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Love Propice

Sementes de Sol e Segredos de Lua

A luz da manhã entrou no bangalô com uma agressividade que Rafaella não esperava. O balanço suave das ondas sob o chão de vidro, que na noite anterior parecia o som mais relaxante do mundo, agora causava uma leve tontura. Ela se sentou devagar na cama de seda negra, sentindo o estômago dar uma volta nada agradável.

— Guto... — murmurou ela, levando a mão à testa.

Augusto, que já estava de pé, vestindo apenas uma bermuda de linho clara, aproximou-se com um copo de água e um sorriso radiante.

— Bom dia, minha esposa. Dormiu bem? Você parecia um anjo, apesar de... — Ele apontou para os próprios ombros, onde as marcas vermelhas dos arranhões de Rafaella se destacavam na pele clara.

— Eu estou bem, só... um pouco enjoada. Deve ter sido o sushi de ontem. Ou o champanhe — respondeu ela, forçando um sorriso e aceitando a água.

— Quer ficar no quarto? Eu posso cancelar com o Bernardo e a Sofia.

— Não, imagina! — Rafaella se levantou, sentindo uma pontada de náusea, mas respirou fundo. — O sol está lindo e eu não quero perder um segundo dessa viagem. Vou tomar um banho gelado e já fico nova.

Uma hora depois, eles caminhavam pela areia em direção ao ponto de encontro habitual. O sol estava forte, e o contraste do azul do céu com o turquesa do mar era de tirar o fôlego. Ao longe, avistaram Bernardo e Sofia instalados sob um enorme guarda-sol, já com as primeiras bebidas do dia sobre a mesa de madeira.

— Olhem só se não são os sobreviventes da noite de núpcias parte dois! — gritou Bernardo, levantando-se para recebê-los.

Assim que Augusto se aproximou e tirou a camisa para passar protetor, Bernardo soltou uma gargalhada alta, apontando para as costas e ombros do amigo.

— Pelo amor de Deus, Augusto! Você foi atacado por um leopardo ou a Rafaella realmente não brinca em serviço? A noite foi intensa, hein, meu amigo?

Sofia deu uma cotovelada no marido, mas não conseguiu segurar o riso.

— Deixa eles, Bernardo! Isso se chama paixão, coisa que você só demonstra quando o seu time ganha o campeonato.

Rafaella tentou rir, mas o cheiro forte do protetor solar que Augusto passava a fez empalidecer. Ela sentiu o mundo girar e a boca encher de água.

— Gente, eu... eu esqueci meu chapéu no quarto — mentiu ela, a voz um pouco trêmula. — Sofi, você me acompanha? Preciso de uma ajuda com a trança também.

Sofia, que conhecia a melhor amiga como a palma da mão, percebeu imediatamente que algo estava errado.

— Claro, amiga. Vamos lá. Homens, tentem não se comparar demais, voltamos logo.

Assim que entraram na suíte e a porta se fechou, Rafaella correu para o banheiro. O mal-estar foi imediato. Sofia segurou o cabelo da amiga, esperando o momento passar com uma expressão de preocupação e uma ponta de suspeita.

— Rafa... — disse Sofia, entregando uma toalha de rosto úmida para ela. — Não foi o sushi, foi?

— Eu não sei, Sofi. Eu comecei a me sentir estranha hoje cedo. Uma tontura, um enjoo que não passa...

Sofia cruzou os braços, um sorriso começando a brotar em seus lábios.

— Amiga, faz quanto tempo que você parou com a pílula?

Rafaella parou, os olhos arregalados.

— Três meses. A gente decidiu que ia deixar acontecer depois do casamento, mas... não imaginei que seria tão rápido. No meio da lua de mel?

— Eu tenho um teste na minha necessaire — disse Sofia, já correndo para a bolsa. — Eu sempre trago por precaução, sabe como o Bernardo é intenso. Vai lá. Agora.

Os minutos que se seguiram foram os mais longos da vida de Rafaella. Ela caminhava de um lado para o outro no quarto, enquanto Sofia roía as unhas sentada na beira da cama. Quando o cronômetro do celular apitou, as duas se aproximaram do balcão do banheiro.

Dois riscos vermelhos. Fortes. Inquestionáveis.

— Meu Deus... — sussurrou Rafaella, as mãos tremendo. — Eu estou grávida. Guto vai ser pai.

— Você está grávida! — Sofia gritou, abraçando a amiga e pulando. — Eu vou ser tia! Rafa, isso é maravilhoso!

— Eu preciso contar para ele — disse Rafa, as lágrimas de emoção finalmente vencendo o enjoo. — Mas não pode ser de qualquer jeito. Tem que ser especial.

Rafaella passou a hora seguinte planejando tudo com Sofia. Elas desceram para a praia, mas antes passaram na lojinha do hotel. Rafa comprou uma pequena caixa de madeira e um par de sapatinhos de crochê branco que estavam na vitrine.

Quando voltaram para a areia, Augusto e Bernardo estavam dentro da água, conversando animadamente.

— Tudo bem por aqui? — perguntou Augusto, saindo do mar e secando o rosto, com aquele olhar protetor que sempre desarmava Rafaella.

— Tudo ótimo, meu amor — disse ela, sentindo o coração disparar. — Na verdade, melhor do que nunca. Eu trouxe um presente para você. Uma lembrança dessa viagem.

Bernardo e Sofia se aproximaram, Sofia com o celular a postos para gravar tudo, e Bernardo com uma expressão confusa.

— Presente agora, Rafa? A gente mal começou o dia — brincou Bernardo.

— É especial — afirmou ela, entregando a caixinha para Augusto.

Augusto a olhou com curiosidade. Seus dedos tocaram a madeira e ele abriu a tampa devagar. Dentro, sobre um fundo de areia branca daquela mesma praia, estavam os sapatinhos e o teste com os dois riscos.

O silêncio caiu sobre o grupo, quebrado apenas pelo som das ondas. O rosto de Augusto passou da confusão para o choque absoluto, e então para uma alegria tão pura que ele parecia ter perdido a fala.

— Rafa... — ele começou, a voz falhando. — Isso é... você está...?

— Sim, Guto. Nós vamos ter um bebê. A nossa intensidade gerou uma vida.

Augusto a pegou pela cintura e a levantou no ar, girando-a enquanto ria e chorava ao mesmo tempo.

— Eu vou ser pai! Eu vou ser pai! — gritava ele, para quem quisesse ouvir na praia.

— Espera aí! — Bernardo exclamou, aproximando-se da caixa e olhando o teste como se fosse um artefato alienígena. — Vocês... vocês fizeram isso agora? Na lua de mel?

— Provavelmente foi um pouco antes, seu bobo — riu Sofia, limpando as lágrimas.

— Cara, parabéns! — Bernardo abraçou Augusto com força, dando tapas em suas costas. — Mas eu não acredito... a gente vem passar a lua de mel juntos e você já resolve encomendar o herdeiro? Você não perde tempo mesmo!

— É o amor, Bernardo — disse Augusto, voltando para os braços de Rafaella e colando sua testa na dela. — É a nossa história começando de um jeito que eu nunca ousei sonhar.

— Sabe o que é o mais engraçado? — disse Bernardo, olhando para Sofia com um sorriso estranho.

— O que foi, Bê? — perguntou Sofia.

— Eu também tenho uma surpresa. Eu ia esperar o jantar, mas o clima está propício.

Bernardo enfiou a mão na bolsa térmica, mas em vez de uma cerveja, tirou um envelope.

— Sofia, lembra daquele exame que você fez semana passada porque estava se sentindo cansada? O resultado saiu no aplicativo hoje cedo. Eu dei uma olhada escondido...

Sofia arregalou os olhos, perdendo o fôlego.

— Bernardo, não brinca com isso...

— Você também está grávida, meu amor. Nós vamos ser pais junto com eles.

O grito que Sofia deu pôde ser ouvido em todo o resort. O que era uma comemoração de casal transformou-se em uma celebração coletiva. Os quatro amigos se abraçaram no meio da areia, rindo da ironia do destino e da coincidência incrível.

— Isso é loucura! — dizia Rafaella, abraçada a Sofia. — Nossos filhos vão crescer juntos, exatamente como nós planejamos na faculdade!

— E a culpa é toda dessa intensidade de vocês — brincou Bernardo, abraçando Augusto. — A gente não consegue fazer nada pela metade, não é?

— Nunca — respondeu Augusto, olhando para Rafaella com um amor que parecia transbordar. — A gente ama intensamente, vive intensamente e agora, vamos criar intensamente.

O sol continuava a brilhar, o mar continuava a quebrar na areia, mas para aqueles dois casais, o mundo havia mudado para sempre. A lua de mel, que começou com promessas de sedução e noites ardentes, agora ganhava um novo significado: era o berço de duas novas vidas.

Enquanto Augusto beijava a barriga ainda plana de Rafaella sob o olhar emocionado dos amigos, ela soube que aquele era apenas o primeiro capítulo de uma aventura muito maior. E, como tudo na vida deles, seria inesquecível.