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Lovely Complex

O Placar da Conquista e o Eco do Corredor

O silêncio que se seguiu ao momento de entrega absoluta era denso, quase palpável, preenchido apenas pelo som sincronizado de duas respirações que tentavam retomar o ritmo normal. O quarto 204, que horas antes parecia uma prisão de conveniência, agora era um santuário. A luz do sol, filtrada pelas cortinas leves, desenhava listras douradas sobre a pele nua de Rafaella, que repousava a cabeça no peito de Augusto, ouvindo o tamborilar constante do coração do capitão.

Augusto acariciava o ombro dela, sentindo a maciez da pele ainda quente. Ele estava em um estado de torpor que nenhum título de campeonato jamais havia lhe proporcionado. Rafaella não era apenas a garota bonita da sala; ela era uma força da natureza que o havia desarmado completamente.

— Você está bem? — sussurrou ele, a voz ainda vibrando com um resquício de rouquidão.

Rafaella levantou o rosto, abrindo um sorriso preguiçoso e radiante.

— Melhor do que eu esperava para uma terça-feira de excursão escolar.

Eles teriam ficado ali, perdidos naquele casulo de lençóis bagunçados e promessas silenciosas, se a realidade não tivesse pés pesados e uma falta absoluta de senso de oportunidade. O som de passos rápidos e pesados ecoou pelo corredor de madeira do hotel, parando exatamente em frente à porta deles.

*POW! POW! POW!*

Batidas violentas e ritmadas fizeram a porta de madeira estremecer, quebrando a magia do momento como um martelo quebra um cristal.

— ABRE A PORTA, CAPITÃO! — A voz de Bernardo, o zagueiro do time e dono da voz mais potente do terceiro ano, atravessou a madeira sem qualquer cerimônia. — VAMOS JOGAR UM POUCO! A CÂIMBRA MELHOROU OU VAI PRECISAR DE UMA MACA?

Rafaella, pega de surpresa pelo estrondo, soltou um gritinho agudo de susto, sentando-se abruptamente na cama e puxando o lençol branco para cobrir o corpo. Seus olhos arregalados encontraram os de Augusto, que fechou os punhos e soltou um suspiro de pura frustração, jogando a cabeça para trás no travesseiro.

Houve um segundo de silêncio mortal no corredor após o grito de Rafaella. Então, o som de risadinhas abafadas e burburinhos começou.

— EITA! — Bernardo exclamou do outro lado, sua voz agora carregada de um tom malicioso e divertido. — FOI MAL AÍ, CAPITÃO!

Augusto cobriu o rosto com as mãos, sentindo o calor da vergonha misturado à irritação, enquanto Rafaella escondia o rosto entre os joelhos, querendo que a terra — ou pelo menos o piso do hotel — se abrisse sob ela.

— APROVEITA A RAFA AÍ, MAS VAI COM CALMA! — Bernardo continuou, gritando para que todo o andar pudesse ouvir, ignorando qualquer noção de discrição. — EU SABIA QUE ESSA CÂIMBRA TAVA MEIO FINGIDA, SEU SAFADO! USA CAMISINHA, HEIN? O TIME PRECISA DE VOCÊ FOCADO, NÃO SENDO PAI ANTES DA FORMATURA!

— VAI PRO INFERNO, BERNARDO! — Augusto rugiu, finalmente recuperando a voz e sentando-se na cama, mas o som de passos correndo e gargalhadas se afastando foi a única resposta que obteve.

O silêncio retornou, mas agora era um silêncio pesado, carregado pelo eco das palavras de Bernardo. Rafaella espiou por cima do lençol, vendo as orelhas de Augusto vermelhas de raiva.

— Eu vou matar o Bernardo — declarou Augusto, a voz baixa e perigosa. — Eu vou fazer ele correr vinte voltas no campo assim que voltarmos para a escola. Sem água. Sob o sol do meio-dia.

Rafaella não aguentou. A situação era tão absurda, tão digna de uma comédia adolescente de baixo orçamento, que uma risada curta escapou de seus lábios, seguida por outra mais forte.

— Você está rindo? — perguntou Augusto, virando-se para ela com uma expressão incrédula, mas que logo começou a suavizar ao ver a alegria dela.

— Augusto, ele gritou "usa camisinha" no corredor do hotel! — Ela gargalhou, jogando-se de volta nos travesseiros. — Os professores devem estar no andar de baixo! A escola inteira vai estar comentando isso no jantar.

Augusto soltou um suspiro longo, deixando o corpo relaxar e caindo ao lado dela.

— Minha reputação de capitão sério e focado acabou de ir pelo ralo. E a sua... bom, você agora é oficialmente a garota que faz o capitão fingir lesões para fugir do treino.

— Uma reputação bem interessante, se quer saber minha opinião — provocou ela, virando-se de lado para encará-lo.

Ele estendeu a mão, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. O olhar intenso e romântico voltou a dominar suas feições, ignorando a palhaçada dos amigos.

— Eles são idiotas, mas o Bernardo não estava errado sobre uma coisa — disse ele, a voz baixando novamente. — A cãibra estava muito fingida. Eu só não conseguia mais fingir que não queria estar aqui, trancado nesse quarto com você.

Rafaella sentiu o coração derreter. Augusto tinha essa dualidade: era o atleta imponente que comandava o time com braço de ferro, mas, perto dela, revelava uma vulnerabilidade e um romantismo que a deixavam sem defesas.

— O que a gente faz agora? — perguntou ela. — Se sairmos, eles vão estar esperando com câmeras ou mais piadas.

— Agora? — Augusto deu um sorriso de canto, puxando o lençol um pouco mais para baixo, apenas o suficiente para ver o início da curva do ombro dela. — Agora a gente aproveita que o Bernardo acha que estamos ocupados e... realmente ficamos ocupados.

— Você não tem jeito — ela murmurou, mas seus braços já estavam se enlaçando no pescoço dele novamente.

— Nenhum quando se trata de você, Rafa.

O beijo que se seguiu foi mais calmo, mas carregado de uma nova camada de cumplicidade. Eles sabiam que a porta do quarto não era uma barreira real contra as fofocas da escola, mas, naquele momento, era o suficiente.

Cerca de uma hora depois, a fome e a necessidade de manter as aparências falaram mais alto. Eles se vestiram com calma. Rafaella optou por um vestido leve de alças por cima do biquíni preto, enquanto Augusto colocou uma bermuda seca e uma camiseta polo, tentando recuperar um pouco da dignidade perdida.

— Pronta para enfrentar os leões? — perguntou ele, a mão na maçaneta.

— Desde que você não finja outra cãibra no meio do caminho — brincou ela.

Quando saíram do quarto e desceram para o saguão do hotel, o clima estava estranhamente calmo. Os alunos estavam espalhados, alguns jogando cartas, outros mexendo no celular. No entanto, assim que Augusto e Rafaella apareceram na escada, um coro de assobios baixos começou a surgir de diferentes cantos.

Thiago, que estava sentado perto da recepção, levantou o polegar em sinal de aprovação. Bernardo, o culpado de tudo, estava perto da mesa de pingue-pongue e teve a audácia de piscar para Augusto.

Rafaella manteve a cabeça erguida. Ela era inteligente demais para se deixar abater por brincadeiras de vestiário. Ela caminhou até suas amigas, que a receberam com sorrisos cúmplices e perguntas mudas.

— Então, a cãibra do Augusto foi grave? — perguntou Camila, tentando manter a face séria, mas falhando miseravelmente.

— Gravíssima — respondeu Rafaella, pegando um copo de suco na mesa de lanches. — Mas ele já está em fase de recuperação. O tratamento foi intensivo.

As meninas explodiram em risadinhas, e Rafaella sentiu uma satisfação profunda. Ela não era apenas a garota que o capitão via; ela era a garota que o capitão desejava, e a intensidade entre eles era algo que nenhuma piada poderia diminuir.

Augusto, por sua vez, foi cercado pelos meninos.

— E aí, Romeu? — provocou Pedro. — O treino na areia foi cancelado para você, mas parece que o treino no quarto foi puxado, hein?

Augusto deu um tapa amistoso na nuca de Pedro.

— Calem a boca e peguem a bola. Vamos para a quadra agora. E Bernardo?

O zagueiro olhou para ele, ainda rindo.

— Sim, capitão?

— Você vai ser o goleiro. E eu não vou ter pena nos chutes.

— Valeu a pena! — gritou Bernardo enquanto corria para fora, fugindo de um Augusto que, apesar de fingir braveza, não conseguia esconder o brilho de felicidade nos olhos.

A tarde seguiu com o torneio de vôlei e futebol, mas a dinâmica entre Rafaella e Augusto havia mudado permanentemente. Não havia mais a tensão incômoda do "acidente no banheiro". Agora, havia olhares trocados por cima da rede, sorrisos compartilhados à distância e uma certeza silenciosa de que, quando a noite caísse e as luzes do hotel se apagassem, o quarto 204 voltaria a ser o palco de uma história que estava apenas começando.

Rafaella observava Augusto correr pelo campo improvisado na areia. Ele era alto, forte e liderava com uma paixão que ela agora conhecia em outros contextos. Ela sabia que ele era romântico, que ele se importava com os detalhes e que, apesar da casca de atleta popular, ele a via de uma forma que ninguém mais via.

Ao pôr do sol, enquanto o céu de Angra se tingia de laranja e violeta, eles se encontraram novamente perto do deck de madeira que dava para o mar.

— Cansado? — perguntou ela, aproximando-se dele.

Augusto respirou fundo, o cheiro de mar e suor misturando-se de uma forma que Rafaella achava estranhamente atraente.

— Um pouco. O Bernardo levou alguns chutes bem dados para aprender a ficar de boca fechada.

— Ele não vai ficar de boca fechada, Augusto. Você sabe disso.

— Eu sei. Mas ele também sabe que se falar demais, eu conto para a diretora quem foi que escondeu o sapato do professor de física na viagem passada.

Rafaella riu, encostando a cabeça no ombro dele.

— Você é terrível.

— Eu sou prático — corrigiu ele, envolvendo-a com o braço e puxando-a para ver o sol se esconder no horizonte. — Rafa... sobre hoje de manhã... e agora à tarde...

— Você não precisa explicar nada, Augusto — disse ela, interrompendo-o. — Eu sou intensa, lembra? Eu não faço nada pela metade. Se eu estou com você, eu estou com você.

Augusto parou de olhar para o horizonte e olhou para ela. A luz do crepúsculo refletia nos olhos inteligentes de Rafaella, e ele sentiu uma onda de carinho que ultrapassava o desejo físico.

— Eu também não faço nada pela metade — afirmou ele. — Essa viagem era para ser só futebol e bagunça com os caras. Mas agora, eu só consigo pensar em como eu vou fazer para que a gente continue nesse mesmo quarto até o último dia.

— Bom — disse ela, com um brilho travesso — o sistema do hotel ainda está com erro. E eu não ouvi ninguém da recepção ligando para dizer que consertaram.

Augusto sorriu, um sorriso largo e genuíno que poucas pessoas tinham o privilégio de ver.

— Então acho que temos muito trabalho pela frente. Afinal, eu ainda tenho uma "cãibra" para tratar e você é a única especialista disponível.

Rafaella deu um tapa leve no peito dele, rindo, enquanto caminhavam de volta para o hotel. O biquíni preto, guardado agora sob o vestido, era o símbolo de uma virada inesperada. Eles entraram no saguão de mãos dadas, ignorando os assobios que recomeçaram. Eles não eram mais apenas o capitão e a garota bonita; eles eram a chama que o erro de um computador havia acendido, e eles não tinham a menor intenção de deixar aquele fogo apagar.