Lovely Complex
O Jogo do Descuido e o Óleo da Discórdia
A penumbra do quarto era cortada apenas pelo brilho prateado da lua que atravessava as cortinas entreabertas. O silêncio era absoluto, exceto pelo som da respiração de Augusto, que agora se movia com uma lentidão calculada sobre o corpo de Rafaella. Ele havia prometido terminar o que começara na noite anterior, e Augusto não era homem de deixar promessas em campo.
— Sabe — sussurrou ele, as mãos grandes e quentes espalhando uma nova camada de óleo sobre as costas de Rafa —, eu andei praticando a técnica. O Bernardo disse que eu era bruto demais, então decidi provar que ele está errado.
Rafaella soltou um suspiro satisfeito, o rosto enterrado no travesseiro, sentindo os músculos relaxarem sob a pressão firme, mas cuidadosa, dos polegares dele.
— O Bernardo fala demais — murmurou ela, a voz abafada. — Mas você está se saindo muito bem, Capitão.
Augusto sorriu contra a pele dela. De repente, ele mudou o ritmo. Em vez da pressão constante, ele começou a fazer movimentos rápidos e leves com as pontas dos dedos nas costelas dela, subindo em direção às axilas.
— Augusto! — Rafaella deu um sobressalto, soltando uma risada curta e aguda. — Para! Isso dá cócegas!
— Cócegas? Eu? — Ele fingiu inocência, mas seus dedos continuaram a dança brincalhona, descendo para a curva da cintura dela. — Eu achei que isso fosse parte da terapia de relaxamento avançada.
— Você é um idiota — ela riu, tentando se virar para fugir do ataque, mas ele a manteve no lugar com o peso suave do próprio corpo, continuando os movimentos erráticos que a faziam se contorcer entre risos. — Para, Guto! Eu vou perder o fôlego!
— Esse é o plano — disse ele, a voz tornando-se subitamente mais rouca e profunda.
Ele parou com as cócegas e começou a distribuir beijos lentos pela coluna dela, desde a nuca até a base das costas. O clima de brincadeira evaporou-se em um segundo, substituído por uma tensão elétrica que fez os pelos do braço de Rafaella se arrepiarem. Ela se virou nos braços dele, ficando de frente para aquele olhar castanho que parecia queimar tudo o que tocava.
Augusto a envolveu, as mãos deslizando pela pele lubrificada pelo óleo, tornando cada toque mais fluido, mais intenso. Ele a beijou com uma fome que parecia ter acumulado durante todo o jantar, um desejo que não aceitava mais esperas. Rafaella enlaçou o pescoço dele, puxando-o para mais perto, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. Eles se perderam naquele emaranhado de lençóis e carícias, focados apenas um no outro, no ritmo dos corações que batiam em uníssono.
O que nenhum dos dois percebeu, no entanto, foi o leve estalo da fechadura. Na pressa de voltar para o quarto e de se perderem um no outro, o capitão, sempre tão atento aos detalhes táticos, havia cometido um erro primário: a porta não estava trancada, apenas encostada.
Do lado de fora, no corredor, Sofia e Bernardo caminhavam a passos largos, discutindo em voz baixa.
— Eu te disse que a gente não devia ter deixado o óleo com eles — resmungou Sofia, ajeitando o roupão. — Minhas pernas estão moídas daquela caminhada e você prometeu que ia massagear meus pés.
— Ah, qual é, Sofi! O Guto precisava de uma ajuda extra — Bernardo defendeu-se, rindo. — Mas ele é meu melhor amigo, ele não vai se importar se a gente entrar rapidinho para pegar de volta. Eles provavelmente já estão dormindo, do jeito que o Augusto é um "vovô" depois das onze.
— Bernardo, é melhor a gente bater — sugeriu ela, hesitante.
— Bobagem. Se eu bater, eu acordo eles. Vou entrar como um ninja, pegar o frasco na mesa e sair. Confia no seu namorado.
Bernardo girou a maçaneta com cuidado, surpreso ao ver que ela cedeu sem resistência. Ele entrou na ponta dos pés, com Sofia logo atrás, tentando não fazer barulho. O quarto estava silencioso, mas não era o silêncio do sono.
No centro da cama, sob a luz fraca, a cena se desenrolava. Augusto estava por cima de Rafaella, os braços sustentando o peso do corpo enquanto ele a beijava com uma entrega absoluta, as mãos dela perdidas nos cabelos dele. Não havia gritos, apenas o som abafado de suspiros e a intensidade de um momento privado que estava prestes a se tornar público.
Bernardo parou bruscamente no meio do quarto, os olhos arregalados. Sofia, que vinha logo atrás, bateu nas costas dele e soltou um arquejo sonoro ao ver a cena.
— Mas que… — começou Bernardo, a voz saindo mais alta do que pretendia.
O efeito foi instantâneo. Augusto congelou. Rafaella abriu os olhos, o choque substituindo o prazer em uma fração de segundo. Augusto se virou rapidamente, ainda protegendo o corpo de Rafaella com o seu, os olhos faiscando de uma mistura de susto e fúria.
— Bernardo? — a voz de Augusto saiu como um rosnado sobressaltado. — O que diabos você está fazendo aqui dentro?
Rafaella puxou o lençol até o queixo, o rosto queimando em um tom de vermelho que faria um tomate parecer pálido.
— A porta… a porta estava aberta! — gaguejou Bernardo, levantando as mãos como se estivesse diante de um pelotão de fuzilamento. — A gente só veio buscar o óleo! Você não estava usando, eu achei que…
— Você achou que podia invadir o meu quarto no meio da noite? — Augusto sentou-se na cama, a expressão entre a indignação e o riso nervoso que ameaçava escapar. — Saiam daqui! Agora!
— Meu Deus, desculpa, Rafa! — Sofia exclamou, cobrindo os olhos com uma mão enquanto puxava Bernardo pela gola da camisa com a outra. — Eu disse para esse idiota bater! A gente está saindo, juro!
— Pega o óleo e vai embora, Bernardo! — gritou Augusto, apontando para a mesa de cabeceira onde o frasco repousava.
Bernardo, em um movimento atrapalhado, correu até a mesa, pegou o óleo e quase tropeçou nos próprios pés ao dar meia-volta.
— Belo condicionamento físico, capitão! — Bernardo conseguiu brincar, já na porta, antes de Sofia lhe dar um empurrão que o mandou direto para o corredor.
A porta finalmente bateu, e desta vez o som do trinco ecoou com clareza.
O silêncio que se seguiu no quarto era pesado, carregado pela adrenalina do susto. Augusto olhou para a porta fechada, depois para Rafaella, que ainda estava encolhida sob o lençol, com os olhos arregalados.
— Eu vou matar o Bernardo — disse Augusto, embora o tom de voz estivesse perdendo a agressividade para o divertimento.
Rafaella começou a tremer. Não de medo, mas de um riso contido que finalmente explodiu.
— Augusto… — ela disse entre gargalhadas —, ele viu… ele viu a sua cara de susto!
Augusto tentou manter a pose de capitão ofendido por mais alguns segundos, mas a visão de Bernardo fugindo como um ladrão de óleo era demais para ele. Ele caiu de costas no colchão, rindo alto.
— Eu esqueci de trancar a porta, Rafa. Eu, o homem que planeja cada entrada e saída de campo, deixei o gol aberto para o atacante mais idiota da liga.
Rafaella engatinhou até ele, sentando-se ao seu lado, ainda rindo enquanto tentava recuperar o fôlego.
— "Belo condicionamento físico"? Foi isso mesmo que ele disse?
— Ele é um homem morto — Augusto afirmou, puxando-a para o seu peito. — Amanhã, no café da manhã, eu vou fazer ele comer esse óleo com torradas.
— Pelo menos agora a gente tem certeza de que eles não vão voltar — comentou ela, passando a mão pelo peito dele, sentindo o coração dele ainda acelerado. — O trauma deve ter sido mútuo.
Augusto envolveu a cintura dela, trazendo-a de volta para o centro da cama. O clima havia sido quebrado, mas a cumplicidade entre eles só havia aumentado.
— Onde estávamos? — perguntou ele, o brilho intenso voltando aos olhos enquanto ele afastava uma mecha de cabelo do rosto dela.
— Acho que você estava tentando me convencer de que era um massagista profissional — provocou ela, com um sorriso travesso.
— Ah, é? Pois bem, a sessão ainda não acabou. Mas desta vez… — Ele se esticou, pegou o controle remoto da mesa e, com um clique, verificou se o trinco eletrônico da porta estava devidamente acionado. — Desta vez, o campo está fechado para o público.
— Acho justo, Capitão — concordou Rafaella, entregando-se novamente aos braços dele.
Lá fora, no corredor, o silêncio era absoluto. Mas dentro daquele quarto, entre risos baixos e confissões sussurradas, Augusto e Rafaella continuaram a escrever a sua própria história, uma que não precisava de plateia, nem de perfeição, e que, apesar das interrupções desastradas dos amigos, era exatamente o que ambos precisavam.
Naquela noite, eles não apenas se amaram; eles aprenderam que a intimidade também é feita de momentos ridículos e que, no final das contas, não importa quem entra pela porta, desde que, quando ela se feche, eles ainda tenham um ao outro.
— Rafa? — chamou ele, muito tempo depois, quando a exaustão feliz começava a tomar conta.
— Oi, Guto.
— Da próxima vez, a gente viaja para uma ilha deserta. Só nós dois. Sem Bernardo, sem Sofia e, definitivamente, sem óleo de massagem compartilhado.
Rafaella riu baixinho, aninhando-se no pescoço dele.
— Combinado. Mas você ainda vai ter que fazer a massagem.
— Com todo o prazer — respondeu ele, fechando os olhos e deixando que o sono finalmente os levasse, selando uma noite que, apesar de tudo, havia sido perfeita à sua própria maneira torta e inesquecível.