Magia
O Brilho da Pérola e o Rugido do Prateado
O Salão Comunal da Corvinal estava imerso em um caos atípico. Normalmente um reduto de silêncio e estudos individuais, o ambiente fora tomado por nuvens de perfume, o tilintar de joias e o farfalhar constante de tecidos luxuosos. Garotas corriam de um lado para o outro com varinhas em punho, conjurando feitiços complexos para fixar penteados ou alisar dobras teimosas em seus vestidos.
No dormitório feminino do quinto ano, Tatsuyo Uchiha estava diante do espelho de corpo inteiro, sentindo como se o seu coração estivesse tentando escapar pela garganta. Suas mãos tremiam levemente enquanto ela terminava de prender os brincos de pérola que pertenciam à sua avó. O vestido rosa perolado, que parecia tão etéreo na loja em Hogsmeade, agora parecia quase uma armadura de beleza contra sua própria insegurança.
Ela havia decidido deixar os cabelos pretos e ondulados soltos. Eles caíam em cascatas ebâneas pelas suas costas, cobrindo parcialmente a abertura ousada do vestido, mas revelando lampejos de sua pele parda sempre que ela se movia. Com um toque sutil de magia e ajuda de um creme de ervas, seus cachos tinham um brilho acetinado que capturava a luz das velas.
— Você está... — Uma de suas colegas de quarto, que passava apressada, parou abruptamente ao vê-la. A garota, que raramente dirigia a palavra a Tatsuyo a menos que fosse para pedir uma resposta de dever de casa, parecia em choque. — Você está incrível, Uchiha. Esse vestido... ele foi feito para você.
— Obrigada — sussurrou Tatsuyo, sentindo o rosto esquentar. Ela pegou sua varinha, respirou fundo e caminhou em direção à saída.
Enquanto descia a escada em caracol da torre, o som de sua própria respiração parecia ensurdecedor. Ela sabia que, assim que cruzasse o portal da águia, o mundo estaria lá fora para julgá-la. Mas então, ela se lembrou da promessa de Kuro. "Eu vou te buscar na porta".
Ao sair para o corredor que levava às escadarias principais, o cenário era digno de um sonho. Hogwarts fora transformada. Carros de gelo esculpidos por feitiços decoravam os nichos, e o ar estava fresco e perfumado. Nas escadas, dezenas de alunos se aglomeravam. Era o ponto de encontro tradicional: rapazes em seus trajes de gala, alguns parecendo desconfortáveis em golas altas, e garotas exibindo cores vibrantes, todas esperando por seus pares ou amigas.
E lá estava ele.
Kuro Hatake estava parado no meio do patamar, encostado no corrimão de pedra. Ele vestia trajes de gala em um cinza-chumbo profundo, quase negro, que destacava seus ombros largos e seus 1,80m de altura. Mas o que fez o coração de Tatsuyo parar foi a gravata. Era de seda, exatamente no mesmo tom de rosa perolado do seu vestido. O contraste daquela cor suave com o rosto anguloso de Kuro e seus cabelos brancos rebeldes era hipnotizante.
Kuro estava distraído, recusando educadamente o convite de um grupo de garotas do quarto ano que tentavam puxar conversa, quando seus olhos castanhos finalmente encontraram os dela no topo da escada.
O tempo pareceu desacelerar. O barulho das conversas ao redor tornou-se um ruído branco distante. Kuro endireitou a postura instantaneamente, sua expressão de tédio educado desaparecendo para dar lugar a um choque genuíno, seguido por um brilho de admiração tão intenso que Tatsuyo sentiu os joelhos fraquejarem.
Ele começou a subir os degraus ao encontro dela, ignorando os murmúrios que começavam a surgir.
— Uchiha? Aquela é a Tatsuyo Uchiha? — Uma voz feminina carregada de veneno ecoou de um grupo da Sonserina próximo.
— Não pode ser... Olhe para aquelas costas... — cochichou outra, o tom oscilando entre a inveja e a descrença.
Kuro parou um degrau abaixo dela, o que os deixava quase na mesma altura. Ele não disse nada por vários segundos, apenas a observou, desde os cabelos ondulados até a barra fluida do vestido.
— Tatsuyo — ele finalmente disse, a voz soando mais baixa e rouca do que o normal. — Eu... eu sabia que você ficaria bonita, mas isso... você está absolutamente deslumbrante. Eu não acho que vou conseguir respirar direito a noite toda.
Tatsuyo sentiu um sorriso involuntário surgir em seus lábios, a primeira centelha de confiança real iluminando seu rosto.
— Você também não está nada mal, Kuro-kun — ela brincou, a voz trêmula, mas presente. — A gravata... você realmente encontrou o tom certo.
— Eu revirei Hogsmeade inteira depois que nos vimos — admitiu ele, estendendo o braço para ela com um cavalheirismo que parecia natural. — Vamos? Todos estão esperando para ver quem é a dona do meu coração esta noite.
Tatsuyo entrelaçou o braço no dele, sentindo a firmeza do músculo de Kuro sob o tecido caro. Enquanto desciam as escadas juntos, ela sentia o peso de centenas de olhares. Garotas da Grifinória que passavam anos tentando atrair a atenção do batedor estrela agora o observavam com expressões de pura raiva. Algumas apertavam os próprios leques com força, outras lançavam olhares gélidos para a "garota quieta da Corvinal" que, de alguma forma, havia capturado o sol.
Kuro, no entanto, parecia não notar ninguém além dela. Ele caminhava com a cabeça erguida, um sorriso de satisfação estampado no rosto, como se estivesse exibindo o maior troféu de sua vida.
Ao entrarem no Salão Principal, o impacto foi avassalador. As paredes estavam cobertas de geada prateada e cintilante, centenas de guirlandas de visco e azevinho flutuavam sob o teto enfeitiçado, que agora mostrava um céu noturno límpido e estrelado, com neve mágica caindo suavemente, mas derretendo antes de tocar qualquer pessoa.
— É lindo — sussurrou Tatsuyo, maravilhada.
— É — concordou Kuro, mas ele não estava olhando para o teto. — É perfeito.
A música, conduzida pelas Esquisitonas, começou a mudar de um ritmo agitado para uma valsa lenta e envolvente. O Professor Dumbledore e a Professora McGonagall abriram a pista, seguidos pelos campeões do torneio.
Kuro virou-se para Tatsuyo, estendendo a mão.
— Você me daria a honra desta dança? — perguntou ele.
Tatsuyo sentiu o pânico retornar por um momento. O salão estava cheio, e dançar significava ser o centro das atenções.
— Kuro, eu... eu não sei se consigo. Todos estão olhando.
— Deixe que olhem — disse ele, dando um passo para mais perto, sua voz soando como um porto seguro. — Feche os olhos se precisar. Só foque em mim. Eu não vou deixar você tropeçar, eu prometo.
Ela colocou a mão na dele, e Kuro a conduziu para o centro da pista. Quando a música atingiu o primeiro acorde da valsa, ele não a segurou como se estivessem em uma aula de etiqueta. Ele colocou ambas as mãos na cintura dela, puxando-a para perto, quebrando qualquer distância formal.
Tatsuyo sentiu um choque elétrico percorrer seu corpo ao sentir as mãos grandes e quentes dele firmes em sua cintura. Instintivamente, ela ergueu os braços e os entrelaçou ao redor do pescoço dele. O contraste entre o cinza escuro do traje dele e o rosa perolado dela era a imagem da harmonia.
Eles começaram a se mover. Kuro dançava com uma graça surpreendente para alguém tão grande, guiando-a com suavidade. No início, Tatsuyo mantinha os olhos fixos nos botões da camisa dele, sentindo o rosto queimar de timidez enquanto percebia os olhares furiosos de várias garotas ao redor da pista — Sarah da Lufa-Lufa, Pansy da Sonserina, e até algumas de sua própria casa, cujos olhos pareciam adagas.
— Eles estão com raiva, não estão? — ela sussurrou, a voz pequena.
— Eles estão com inveja — corrigiu Kuro, inclinando a cabeça para que seus lábios ficassem perto do ouvido dela. — Inveja de mim, por estar com você. E inveja de você, por ser tão autêntica que não precisa de artifícios para brilhar.
Tatsuyo sentiu uma onda de coragem percorrer seu peito. As palavras dele eram o bálsamo que curava anos de feridas causadas pelo bullying. Ela parou de se importar com as garotas nas laterais. Parou de se importar com os cochichos.
Lentamente, ela relaxou nos braços dele. Sua cabeça, pesada com a mistura de emoções e o perfume amadeirado de Kuro, inclinou-se para a frente até repousar suavemente no peito dele. Ela podia ouvir o coração de Kuro — batendo rápido, forte e rítmico. Era o som da vida, o som da realidade de que ele estava ali, por ela.
Kuro soltou um suspiro satisfeito, apertando-a um pouco mais contra si, protegendo-a do mundo exterior com seu próprio corpo. Eles giravam pelo salão como se estivessem em uma bolha de tempo suspenso. Para Tatsuyo, o toque da seda em sua pele e o calor das mãos de Kuro na sua cintura eram as únicas coisas reais.
— Sabe — sussurrou Kuro, enquanto a música subia de tom —, eu costumava odiar esses eventos formais. Sempre achei uma perda de tempo.
— E agora? — perguntou ela, sem tirar a cabeça de seu peito.
— Agora eu acho que passaria o resto da minha vida dançando essa mesma música, se significasse que você continuaria assim, nos meus braços.
Tatsuyo fechou os olhos, permitindo que uma lágrima de felicidade escorresse e fosse absorvida pelo tecido do traje de gala dele. Ela nunca se sentira tão digna. Nunca se sentira tão vista.
Enquanto a valsa continuava, o Salão Principal de Hogwarts testemunhava algo que ia além de um simples baile de escola. Era a união da sombra com a luz, o momento em que a inteligência silenciosa da Corvinal encontrava a coragem vibrante da Grifinória.
Nas sombras das colunas, as garotas que antes riam de Tatsuyo agora assistiam em silêncio, derrotadas pela visão de uma felicidade que elas não podiam tocar. Pois ali, no centro da pista, Kuro Hatake e Tatsuyo Uchiha não eram apenas pares de dança. Eles eram o reflexo de que a magia mais poderosa de todas não precisava de varinhas — precisava apenas de dois corações dispostos a bater no mesmo ritmo, ignorando o barulho do mundo lá fora.
Quando a música finalmente terminou, Kuro não a soltou imediatamente. Ele a manteve por perto, a testa encostada na dela por um breve segundo, um convite silencioso para um futuro que estava apenas começando.
— Você foi incrível — ele disse, sorrindo.
— Nós fomos — corrigiu ela, finalmente olhando-o nos olhos, com um brilho que nenhuma joia no salão poderia igualar.
O baile continuaria pela noite adentro, mas para Tatsuyo e Kuro, a noite já tinha alcançado sua perfeição. Eles saíram da pista de mãos dadas, prontos para enfrentar qualquer coisa — juntos.