Loucos
Labirinto de Vidro e Sangue
O gosto metálico do álcool batizado ainda queimava na base da língua de Izabelle quando a consciência começou a retornar, lenta e dolorosa, como se ela estivesse sendo puxada para fora de um pântano de piche. O porão estava mergulhado em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som sibilante da lâmpada de óleo que agora morria.
Ela piscou, a visão turva focando aos poucos. Kageyama não estava mais lá. A cadeira onde ele se sentara para observá-la estava vazia, mas o copo de cristal — aquele que ele a forçara a beber — repousava no chão, a poucos centímetros de distância, como um escárnio silencioso.
Izabelle sentiu as cordas de seda apertando seus pulsos e tornozelos. O pânico tentou subir por sua garganta, mas ela o engoliu. "Pensa, Izabelle. Pensa como nas séries que você maratona", ela ordenou a si mesma, a respiração saindo em espasmos curtos.
Ela começou a balançar o corpo, sentindo a cadeira de madeira pesada ranger. O barulho ecoava no porão como trovões, e cada estalo a fazia temer que Kageyama aparecesse na porta com aquele sorriso gélido. Com um esforço hercúleo, ela inclinou o tronco para o lado, tentando alcançar o copo com os dedos trêmulos. A cadeira inclinou perigosamente.
— Vamos... só mais um pouco — sussurrou, os dentes cerrados.
O peso da madeira cedeu. Em um movimento desajeitado, a cadeira tombou de lado com um estrondo seco. A lateral do seu rosto bateu no chão frio, mas sua mão direita, agora livre do ângulo morto do braço da cadeira, estava a milímetros do copo. Ela esticou os dedos, sentindo a ponta das unhas roçarem o cristal. Com um puxão desesperado, ela trouxe o objeto para perto.
Izabelle não hesitou. Ela pressionou o copo contra o chão de pedra até que ele se estilhaçasse. Um dos cacos maiores cortou a palma de sua mão, o sangue quente e viscoso misturando-se aos resquícios do whisky. Ela ignorou a dor. Segurando o pedaço de vidro com a força de quem se agarra à vida, ela começou a serrar as cordas de seda em seus pulsos.
O vidro cortava a corda e a sua própria pele simultaneamente. O sangue tornava tudo escorregadio, mas o ódio que sentia por Kageyama dava-lhe uma força sobrenatural. Finalmente, a primeira amarra cedeu. Com uma mão livre, foi questão de segundos para libertar a outra e, em seguida, os tornozelos.
Ela se levantou, cambaleando, as pernas trêmulas. Olhou para as próprias mãos ensanguentadas e deu um riso amargo.
— Quem diria que ver aquela série seria tão útil... — murmurou, limpando o suor da testa com o antebraço limpo.
Izabelle subiu as escadas do porão com passos de gato, o coração martelando contra as costelas. Ao chegar ao topo, tentou girar a maçaneta. Trancada. O desespero ameaçou voltar, mas ela olhou para os cacos de vidro que ainda segurava. Ela precisava tirá-lo dali. Precisava que ele abrisse aquela porta.
Ela começou a esmurrar a madeira com toda a força que restava, a voz saindo rouca e carregada de desprezo.
— Kageyama! Abre essa droga de porta! Você é um covarde, Tobio! — gritou ela, a raiva agindo como um combustível. — Você precisa de correntes e drogas porque sabe que não é homem o suficiente para me manter aqui de outra forma! Você é uma aberração, um monstro que se esconde atrás de uma máscara de perfeição!
Ela continuou a insultá-lo, batendo na porta de forma rítmica, tentando simular um ataque de histeria. Por alguns segundos, nada aconteceu. O silêncio do outro lado era absoluto. Então, o som metálico da chave girando na fechadura ecoou.
A porta se abriu de repente. Kageyama estava parado ali, a expressão ilegível, mas os olhos azuis faiscando com uma curiosidade perigosa.
— Como você conseguiu se soltar? — perguntou ele, a voz baixa, quase admirada.
Izabelle não respondeu com palavras. Ela se lançou contra ele com o peso do corpo, tentando empurrá-lo escada abaixo. Kageyama, pego de surpresa pela audácia, tropeçou para trás. No entanto, sua reação foi rápida; ele agarrou o braço de Izabelle enquanto caía, arrastando-a junto com ele.
Os dois rolaram pelos degraus de madeira, um emaranhado de membros e respirações ofegantes, até pararem no chão duro do porão. Izabelle, por cima dele, tentou cravar o caco de vidro no ombro de Kageyama, mas ele foi mais rápido. Ele segurou o pulso dela no ar, sua mão fechando-se sobre o vidro e sobre a mão dela ao mesmo tempo.
O sangue de ambos começou a escorrer, misturando-se em um vermelho único e denso. Kageyama não emitiu um único som de dor. Ele apenas a encarava, os olhos fixos nos dela, enquanto o sangue pingava no chão.
— Você realmente gosta de se machucar, não é? — disse ele, a calma em sua voz sendo mais assustadora do que qualquer grito.
Izabelle aproveitou o momento de choque dele para acertar uma joelhada em seu estômago e se desvencilhar. Ela correu escada acima como se sua vida dependesse disso — e dependia. Ela atravessou a porta do porão e correu pelo corredor em direção à saída principal do casarão.
— Trancada! Maldito! — ela gritou, puxando a maçaneta de carvalho da entrada principal.
Ela ouviu o som de passos subindo a escada. Não eram passos apressados. Eram lentos, deliberados, rítmicos. Kageyama não estava correndo atrás dela porque sabia que não havia para onde ir. Ele estava aproveitando a caçada.
Izabelle olhou para a sala. A janela. Ela correu até a grande vidraça gótica que dava para os jardins enevoados de Royale High. Tentou abri-la, mas o mecanismo estava travado. Em um ato de puro desespero, ela pegou um banquinho de madeira decorado — aquele que ela mesma havia escolhido com tanto carinho apenas alguns dias antes — e o arremessou contra o vidro.
O estilhaçar foi ensurdecedor. O ar frio da noite invadiu a sala. Izabelle subiu no parapeito, ignorando os cortes em seus pés descalços. Ela estava prestes a pular quando sentiu uma mão forte e cruel se enroscar em seus cabelos loiros.
— Onde pensa que vai, minha pequena fugitiva? — a voz de Kageyama sussurrou em seu ouvido.
Ele a puxou para trás com uma força brutal, jogando-a no sofá de veludo. Izabelle tentou se levantar, chutando e arranhando, mas ele a prensou contra o estofado, segurando seus pulsos acima da cabeça.
— Me solta! Isso dói, Tobio! — ela gritou, as lágrimas de frustração e dor finalmente transbordando.
— O diabo vai ter que machucar você ainda mais, Izabelle — disse ele, o rosto a centímetros do dela, a mão ensanguentada manchando o rosto da garota. — Eu queria ser paciente, mas você insiste em sangrar. E eu adoro ver você sangrar.
Ele enfiou a mão no bolso do uniforme de esgrima e tirou uma pequena seringa. Izabelle arregalou os olhos, tentando se debater, mas Kageyama usou o peso do corpo para imobilizá-la.
— Isso é para você relaxar. Você está muito agitada para o seu próprio bem.
A picada no pescoço foi rápida. Em poucos segundos, o mundo começou a girar novamente e a força abandonou os membros de Izabelle. A última coisa que ela sentiu foi o toque possessivo dele em sua bochecha antes da escuridão a levar.
Quando Izabelle acordou, não estava mais no porão. Ela estava em seu próprio quarto, deitada na cama que ela mesma decorara. Mas a sensação de conforto era inexistente. Ela tentou mover os braços e ouviu o som metálico e frio. Sua mão direita estava presa à cabeceira da cama por uma corrente de aço curta e pesada. Seus pés estavam livres, mas a corrente não lhe permitia sequer chegar à porta.
A porta do quarto se abriu. Kageyama entrou carregando uma bandeja com comida. Ele parecia impecável, como se a luta no porão nunca tivesse acontecido, exceto por um curativo limpo em sua mão.
— Hora de alimentar minha presa — disse ele, colocando a bandeja na mesa de cabeceira.
Ele pegou uma colher com sopa e levou aos lábios dela. Izabelle virou o rosto, os olhos verdes cheios de um ódio silencioso.
— Me deixa sair daqui, Kageyama. Por favor.
— Coma, Izabelle. Você precisa de forças — ele disse, ignorando o apelo.
— Eu não vou comer nada vindo de você! — ela cuspiu. — Vai para o inferno!
Kageyama deixou a colher cair de volta na tigela. Ele se aproximou, sentando-se na beirada da cama, e acariciou o cabelo dela com uma suavidade que a fazia querer gritar.
— Você vai comer. Se não comer por bem, teremos que encontrar outras formas de gastar sua energia até que o seu corpo implore por sustento.
— Vai se foder, Kageyama! — ela gritou, a voz falhando. — Vai se foder!
Ele não ficou com raiva. Em vez disso, um sorriso lento e predatório surgiu em seus lábios. Ele se inclinou sobre ela, o peso de sua presença preenchendo o espaço entre os dois.
— Ah, é? — ele sussurrou, a mão descendo para o decote do robe de seda que ela ainda vestia. — Então vou te deixar exausta até você comer.
Ele a beijou com uma intensidade que cortou qualquer protesto. A corrente tilintava contra a madeira da cabeceira enquanto Izabelle tentava, inutilmente, empurrá-lo. Kageyama não tinha pressa. Ele explorou cada centímetro do corpo dela com uma familiaridade cruel, transformando a raiva de Izabelle em uma agonia de desejo que ela odiava admitir.
A noite se transformou em um ciclo interminável de toques e provocações. Kageyama a possuiu repetidamente, com uma fome que parecia aumentar a cada vez que ela tentava resistir. Ele a levava ao limite do prazer e da exaustão, apenas para começar tudo de novo.
— Você fica tão linda quebrada, Izabelle — ele murmurou entre os beijos, o suor brilhando em sua pele sob a luz fraca do abajur. — Tão vulnerável. Tão minha.
Izabelle estava além das palavras. Seu corpo tremia, as mãos presas pela corrente já não tinham força para lutar. Ela olhou para o teto, sentindo as lágrimas secarem em seu rosto. Kageyama tinha razão. Ele a estava quebrando, pedaço por pedaço, transformando a alma vibrante da garota de olhos verdes em um reflexo de sua própria escuridão.
Quando ele finalmente parou, a madrugada já começava a tingir o céu de um cinza pálido. Kageyama se deitou ao lado dela, puxando o corpo exausto de Izabelle para o seu peito, como se ela fosse um troféu valioso.
— Agora — ele disse, a voz suave —, você vai comer?
Izabelle fechou os olhos, sentindo o peso da corrente em seu pulso e o peso do homem que a destruía ao seu lado. Ela não respondeu, mas quando ele levou um pedaço de pão aos seus lábios, ela abriu a boca. A derrota tinha um gosto amargo, mas a sobrevivência exigia concessões que ela nunca imaginara fazer.
Kageyama sorriu, um brilho de satisfação absoluta em seus olhos azuis. Ele vencera. Por enquanto.
— Boa menina — sussurrou ele, beijando-lhe a testa.
No espelho da penteadeira, as marcas de sangue e vapor haviam sumido, mas o reflexo de Izabelle Mariana nunca mais seria o mesmo. O Casarão 13 não era mais apenas uma casa; era uma gaiola de ouro e seda, e Kageyama Tobio era o mestre que a mantinha cativa entre o êxtase e o horror. O mistério de Royale High continuava lá fora, mas para Izabelle, o único mistério que importava agora era como sobreviver a mais um dia nas mãos do homem que a amava como um animal ama sua presa.