Let me .... You
O Beijo de Ferro e o Gosto do Abismo
Naquela quinta-feira, o ar na Escola Anakt parecia mais denso, embora os corredores estivessem estranhamente vazios. Ivan, com sua habitual arrogância, decidira que não valia a pena sair do conforto do seu quarto escuro. Ele presumiu que, após o banquete da véspera, Mizi estaria satisfeita por um tempo. Afinal, vampiros costumavam ter ciclos, e ele acreditava que a "rainha" da escola seguiria a etiqueta básica de não esgotar sua fonte tão rapidamente.
Till também não apareceu. A notícia do "romance" no banheiro o atingira como um soco no estômago, drenando qualquer vontade de fingir normalidade. Hyuna e Luka, agindo como os amigos protetores que eram, decidiram que o bem-estar mental do guitarrista era mais importante que as aulas de física e foram para a casa dele, deixando a escola ainda mais deserta. Até Vianna, por um motivo de saúde qualquer, não compareceu.
Sua, no entanto, não tinha o luxo de faltar. Ela era a novata disciplinada, a garota que precisava manter as aparências de normalidade absoluta para não levantar suspeitas. Ela caminhou pelos corredores sentindo-se exposta, cada olhar dos alunos humanos parecendo um lembrete do boato escandaloso que Mizi criara.
Quando o sinal da saída finalmente tocou, Sua sentiu um alívio momentâneo. Ela apressou o passo, querendo apenas chegar em casa e se trancar longe de olhos dourados e sorrisos predatórios. Mas a sensação de estar sendo seguida começou a formigar na base de seu pescoço antes mesmo de ela cruzar o portão principal.
Ela dobrou a esquina em direção ao caminho mais curto, mas, antes que pudesse reagir, uma mão forte a agarrou pelo ombro. O mundo girou e, em um piscar de olhos, Sua foi arremessada para dentro da penumbra de um beco estreito entre dois prédios comerciais.
O impacto contra a parede de tijolos foi seco. Mizi a imobilizou com uma eficiência assustadora, prendendo-a de costas. O rosto de Sua foi pressionado contra a superfície áspera, enquanto Mizi usava o próprio corpo para esmagar qualquer tentativa de fuga.
— Você achou mesmo que o seu irmão ia te proteger hoje só por não vir à aula? — A voz de Mizi surgiu rente ao seu ouvido, carregada de uma fome que fazia o ar vibrar.
Mizi usou a mão livre para afastar o cabelo preto e curto de Sua, revelando a pele pálida do pescoço que ainda carregava as marcas arroxeadas do dia anterior.
— Eu passei o dia pensando no seu cheiro, Sua — sussurrou Mizi, a respiração quente causando arrepios na vampira menor. — Eu estava me segurando para não te matar no meio do corredor e sugar cada gota dessa doçura que você carrega.
— Mizi, por favor... — Sua tentou se soltar, mas seus braços estavam presos sob o peso da veterana. Ela era mais fraca, e a fome de Mizi parecia dar a ela uma força ancestral. — Você já teve o suficiente ontem... eu estou fraca...
— Nunca é o suficiente — rosnou Mizi.
Sem mais avisos, Mizi cravou as presas. A dor inicial foi aguda, mas, desta vez, algo diferente aconteceu. O corpo de Sua, já exausto e submisso àquela dinâmica de poder, não lutou. Em vez dos arquejos de dor puramente física, um gemido baixinho e involuntário escapou de seus lábios, ecoando nas paredes do beco.
Mizi sugou com força, sentindo o sangue de vampiro — puro, potente e doce — renovar suas energias. Quando ela finalmente se afastou, Sua estava bamba. Se não fosse pelo aperto firme de Mizi contra a parede, ela teria desabado.
Mizi a virou bruscamente. Sua agora estava de frente para ela, os olhos roxos nublados, o rosto pálido contrastando com o rubor da mordida. A posição era de total vulnerabilidade. Sua não conseguia raciocinar; o mundo parecia girar em tons de rosa e cinza.
Mizi segurou o queixo de Sua, forçando-a a olhar para cima.
— Você é tão frágil — disse Mizi, os olhos dourados brilhando com algo que não era apenas fome.
Antes que Sua pudesse protestar, Mizi a beijou. Foi um beijo faminto, selvagem, que misturava o gosto do sangue que ainda restava em seus lábios com uma urgência desesperada. Durante o contato, Mizi a pressionou ainda mais contra a parede, dominando cada espaço. No final, Mizi deu uma mordida curta e seca no lábio inferior de Sua, o suficiente para fazer brotar uma pequena gota de sangue, que ela lambeu imediatamente, como se fosse o tesouro mais valioso da terra.
Sua caiu no chão assim que Mizi a soltou. Ela estava trêmula, o coração (ou o que restava do ritmo dele) disparado.
— O que... o que você quer de mim? — Sua perguntou, a voz falhando, o rosto queimando de vergonha e confusão.
Mizi suspirou e abriu a mochila, retirando uma bolsa de plástico selada, contendo um líquido escuro e espesso. Ela a jogou no colo de Sua.
— Bebe isso.
Sua olhou para a bolsa com desconfiança.
— O que é isso? Veneno? Ou o seu sangue nojento?
— É sangue animal, sua idiota — Mizi agachou-se à altura dela, colocando uma mecha do cabelo de Sua atrás da orelha com uma delicadeza que contrastava com a violência de segundos atrás. — Eu roubei de uma clínica veterinária no caminho para cá. Você precisa se recuperar, senão vai acabar morrendo e eu perco minha fonte.
— Eu não confio em você — disse Sua, apertando a bolsa, mas sem abri-la.
Mizi revirou os olhos, irritada.
— Olha, eu odeio sangue de bicho. Tem gosto de terra e desespero. Se fosse veneno, eu não estaria perdendo meu tempo aqui. Quer ver?
Mizi arrancou a bolsa das mãos de Sua, mordeu o lacre e tomou um gole generoso. No mesmo instante, sua expressão mudou para uma de nojo absoluto. Ela fez uma careta, quase engasgando.
— Viu? É horrível. É um lixo — disse Mizi, limpando a boca. — Agora bebe.
Sua ainda hesitava, a mente travada no choque do beijo e da agressão. Mizi, perdendo a paciência que já era pouca, rosnou.
— Ah, pelo amor de Deus, Sua! Abre a boca!
Sua fechou os lábios com força, negando-se a ser alimentada como uma criança ou um animal de estimação. Mizi sentiu o ódio subir. Em um movimento impulsivo, Mizi mordeu a bolsa novamente, sugando uma grande quantidade de sangue, mas sem engolir. Ela manteve o líquido na boca, as bochechas infladas.
Sua arregalou os olhos, sem entender, até que Mizi a puxou pela gola do blazer e a beijou novamente.
Desta vez, o beijo foi uma invasão forçada. Mizi transferiu o sangue diretamente da sua boca para a de Sua. Foi uma mistura caótica de línguas, dentes e o gosto metálico do sangue animal compartilhado. Sua engasgou, sendo obrigada a engolir para não sufocar, enquanto o líquido escorria pelos cantos de suas bocas, manchando o uniforme social impecável de ambas.
Quando se afastaram, um fio de sangue ligava seus lábios. Mizi limpou o rosto com as costas da mão, os olhos faiscando de raiva e algo mais que ela se recusava a nomear.
— Termina de beber essa merda — disse Mizi, deixando a bolsa quase vazia no colo de Sua. — E não ouse faltar amanhã.
Mizi levantou-se e saiu do beco sem olhar para trás, deixando o som de seus passos ecoar no silêncio da tarde.
Sua permaneceu no chão por um longo tempo. Ela pegou a bolsa e, mecanicamente, bebeu o restante. O sangue animal, embora amargo, trouxe de volta a força para seus membros. Ela limpou o rosto, tentando processar o turbilhão de sensações. A raiva, o medo... e aquela estranha pulsação onde os lábios de Mizi a tocaram.
Quando finalmente chegou em casa, Ivan estava jogado no sofá, comendo uma barra de chocolate e assistindo a um programa de variedades qualquer. Ele olhou para a irmã e congelou.
— Sua? Que porra aconteceu com você? Você está coberta de sangue! E o seu pescoço...
Sua caminhou até a cozinha, pegou um copo de água e bebeu tudo de uma vez. Ela se virou para o irmão, os olhos roxos brilhando com uma intensidade que ele nunca vira.
— Ela me pegou de novo, Ivan. No beco.
Ivan levantou-se, a barra de chocolate esquecida na mesa.
— Ela te atacou de novo? Eu vou matar aquela garota, eu não me importo se ela é mais velha, eu vou...
— Não — Sua o interrompeu, sentando-se à mesa e escondendo o rosto nas mãos. — Ela... ela me alimentou