Let me .... You
Doce Veneno e Fofocas de Corredor
A semana que se seguiu ao confronto na sala 3-A foi, no mínimo, carregada de uma eletricidade estática que apenas três pessoas na Escola Anakt conseguiam sentir. Mizi manteve sua rotina de estrela popular com uma maestria invejável. Ela ria alto com Marty e Vianna, ignorava as olhadas furtivas de Till e, o mais importante, não trocava uma única palavra com os irmãos transferidos.
Para Ivan e Sua, aquela indiferença era pior do que uma ameaça direta. Eles caminhavam pelos corredores como se estivessem pisando em minas terrestres. Ivan, sempre provocador, havia perdido parte de seu brilho irritante; ele passava as aulas observando a nuca de Mizi, tentando decifrar como aquela criatura de aparência tão humana e caótica podia carregar uma linhagem tão esmagadora. Sua, por sua vez, evitava até mesmo respirar o mesmo ar que a veterana, sentindo o ombro latejar toda vez que a fragrância de chiclete de morango passava por ela.
Mas o tempo era um inimigo cruel para quem vivia de sangue.
Na manhã de quarta-feira, Mizi sentiu a queimação voltar. Não era uma fome comum; era aquela coceira sob as gengivas, a percepção aguçada demais de cada veia pulsando ao seu redor. O sangue sintético ou animal que ela mantinha em casa não tinha o mesmo efeito. Ela precisava daquela voltagem que só o sangue de Sua parecia proporcionar.
Durante a aula de Geografia, Mizi observou o movimento. Sua pediu licença para ir ao banheiro, saindo com sua postura rígida e melancólica. Ivan permaneceu na sala, focado em desenhar espirais no caderno.
— Já volto, gente. O energético de hoje me deu um nó na bexiga — mentiu Mizi, levantando-se logo em seguida.
Marty apenas acenou com a mão, sem tirar os olhos do celular, enquanto Vianna murmurava algo sobre a prova seguinte. Mizi saiu da sala com passos leves, fechando a porta com um clique quase silencioso.
Ela entrou no banheiro feminino no exato momento em que Sua saía de uma das cabines, ajeitando a saia do uniforme. Ao ver Mizi, a vampira menor estancou, os olhos roxos se arregalando em um misto de medo e antecipação.
Mizi não deu tempo para reações. Com um movimento fluido, ela avançou, prendendo Sua contra a pia de mármore frio. Suas mãos espalmaram-se na pedra, encurralando a garota.
— Sentiu minha falta, gracinha? — perguntou Mizi, o tom de voz carregado de um sarcasmo cortante, enquanto um sorriso de canto revelava o início de suas presas.
— Me solta, Mizi — Sua tentou empurrá-la, mas suas mãos pararam no peito da garota rosa. Ela se lembrou instantaneamente da força avassaladora da semana anterior. Lutar era inútil. — Você disse que nos deixaria em paz.
— Eu disse que o segredo estava seguro. Não disse que ia passar fome — Mizi inclinou o rosto, o hálito quente roçando a orelha de Sua. — Você tem um gosto muito bom, sabia? É um desperdício deixar todo esse potencial guardado debaixo desse blazer abotoado até o pescoço.
Mizi inclinou a cabeça, pronta para morder, quando o som da porta do banheiro abrindo ecoou pelo ambiente. Passos rápidos e o som de saltos no chão de cerâmica indicavam que alguém estava entrando.
Sua congelou, o corpo ficando rígido como pedra. Se alguém as visse naquela posição, o segredo estaria em risco, mas o pânico de ser descoberta como monstro era maior do que qualquer outra coisa.
Mizi, agindo por puro instinto de sobrevivência social e malícia, mudou a estratégia em um milésimo de segundo. Em vez de morder, ela agarrou a cintura de Sua com firmeza, puxando-a para mais perto, e enterrou o rosto em seu pescoço, mas não com dentes. Ela começou a distribuir beijos úmidos e intensos na pele pálida, lambendo o local onde a jugular pulsava freneticamente.
Uma garota do segundo ano travou na entrada, com os olhos arregalados e a boca aberta. Para ela, a cena era clara: Mizi, a garota mais popular e cobiçada da escola, estava prensando a novata misteriosa contra a pia em um momento de paixão avassaladora.
— Ai, meu Deus! — a garota exclamou, ficando vermelha como um tomate. — Desculpa! Desculpa, eu... eu volto depois!
A porta bateu com força quando a intrusa fugiu. Mizi não perdeu tempo. Assim que o som dos passos desapareceu, ela cravou as presas no pescoço de Sua, sugando o sangue com uma urgência faminta. Sua soltou um arquejo, as mãos apertando a blusa de Mizi enquanto sentia a força se esvair por alguns segundos.
Após se saciar, Mizi se afastou lentamente, lambendo os lábios e guardando as presas com um suspiro de satisfação. Ela olhou para Sua, que parecia estar à beira de um colapso nervoso.
— Você é louca — sussurrou Sua, cobrindo o pescoço com a mão. — Aquela garota vai espalhar isso para a escola inteira em cinco minutos.
— Deixa que falem. É melhor acharem que eu sou uma pegadora compulsiva do que descobrirem que somos canibais sobrenaturais — Mizi deu de ombros, então, em um gesto inesperado, levantou o pulso esquerdo em direção à boca de Sua. — Quer?
Sua hesitou. Ela nunca tinha provado o sangue de outro vampiro. A curiosidade e a fraqueza momentânea falaram mais alto. Ela segurou o pulso de Mizi e mordeu. Mizi nem sequer piscou; para ela, a dor era quase inexistente comparada ao prazer da troca.
No entanto, assim que o sangue de Mizi tocou a língua de Sua, a novata se afastou bruscamente, tossindo e fazendo uma careta de nojo profundo.
— O que é isso? — Sua limpou a boca, horrorizada. — Tem gosto de... de ferro velho e flores podres. É horrível! Como você consegue viver com isso nas veias?
Mizi soltou uma gargalhada genuína, ajeitando o cabelo no espelho.
— Eu gosto. Tem personalidade. Diferente do seu, que é doce demais, parece sobremesa — Mizi piscou para ela. — Agora se vira com essa marca aí. Use maquiagem ou um cachecol, eu não me importo. Vejo você na sala.
Mizi saiu do banheiro com a confiança de quem acabara de ganhar na loteria. Sua permaneceu ali por longos minutos, usando toda a base e corretivo que tinha na mochila para esconder o estrago no pescoço.
O estrago social, porém, foi impossível de esconder.
Não demorou nem três aulas. No momento em que o sinal do intervalo tocou, a Escola Anakt já estava em chamas. O boato havia se espalhado como um vírus: "Mizi e a novata, no banheiro, clima quente".
No pátio, o clima era de choque absoluto. Ivan, que não sabia de nada, foi abordado por três garotos que perguntavam se a irmã dele era "tão rápida quanto parecia". Confuso e irritado, ele arrastou Sua para um canto isolado atrás do ginásio.
— Dá pra me explicar por que a escola inteira está dizendo que você e a garota rosa estavam se pegando no banheiro? — Ivan perguntou, cruzando os braços, os olhos brilhando em perigo.
Sua suspirou, encostando a cabeça na parede fria.
— Ela me pegou, Ivan. De novo. Eu fui ao banheiro e ela me encurralou. Alguém entrou e ela fingiu que estávamos... bom, você sabe. Para não sermos pegas.
— Ela te mordeu de novo? — Ivan deu um passo à frente, preocupado.
— Sim. E depois ela me ofereceu o dela — Sua fez uma careta de nojo só de lembrar. — O sangue dela é intragável, Ivan. É amargo, denso... é como beber veneno puro. Eu não sei como ela é tão forte sendo tão... podre por dentro.
— Ela é um monstro entre monstros, Sua — Ivan murmurou, olhando para o pátio, onde Mizi estava cercada por seus amigos. — E ela acabou de criar a cobertura perfeita. Agora, qualquer tempo que passarmos perto dela vai ser visto como um "romance". Ela nos amarrou a ela.
Enquanto isso, na mesa central do pátio, o drama era de outra natureza.
Till estava sentado com a cabeça baixa, remexendo em sua comida com uma expressão de quem tinha acabado de perder o cachorro de estimação.
— Cara, você tá péssimo — disse Hyuna, tentando conter o riso enquanto Luka observava a cena com sua neutralidade habitual. — Olha pelo lado positivo: pelo menos ela não está com um cara.
— Isso não ajuda em nada, Hyuna! — Till exclamou, a voz falhando. — A novata? Sério? Ela nem fala! Ela parece um fantasma! O que a Mizi viu nela que não viu em... em...
— Em um emo revoltado que toca guitarra e não consegue dizer "oi" sem gaguejar? — Luka completou, ajustando os óculos. — A análise lógica sugere que a atração física costuma ser imprevisível, Till. Mas, se serve de consolo, a probabilidade de um relacionamento duradouro entre uma personalidade extrovertida como a da Mizi e uma melancólica como a da Sua é estatisticamente baixa.
— Valeu, Luka. Ajudou muito — resmungou Till, enterrando o rosto nas mãos.
A alguns metros dali, a situação não estava melhor. Marty e Vianna estavam cercando Mizi, que tentava comer seu lanche em paz.
— Mizi, sua traíra! — Marty exclamou, fazendo um gesto dramático. — Desde quando você gosta das góticas suaves? E por que você não contou pra gente? A gente compartilha tudo!
— É, Mizi — Vianna cruzou os braços, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — A gente achou que você tinha padrões. Mas a novata? Ela nem sorri!
— Gente, pelo amor de Deus — Mizi revirou os olhos, mas por dentro ela estava adorando o caos. — Foi só um momento. Ela é... interessante de perto. E tem um pescoço muito convidativo.
— Eu não acredito — Marty bufou, sentando-se ao lado dela. — A escola inteira vai falar disso por um mês. Você sabe que o Till vai entrar em depressão profunda, né?
Mizi olhou de relance para a mesa de Till. Ela viu o garoto de cabelo cinza com os ombros caídos e sentiu uma pontada momentânea de algo que parecia culpa, mas que ela rapidamente esmagou.
— O Till supera. Ele gosta de sofrer, faz parte da estética dele — Mizi disse, levantando-se. — Agora, se me dão licença, eu vou ali ver se a minha "namorada" precisa de mais maquiagem no pescoço.
Mizi caminhou pelo pátio, sentindo os olhares de todos sobre ela. Ela viu Ivan e Sua saindo de trás do ginásio e caminhou diretamente na direção deles. Ao passar por Ivan, ela deu um tapinha no ombro dele e sussurrou:
— Cuida bem da sua irmã, Ivan. Ela é deliciosa.
Ivan rosnou baixo, um som que apenas os ouvidos vampíricos de Mizi captaram, mas ela apenas riu, jogando o cabelo rosa para trás. Ela sabia que tinha o controle total. A fofoca era sua armadura, o sangue de Sua era sua droga, e a Escola Anakt era, agora mais do que nunca, o seu reino pessoal.
Para os humanos, era apenas o maior escândalo romântico do ano. Para os vampiros, era o início de uma coexistência simbiótica e perigosa, onde o amor era uma mentira conveniente e a fome era a única verdade absoluta.