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Magia

O Som da Seda e o Tom do Coração

O vilarejo de Hogsmeade parecia ter saído de um cartão de natal trouxa, com seus telhados pontiagudos cobertos por uma camada generosa de neve fresca e as vitrines decoradas com guirlandas que se moviam sozinhas. Para a maioria dos estudantes de Hogwarts, aquele era o dia mais esperado do semestre: a oportunidade de ouro para encontrar o traje perfeito para o Baile de Inverno. O ar estava impregnado com o cheiro de cerveja amanteigada vindo do Três Vassouras e o aroma doce da Dedosdemel, mas o que realmente preenchia as ruas era a eletricidade da expectativa juvenil.

Kuro Hatake caminhava ao lado de Tatsuyo Uchiha, tentando manter o passo mais lento para se ajustar ao dela. Ele usava um casaco pesado de lã escura que contrastava com seu cabelo branco espetado, que parecia brilhar sob a luz pálida do sol de inverno. Tatsuyo, por sua vez, estava quase escondida sob um cachecol azul e bronze da Corvinal, enrolado até o queixo, com apenas seus olhos pretos e expressivos espiando o mundo.

— Eu ainda acho que você está exagerando, Kuro-kun — disse ela, a voz um pouco abafada pelo tecido do cachecol.

— Exagerando? — Kuro soltou uma risada vibrante, ganhando alguns olhares curiosos de garotas que passavam. — Tatsuyo, é uma questão de honra da Grifinória. Se vamos entrar naquele salão juntos, precisamos estar em perfeita sintonia. Eu insisto: minha gravata tem que ser exatamente da cor do seu vestido.

Tatsuyo sentiu o rosto esquentar sob o cachecol. Desde que o convite fora feito e Kuro a defendera publicamente no Salão Principal, a dinâmica entre os dois havia mudado. Ele estava mais protetor, mais presente, e ela... ela estava começando a acreditar que talvez não fosse invisível. Mas a ideia de combinarem as cores das roupas parecia algo que casais de verdade faziam, e isso a deixava imensamente tímida.

— Mas as pessoas vão notar — ela murmurou, desviando o olhar para uma vitrine cheia de penas de caligrafia.

— Essa é a ideia! — Kuro parou de andar e se inclinou um pouco para ficar na altura dos olhos dela. — Quero que todos saibam que eu sou o seu par. E que eu tive o bom gosto de escolher a garota mais inteligente da escola. Agora, nada de recuar. Você vai encontrar o vestido mais incrível deste vilarejo, e eu vou comprar a gravata que combine com ele. Combinado?

Tatsuyo hesitou, mas o olhar castanho de Kuro era tão cheio de uma expectativa genuína e carinho que ela não conseguiu negar.

— Tudo bem — ela aceitou, com um pequeno sorriso que fez os olhos dele brilharem. — Combinado.

Eles se separaram na rua principal. Kuro foi em direção à loja de trajes masculinos com um aceno confiante, enquanto Tatsuyo, com o coração batendo rápido, começou sua busca pelas lojas de vestes femininas.

Ela entrou em três lugares diferentes, mas nada parecia certo. Alguns vestidos eram pomposos demais, cheios de babados que a fariam parecer um bolo de aniversário; outros eram severos e escuros, fazendo-a se sentir ainda mais como uma sombra. Ela já estava quase desistindo e pensando em usar suas vestes de gala comuns quando avistou uma pequena boutique no final de um beco lateral, chamada "A Trama Encantada".

Ao entrar, o som de um sininho anunciou sua chegada. A loja era silenciosa, cheia de tecidos que pareciam flutuar no ar e manequins que mudavam de pose ocasionalmente. No fundo de uma arara de veludo, algo chamou sua atenção. Era um tecido leve, de um tom de rosa tão pálido que quase se confundia com o branco da neve, mas com um brilho perolado que refletia a luz das velas.

Tatsuyo levou o vestido para o provador. Quando deslizou o tecido pela pele, sentiu um calafrio. Ao se olhar no espelho, ela perdeu o fôlego.

O vestido era sustentado por alcinhas tão finas que pareciam fios de seda de aranha. Na frente, o decote em V era delicado, valorizando seu colo de forma sutil. Mas a verdadeira surpresa estava nas costas: o vestido era totalmente aberto até um pouco abaixo da linha da cintura. Toda a extensão de sua pele parda estava à mostra, criando um contraste belíssimo com o rosa clarinho do tecido. A saia não era volumosa como a de uma princesa, mas também não era colada ao corpo; ela caía de forma fluida, movendo-se como água ao redor de suas pernas conforme ela dava pequenos passos.

— Eu... eu estou bonita? — ela perguntou a si mesma, tocando o reflexo no espelho.

Pela primeira vez em dezesseis anos, Tatsuyo Uchiha não viu a garota esquisita que sofria bullying. Ela viu uma jovem mulher. Ela se sentiu leve, elegante e, estranhamente, poderosa. Era o vestido perfeito.

— Com licença, senhora? — Tatsuyo chamou a dona da loja ao sair do provador, já com suas roupas normais, mas segurando o vestido com um cuidado reverencial. — Eu vou levar este.

A mulher, uma bruxa idosa com óculos de gatinho, sorriu gentilmente.

— Uma excelente escolha, querida. Esse tom combina perfeitamente com sua pele.

Enquanto a mulher preparava a nota, Tatsuyo lembrou-se da promessa feita a Kuro.

— Ah, por favor... a senhora teria um pedacinho desse tecido? Um retalho pequeno que sobrou? — Tatsuyo perguntou, sentindo as bochechas corarem. — É para o meu par. Ele quer comprar uma gravata no mesmo tom.

A bruxa soltou um "oh" de surpresa e começou a procurar em uma caixa de sobras de seda.

— Mas é claro que tenho! — Ela encontrou um quadrado perfeito do tecido rosa perolado e o entregou a Tatsuyo. — É tão fofo quando os namorados fazem isso. Dá um toque tão romântico à noite, não acha?

Tatsuyo sentiu o rosto queimar instantaneamente, um calor que subiu até as orelhas.

— Ah, não! — ela exclamou, balançando as mãos nervosamente. — Nós... nós não somos namorados. Ele é apenas... meu par. Somos amigos. Ele só está sendo gentil.

A senhora deu uma risadinha cúmplice, guardando o vestido em um saco preto longo e opaco para que ninguém visse o conteúdo.

— Sei, sei. "Apenas amigos". Já vi muitos "apenas amigos" começarem assim em Hogsmeade e terminarem casados na Capela de Hogwarts anos depois. Aproveite sua noite, querida.

Tatsuyo saiu da loja às pressas, segurando o saco de roupas com uma mão e o pedacinho de tecido na outra. Ela estava completamente vermelha, a mente girando com a palavra "namorados". Era uma ideia que ela abominava por se sentir indigna, mas que, no fundo de seu coração, fazia seu peito doer de uma forma doce.

Ela caminhou até o ponto de encontro combinado, perto do Correio das Corujas. Kuro já estava lá, encostado em um poste de luz, parecendo impaciente, mas seu rosto iluminou-se no momento em que a viu.

— E então? — ele perguntou, aproximando-se. — Encontrou o traje de batalha?

Tatsuyo assentiu, ainda tentando recuperar a compostura. Ela estendeu a mão fechada para ele.

— Encontrei. E... aqui está o que você pediu.

Ela abriu a mão, revelando o pequeno quadrado de seda rosa clarinho. Kuro pegou o tecido, analisando a cor contra a luz do dia.

— É uma cor linda, Tatsuyo — ele disse, com a voz subitamente mais baixa. — Vai ficar perfeita em você.

— A moça da loja achou que... — ela começou, mas parou, a voz falhando.

— Achou o quê? — Kuro arqueou uma sobrancelha, curioso.

— Ela achou que fôssemos namorados — Tatsuyo disparou de uma vez, olhando para os próprios pés, querendo que o chão se abrisse sob suas botas. — Eu disse a ela que não éramos, claro. Eu expliquei que você só estava sendo legal e que somos apenas um par para o baile.

O silêncio que se seguiu foi torturante. Tatsuyo esperava que Kuro risse ou que fizesse uma piada para aliviar o clima, mas ele não fez nada disso. Quando ela finalmente criou coragem para olhar para cima, viu que Kuro a observava com uma intensidade que a fez tremer.

Ele guardou o retalho de tecido no bolso da calça com cuidado, como se fosse um tesouro.

— Ela não está totalmente errada em pensar isso, sabe? — Kuro disse, dando um passo para mais perto, quebrando a barreira do frio entre eles.

— O quê? — Tatsuyo sussurrou, o coração disparado.

— Eu não estou fazendo isso só para ser "legal", Tatsuyo — Kuro confessou, e pela primeira vez, não havia humor em sua voz, apenas uma verdade crua. — Eu queria ir ao baile com você porque eu realmente gosto de você. E se as pessoas em Hogsmeade ou em Hogwarts pensarem que somos namorados... bem, eu não vou ser o único a corrigi-las. Por mim, elas podem pensar o que quiserem.

Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela nunca imaginou que alguém como Kuro Hatake, o garoto que tinha o mundo aos seus pés, pudesse dizer algo assim para ela.

— Kuro-kun... eu...

— Não precisa dizer nada agora — ele a interrompeu, sorrindo gentilmente e colocando a mão sobre o ombro dela. — Temos um baile para ir. E agora eu tenho uma missão: encontrar a gravata mais bonita de Hogsmeade para combinar com esse seu vestido secreto.

Eles começaram a caminhar de volta para o castelo, lado a lado. O saco preto contendo o vestido balançava entre eles, guardando o segredo de uma beleza que Tatsuyo ainda tinha medo de mostrar, mas que Kuro já enxergava há muito tempo.

Enquanto subiam a colina em direção aos portões de Hogwarts, Tatsuyo sentiu Kuro buscar sua mão livre. Ele não a segurou com força, apenas entrelaçou seus dedos nos dela por um momento antes de soltar, um contato breve que queimou mais do que qualquer feitiço de fogo.

Naquela noite, no dormitório da Corvinal, Tatsuyo pendurou o vestido rosa no armário. Ela ficou olhando para ele por um longo tempo, imaginando a reação de Kuro ao ver suas costas nuas e a fluidez do tecido. Pela primeira vez em sua vida, ela não estava com medo do que as pessoas diriam. Ela estava apenas ansiosa para ver o brilho nos olhos castanhos de Kuro quando ele percebesse que a cor da gravata dele era o reflexo exato da cor que ela havia escolhido para brilhar ao lado dele.

O Baile de Inverno estava a apenas alguns dias de distância, e as sombras da insegurança de Tatsuyo estavam finalmente começando a se dissipar sob a luz prateada e persistente de Kuro Hatake. Ela não era apenas um par; ela era alguém que ele escolhera. E, no fim das contas, talvez a dona da loja não estivesse tão enganada assim sobre o destino.