Love or obssesion?
O Ritmo das Estrelas e o Gosto do Erro
O apartamento de Mizi era exatamente como Sua imaginava: impessoal, excessivamente moderno e silencioso de um jeito que doía. Localizado em um dos andares mais altos de um prédio de vidro e aço, o lugar parecia flutuar sobre as luzes da cidade. Não havia fotos de família, nem o caos colorido que habitava o armário de Mizi na escola. Era apenas um refúgio chique e frio, onde o cheiro de baunilha do perfume dela parecia lutar contra o cheiro de limpeza esterilizada.
Mizi jogou as chaves sobre um aparador e chutou os sapatos para longe, soltando um suspiro que carregava todo o peso de sua fachada social.
— Pode ficar à vontade, nanica — disse Mizi, sua voz rouca ecoando pelas paredes minimalistas. — Só não repara na falta de... bom, na falta de qualquer coisa que faça isso parecer um lar. Eu só venho aqui pra dormir e evitar que meu pai lembre que eu existo.
Sua apertou a mochila contra o peito, sentindo-se pequena naquele espaço vasto.
— É bonito — mentiu Sua, embora sentisse um aperto no peito pela solidão que aquele luxo transparecia.
— É um tédio — Mizi retrucou, aproximando-se de Sua com aquele olhar dourado que parecia queimar. — Mas você prometeu que ia ler pra mim. E eu estou precisando muito de algo que me faça esquecer que eu existo por algumas horas.
Mizi conduziu Sua até a sala de jantar, onde uma mesa de vidro maciço e baixo ocupava o centro do espaço. A luz da lua atravessava as janelas do chão ao teto, banhando o vidro com um brilho prateado.
— Senta aí. Ou deita. Sei lá — Mizi gesticulou, mas seus olhos não saíam de Sua.
Sua tirou seu livro de poesias da bolsa, as mãos tremendo levemente. Ela se aproximou da mesa, mas antes que pudesse se sentar, sentiu as mãos de Mizi em sua cintura. O toque foi firme, possessivo. Com um empurrão deliberado, Mizi a inclinou para frente sobre a mesa de vidro.
— Mizi? — O nome saiu como um suspiro assustado.
Sua ficou em uma posição vulnerável, com as mãos apoiadas na superfície fria do vidro e o corpo inclinado, quase de quatro, enquanto Mizi se posicionava atrás dela. A frieza do vidro contra as palmas das mãos de Sua contrastava violentamente com o calor que emanava do corpo de Mizi, que agora pressionava seu peito contra as costas da menor.
— Lê pra mim, Sua — Mizi sussurrou no ouvido dela, sua voz descendo para um tom pecaminoso. — Eu quero ouvir a sua voz. Mas eu também quero ver até onde você consegue manter o fôlego.
Sua sentiu o tecido de sua saia ser levantado com uma lentidão torturante. O ar condicionado do apartamento atingiu sua pele nua, fazendo-a estremecer. Logo em seguida, sentiu a calcinha ser deslizada para baixo, deixando-a completamente exposta. O pânico e a excitação lutavam dentro dela, criando um nó em sua garganta.
— Começa — ordenou Mizi.
Sua abriu o livro, as letras dançando diante de seus olhos.
— "As... as estrelas que caem no abismo do... do tempo..." — Sua começou, mas sua voz falhou quando sentiu o primeiro contato.
Mizi não hesitou. Ela deslizou dois dedos para dentro de Sua, encontrando-a já úmida e pronta. O gemido que Sua soltou foi abafado contra a superfície do vidro. Mizi começou um movimento rítmico, profundo e implacável, enquanto sua outra mão acariciava as costas de Sua, subindo e descendo com uma possessividade predatória.
— Você errou a palavra, Sua — Mizi murmurou, depositando um beijo úmido no ombro da garota. — Era "eterno", não "tempo".
— Eu... eu não consigo... — Sua tentou dizer, mas a pressão dos dedos de Mizi aumentou, encontrando o ponto exato que a fazia perder a razão.
— Consegue sim. Lê.
Mizi adicionou um terceiro dedo, expandindo Sua e preenchendo-a de uma forma que a fazia ver estrelas. A cada erro de leitura, a cada tropeço nas palavras provocado pelas ondas de prazer, Mizi desferia um tapa firme na nádega de Sua. O som do estalo ecoava na sala silenciosa, seguido por um gemido agudo da menor.
— "O silêncio... ah! O silêncio da noite... é um... porra... é um manto..." — Sua tentava ler, mas a saliva começava a escorrer de sua boca, pingando sobre as páginas amareladas do livro de poesia. Ela estava babando, entregue a uma excitação que nunca imaginara ser possível.
Mizi continuava o ritmo, beijando e mordendo a nuca de Sua, marcando-a como sua. A pressão era constante, e a cada tapa, Sua sentia uma mistura de dor e prazer que a levava ao limite.
— "E as sombras... se fundem... com o... o..." — Sua parou, os soluços começando a se misturar aos gemidos.
De repente, o corpo de Sua fraquejou e ela começou a chorar. Não era um choro de dor, mas um transbordamento emocional, um colapso de sentidos sob a intensidade do que Mizi estava fazendo.
Mizi parou instantaneamente. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pela respiração descompassada de ambas e pelo choro baixinho de Sua. Mizi retirou os dedos, sentindo um aperto súbito no peito.
— Merda... Sua? — A voz de Mizi perdeu todo o sarcasmo, soando agora jovem e assustada. — Porra, me desculpa. Eu... eu passei do limite, não passei? Caralho, eu sou uma idiota. Eu não queria te machucar, eu juro.
Mizi começou a se afastar, as mãos levantadas como se tivesse medo de tocar em algo sagrado que acabara de quebrar.
— Sua, fala comigo. Por favor. Eu vou te levar pra casa, eu...
Antes que Mizi pudesse terminar o pedido de desculpas, Sua se virou. Seu rosto estava vermelho, molhado de lágrimas e saliva, mas seus olhos roxos brilhavam com uma determinação feroz. Ela não disse nada; apenas avançou e empurrou Mizi em direção ao sofá de couro que ficava logo atrás.
Mizi caiu sentada, surpresa pela força da garota pequena. Sua subiu em seu colo, sentando-se de frente para ela, prendendo a cintura de Mizi com suas pernas.
— Não para — disse Sua, a voz firme apesar do choro. — Não para, Mizi.
— Mas você está chorando! — Mizi exclamou, as mãos pairando incertas sobre os quadris de Sua.
— É só... é só excitação. É demais, é tudo demais com você — Sua confessou, enterrando o rosto no ombro de Mizi. — Eu quero que você continue. Eu preciso que você continue.
Sua começou a distribuir beijos fofos e úmidos pelo ombro de Mizi, subindo para o pescoço dela. Ela alternava entre lambidas suaves e mordidas provocantes na orelha de Mizi, sussurrando palavras desconexas que faziam o sangue da rosada ferver novamente.
Mizi soltou um suspiro pesado, a hesitação desaparecendo diante da entrega de Sua.
— Você vai acabar comigo, nanica — Mizi rosnou, voltando a enfiar os dedos em Sua, desta vez com uma urgência que não aceitava mais desculpas.
***
Enquanto isso, a quilômetros dali, o clima era consideravelmente mais inocente, embora não menos tenso. Till e Ivan estavam sentados em um banco de praça, cada um com um pote de sorvete de baunilha — o favorito de Ivan, que ele insistira em comprar para ambos.
O silêncio entre eles era raro. Normalmente, a essa hora, eles estariam trocando insultos ou Till estaria tentando fugir de alguma provocação física. Mas a luz dos postes criava uma bolha de quietude que nenhum dos dois parecia querer quebrar.
— O sorvete tá derretendo, Till — comentou Ivan, observando o garoto de cabelos cinzas que apenas encarava o pote.
— Eu não estou com fome — Till resmungou, embora não fizesse menção de ir embora.
Ivan soltou um suspiro longo, jogando a colher de plástico fora. Ele olhou para o céu, as luzes da cidade apagando as estrelas, e então olhou para Till.
— Sabe por que eu te irrito tanto? — perguntou Ivan, a voz desprovida de qualquer traço de deboche.
Till finalmente olhou para ele, franzindo o cenho.
— Porque você é um sádico que não tem nada melhor pra fazer?
— Também — Ivan deu um sorriso triste. — Mas é principalmente porque é o único jeito de você me olhar.
Till travou. A colher em sua mão parou no ar.
— O quê?
— Você ouviu — Ivan continuou, inclinando-se para frente. — Se eu for legal, eu sou só mais um cara no corredor. Se eu for o nerd frio como o Luka, você nem me nota. Mas se eu for o idiota que te tira do sério... aí você olha pra mim. Você grita comigo, você me odeia, mas você me vê.
— Ivan... — Till começou, mas as palavras sumiram.
— Eu gosto de você, Till. De um jeito que me faz querer quebrar a cara de qualquer um que chegue perto, e de um jeito que me faz querer quebrar a minha própria cara por não saber como te dizer isso sem parecer um imbecil.
Till sentiu o rosto queimar. Ele queria gritar, queria dizer que Ivan era louco, mas a verdade é que seu coração estava batendo em um ritmo que ele reconhecia. Ele odiava Ivan, sim. Mas odiava ainda mais o fato de que, se Ivan parasse de irritá-lo, ele se sentiria o garoto mais sozinho do mundo.
— Você é um idiota, Ivan — Till murmurou, desviando o olhar. — Um idiota completo.
— Eu sei — Ivan sorriu, mas desta vez o sorriso chegou aos olhos. — Mas eu sou o seu idiota.
Till não respondeu, mas aproximou seu ombro do de Ivan, um gesto silencioso de trégua que, para eles, valia mais do que qualquer declaração de amor clássica.
***
No apartamento chique, a tempestade havia passado, deixando para trás um rastro de exaustão e entrega. Sua havia gozado no colo de Mizi, um ápice que a deixou completamente sem forças, tremendo contra o corpo da garota mais alta enquanto as luzes da cidade brilhavam lá fora.
Agora, o clima era de puro dengo. Mizi estava recostada no sofá, com Sua praticamente fundida a ela. A garota menor estava agarrada ao pescoço de Mizi, escondendo o rosto em seu peito, enquanto se esfregava levemente nela, buscando o contato da pele.
— Você é tão carente — Mizi brincou, a voz suave, enquanto acariciava o cabelo preto de Sua.
— Cala a boca — Sua resmungou, sem se afastar. — Você que começou isso.
— E eu não me arrependo de nada — Mizi admitiu, beijando o topo da cabeça de Sua. — Você é muito mais interessante do que qualquer livro de poesia, Sua.
Sua levantou o olhar, seus olhos roxos agora calmos, embora ainda carregados daquela melancolia doce que Mizi tanto passara a apreciar.
— Você vai me ligar amanhã? — perguntou Sua, a insegurança brilhando por um segundo.
Mizi sorriu, um sorriso que não tinha nada de predatório ou sedutor. Era um sorriso de quem finalmente encontrara algo real em meio a tanta falsidade.
— Eu vou estar na porta da sua sala antes do sinal tocar — prometeu Mizi. — Alguém precisa garantir que você não vai se perder em algum poema depressivo e esquecer que tem uma namorada muito bonita esperando por você.
Sua sorriu, apertando o abraço.
— Eu nunca esqueceria.
Enquanto a noite avançava, as duas ficaram ali, emaranhadas uma na outra. No mundo lá fora, a Escola Anakt continuava sendo um lugar de aparências e pressões, mas dentro daquele apartamento de vidro, as máscaras haviam caído. Mizi não era apenas a garota bonita e sarcástica, e Sua não era apenas a irmã quieta e melancólica. Elas eram apenas duas garotas que, entre gemidos, lágrimas e versos perdidos, haviam encontrado o ritmo uma da outra.