno sangramento de escape, foi proibida de voar por duas semanas.

Foi a primeira vez, desde que se reencontraram, que a distância pareceu insuportável.

— Eu não quero ir — disse Yudi, enquanto fechava a mala no quarto. — Eu vou cancelar. A equipe que se vire com o piloto reserva.

— Você não vai fazer isso, Leonardo — disse Malu, sentada na poltrona, observando-o. — Você está a cinco pontos da liderança. É o seu sonho. O nosso sonho.

— O meu sonho é você estar bem. Se algo acontecer enquanto eu estiver do outro lado do mundo...

— Nada vai acontecer. Minha mãe está vindo do Brasil para ficar comigo. E o Dr. Harrison disse que é apenas repouso. Vá para o Japão, vença aquela corrida e traga o troféu para o nosso "limãozinho".

Yudi ajoelhou-se diante dela, segurando seu rosto.

— Promete que me liga se sentir qualquer coisa? Mesmo que seja só um desejo de coxinha?

— Prometo. Agora vá, antes que eu mude de ideia e te prenda neste quarto para sempre.

A distância foi torturante. Yudi ligava por vídeo a cada hora livre, mesmo com a diferença de fuso horário. Ele mostrava o circuito de Suzuka para a barriga de Malu através da tela do celular.

— Está vendo, pequeno? — dizia ele. — Essa é a 130R. É a curva mais rápida do calendário. Quando você nascer, o papai vai te ensinar a fazê-la sem tirar o pé do acelerador.

— Nem pense nisso, Yudi! — gritava Malu do outro lado da tela, rindo. — Ele ou ela vai ser diplomata! Nada de curvas a trezentos por hora!

Na noite da corrida, Malu assistiu a tudo do sofá em Oxford, com a mãe ao lado. Ela sentia cada freada, cada ultrapassagem de Yudi como se estivesse no cockpit com ele. Quando ele cruzou a linha de chegada em primeiro, assumindo a liderança do campeonato mundial, Malu chorou de soluçar.

No pódio, Yudi fez algo que quebrou todos os protocolos da FIA. Em vez de apenas estourar o champanhe, ele tirou de dentro do macacão um pequeno par de sapatinhos de bebê, brancos e dourados, e os ergueu para as câmeras do mundo inteiro.

— Para a minha equipe em casa! — gritou ele, com as lágrimas lavando o rosto suado. — Malu, eu te amo! Estamos chegando!

Quando Yudi voltou para Oxford, três dias depois, a recepção foi tudo menos diplomática. Assim que ele entrou pela porta, Malu se jogou em seus braços, ignorando qualquer cautela.

— Você venceu! — exclamava ela, beijando-o repetidamente. — Você é o líder, Leo!

— Nós vencemos, Malu.

Naquela noite, a paixão que os unia pareceu ganhar uma nova dimensão. Havia uma urgência diferente, uma ternura misturada com a descoberta do novo corpo de Malu, que começava a dar sinais sutis da gravidez. Yudi a tocou como se ela fosse feita de cristal, mas com o desejo de quem estivera longe do seu porto seguro por tempo demais.

— Eu senti tanto a sua falta — sussurrou ele, enquanto a despia sob a luz da lua que entrava pela janela. — O carro parecia vazio sem a sua voz no meu rádio.

— Eu estava lá, Leo. Em cada volta.

Eles se amaram com uma lentidão deliciosa, explorando as mudanças, sentindo a conexão que agora ia além deles mesmos. Yudi beijou a barriga de Malu com uma reverência quase religiosa, antes de se perder nela em um ritmo suave e profundo, celebrando a vida que haviam criado.

Meses depois, a casa em Oxford já não era apenas um apartamento de casal. O quarto do bebê estava pronto, com um papel de parede que misturava nuvens e pequenas estrelas. Yudi passava as noites montando o berço e lendo manuais de instrução com a mesma dedicação com que lia os manuais técnicos da Ferrari.

Malu, com a barriga agora proeminente, continuava seu trabalho na embaixada, mas em um ritmo mais calmo. Ela aprendera que a diplomacia também envolvia negociar com o próprio corpo.

— Sabe o que eu estava pensando? — disse Malu, em uma noite de domingo, enquanto Yudi massageava seus pés inchados.

— No quê?

— Que a gente nunca seguiu o caminho reto. A gente sempre escolheu as curvas mais difíceis, os circuitos mais longos.

— E olha onde chegamos — disse Yudi, olhando para ela com um amor que transbordava. — Estamos na reta final para o nosso maior prêmio.

— Você acha que vamos ser bons nisso, Leo? Ser pais no meio desse caos?

Yudi se levantou e sentou ao lado dela, abraçando-a.

— Malu, a gente sobreviveu à Aguatop, à distância, às pressões da Fórmula 1 e à diplomacia internacional. Um bebê? Vai ser a melhor parte da corrida. A gente só precisa lembrar da nossa regra de ouro.

— Qual delas? — perguntou ela, sorrindo.

— Não sufocar o volante. Deixar a vida fluir. Porque, no final das contas, não importa a velocidade, contanto que a gente esteja no mesmo carro.

Malu encostou a cabeça no ombro dele, sentindo um pequeno chute vindo de dentro de si. Era o sinal de que a nova vida estava pronta para a largada.

— Ouviu isso? — perguntou ela.

— Ouvi — disse Yudi, com os olhos brilhando. — Acho que o motor acabou de ligar. Prepare-se, embaixadora. A nossa volta mais emocionante está prestes a começar.

E ali, no silêncio da noite inglesa, o piloto e a diplomata entenderam que, por mais que tivessem conquistado o mundo, a verdadeira vitória estava naquele pulsar constante, naquela pequena vida que prometia transformar todos os seus troféus em meras peças de metal perto do brilho de um novo par de olhos que, em breve, veria o mundo através do amor deles. A corrida continuava, mas agora, o destino era muito mais doce do que qualquer linha de chegada.

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