Let me .... You
O Gosto da Ferrugem e do Mel
— Ela me beijou, Ivan.
O silêncio que se seguiu na sala de estar foi tão denso que poderia ser cortado com uma lâmina. Ivan, que até um segundo atrás estava pronto para caçar Mizi pelos telhados da cidade, estancou no meio do caminho. Ele olhou para a irmã, processando a mancha de sangue no uniforme dela e a confissão que parecia ter sido arrancada à força.
— Ela o quê? — Ivan perguntou, a voz falhando por um breve momento. — Sua, aquela garota é um monstro. Ela está te usando como um reservatório particular e você está me dizendo que... que gostou?
Sua desviou o olhar, as mãos trêmulas apertando a borda da mesa da cozinha. A sensação do lábio de Mizi contra o seu, a mistura do sangue animal com a saliva dela e a intensidade dourada daqueles olhos ainda queimavam em sua memória.
— Eu não sei explicar, Ivan! — Sua gritou, a frustração transbordando. — Foi violento, foi nojento, mas... houve algo ali. Ela me alimentou quando eu estava morrendo. Ela não precisava fazer isso. Ela podia ter me deixado secar naquele beco.
— Ela te alimentou com o próprio beijo porque quer você viva para a próxima refeição! — Ivan rebateu, socando a parede ao lado da porta. — Você está agindo como uma vítima de síndrome de Estocolmo, Sua. Ela é perigosa. Ela é mais velha que nós, mais forte e completamente instável.
— E o que você quer que eu faça? — Sua levantou-se, enfrentando o irmão. — Que eu lute contra ela? Você viu o que ela fez comigo! Ela me domina sem esforço. Nós estamos no território dela, Ivan. Se você tentar matá-la, ela vai acabar com nós dois antes do amanhecer.
A discussão se arrastou pela noite, carregada de mágoa e medo. Eles eram irmãos, os únicos de sua espécie naquela cidade, e pela primeira vez, havia uma rachadura entre eles que não podia ser consertada com palavras.
Na manhã seguinte, o caminho para a escola foi um exercício de silêncio hostil. Ivan caminhava três passos à frente, as mãos enfiadas nos bolsos, a mandíbula travada. Sua o seguia, sentindo o corpo pesado e a mente envolta em névoa. O sangue animal que Mizi a forçara a beber havia ajudado, mas a perda constante para a veterana estava cobrando um preço alto.
Eles ainda não haviam cruzado o portão principal quando uma silhueta rosa e azul surgiu de trás de um dos pilares de concreto da entrada. Mizi não usava o blazer, e sua gravata estava tão frouxa que era quase inexistente. Ela exibiu um sorriso que não chegou aos olhos.
— Bom dia, pombinhos — disse Mizi, aproximando-se com uma confiança que fez Ivan rosnar audivelmente.
— Fica longe dela, Mizi — Ivan disse, colocando-se na frente de Sua.
Mizi soltou uma risada curta, ignorando completamente a ameaça de Ivan. Ela esticou o braço, passando por ele e segurando o pulso de Sua com uma firmeza inabalável.
— A gente tem planos, Sua. Vamos dar uma volta.
— Ela não vai a lugar nenhum com você — Ivan retrucou, segurando o outro braço da irmã.
Mizi inclinou a cabeça, os olhos dourados brilhando com uma luz perigosa, as pupilas se estreitando como as de um gato.
— Ivan, querido... você realmente quer fazer uma cena aqui? — Ela gesticulou para os poucos alunos que começavam a chegar. — Eu posso contar para todo mundo que você tem um fetiche estranho por doces ou posso simplesmente quebrar seu braço em três lugares antes que o sinal toque. Deixe a garota vir comigo. Eu vou devolvê-la... inteira. Mais ou menos.
Sua olhou para o irmão, suplicando com o olhar para que ele não lutasse. Ela sabia que, se houvesse um confronto, Mizi não teria piedade.
— Está tudo bem, Ivan — murmurou Sua, a voz fraca. — Eu vou com ela.
Ivan soltou o braço da irmã, os olhos cheios de uma fúria impotente. Mizi deu um tapinha cínico no rosto dele antes de arrastar Sua para longe da escola, em direção à densa floresta que circundava a região norte da cidade.
— Para onde estamos indo? — Sua perguntou, tentando acompanhar o passo rápido de Mizi enquanto entravam sob a copa das árvores. — A aula vai começar...
— Esquece a aula, Sua. Você está com uma cara de quem vai desmaiar a qualquer momento — Mizi respondeu, sem olhar para trás. — E eu estou com uma fome que não consigo controlar.
O medo gelou o estômago de Sua.
— Você vai me matar? Aqui?
Mizi parou de repente, virando-se para ela. O sol filtrava-se entre as folhas, criando padrões de luz no rosto da veterana.
— Se eu quisesse você morta, já teria feito isso no banheiro — Mizi disse, aproximando-se. — Eu só preciso de um lugar onde ninguém vá nos interromper.
Elas chegaram a uma clareira isolada, onde o som da civilização era apenas um zumbido distante. Mizi não perdeu tempo. Ela empurrou Sua contra o tronco de um carvalho antigo, e antes que a menor pudesse protestar, os dentes de Mizi já estavam cravados em seu pescoço.
Sua soltou um grito abafado que se transformou em um suspiro de rendição. A sucção era rítmica, poderosa. Mizi bebia como se estivesse no deserto, drenando o vigor de Sua. Quando Mizi finalmente se afastou, Sua escorregou pelo tronco, as pernas cedendo, mas Mizi a segurou pela cintura.
— Espera... ainda não acabei com você — murmurou Mizi, a voz rouca.
Antes que Sua pudesse entender o que estava acontecendo, Mizi a colocou de pé e, com uma rapidez chocante, desceu a saia preta do uniforme de Sua.
— Mizi, o que você está... — O protesto de Sua foi interrompido por um arquejo agudo.
Mizi enfiou dois dedos em Sua sem qualquer preâmbulo. A invasão foi súbita e intensa. Sua gemeu alto, a cabeça caindo para trás contra a casca áspera da árvore. Em vez de empurrar Mizi, suas mãos, agindo por um instinto que ela não sabia que possuía, agarraram os ombros da veterana, puxando-a para mais perto.
— Isso... dói... — Sua ofegou, mas seu corpo a traía, arqueando-se em direção ao toque.
— Vai doer mais se você não relaxar — Mizi disse, começando a bombear os dedos com força.
Os gemidos de Sua tornaram-se mais frequentes, ecoando pela floresta silenciosa. Mizi não parava. Com a outra mão, ela segurou a mão de Sua e enfiou três dedos entre os dela, apertando-os com força, enquanto continuava o movimento lá embaixo. Sua estava em transe, a saliva escorrendo pelo canto da boca, os olhos roxos revirando enquanto o prazer e a dor se confundiam.
Mizi adicionou o terceiro dedo, e o impacto foi como uma descarga elétrica. Sua tremeu por inteiro, as unhas cravando-se na pele de Mizi, chegando a tirar sangue dos ombros da veterana. Em um ápice de excitação e desespero, Sua mordeu a própria mão de Mizi, que estava perto de seu rosto, buscando qualquer âncora na realidade.
O ápice veio rápido e violento. Sua gozou com um grito sufocado, o corpo espasmando contra o de Mizi até que a última gota de energia parecesse ter sido drenada.
Mizi retirou os dedos lentamente, observando a garota à sua frente. Sua estava vermelha de vergonha, o uniforme desarrumado, a respiração errática. Ela parecia não entender nada do que acabara de acontecer, mas o desejo de Mizi ainda não estava satisfeito.
— Agora, a sobremesa — disse Mizi.
Ela voltou ao pescoço de Sua, mordendo exatamente o mesmo lugar de antes. Ela sugou com uma ganância renovada, aproveitando a descarga de adrenalina que ainda corria no sangue da garota. Mas o corpo de Sua tinha limites. Já enfraquecida pela falta de alimentação adequada e pelas perdas constantes, ela sentiu a visão escurecer. O mundo desapareceu em um borrão negro e Sua desmaiou nos braços de Mizi.
Mizi percebeu o peso morto em seus braços e praguejou.
— Merda, Sua... você é muito fraca.
Ela a deitou cuidadosamente sobre a grama e as folhas secas. Mizi sabia que, se não fizesse algo, Sua não acordaria. Ela se levantou e correu para as profundezas da floresta, seus sentidos captando o movimento de um animal grande.
Minutos depois, Mizi retornou arrastando o corpo de um veado jovem, recém-abatido. Ela se ajoelhou ao lado de Sua. Mizi mordeu o pescoço do animal, sugando uma quantidade generosa de sangue, mas sem engolir. Ela se inclinou sobre Sua, selando seus lábios nos dela e transferindo o líquido quente e ferroso diretamente para a garganta da garota.
Ela repetiu o processo várias vezes. Boca a boca, Mizi forçava a vida de volta para dentro de Sua, ignorando o gosto amargo do sangue animal que tanto detestava.
Na quinta vez, Sua deu um solavanco. Ela tossiu, o sangue escorrendo pelo queixo enquanto seus pulmões buscavam ar. Seus olhos roxos abriram-se devagar, focando no rosto de Mizi, que estava a centímetros do seu, sujo de vermelho.
— Bebe — ordenou Mizi, segurando a nuca de Sua e forçando-a contra a ferida aberta no pescoço do veado. — Bebe tudo até não aguentar mais.
Sua, agindo pelo puro instinto de sobrevivência, obedeceu. Ela bebeu até sentir a queimação na garganta diminuir e a força retornar aos seus membros. Quando finalmente parou, ela olhou para Mizi, que estava sentada nos calcanhares, observando-a com uma expressão ilegível.
— Por que você faz isso? — Sua perguntou, a voz rouca, limpando o sangue do rosto. — Você me usa, me machuca... e depois me salva.
Mizi levantou-se, limpando as mãos na grama. Ela olhou para o céu, onde a luz do sol começava a mudar de tom.
— Porque você é minha, Sua — Mizi disse, sem olhar para ela. — E ninguém mais pode ter você. Nem mesmo a morte.
Ela estendeu a mão para ajudar Sua a se levantar. O segredo delas agora estava manchado de sangue e prazer, um laço sombrio que nenhuma regra escolar ou moral humana poderia quebrar. Naquela floresta, a hierarquia da Escola Anakt havia sido selada: havia a rainha, e havia a sua protegida. E o preço daquela proteção era o gosto eterno da ferrugem e do mel.