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Lute por isso

Sombras no Depósito e o Caminho sem Volta

O silêncio de Sua era uma arma de dois gumes; cortava Mizi durante o dia e sangrava a própria Sua durante a noite. Três dias haviam se passado desde o confronto no corredor, e a atmosfera entre as duas se tornara um deserto gelado. Sua chegava à escola com a expressão mais impenetrável do que nunca, mas, por trás da camada espessa de corretivo e pó que escondia as olheiras profundas, seus olhos roxos carregavam o peso de noites em claro, regadas a lágrimas e ao gosto amargo da decepção.

Ela evitava o grupo no intervalo, refugiando-se em salas vazias ou na parte mais alta da arquibancada. Ivan observava tudo de longe, os olhos pretos semicerrados, alternando o olhar entre a melancolia destrutiva de Sua e a frustração crescente de Mizi. O grupo sentia a tensão; até Till estava mais quieto, sentindo que o equilíbrio frágil daquela amizade de quatro anos estava prestes a se estilhaçar.

No quarto dia, Mizi atingiu o seu limite. Ela não era uma pessoa feita para o silêncio ou para a rejeição. Ver Sua passar por ela como se fosse uma estranha, o cheiro de morango de Mizi sendo ignorado pela frieza de Sua, era uma tortura que ela não estava mais disposta a suportar.

Quando o sinal da última aula tocou, Sua guardou seus livros com movimentos mecânicos e caminhou em direção à biblioteca, seu refúgio habitual. Ela precisava do cheiro de papel velho para abafar o cheiro da dor. No entanto, ela nunca chegou ao seu destino.

No meio do corredor deserto do bloco antigo, uma mão firme envolveu seu pulso.

— O que você... — Sua começou a dizer, mas as palavras morreram em sua garganta.

Mizi não disse nada. Seu rosto estava sério, as sobrancelhas franzidas em uma determinação quase selvagem. Ela puxou Sua com força, ignorando o protesto mudo da garota mais baixa. Mizi abriu a porta de um depósito de materiais antigo, um lugar que a escola não usava mais, cheio de carteiras quebradas e poeira acumulada sob a luz fraca que filtrava pelas janelas altas.

Mizi empurrou Sua para dentro e fechou a porta com um estrondo, girando a tranca. Antes que Sua pudesse reagir, Mizi a jogou contra a parede de concreto, as mãos espalmadas de cada lado da cabeça de Sua, prendendo-a em um cerco inabalável.

— Chega, Sua! — Mizi exclamou, a voz ecoando no espaço vazio. — Eu não aguento mais esse seu gelo. Eu não aguento mais você me olhando como se eu fosse um monstro.

Sua tentou desviar o olhar, mas Mizi segurou seu queixo, forçando-a a encarar o dourado ardente de seus olhos.

— Por que você está assim? — Mizi perguntou, a respiração ofegante. — O que eu fiz de tão terrível para você me apagar da sua vida em três dias?

A represa que Sua vinha construindo há anos finalmente rompeu. As lágrimas, que ela tentara esconder com maquiagem e orgulho, começaram a transbordar, traçando sulcos na pele pálida.

— Você quer saber por quê? — Sua gritou, a voz embargada pelo choro. — Porque eu estou cansada, Mizi! Eu estou cansada de gostar de você em segredo desde o nono ano! Estou cansada de ver você flertar com o mundo inteiro enquanto eu fico nas sombras, esperando uma migalha da sua atenção que não seja "amigável".

Mizi arregalou os olhos, o choque paralisando suas feições por um segundo.

— Na biblioteca... você disse aquelas coisas — Sua continuou, soluçando abertamente agora, o corpo tremendo. — Você me encurralou, me fez acreditar que talvez... só talvez... eu tivesse uma chance. E aí, na festa, eu vejo você fazendo a mesma coisa com outra garota. O mesmo olhar, o mesmo toque. Eu percebi que eu sou só mais uma, Mizi. Eu sou só um brinquedo para você testar o seu charme quando está entediada.

Mizi sentiu um aperto no peito que a deixou sem fôlego. Ela viu o estado deplorável de Sua — a fragilidade escondida atrás da frieza — e a culpa a atingiu como uma avalanche.

— Sua, não... — Mizi sussurrou, sua voz suavizando instantaneamente. — Me desculpa. Por favor, me desculpa. Eu estava bêbada na festa, eu não... eu nem lembro direito de ter falado com aquela garota. Eu juro por tudo que eu não sinto nada por ela.

— Mas você sente por mim? — Sua perguntou, um desafio desesperado em meio às lágrimas. — Ou você só sente pena?

Mizi não respondeu com palavras. Ela olhou para o rosto tristonho de Sua, para os lábios trêmulos e os olhos roxos inundados, e o desejo que ela vinha reprimindo desde a biblioteca explodiu. Ela não queria apenas pedir desculpas; ela queria marcar Sua como sua.

Mizi moveu uma das mãos para o pescoço de Sua. Seus dedos envolveram a garganta da garota com uma firmeza que não chegava a sufocar, mas que a obrigava a levantar o rosto, expondo-se completamente. A outra mão de Mizi desceu para a cintura de Sua, puxando seu corpo para perto, eliminando qualquer espaço entre elas.

— Eu não sinto pena de você, Sua — Mizi murmurou, a voz carregada de uma fome súbita. — Eu sinto um desejo que está me matando.

Mizi atacou os lábios de Sua com um beijo faminto. Não foi um beijo delicado ou hesitante; foi uma colisão de anos de sentimentos reprimidos. Sua ficou em choque por um milésimo de segundo, as mãos paradas no ar, antes de se agarrarem desesperadamente aos cabelos rosados de Mizi.

O beijo se aprofundou quando Mizi forçou a entrada de sua língua, explorando a boca de Sua com uma urgência que fez os joelhos da garota pálida fraquejarem. O gosto de Mizi era exatamente como Sua imaginara em seus devaneios: doce, inebriante e perigoso.

No meio do beijo, Mizi pressionou um de seus joelhos entre as pernas de Sua, empurrando a saia do uniforme e aplicando uma pressão firme e rítmica contra a intimidade da outra.

— Ah... — Sua soltou um gemido abafado contra a boca de Mizi, o corpo arqueando-se instintivamente em busca de mais contato.

O som pareceu incendiar Mizi. Ela se separou apenas por um segundo, ambas ofegantes, os fios de saliva conectando seus lábios na penumbra do depósito. Sua não esperou. Ela puxou Mizi de volta pelo colarinho, beijando-a novamente com um desespero que dizia tudo o que ela não conseguira expressar com palavras. Ela queria Mizi, toda ela, sem filtros, sem outras garotas, sem o medo de ser apenas uma amiga.

Mizi retribuiu com a mesma intensidade, as mãos explorando o corpo de Sua por cima do uniforme, sentindo a pele quente através do tecido fino. Quando finalmente se separaram pela falta de ar, Mizi encostou a testa na de Sua, as duas tentando recuperar o fôlego enquanto o silêncio do depósito era preenchido apenas por suas respirações pesadas.

Mizi não disse "eu te amo", nem fez promessas românticas. Em vez disso, ela segurou a mão de Sua com firmeza e começou a puxá-la para fora do depósito.

— Vamos — disse Mizi, a voz rouca e decidida.

— Para onde? — Sua perguntou, limpando o resto das lágrimas com a manga da blusa, tentando acompanhar os passos rápidos de Mizi pelos corredores agora vazios da escola.

— Para a minha casa — respondeu Mizi, sem olhar para trás.

Sua sentiu um choque elétrico percorrer seu sistema. Ela sabia que os pais de Mizi viajavam constantemente e que ela morava praticamente sozinha na maior parte do tempo. O convite não era para estudar ou conversar. O beijo no depósito e a forma como Mizi a liderava agora deixavam claro o destino daquela tarde.

— Mizi... — Sua começou, o coração martelando contra as costelas. — Você está falando de... nós duas? Lá?

Mizi parou na saída da escola, sob a luz alaranjada do entardecer. Ela se virou para Sua, um sorriso audacioso e sedutor brincando em seus lábios, o olhar dourado brilhando com uma promessa explícita.

— Você passou quatro anos imaginando como seria, não passou? — Mizi perguntou, inclinando a cabeça. — Eu cansei de imaginar, Sua. Eu quero o mundo real agora. Com você.

Sua sentiu o rosto queimar de vergonha. Ela nunca tinha passado do estágio de beijos e toques tímidos em seus pensamentos mais ousados, e a perspectiva de fazer "isso" com Mizi — a garota que era o sol de seu universo — a deixava aterrorizada e, ao mesmo tempo, em um estado de ansiedade febril.

— Mas eu... eu nunca fiz nada disso — Sua confessou em um sussurro, baixando a cabeça.

Mizi se aproximou, pegando o rosto de Sua com as duas mãos e forçando-a a olhar para cima.

— Eu sei — Mizi disse, a voz suave agora, mas ainda carregada de intenção. — E eu vou te ensinar cada detalhe. Eu quero ser a primeira, a única e a última a tocar você desse jeito. Você quer isso, Sua?

Sua olhou nos olhos de Mizi e viu ali a verdade que Ivan sempre soubera: Mizi podia ser a garota popular, a sedutora da escola, mas seu coração era um território privado que ela só estava disposta a abrir para uma pessoa. E essa pessoa era ela.

— Sim — Sua respondeu, a voz ganhando uma firmeza nova. — Eu quero.

Mizi sorriu, um sorriso que não era para o público, mas um segredo compartilhado entre as duas. Ela entrelaçou seus dedos nos de Sua e as duas começaram a caminhar em direção ao apartamento de Mizi.

Enquanto caminhavam, Sua sentia o peso dos últimos quatro anos desaparecer, substituído por uma expectativa que fazia seu sangue ferver. Ela sabia que, ao cruzar a porta da casa de Mizi, a dinâmica entre elas mudaria para sempre. Não haveria mais "amiga nerd" ou "popular de cara hétero". Haveria apenas o que sempre deveria ter existido: o encontro de duas almas que se buscavam no escuro e que, finalmente, haviam encontrado o caminho para a luz — ou, no caso delas, para o calor de um quarto onde o tempo deixaria de existir.

Mizi apertou a mão de Sua, e pela primeira vez em muito tempo, o silêncio entre elas não era melancólico. Era o prelúdio de uma sinfonia que elas estavam prestes a escrever juntas.