Me or me
Ecos de um Impulso e o Peso do Silêncio
O quarto de Mizi estava mergulhado em uma penumbra suave, iluminado apenas pelo brilho neon de uma fita de LED lilás que contornava o teto. Ela tinha acabado de sair do banho, o cabelo rosa e azul ainda úmido enrolado em uma toalha felpuda. Vestia apenas um camisetão oversized preto que mal cobria o short de dormir. O jantar — um resto de pizza fria e um energético — estava esquecido sobre a escrivaninha.
Ela pegou o celular com certa hesitação. O coração deu um pequeno solavanco quando viu a notificação: *sua_purple aceitou sua solicitação de amizade.*
Mizi mordeu o lábio inferior. Ela não era de pensar duas vezes antes de agir, mas Sua a deixava estranhamente cautelosa. Abriu o direct e digitou rápido, antes que a coragem fugisse.
— Oi. Não consegui parar de pensar no climão de hoje cedo. Você tá bem? — Mizi enviou, jogando-se de costas na cama.
A resposta demorou cinco minutos. Para Mizi, pareceram horas.
— Sim. — A resposta de Sua foi seca.
— Só "sim"? — Mizi rebateu, arqueando uma sobrancelha para a tela.
— Sim. Estou bem. — Outra resposta curta.
Mizi sentiu uma pontada de irritação. Ela estava tentando ser legal, tentando quebrar o gelo, e a garota estava agindo como se estivesse preenchendo um formulário do conselho estudantil.
— Olha, Sua, se for pra você ficar respondendo com monossílabos, nem precisa continuar a conversa — Mizi digitou, a voz baixa e debochada ecoando em sua mente enquanto escrevia. — Eu não quero forçar você a falar comigo se não quiser. Só achei que a gente pudesse... sei lá, conversar de verdade.
Houve um longo silêncio. O ícone de "digitando" apareceu e desapareceu várias vezes.
— Desculpe — Sua finalmente escreveu. — Eu só estou um pouco cansada. O dia foi longo.
— Eu imagino. O meu também foi uma merda. — Mizi relaxou um pouco. — Mas sério, não precisa ficar na defensiva comigo. Eu não mordo. A menos que peçam.
Mizi sorriu para o próprio celular, seu lado flertador aflorando por puro reflexo, mas logo a conversa tomou um rumo que ela não esperava.
— Mizi? — Sua escreveu.
— Fala, "Conselho Estudantil".
— Você gosta de garotas?
Mizi travou. O ar pareceu fugir dos seus pulmões por um segundo. Ela nunca tinha falado sobre isso abertamente, embora no fundo soubesse a resposta. Mas por que Sua estava perguntando aquilo agora?
— Por que a pergunta do nada? — Mizi respondeu, tentando manter o tom casual.
— É que... para mim, e para todo mundo na escola, você sempre pareceu super hétero — Sua digitou, e Mizi podia quase sentir a hesitação naquelas palavras. — E hoje eu simplesmente vi você beijando a Vivian no corredor. Fiquei confusa.
Mizi soltou um suspiro pesado, soltando o ar pelo nariz. Ela se lembrou da sensação insípida dos lábios de Vivian e do pânico nos olhos de Sua.
— Ah, aquilo — Mizi escreveu, sentindo um peso no peito. — Não, eu não gosto dela. Foi só... um impulso. Ela se declarou e eu não soube o que fazer, então fiz aquilo pra ver se sentia algo. Mas não senti nada. Foi um erro.
Do outro lado da cidade, no silêncio de seu quarto, Sua sentiu como se tivesse levado um tiro certeiro no peito. "Não senti nada". "Foi um erro". Se Mizi não sentiu nada com a Vivian, que era linda e sua melhor amiga, o que sentiria por alguém como Sua? A esperança que tinha florescido por um milésimo de segundo murchou instantaneamente.
— Entendi. — Sua digitou, os dedos tremendo levemente. — Preciso ir agora. Tenho que terminar de revisar umas atas pro conselho. Boa noite, Mizi.
— Ué? Já? Eu disse algo errado? — Mizi enviou logo em seguida, mas a mensagem ficou apenas com o check de visualizada.
Mizi jogou o celular no travesseiro com força.
— Que porra eu fiz agora? — resmungou, frustrada.
Sem saber o que fazer e sentindo uma necessidade urgente de desabafar com alguém que não estivesse envolvido no caos da Anakt Academy, ela discou um número que conhecia de cor.
— Alô? Marty? — Mizi falou assim que a chamada foi atendida.
— Mizi! A que devo a honra da beldade rosa me ligando a essas horas? — A voz de Marty era animada e acolhedora. Ele era um amigo de infância que se mudara para outra cidade no ano anterior. Gay, assumido e dono de uma sensatez que Mizi invejava, ele era seu porto seguro.
— Marty, eu fiz merda. Muita merda — Mizi confessou, sentando-se na beira da cama.
Ela contou tudo. Desde o beijo impulsivo em Vivian até a reação de Sua e a conversa bizarra por mensagem. E, pela primeira vez, Mizi admitiu em voz alta o que vinha escondendo de si mesma.
— E o pior de tudo, Marty... é que eu acho que gosto da Sua. De verdade. Não é como o que eu sinto quando os caras ficam me secando. É diferente. Ela é toda certinha, dedicada, e tem aqueles olhos roxos que parecem ler a minha alma... e eu estraguei tudo fazendo ela achar que eu sou uma babaca que beija as pessoas por esporte.
Houve um silêncio do outro lado da linha antes de Marty suspirar.
— Mizi, querida... você é uma idiota — Marty disse, mas com carinho. — Você usou a Vivian pra testar seus sentimentos e acabou machucando ela e a garota de quem você realmente gosta. A Sua provavelmente está achando que você é uma jogadora.
— E o que eu faço? — Mizi perguntou, a voz quase sumindo.
— Primeiro, pare de agir por impulso. Segundo, você precisa ser honesta. Garotas como essa Sua valorizam a verdade, não joguinhos de corredor. Se você gosta dela, vai ter que provar que ela é mais do que só uma curiosidade pra você. E Mizi... aceite que você é lésbica logo. Vai facilitar sua vida, juro.
Mizi riu fraco.
— Valeu, Marty. Você é um saco, mas é um gênio.
***
Enquanto Mizi buscava conselhos, o clima em outra parte da cidade estava longe de ser calmo. Na casa de Hyuna, o grupo estava reunido para um "projeto de ciências" que tinha se transformado em uma maratona de filmes e salgadinhos.
Luka e Hyuna estavam sentados no sofá, discutindo sobre o enredo de um filme de ficção científica. Hyuna gesticulava muito, quase derrubando a pipoca, enquanto Luka a observava com um brilho de adoração nos olhos que todos, exceto talvez a própria Hyuna, percebiam.
Till, sentindo-se sufocado pelo ambiente fechado e pela presença constante de Ivan, levantou-se.
— Vou pegar água — resmungou, saindo da sala.
Ele estava na cozinha, debruçado sobre a pia enquanto bebia um copo de água gelada, tentando acalmar a irritação constante que sentia desde que Ivan voltara da suspensão. O silêncio da cozinha foi interrompido pelo som de passos pesados.
Till nem precisou se virar para saber quem era. O cheiro do perfume esportivo de Ivan era inconfundível.
— O que você quer agora, Ivan? — Till perguntou, sem se virar.
— Só ver se você não se afogou num copo d'água, esquentadinho — Ivan respondeu, sua voz soando perigosamente perto.
Antes que Till pudesse reagir, Ivan o prensou contra a borda da pia. O impacto foi súbito, fazendo o copo de Till bater contra o metal com um som estridente. Ivan colocou as mãos de cada lado do corpo de Till, prendendo-o.
— Que porra é essa, Ivan? Me solta! — Till rosnou, o rosto ficando vermelho de raiva.
Ivan não respondeu com palavras. Ele apenas inclinou a cabeça, os olhos negros fixos nos lábios de Till com uma intensidade predatória. Sem aviso, Ivan avançou, selando seus lábios nos de Till em um beijo forçado, carregado de uma frustração que ele não sabia mais como conter.
Till travou de choque por um segundo, os olhos verdes arregalados, antes de começar a empurrar os ombros de Ivan com força. O beijo durou apenas alguns segundos, mas pareceu queimar. Ivan se afastou abruptamente, limpando o canto da boca com o polegar, mantendo a expressão cínica, como se nada de mais tivesse acontecido.
— Você é um doente, Ivan! — Till gritou, a voz falhando, a mão subindo para limpar a boca com nojo e confusão.
— O que foi? Não era o que você queria? — Ivan provocou, embora houvesse uma tensão em sua mandíbula que desmentia seu tom casual.
— O que está acontecendo aqui? — A voz de Hyuna veio da porta da cozinha. Ela e Luka estavam parados ali, olhando a cena com expressões confusas.
— Nada — Ivan deu de ombros, passando por eles como se estivesse apenas saindo de uma conversa trivial. — O Till só não sabe segurar o copo direito.
Till ficou parado na cozinha, o peito subindo e descendo com força, a mente em um caos completo. Ele odiava Ivan. Tinha que odiar. Então por que seu coração estava batendo tão rápido?
***
O dia seguinte na Anakt Academy amanheceu sob um céu cinzento que prometia chuva.
Mizi chegou à escola vestindo um cardigã oversized bordô sobre um top preto e uma saia xadrez em tons de vinho e cinza. Seus olhos procuraram por Sua assim que ela cruzou o portão. Ela tinha passado a noite pensando no que Marty dissera.
Ela viu Vivian perto dos armários. A amiga parecia um pouco melhor, usando um suéter azul claro, mas ainda evitava o contato visual direto. Mizi sentiu um aperto de culpa, mas sabia que precisava resolver uma coisa de cada vez.
No corredor principal, o drama do grupo de Ivan era evidente. Till caminhava com os fones de ouvido no volume máximo, a aura de "não chegue perto" mais forte do que nunca. Ivan, por outro lado, estava encostado na parede, conversando com alguns colegas do time, mas seus olhos seguiam cada movimento de Till com uma insistência sombria. Eles não tinham trocado uma palavra desde a noite anterior.
Mizi avistou Sua saindo da sala do conselho. Sua vestia uma camisa social branca impecável e uma saia cinza, o cabelo curto perfeitamente alinhado. Ela parecia a definição de calma, mas Mizi notou as olheiras leves sob os olhos roxos.
Mizi respirou fundo e caminhou até ela.
— Sua — Mizi chamou.
Sua parou, mas não se virou imediatamente. Ela parecia estar reunindo forças.
— Mizi.
— A gente pode conversar? De verdade? Sem mensagens, sem fugir? — A voz de Mizi estava desprovida de qualquer sarcasmo. Era baixa, marcante e, pela primeira vez, carregada de uma sinceridade crua.
Sua finalmente se virou, olhando para Mizi.
— Sobre o quê? Sobre como você beija pessoas por impulso? — Sua perguntou, um traço de mágoa escapando de sua fachada controlada.
— Não — Mizi deu um passo à frente, ignorando os olhares dos alunos que passavam. — Sobre como eu sou uma idiota que não sabe lidar com o fato de que gosta de alguém que é boa demais pra mim.
Sua piscou, atordoada pela confissão súbita.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo que o beijo na Vivian não significou nada porque a pessoa em quem eu estava pensando o tempo todo... era você — Mizi confessou, as palavras saindo em um sussurro apressado. — E eu sei que você deve me achar uma bagunça, e eu sou. Mas eu não quero mais fingir que não me importo com o que você pensa de mim.
O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo sinal estridente da primeira aula. Sua olhou para Mizi, os olhos roxos brilhando com uma mistura de choque e uma esperança cautelosa que ela tentava suprimir.
— Eu tenho aula agora, Mizi — Sua disse, a voz suave. — E você também.
— Eu sei. Mas... a gente pode conversar no almoço? — Mizi pediu, quase implorando.
Sua hesitou, ajeitando a pasta contra o peito.
— No almoço. Atrás da biblioteca. Onde é mais calmo.
Mizi sentiu um peso sair de seus ombros.
— Estarei lá.
Enquanto Sua se afastava, Mizi viu Ivan observando a cena de longe. Ele deu um pequeno aceno de cabeça para ela, um reconhecimento silencioso de que, pelo menos um deles, estava tentando parar de fugir.
No entanto, o clima na escola ainda estava longe de ser resolvido. Till passou por Ivan no corredor e, sem dizer nada, esbarrou no ombro dele com força proposital. Ivan apenas sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, sentindo o gosto amargo do beijo da noite anterior ainda presente.
A Anakt Academy continuava sendo um palco de segredos e colisões, mas agora, as máscaras estavam começando a rachar, revelando as verdades escondidas sob as jaquetas de time e os coletes de tricô. E Mizi, pela primeira vez na vida, não estava interessada em dormir durante a aula; ela estava ocupada demais contando os minutos para o almoço.