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Love or obssesion?

O Gosto do Pecado e o Silêncio da Manhã

A sala de estar de Hyuna era o reflexo exato de sua personalidade: descolada, caótica e cheia de discos de vinil espalhados pelo chão. O som de um rock alternativo tocava baixo, mas o barulho das vozes ali dentro era o que realmente preenchia o ambiente. Hyuna estava jogada no sofá com as pernas sobre o colo de Luka, que, apesar de estar em um ambiente social, mantinha um livro de física aberto, embora seus olhos amarelos estivessem mais focados em acariciar o tornozelo da namorada do que nas fórmulas.

— Dá pra vocês dois pararem com essa melação? Tá me dando náuseas — resmungou Ivan, jogado em uma poltrona, abrindo o terceiro pacote de balas de goma da noite.

— Deixa de ser invejoso, Ivan — Hyuna riu, jogando uma almofada nele. — Se você gastasse menos tempo irritando o Till e mais tempo sendo um ser humano decente, talvez alguém estivesse fazendo o mesmo por você.

Till, que estava sentado no chão tentando ignorar a presença de Ivan, ficou instantaneamente tenso.

— Eu não quero nada com esse idiota — Till disparou, sem tirar os olhos do celular, embora suas orelhas estivessem vermelhas.

— Ah, Tillzinho, não mente. Eu sei que você adora quando eu te dou atenção — Ivan provocou, jogando uma bala na cabeça do garoto de cabelos cinzas.

— Vai se foder, Ivan! — Till gritou, levantando-se e parecendo pronto para começar mais uma briga que, todos sabiam, terminaria em gritos e nenhuma resolução.

Sua, sentada em um canto mais afastado, observava tudo com sua habitual melancolia. Ela se sentia deslocada. Seus olhos roxos buscavam constantemente a figura que era o centro gravitacional daquela sala: Mizi.

Mizi não estava participando das discussões. Ela estava na cozinha, mas o grupo podia vê-la pela bancada americana. Ela já estava na sua terceira garrafa de whisky. O cabelo rosa e azul estava bagunçado, e o olhar dourado parecia mais turvo, porém mais perigoso. Ela bebia direto no bico, ignorando copos ou gelo. O álcool parecia ter despertado nela um instinto que ela costumava esconder sob o sarcasmo.

— A Mizi tá passando do ponto — comentou Luka, finalmente fechando o livro e observando a amiga com preocupação.

— Ela sabe o que faz — Hyuna deu de ombros, embora também parecesse alerta.

De repente, Mizi largou a garrafa sobre a mesa com um baque surdo e caminhou em direção à sala. Seus passos não eram vacilantes; eram pesados e determinados. Ela ignorou Ivan, passou por Till e parou exatamente na frente de Sua.

Sua sentiu o ar escapar de seus pulmões. O cheiro de álcool misturado com a baunilha do perfume de Mizi era esmagador.

— Você está muito quieta hoje, nanica — Mizi disse, a voz mais rouca do que o normal, vibrando com uma intensidade que fez os pelos do braço de Sua se arrepiarem.

— Eu... eu só estou observando — Sua sussurrou.

Sem aviso prévio, Mizi agarrou o pulso de Sua e a puxou com força em direção à cozinha.

— Ei, Mizi! O que você tá fazendo? — Hyuna gritou do sofá, mas Mizi não respondeu.

Ela empurrou Sua contra a porta da geladeira. O impacto metálico ecoou no silêncio repentino que se abateu sobre a casa. Mizi prendeu os braços de Sua acima da cabeça, seu corpo alto e curvilíneo pressionando o da menor com uma urgência faminta.

— Mizi, todo mundo está olhan... — Sua começou a dizer, mas as palavras foram engolidas.

Mizi a beijou. Não foi um beijo delicado ou um flerte de corredor; foi um ataque. Ela enfiou a língua na boca de Sua com uma fome desesperada, explorando cada canto com uma agressividade que beirava a possessão. O gosto amargo do whisky inundou os sentidos de Sua, mas o calor do corpo de Mizi era o que a fazia perder o chão.

Na sala, o silêncio era absoluto. Ivan parou de mastigar, Till arregalou os olhos e Hyuna e Luka trocaram olhares de puro choque. Ninguém esperava que Mizi fosse tão longe, tão publicamente.

Mizi se separou bruscamente, deixando Sua ofegante, com os lábios inchados e o olhar perdido. Mizi não disse uma palavra. Ela apenas pegou a garrafa de whisky pela metade, deu um último gole longo no bico e caminhou em direção à porta da frente.

— Eu cansei dessa merda. Vou pra casa — Mizi declarou, sua voz firme apesar da embriaguez, e saiu, batendo a porta com força.

O silêncio que ficou para trás era denso o suficiente para ser cortado com uma faca. Sua escorregou pela porta da geladeira até o chão, escondendo o rosto entre os joelhos, tentando esconder o fato de que seu coração parecia que ia explodir.

***

A manhã seguinte na Escola Anakt foi um exercício de tortura para quase todos. O sol parecia brilhar com uma intensidade cruel, ferindo os olhos de quem tinha exagerado na noite anterior.

Hyuna e Till caminhavam pelos corredores como zumbis, ambos usando óculos escuros para esconder a ressaca. Até Luka parecia mais silencioso que o habitual. Mas ninguém estava pior do que Mizi.

Ela estava sentada no pátio interno, escondida sob a sombra de uma árvore, com a cabeça apoiada nos joelhos. O cabelo rosa parecia ter perdido o brilho e ela não tinha energia nem para bocejar.

— Olha só quem resolveu aparecer para o mundo dos vivos — a voz de Ivan surgiu, carregada de um prazer sádico.

Mizi levantou a cabeça devagar, rosnando um palavrão que faria um marinheiro corar.

— Sai da frente, Ivan. Minha cabeça vai explodir e eu não respondo por mim.

— Ah, mas eu não podia deixar passar — Ivan sentou-se ao lado dela, abrindo um pirulito com um barulho irritante de plástico. — A performance de ontem foi nota dez. A geladeira da Hyuna ainda deve estar tremendo. E a Sua? Coitada, acho que ela entrou em combustão espontânea.

Mizi fechou os olhos com força, sentindo uma pontada de dor atrás das órbitas.

— Eu não sei do que você está falando. Eu estava bêbada. Foi um erro, uma confusão de sentidos. Eu nem lembro direito.

— Não lembra? — Ivan riu, balançando a cabeça. — Mizi, você beijou aquela garota como se ela fosse a última fonte de água no deserto. E depois saiu como uma estrela de rock. Não tenta fingir que não gostou.

— Eu não gostei — Mizi disparou, a voz subindo de tom, o que a fez se arrepender instantaneamente pela dor. — Foi só o whisky falando. A Sua é... ela é só a irmã esquisita do meu amigo. Não tem nada ali.

Ela não percebeu que, do outro lado da árvore, Sua estava parada, tendo acabado de chegar com um livro para devolver a Till. As palavras de Mizi atingiram Sua como um tapa físico. "Um erro bêbado". "Nada ali".

Sua sentiu a melancolia habitual ser substituída por uma faísca de algo mais quente: humilhação e raiva. Ela saiu de trás da árvore e caminhou em direção ao prédio principal, mas Mizi a viu.

— Sua! — Mizi chamou, a voz vacilando por um segundo.

Sua não parou. Ela acelerou o passo, ignorando os chamados. Mizi, impulsionada por uma mistura de culpa e uma irritação que não sabia explicar, levantou-se e foi atrás dela, ignorando a própria dor de cabeça.

Ela alcançou Sua no corredor dos armários, que estava vazio naquele momento entre as aulas.

— Ei, nanica! Espera aí — Mizi segurou o ombro de Sua.

Sua virou-se bruscamente, sacudindo a mão de Mizi. Seus olhos roxos estavam úmidos, mas sua expressão era gélida.

— O que foi, Mizi? Veio me contar pessoalmente que eu fui apenas um "erro bêbado"? Ou veio checar se a sua diversão da noite passada ainda está funcionando?

Mizi recuou um passo, surpresa com a agressividade.

— Olha, eu... eu bebi demais. As coisas saíram do controle. Você sabe como é.

— Não, eu não sei — Sua disse, a voz firme. — Eu estava sóbria. Eu lembro de cada segundo. E se para você foi só uma confusão de whisky, ótimo. Me deixa em paz. Vá encontrar alguém que ache o seu desdém charmoso, porque eu cansei.

Sua abriu o armário com força, mas Mizi, movida por um impulso súbito de possessividade que o álcool ainda deixava resquícios, fechou a porta do armário com um estrondo, prendendo Sua entre seus braços, repetindo a posição da noite anterior, mas agora em um ambiente de sobriedade e luz clara.

— Você está brava? — Mizi perguntou, sua voz baixando para aquele tom sedutor e perigoso, o olhar dourado focando nos lábios de Sua.

— Eu estou furiosa — Sua retrucou, embora sua respiração estivesse começando a falhar sob a proximidade de Mizi.

Mizi inclinou o rosto, o nariz roçando no de Sua. O sarcasmo tinha sumido, substituído por um flerte descarado que era a marca registrada de Mizi quando ela queria conseguir algo.

— E você fica tão linda quando está brava... — Mizi sussurrou, a voz carregada de uma intenção óbvia. — Sabia que o seu batom está um pouco borrado?

— Eu não estou usando batom — Sua respondeu, o coração martelando.

— Exatamente — Mizi deu um sorriso de lado, um olhar de predador que acabara de encontrar sua presa favorita. — Talvez a gente devesse testar de novo. Só pra ter certeza se foi mesmo o whisky ou se você é tão viciante quanto parece.

Sua tentou manter a postura, mas a presença de Mizi era avassaladora.

— Você é uma idiota, Mizi. Uma idiota egoísta que acha que pode ter tudo o que quer.

— E eu geralmente tenho — Mizi aproximou os lábios da orelha de Sua, soprando as palavras. — Mas com você... eu acho que quero levar o meu tempo.

Mizi se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar Sua nos olhos. Ela esticou a mão e tocou levemente o queixo da menor.

— A gente se vê depois da aula, nanica. E dessa vez, eu prometo estar bem sóbria.

Mizi piscou para ela e saiu caminhando pelo corredor com sua habitual confiança, deixando Sua encostada no armário, com as pernas trêmulas e a mente em um caos absoluto.

Enquanto isso, no refeitório, o drama continuava. Till estava sentado em uma mesa isolada quando Ivan se aproximou, sentando-se à sua frente sem ser convidado.

— O que você quer agora, Ivan? Já não encheu o saco o suficiente por hoje? — Till perguntou, sem levantar os olhos da bandeja.

Ivan não respondeu de imediato. Ele tirou um doce do bolso e o colocou sobre a mesa, empurrando-o na direção de Till.

— Você parecia que ia ter um troço ontem à noite — Ivan disse, o tom de voz estranhamente desprovido de sarcasmo. — Não precisa ficar com medo, Till. Eu não vou te beijar na frente de todo mundo.

Till finalmente olhou para ele, os olhos verdes cheios de uma confusão dolorosa.

— Por que você faz isso, Ivan? Por que precisa transformar tudo em uma piada?

Ivan deu de ombros, desviando o olhar para algum ponto distante no refeitório.

— Porque se eu não rir, eu vou ter que levar a sério. E levar as coisas a sério dá muito trabalho. Especialmente quando se trata de você.

Till sentiu o estômago dar um nó. Ele odiava o quanto Ivan conseguia ser enigmático e irritante ao mesmo tempo.

— Você é um merda — Till murmurou, mas pegou o doce e o guardou no bolso.

— Eu sei — Ivan sorriu, o brilho caótico voltando aos seus olhos. — Mas sou o seu merda favorito.

Longe dali, Luka e Hyuna observavam a cena de longe. Hyuna suspirou, encostando a cabeça no ombro de Luka.

— Essa escola é um hospício, Luka. A Mizi está perdendo a cabeça pela Sua, o Ivan e o Till estão em uma guerra fria que vai acabar em explosão e a gente está aqui no meio disso tudo.

Luka fechou o tablet e olhou para a namorada, um sorriso raro e suave surgindo em seu rosto.

— É a adolescência, Hyuna. É suposto ser caótico. Mas contanto que a gente esteja do mesmo lado, eu não me importo com o resto do incêndio.

Hyuna riu e o beijou, ignorando os olhares dos outros alunos.

No final do dia, Mizi estava esperando no portão da escola. Ela não estava dormindo, não estava sarcástica. Ela estava apenas observando o fluxo de pessoas até que viu a silhueta pequena de Sua.

Sua parou ao vê-la, a hesitação clara em seus passos. Mizi não disse nada, apenas inclinou a cabeça, indicando o caminho para fora da escola.

— Para onde vamos? — Sua perguntou quando se aproximou.

Mizi olhou para ela, o olhar dourado agora limpo e focado, carregado de uma promessa que Sua não sabia se estava pronta para cumprir, mas que sabia que não conseguiria recusar.

— Para algum lugar onde não existam geladeiras, whisky ou irmãos idiotas — Mizi respondeu, pegando a mão de Sua e entrelaçando seus dedos. — Só eu e você. E talvez alguns daqueles seus poemas depressivos.

Sua sorriu, um sorriso pequeno e melancólico, mas genuíno.

— Eu posso fazer isso.

Enquanto as duas se afastavam sob a luz do pôr do sol, a Escola Anakt ficava para trás, com todos os seus segredos, ressacas e corações partidos, aguardando o próximo sinal soar para começar tudo de novo.

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