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Lights of Love

Entre Lentes e Bisturis: O Peso do Adeus

Os três dias seguintes pareceram existir em uma dobra temporal, um refúgio onde o relógio de Stanford e os cronogramas da Netflix não tinham jurisdição. Joe e Emilly decidiram que a Califórnia seria o seu playground. Eles pegaram a estrada em direção à costa, fugindo da bolha acadêmica de Palo Alto para sentir a brisa salgada de Santa Cruz e a névoa mística de Big Sur.

Joe era a personificação do toque físico. Era como se ele precisasse confirmar constantemente que ela era real e não um sonho febril entre as diárias de gravação. Seus dedos estavam sempre emaranhados nos dela enquanto caminhavam pelo calçadão; sua mão descansava na nuca dela durante os almoços tardios; e, nos momentos de silêncio, ele a puxava para perto, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Você sabe que eu não vou fugir, certo? — Emilly brincou enquanto eles observavam os surfistas em Pleasure Point. Ela sentia o calor do peito dele contra suas costas, os braços de Joe envolvendo sua cintura como uma âncora.

— Eu sei — sussurrou ele, dando um beijo suave no topo da cabeça dela. — É só que... passei tanto tempo vendo você por uma tela que meus sentidos estão tentando compensar o tempo perdido. Quero decorar a textura da sua pele, Em.

Emilly, por outro lado, expressava o que sentia através de um cuidado silencioso e meticuloso. Ela era a mulher que antecipava as necessidades dele antes mesmo que Joe as percebesse. Ela preparava o café exatamente como ele gostava antes de ele acordar; organizava os roteiros dele que ficavam espalhados pela mesa; e, quando percebeu que ele estava com uma dor muscular persistente por causa das cenas de ação, ela usou seus conhecimentos de anatomia para fazer uma massagem que o deixou em um estado de relaxamento quase hipnótico.

— Isso é feitiçaria — murmurou Joe, com a voz abafada pelo travesseiro enquanto ela trabalhava nos nós de suas costas. — Você tem mãos de anjo, Doutora.

— É apenas ciência, Keery — ela respondeu, sorrindo ao sentir a tensão abandonando o corpo dele. — E talvez um pouco de vontade de ver você inteiro para o seu último bloco de gravações.

No segundo dia, o mundo real colidiu com o refúgio deles. Emilly havia prometido a Sofia que passariam para um "happy hour" rápido com o grupo da faculdade. Joe, extrovertido por natureza, insistiu que queria conhecer as pessoas que cuidavam dela quando ele não estava por perto.

O bar era um antro universitário clássico, barulhento e cheio de luzes âmbar. Quando Joe entrou, usando um boné de beisebol e óculos de grau para tentar ser discreto, o ar na mesa de Sofia pareceu congelar por um segundo.

— Pessoal, este é o Joe — disse Emilly, tentando manter a casualidade, embora seu coração estivesse acelerado.

Sofia foi a primeira a quebrar o gelo, levantando-se com um sorriso travesso.

— Finalmente! O homem, o mito, o cantor de karaokê.

Joe riu, tirando o boné e estendendo a mão. Em dez minutos, ele já tinha conquistado a mesa. Ele ouvia atentamente as histórias de terror sobre as provas de residência, ria das piadas internas sobre os professores e fazia perguntas genuínas sobre a rotina deles. Não havia rastro do ator famoso; ali, ele era apenas um cara fascinado por aquele grupo de jovens dedicados.

— Sabe, Emilly — disse um dos colegas dela, Marcus, enquanto Joe estava no balcão pegando uma rodada de bebidas —, a gente achou que ele seria... sei lá, difícil. Mas ele olha para você como se você tivesse inventado a cura para todas as doenças.

Emilly olhou para o balcão. Joe estava rindo de algo que o barman dissera, mas, como se sentisse o olhar dela, ele se virou e piscou. O calor que percorreu o corpo dela não tinha nada a ver com a temperatura do bar.

A última noite foi a mais difícil. Eles voltaram para o apartamento de Emilly, o silêncio agora carregado com a consciência de que o voo dele para Atlanta sairia ao amanhecer. Enquanto ela dobrava cuidadosamente as roupas dele para caberem na mala — seu jeito silencioso de dizer "eu te amo" —, Joe a observava da porta do quarto.

— Não quero ir — disse ele, a voz carregada de uma vulnerabilidade que a desarmou.

Emilly parou de dobrar uma camiseta e olhou para ele.

— Você precisa ir, Joe. É o fim de um ciclo. Você me contou o quanto essa série significa para você. São suas pessoas preferidas, sua família de set. Você deve a si mesmo terminar isso da forma mais bonita possível.

Joe caminhou até ela, tirando a camiseta de suas mãos e jogando-a na mala de qualquer jeito. Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto em seu ombro.

— Eu sei. É só que... agora que eu tenho você, o resto do mundo parece um pouco menos brilhante. O set vai ser emocionante, vai ser triste. É o fim de uma era, Em. Dez anos da minha vida.

— E eu estarei aqui — ela disse, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dele. — Vou estar assistindo a cada vídeo que você mandar, ouvindo cada desabafo nas madrugadas. E quando você terminar a última cena, eu vou estar te esperando.

O aeroporto de San Jose, às cinco da manhã, era um lugar desolado. Joe segurava a mão de Emilly como se estivesse tentando absorver sua força. Ele estava prestes a voltar para o turbilhão: as cenas de choro, as despedidas dos colegas que cresceram com ele, a intensidade física e emocional de fechar a jornada de Steve Harrington.

— Promete que vai me ligar quando chegar? — perguntou ela, ajeitando a gola da jaqueta dele.

— Prometo. E promete que não vai estudar tanto a ponto de esquecer de comer? — ele rebateu, beijando a testa dela.

— Prometo.

O anúncio da última chamada para o voo ecoou pelo terminal. Joe suspirou, um som que parecia vir do fundo de sua alma. Ele a beijou uma última vez, um beijo que carregava a intensidade dos últimos três dias e a esperança dos próximos meses.

— Eu te amo, Emilly — ele disse, a voz firme, apesar da tristeza nos olhos.

— Eu também te amo, Joe. Vá lá e termine sua obra-prima.

Ela ficou parada no vidro, observando a figura dele desaparecer pelo portão de embarque. Joe não olhou para trás, porque sabia que, se olhasse, talvez não conseguisse subir naquele avião.

Horas depois, Joe estava de volta ao seu trailer em Atlanta. O cheiro de spray de cabelo, o figurino icônico pendurado no cabide e o roteiro com as marcas de "SÉRIE FINAL" no topo o cercavam. O clima no set era elétrico e melancólico; ele via seus colegas de elenco, pessoas que eram seus irmãos, compartilhando olhares de cumplicidade e dor.

Ele pegou o celular e viu uma mensagem de Emilly. Não era apenas um texto. Era uma foto de uma pequena caixa que ela havia escondido em sua mala sem ele perceber. Dentro, havia um frasco de óleo essencial para relaxamento, um pacote dos seus doces favoritos e um bilhete escrito à mão:

*"Para os dias em que o Mundo Invertido parecer real demais. Você é o meu herói favorito, Joe. Termine com o coração aberto. Estou orgulhosa de você."*

Joe sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ele guardou o bilhete no bolso da jaqueta de Steve, o lugar mais próximo do seu coração.

— Ei, Joe! Cinco minutos para o ensaio da cena da floresta! — gritou um assistente de produção, batendo na porta do trailer.

Joe respirou fundo, olhou-se no espelho e ajeitou o cabelo. O ciclo estava se fechando. A emoção que ele sentia — a mistura de tristeza pela despedida e a euforia pelo amor que o esperava na Califórnia — era o combustível perfeito para o que ele precisava entregar.

Ele saiu do trailer e caminhou em direção ao set, sentindo o peso da responsabilidade e a leveza de saber que, não importava quão sombria a cena fosse, havia uma luz latina em Stanford que nunca deixaria de brilhar para ele. O ato final havia começado, e Joe Keery nunca estivera tão pronto para dar tudo de si.

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