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Love or obssesion?

O Eclipse de Ouro e o Fantasma de Veludo

A Escola Preparatória Anakt já estava acostumada com o espetáculo, mas o que acontecia naquela manhã de terça-feira transcendia qualquer lógica social estabelecida. Mizi, a garota cujos sorrisos sarcásticos e olhar sedutor costumavam manter uma legião de pretendentes a uma distância segura de adoração, estava agora ajoelhada no chão do pátio central. Ela não estava rezando, mas a devoção em seus olhos dourados era quase religiosa. Ela amarrava, com uma lentidão meticulosa, o cadarço do tênis de Sua.

— Está muito apertado? — perguntou Mizi, a voz rouca e baixa, sem levantar o olhar.

— Está perfeito, Mizi. Agora levante-se, a mochila está pesada — respondeu Sua, com um tom de voz que não carregava nenhuma pressa, apenas uma calma absoluta.

Mizi levantou-se prontamente, ajeitando as alças da mochila de Sua sobre seus próprios ombros, que já carregavam a sua própria. Ela não parecia se importar com o peso ou com os sussurros que corriam como pólvora pelos corredores. Para Mizi, o mundo havia se reduzido àquela garota pálida de olhos roxos que, por algum milagre ou maldição, era a única pessoa capaz de enxergar além de sua beleza óbvia.

— Isso é bizarro em tantos níveis que eu estou começando a achar que a Mizi foi substituída por um clone robótico — comentou Till, observando a cena enquanto mastigava a ponta de uma palheta de guitarra.

Ivan, ao lado dele, deu uma risada curta, encostando o ombro no de Till de propósito, apenas para ver o outro se arrepiar.

— Inveja, Till? — provocou Ivan, tirando um pirulito de cereja da boca. — A Mizi sempre foi extremista. Quando ela decide que alguém é o centro do universo dela, ela não faz por menos. E a minha irmã... bom, a Sua sempre teve esse talento para domar feras.

— Elas parecem felizes, de um jeito distorcido — disse Hyuna, aproximando-se do grupo com Luka a tiracolo. — Mas eu confesso que ver a Mizi carregando lanche e abrindo porta é o entretenimento que eu não sabia que precisava hoje.

Luka apenas observava, seus olhos amarelos analíticos captando a tensão nos ombros de Mizi.

— Não é apenas obediência — observou Luka. — É uma troca. A Mizi cede o controle social em troca da validação emocional que a Sua oferece. É um contrato de exclusividade.

O dia seguiu esse ritmo coreografado. Nas aulas, Mizi sentava-se sempre um passo atrás, pronta para entregar uma caneta, um casaco ou apenas um olhar de suporte. No intervalo, ela buscou o suco favorito de Sua no outro lado do campus porque a máquina mais próxima estava quebrada. Mizi estava na "coleira", e o mais estranho era que ela parecia adorar a sensação do couro invisível em seu pescoço.

Quando o sinal da última aula tocou, o grupo decidiu que a intensidade do dia pedia algo leve.

— Sushi? — sugeriu Hyuna, animada. — Tem um lugar novo na esquina da terceira com a principal. O peixe é fresco e o saquê é por conta da casa para estudantes da Anakt.

— Eu topo — disse Ivan, olhando para Till. — Você vem, não vem? Ou tem que ir tocar suas músicas tristes no quarto?

— Eu vou, seu idiota. Só para garantir que você não vai engasgar com o wasabi — retrucou Till, embora um pequeno sorriso brincasse no canto de sua boca.

Sua olhou para Mizi, que ainda segurava sua mochila.

— O que você acha, Mizi?

— O que você quiser, Sua — respondeu Mizi, aproximando-se o suficiente para que seu perfume de baunilha envolvesse a menor. — Eu vou onde você for.

O grupo caminhou em direção à saída, conversando e rindo. Mizi e Sua seguiam um pouco atrás. Mizi mantinha a mão levemente apoiada na base das costas de Sua, um gesto de proteção que também servia para lembrar a todos a quem ela pertencia.

Eles viraram a esquina, a apenas alguns metros do restaurante, quando o ritmo do grupo estancou.

Parada na calçada, encostada em um poste de iluminação, estava uma mulher que parecia ter saído de um editorial de moda de alta costura. Ela tinha cabelos platinados curtos, um estilo andrógino impecável e olhos que pareciam feitos de vidro fumê. Ela usava um sobretudo longo de veludo azul-escuro e exalava uma aura de sofisticação fria que fez até Hyuna se calar por um momento.

Mizi congelou. A mão que estava nas costas de Sua caiu, e a cor pareceu fugir de seu rosto, deixando-a mais pálida do que a própria Sua.

— Mizi? — A voz da estranha era como um licor caro: suave, profunda e perigosamente inebriante. — Faz muito tempo.

O grupo trocou olhares confusos. Ninguém conhecia aquela mulher.

— R-Rose? — gaguejou Mizi, a voz falhando de um jeito que Sua nunca tinha ouvido antes. — O que... o que você está fazendo aqui?

A mulher, Rose, deu um passo à frente. O som de seus saltos no asfalto parecia marcar os batimentos cardíacos acelerados de Mizi. Ela ignorou o resto do grupo, focando inteiramente na garota de cabelos rosa e azul.

— Eu voltei para a cidade ontem. Achei que encontraria você nos mesmos lugares de sempre, mas vejo que você mudou de ares — Rose disse, seus olhos deslizando por Sua com uma indiferença cortante que fez a menor se encolher minimamente. — E de companhia.

— Quem é ela, Mizi? — perguntou Hyuna, quebrando o silêncio tenso.

Mizi não respondeu de imediato. Ela parecia estar em transe, presa em uma memória que não pertencia a nenhum deles.

— Ela é... — Mizi começou, mas a voz morreu na garganta.

— Eu sou a pessoa que ensinou a Mizi tudo o que ela sabe sobre o desejo — interrompeu Rose, com um sorriso de canto que era puro veneno e elegância. — E também a pessoa que ela nunca conseguiu esquecer, por mais que tente usar substitutas.

O impacto das palavras atingiu o grupo como uma onda de choque. Sua sentiu uma pontada de gelo no peito. A ex de Mizi. E não apenas uma ex, mas alguém que parecia ter uma autoridade emocional sobre ela que ninguém ali jamais vira.

Rose aproximou-se de Mizi, estendendo uma mão enluvada para tocar o rosto da rosada. Mizi não recuou. Seus olhos dourados estavam nublados, uma mistura de medo, saudade e uma submissão antiga que não tinha nada a ver com o jogo lúdico que ela fazia com Sua.

— Você ainda usa o perfume que eu te dei — observou Rose, a voz baixando para um sussurro que todos conseguiram ouvir. — Algumas coisas nunca mudam, não é, minha pequena?

Sua sentiu a raiva começar a ferver sob sua melancolia. Ela deu um passo à frente, colocando-se entre Mizi e Rose, forçando a mulher a retirar a mão.

— O perfume é dela. E a Mizi também é — disse Sua, a voz fria e cortante como uma lâmina de gelo. — Eu não sei quem você é, e sinceramente não me importo. Estamos indo almoçar. Com licença.

Rose arqueou uma sobrancelha, olhando para Sua como se estivesse observando um inseto interessante, mas insignificante.

— Corajosa — comentou Rose. — Mas coragem não substitui a história, querida. Mizi, você realmente vai me deixar aqui na calçada depois de dois anos?

Mizi olhou para Sua e depois para Rose. O conflito em seu rosto era evidente. Ela estava dividida entre a segurança do que construíra com Sua e o fantasma avassalador de seu passado.

— Eu... — Mizi começou, olhando para Sua com um pedido de desculpas nos olhos. — Sua, eu preciso falar com ela. Só um minuto.

— Mizi, não — disse Ivan, intervindo. — Você sabe o que aconteceu da última vez. Essa mulher acaba com você.

— Só um minuto, Ivan! — disparou Mizi, o estresse da situação fazendo-a explodir. — Porra, me deixem respirar!

Sua soltou a mochila, que Mizi ainda segurava, deixando-a cair no chão com um baque surdo.

— Um minuto, Mizi — disse Sua, a voz desprovida de qualquer emoção. — É tudo o que você tem.

Mizi e Rose se afastaram alguns metros, conversando em sussurros urgentes. O grupo ficou parado na esquina, o clima de sushi e risadas completamente destruído.

— Aquela mulher é um perigo — murmurou Hyuna. — Eu lembro de ouvir histórias sobre uma modelo que partiu o coração da Mizi no primeiro ano, mas nunca achei que ela fosse... bom, aquela coisa linda e assustadora.

— A Mizi está tremendo — observou Till, sua voz carregada de uma rara empatia. — Ela não está no controle ali.

Luka apenas observava Sua. A garota pálida estava parada, imóvel, observando a interação. Ela não parecia triste; parecia estar calculando.

Do outro lado, Rose tocou o braço de Mizi e disse algo que fez a rosada fechar os olhos e suspirar. Rose então tirou um cartão de visita do bolso do sobretudo e o colocou no bolso da jaqueta de Mizi, deslizando os dedos de forma sugestiva antes de se afastar.

Rose passou pelo grupo com um aceno de cabeça elegante e desapareceu na multidão da avenida principal, deixando um rastro de perfume caro e silêncio pesado.

Mizi voltou para o grupo, seus passos eram incertos. Ela não conseguia olhar para Sua.

— Podemos ir comer agora? — perguntou Mizi, tentando recuperar a voz sarcástica, mas soando apenas exausta.

— Eu perdi a fome — disse Sua, pegando sua mochila do chão e colocando-a nos próprios ombros. — Vou para casa.

— Sua, espera! — Mizi tentou segurar o braço dela. — Não foi nada, ela só queria...

— Ela queria mostrar que ainda tem a coleira na mão, Mizi — interrompeu Sua, virando-se para encará-la. — E o pior é que você mostrou que o pescoço ainda está pronto para ela.

— Não é assim, porra! — gritou Mizi, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Você não entende o que ela foi para mim!

— Eu entendo o que você é para mim agora — retrucou Sua. — Ou o que eu achei que você fosse. Aproveite o cartão, Mizi.

Sua virou as costas e começou a caminhar na direção oposta ao restaurante.

— Sua! — Mizi fez menção de seguir, mas Ivan a segurou.

— Deixa ela, Mizi — disse Ivan, o olhar sério. — Você precisa se decidir. Ou você é a dona da sua própria vida, ou você é o brinquedo da Rose. A Sua não vai aceitar ser o prêmio de consolação.

Mizi ficou parada no meio da calçada, com o cartão de Rose pesando em seu bolso e a imagem das costas de Sua se afastando gravada em sua mente. O dia que começara com obediência e doçura terminara com o gosto amargo de um passado que se recusava a morrer.

— Vamos, Mizi — disse Hyuna, suavemente, colocando o braço em volta dos ombros da amiga. — Vamos comer. Você precisa de açúcar e de um plano.

Mizi seguiu o grupo mecanicamente, mas seu olhar dourado permanecia fixo no horizonte, onde o cabelo preto e curto de Sua acabara de desaparecer. Ela sabia que tinha cometido um erro. O problema era que, com Rose, o erro sempre tivera um gosto viciante de veludo. E agora, ela corria o risco de perder a única pessoa que a amava pelo que ela era, e não pelo que ela representava.

O sushi foi silencioso. Till e Ivan trocaram chutes por debaixo da mesa, uma tentativa desajeitada de manter a normalidade, enquanto Luka e Hyuna trocavam mensagens pelo celular, preocupados com o estado catatônico de Mizi.

Mizi olhou para o próprio reflexo no copo de água. Ela viu a garota bonita, a garota desejada, a garota que todos queriam. Mas, pela primeira vez, ela sentiu que não passava de um eco.

— Eu preciso ir — disse Mizi, levantando-se subitamente.

— Mizi, são oito da noite — disse Luka.

— Eu não me importo. Eu preciso falar com ela.

Mizi saiu do restaurante correndo, ignorando os chamados dos amigos. Ela correu até o prédio de Sua, o ar queimando em seus pulmões. Ela não usou o interfone; ela sabia que Sua não atenderia. Ela escalou a grade lateral, algo que aprendera com Hyuna em suas noites de rebeldia, e subiu até a varanda do segundo andar.

Sua estava sentada na cama, lendo, quando ouviu o baque na janela. Ela não se moveu.

Mizi bateu no vidro, a respiração pesada.

— Sua! Abre essa porra! Eu não vou embora!

Sua levantou-se lentamente e abriu a trava. O ar frio da noite entrou no quarto, junto com uma Mizi desesperada.

— O que você quer, Mizi? O cartão da Rose não tinha o endereço dela?

Mizi não respondeu com palavras. Ela tirou o cartão do bolso e, diante dos olhos de Sua, o rasgou em pedaços minúsculos, deixando-os cair no tapete.

— Eu não quero o endereço dela — disse Mizi, a voz trêmula. — Eu não quero o perfume dela, nem o toque dela. Eu fiquei em choque porque ela foi um pesadelo que eu achei que tinha acabado. Mas o meu presente é você, Sua.

Sua observou os pedaços de papel no chão. A raiva ainda estava lá, mas a carência que Mizi despertava nela era mais forte.

— Você foi uma idiota hoje, Mizi — disse Sua, aproximando-se.

— Eu sei. Eu sou uma idiota completa. Mas eu sou a sua idiota — repetiu Mizi, usando as palavras que ouvira Ivan dizer a Till, porque pareciam ser as únicas que faziam sentido agora.

Sua segurou o rosto de Mizi com as duas mãos. O toque era frio, mas os olhos roxos estavam em chamas.

— Se ela chegar perto de você de novo, Mizi... se você deixar ela te tocar daquele jeito de novo...

— Eu não vou — prometeu Mizi, fechando os olhos e aproveitando o calor das mãos de Sua. — Eu juro. Eu prefiro a sua coleira do que a liberdade dela.

Sua puxou Mizi para um beijo que não tinha nada de doce. Era um beijo de punição, de posse, de urgência. Ela empurrou Mizi contra a cama, subindo em cima dela com uma determinação que fez a rosada soltar um gemido de alívio.

— Você vai ter que compensar o meu sushi estragado, Mizi — sussurrou Sua no ouvido dela.

— Com prazer, minha dona — respondeu Mizi, entregando-se novamente ao ritmo que só as duas conheciam, enquanto o fantasma de Rose desaparecia na escuridão da noite lá fora.

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