Lights of Love
Distância entre Frames e Estetoscópios
O silêncio do apartamento de Emilly em Los Angeles parecia mais pesado do que o normal naquela noite de terça-feira. Sobre a mesa da cozinha, uma pilha de livros de farmacologia e um estetoscópio abandonado dividiam espaço com uma caixa de pizza fria. O estágio intensivo havia chegado ao fim, dando lugar a uma calmaria estranha, uma transição antes de seu retorno definitivo para Stanford. No entanto, o alívio que ela deveria estar sentindo era ofuscado por uma sensação persistente de vazio.
Seu celular vibrou sobre o mármore. O visor iluminou-se com uma foto que ela mesma tirara: Joe Keery, com o cabelo mais bagunçado do que o habitual, segurando um copo de café e rindo de alguma piada interna durante uma de suas corridas matinais.
"Acabei de sair do set. Sinto falta do ar seco da Califórnia. E de você, principalmente de você."
Emilly sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Ela digitou uma resposta rápida: "Fico feliz que o dia tenha sido produtivo! Descanse bem, Joe. Sei que amanhã o cronograma é pesado."
Ela apagou a frase seguinte, onde dizia que sentia falta do som da risada dele ao vivo. Em vez disso, bloqueou o aparelho e o deixou de lado.
A viagem de Joe para Atlanta para as gravações da última temporada de *Stranger Things* tinha mudado tudo. O que antes era uma rotina de encontros furtivos ao amanhecer e cafés roubados entre turnos, transformara-se em fusos horários desencontrados e chamadas de vídeo que caíam por causa do sinal instável do set.
A tentativa de um "primeiro encontro oficial" — aquele com velas, comida de verdade e sem roupas de ginástica — fora enterrada sob uma montanha de imprevistos. Primeiro, uma emergência de Emilly no hospital; depois, uma sessão de fotos de última hora para Joe. Quando finalmente parecia que aconteceria, o avião dele para a Geórgia decolou.
— Você está sendo boba — disse Sofia, sua melhor amiga, que apareceu para ajudar com as malas da mudança. — Ele te manda mensagens o tempo todo. Por que você está se afastando?
— Eu não estou me afastando, Sofi — Emilly suspirou, fechando uma mala com mais força do que o necessário. — Eu só estou sendo realista. Ele está gravando a temporada final da série mais importante da carreira dele. Ele está cercado pelos amigos de anos, vivendo aquele clima de despedida, focado em entregar o melhor trabalho possível. Eu sou a garota que ele conheceu em um karaokê há algumas semanas.
— Uma garota que ele acordava às seis da manhã para ver, mesmo sem dormir — rebateu a amiga.
— Exatamente. E agora ele não precisa mais desse sacrifício. Eu não quero ser o "compromisso" que ele precisa encaixar entre uma cena de ação e um jantar com o elenco. Eu sei como é ter uma rotina que consome sua alma. Eu não quero ser mais um item na lista de tarefas dele.
Em Atlanta, o clima era de nostalgia e exaustão. Joe estava sentado em sua cadeira de descanso, ainda usando o figurino de Steve Harrington, ligeiramente sujo de sangue falso e poeira. Ele olhou para o celular, relendo a mensagem curta de Emilly.
Havia uma barreira invisível crescendo entre eles, e ele não sabia como quebrá-la à distância de mil milhas.
— Cara, você está olhando para esse telefone como se ele fosse um monstro do Mundo Invertido — comentou um de seus colegas de elenco, sentando-se ao lado dele com uma garrafa de água.
Joe soltou um riso seco e guardou o aparelho no bolso da jaqueta de membro de clube.
— É a Emilly. Eu sinto que ela está recuando. Cada vez que eu tento ligar, ela diz que está ocupada ou que eu deveria estar descansando.
— Talvez ela ache que está te ajudando — sugeriu o amigo. — Filmagens são intensas. Muita gente não entende que, às vezes, a gente só precisa de uma voz normal do outro lado da linha para lembrar que o mundo real ainda existe.
— Eu já disse isso a ela — Joe passou a mão pelo cabelo, desfazendo parte do penteado da cena. — Mas ela é teimosa. Ela acha que minha vida é um evento glamouroso e que ela é uma intrusa. Ela não entende que eu trocaria qualquer jantar de elenco agora por trinta minutos correndo atrás dela naquele parque, mesmo que eu estivesse quase cuspindo os pulmões.
Naquela noite, Joe decidiu que não aceitaria mais as respostas curtas. Ele esperou até que soubesse que o turno dela teria acabado, ignorando o fato de que ele próprio precisava estar no set em cinco horas.
O celular de Emilly tocou. Não era uma mensagem. Era uma chamada de vídeo.
Ela hesitou por três toques antes de atender. A imagem de Joe apareceu, a iluminação do trailer de maquiagem criando sombras dramáticas em seu rosto. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilharam ao vê-la.
— Oi, Doutora — disse ele, a voz suave preenchendo o quarto silencioso dela.
— Joe? São quase duas da manhã aí — Emilly disse, sentando-se na cama. — Você devia estar dormindo. Amanhã você tem aquela sequência de luta, não tem?
Joe soltou um suspiro longo, encostando a cabeça no encosto do banco.
— Viu? É exatamente disso que eu estou falando.
— Do que você está falando?
— Toda vez que nos falamos, você me dá uma ordem médica ou uma desculpa para desligar. "Joe, vá dormir", "Joe, aproveite seus amigos", "Joe, foque no trabalho". Emilly, eu sou um homem adulto. Eu sei quando preciso dormir.
Emilly sentiu uma pontada de culpa.
— Eu só não quero atrapalhar, Joe. Eu terminei meu estágio, estou com tempo livre agora antes de voltar para as aulas pesadas em Stanford. Mas você... você está no auge de tudo. Eu sinto que estou roubando o tempo que você deveria usar para se concentrar ou para relaxar com as pessoas que estão aí com você.
— Você não está roubando tempo, Em — ele disse, aproximando o rosto da câmera. — Você é o meu relaxamento. Você é o que me faz sentir que não sou apenas um personagem ou um produto. Quando eu falo com você sobre anatomia, ou sobre como o café do hospital é ruim, ou sobre aquela música que a gente cantou... é ali que eu descanso.
Houve um silêncio carregado através da linha. Emilly olhou para as próprias mãos, sentindo a barreira que construíra começar a rachar.
— Eu tive medo — ela admitiu em voz baixa. — Medo de que, quando a poeira baixasse e a novidade do karaokê passasse, você percebesse que manter algo com alguém que vive em bibliotecas e hospitais é difícil demais.
Joe sorriu, aquele sorriso de canto que a fizera caminhar até a mesa dele na primeira noite.
— Emilly, eu sou um ator e músico. Minha vida é feita de incertezas e de viajar pelo mundo. Se tem alguém que entende de rotinas difíceis, sou eu. Mas eu decidi que queria você na minha rotina desde o momento em que você desafinou de propósito naquela música do Elton John só para me fazer rir.
— Eu não desafinei de propósito! — ela protestou, rindo pela primeira vez em dias.
— Desafinou sim. E foi o momento mais charmoso da noite.
Eles conversaram por mais uma hora. Joe contou sobre as pegadinhas no set e sobre como sentia falta de hambúrgueres de verdade. Emilly falou sobre a melancolia de terminar o estágio e sobre a ansiedade de voltar para Stanford. A distância física ainda estava lá, mas a distância emocional que Emilly impusera começava a evaporar.
— Sabe — disse Joe, bocejando apesar de tentar esconder —, eu tenho uma folga de três dias daqui a duas semanas. Antes de começarmos o bloco final de episódios.
Emilly sentiu o coração acelerar.
— E o que você pretende fazer com essa folga?
— Eu estava pensando em pegar um voo para Palo Alto. Ouvi dizer que tem uma estudante de medicina lá que me deve um jantar oficial. Um jantar onde eu não precise usar moletom de corrida.
— Palo Alto fica perto de Stanford — ela disse, tentando manter a voz firme. — Acho que ela aceitaria. Mas aviso logo, a comida universitária não é lá essas coisas.
— Eu não vou pela comida, Emilly.
— Eu sei — ela sussurrou. — Eu também sinto sua falta, Joe.
— Ótimo. Porque eu estava começando a achar que teria que mandar uma bebida para a sua mesa via delivery só para você falar comigo de novo.
Eles se despediram com a promessa de uma nova contagem regressiva. Quando a tela escureceu, Emilly não sentiu mais o peso do silêncio no apartamento. Ela pegou o estetoscópio da mesa e o guardou na maleta, mas deixou o celular bem ao seu lado.
Em Atlanta, Joe fechou os olhos por apenas algumas horas antes do despertador tocar. Ele estava exausto, com os músculos doloridos e uma longa jornada de trabalho pela frente. Mas, enquanto caminhava para o set sob o sol da manhã da Geórgia, ele cantarolava baixinho uma melodia que começara a compor na noite anterior.
Era uma música sobre distâncias, sobre fusos horários e sobre uma morena latina que tinha o diagnóstico exato para o seu coração. A rotina deles continuaria sendo um caos, um quebra-cabeça de agendas e voos de última hora. Mas, pela primeira vez, Joe não se importava com a complexidade do jogo. Ele só queria garantir que, no final da música, a última nota fosse dela.