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Loucos

O Batismo de Sangue e o Trono de Veludo

A tarde em Royale High estava morrendo sob um céu cor de hematoma. Dentro do Casarão 13, o silêncio era uma criatura viva, alimentada pelo som metálico dos talheres de Izabelle contra o prato de porcelana. Ela havia comido, como ele ordenara. Cada garfada era um ato de submissão, mas também de sobrevivência. Ela se sentia como uma boneca de porcelana sendo remontada por mãos habilidosas e cruéis.

O som da chave girando na fechadura principal não trouxe o sobressalto de antes, mas uma antecipação elétrica que percorreu sua espinha. Kageyama não voltou sozinho. Izabelle, parada no topo da escadaria, observou quando a porta pesada de carvalho se abriu, revelando Tobio ainda impecável em seu terno escuro, mas com uma expressão que exalava uma frieza absoluta. Atrás dele, arrastado pelo colarinho, estava um rapaz que Izabelle reconheceu vagamente das aulas de esgrima — um aluno do segundo ano chamado Hiro.

Hiro estava pálido, os olhos arregalados em um terror que Izabelle conhecia muito bem. Ele estava amordaçado com uma fita adesiva cinza, e seus pulsos estavam amarrados atrás das costas.

— Desça, Izabelle — comandou Kageyama, sua voz ecoando pelo hall de entrada como um trovão baixo. — Temos uma audiência particular.

Izabelle desceu os degraus, as pernas trêmulas sob o robe de seda. Ela parou a três degraus do chão, segurando o corrimão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Tobio, o que é isso? — perguntou ela, a voz mal saindo. — Por que ele está aqui?

Kageyama jogou Hiro no chão de mármore com um desdém brutal. O rapaz soltou um gemido abafado, tentando se afastar desesperadamente. Tobio caminhou até Izabelle, subindo os degraus até ficar um nível acima dela, envolvendo-a por trás. Ele inclinou a cabeça, apoiando o queixo no ombro dela, enquanto suas mãos enluvadas em couro preto desciam pela cintura de Izabelle.

— Este rato achou que poderia ser inteligente — sussurrou Kageyama contra o ouvido dela. — Ele foi visto rondando o casarão ontem à noite. Ele encontrou o medalhão partido que você jogou pela janela, Izabelle. Ele ia levar para a diretoria. Ele ia tentar ser o herói da história.

— Por favor... — Izabelle sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. — Ele não sabia de nada. Deixe-o ir.

— Deixar ir? — Kageyama riu, um som seco e sem alma. — Em Royale High, o silêncio é a única moeda que garante a vida. Ele tentou roubar o meu segredo. Ele tentou roubar *você* de mim, mesmo sem saber.

Kageyama afastou-se de Izabelle e desceu até Hiro. Ele tirou uma adaga curta e ornamentada de dentro do paletó. Era a mesma lâmina que ele usara para assustar Izabelle no porão, mas agora ela parecia mais faminta.

— Olhe para ele, Izabelle — ordenou Tobio, sem desviar os olhos da presa. — Olhe o que acontece com quem tenta interferir no que é meu.

— Não! Tobio, para! — gritou ela, tentando descer, mas o olhar que ele lançou sobre ela a paralisou. Era um olhar de comando absoluto, uma promessa de que, se ela se movesse, o sofrimento de Hiro seria dez vezes pior.

Kageyama agarrou Hiro pelos cabelos, forçando a cabeça do rapaz para trás. O brilho da lâmina captou a última luz do sol que entrava pela janela quebrada. Com um movimento fluido, quase artístico, Tobio deslizou o aço pela garganta de Hiro.

O som foi o que mais aterrorizou Izabelle. Não foi um grito, mas um gorgolejo úmido. O sangue jorrou, um carmesim vibrante que manchou o mármore branco e os sapatos polidos de Kageyama. Hiro estremeceu violentamente por alguns segundos antes de seus olhos perderem o foco, fixando-se no teto com uma vacuidade eterna.

Izabelle caiu de joelhos no degrau, cobrindo a boca para não vomitar. O cheiro de sândalo, que sempre acompanhava Tobio, foi subitamente sufocado pelo odor metálico e quente do sangue fresco.

Kageyama limpou a lâmina no lenço de seda que levava no bolso, com uma calma que beirava o divino. Ele se virou para ela, o rosto salpicado com algumas gotas minúsculas de sangue, que pareciam rubis contra sua pele pálida.

— Agora — disse ele, caminhando em direção a ela —, não há mais testemunhas. Não há mais medalhão. Só sobramos nós dois, Izabelle.

Ele subiu os degraus e a levantou pelo braço, forçando-a a ficar de pé. Izabelle estava em choque, o corpo tremendo tanto que mal conseguia se sustentar. Tobio a puxou para um abraço apertado, ignorando o fato de que o sangue de Hiro agora manchava o robe de seda dela.

— Você viu? — perguntou ele, a voz agora carregada de uma excitação sombria. — Eu fiz isso por você. Para proteger o nosso mundo. Diga que você entende.

— Você o matou... — soluçou ela, enterrando o rosto no peito dele, o medo e uma repulsa doentia lutando contra o desejo que ele ainda despertava nela. — Você é um monstro.

— Eu sou o seu monstro — corrigiu ele, pegando-a no colo.

Ele a carregou escada acima, mas não para o quarto dela. Ele a levou para o seu próprio quarto, um santuário de cores escuras e móveis pesados que ela nunca tinha visitado. Ele a jogou sobre a cama king-size coberta por lençóis de cetim preto.

Kageyama não perdeu tempo. Ele se livrou do paletó e da gravata, seus movimentos sendo movidos pela adrenalina da morte que acabara de causar. Ele se posicionou sobre ela, prendendo os pulsos de Izabelle contra o travesseiro.

— Você está com medo, não está? — perguntou ele, os olhos azuis dilatados, quase negros. — O seu coração está batendo tão rápido que parece que vai saltar do peito.

— Eu te odeio — sussurrou ela, embora suas pernas se abrissem involuntariamente para recebê-lo.

— O seu ódio é a coisa mais excitante que eu já senti — disse ele, atacando os lábios dela com uma ferocidade possessiva.

O beijo tinha gosto de sal e ferro. Kageyama a explorava com uma urgência bruta, suas mãos grandes marcando a pele dela, reivindicando cada curva como se estivesse gravando seu nome nela. Ele rasgou o robe de seda, deixando-a nua sob o seu olhar faminto.

— Você é minha, Izabelle. Do sangue nas minhas mãos até a última batida do seu coração. Se alguém tentar te tirar de mim, eu transformarei Royale High em um cemitério.

Ele a penetrou com uma força que a fez arquear as costas e soltar um grito que foi abafado pelo beijo dele. Não havia ternura naquela união; era um ato de domínio puro, um batismo de luxúria realizado à sombra de um assassinato. Izabelle sentia-se afogando. O prazer era agudo, quase doloroso, misturado ao trauma do que acabara de presenciar. Ela cravou as unhas nas costas dele, sentindo os músculos de Tobio se contraírem sob seu toque.

— Diga! — ele ordenou, o ritmo tornando-se implacável. — Diga que você me pertence!

— Eu sou sua... — arfou ela, as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos enquanto o clímax começava a nublar sua mente. — Eu sou sua, Tobio!

Kageyama soltou um rosnado de satisfação, acelerando o passo até que ambos atingissem o ápice em um colapso de sentidos. Ele desabou sobre ela, o peso de seu corpo sendo a única coisa que mantinha Izabelle ancorada à realidade.

Por vários minutos, o único som no quarto era a respiração pesada de ambos. Kageyama se afastou levemente, apoiando-se nos cotovelos para olhar para ela. Ele estendeu a mão e, com o polegar, limpou uma lágrima do rosto de Izabelle. O sangue de Hiro, agora seco na mão de Tobio, deixou um rastro avermelhado na bochecha dela.

— Viu só? — sussurrou ele, um sorriso predatório e satisfeito nos lábios. — Nada no mundo se compara a isso. O poder sobre a vida e o poder sobre o seu corpo.

Izabelle olhou para ele, e por um momento, a névoa de prazer se dissipou, revelando a extensão do abismo em que ela caíra. Ela estava apaixonada por um assassino. Ela era cúmplice de um monstro. E o pior de tudo era que, naquele momento, envolta nos braços dele e marcada pelo sangue alheio, ela nunca se sentira tão viva.

— O que vamos fazer com o corpo? — perguntou ela, a voz desprovida de emoção, aceitando finalmente seu papel naquela peça macabra.

Kageyama a beijou na testa, um gesto de carinho que era mais aterrorizante do que sua violência.

— Eu cuido disso, minha pequena. Em Royale High, os segredos apodrecem bem debaixo dos jardins. Amanhã, Hiro será apenas mais um aluno que "sentiu saudades de casa" e foi embora sem se despedir.

Ele se levantou e começou a se vestir, a frieza retornando como uma armadura.

— Vá se limpar, Izabelle. Use o meu chuveiro. Quero o cheiro dele fora de você. Quero apenas o meu cheiro na sua pele.

Izabelle caminhou até o banheiro, sentindo-se como uma sonâmbula. Ao entrar no box e ligar a água, ela viu o sangue de Hiro escorrer pelo ralo, misturado à água morna e ao seu próprio suor. Ela olhou para o espelho embaçado e, por um segundo, viu a imagem de Haru atrás dela, apontando para a porta.

Mas quando piscou, a imagem sumira. No vidro embaçado, uma nova mensagem apareceu, escrita pela mão invisível que assombrava o casarão. Mas desta vez, não era um aviso para ela fugir.

"VOCÊ É UM DELES AGORA"

Izabelle fechou os olhos e deixou a água cair. Ela não era mais a garota extrovertida e animada que chegara à academia com sonhos de festas e romance. Ela era a rainha de um trono de veludo e sombras, trancada em um casarão com um homem que mataria o mundo para mantê-la ao seu lado. E, para seu horror e deleite, ela sabia que não queria mais estar em nenhum outro lugar.