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Me or me

A Cor Que Faltava

O silêncio atrás da biblioteca da Anakt Academy era quebrado apenas pelo farfalhar suave das folhas das árvores e pelo vento frio que anunciava a aproximação de uma chuva passageira. Aquele canto do colégio era um dos poucos refúgios onde nenhum atleta vinha treinar e nenhuma rodinha de fofoca costumava se instalar. Era perfeito.

Pelo menos, era o que Sua pensava enquanto olhava pela décima vez para o relógio prateado em seu pulso.

Já haviam se passado quinze minutos desde o início do intervalo.

Sua estava sentada em um banco de madeira descascada, alisando a saia cinza sobre as pernas. Seus dedos apertavam as bordas da madeira até ficarem pálidos. A sensação pesada de decepção começava a se assentar em seu estômago como uma pedra de chumbo.

*Claro que ela não veio*, pensou consigo mesma, soltando uma risada seca e amarga. *O que você esperava, Sua? Ela é a Mizi.*

Mizi era impulsiva. Mizi falava coisas grandiosas no calor do momento, atraía todos para sua órbita brilhante e depois seguia em frente como um cometa que mal percebia o rastro de destruição deixado para trás. A conversa da manhã no corredor provavelmente não passava de mais uma brincadeira ou de uma tentativa desesperada de limpar a própria barra após o fiasco com Vivian.

Sua respirou fundo, ajeitando a camisa branca e pegando sua pasta. Já estava se levantando, pronta para voltar à segurança estéril da sala do conselho estudantil, quando o eco de passos apressados e uma respiração pesada a fizeram parar.

— Espera! Ei... não vai! Puta merda, não vai!

Mizi surgiu dobrando a quina da parede de tijolos da biblioteca, praticamente derrapando no cascalho úmido.

Ela estava um caos completo. O cardigã bordô oversized escorregava por um dos ombros, a blusa preta estava levemente torta e os fios cor-de-rosa de seu cabelo voavam ao redor do rosto suado. Ela se apoiou com as duas mãos nos joelhos, curvada, puxando o ar desesperadamente como se tivesse acabado de correr uma maratona olímpica.

— Caralho... eu juro que... eu quase morri — Mizi conseguiu balbuciar, erguendo uma mão para pedir um segundo enquanto recuperava o fôlego.

Sua permaneceu imóvel, os olhos roxos piscando em surpresa.

— Mizi?

— A megera da professora de história... me prendeu na sala — Mizi continuou, erguendo o tronco devagar e jogando o cabelo para trás com um suspiro dramático. — Ela disse que eu tava dormindo no meio da explicação da Revolução Industrial. O que é uma mentira deslavada, eu só tava descansando a vista. Aí eu tive que esperar ela virar de costas pra fingir que ia no banheiro e saí correndo feito uma maluca pelo corredor do terceiro andar. Derrubei a garrafa de água de alguém, quase tropecei no meu próprio cadarço e vim voando pra cá.

A sinceridade atrapalhada e ligeiramente ridícula daquela explicação fez a armadura de gelo de Sua rachar instantaneamente.

— Você veio correndo?

— Óbvio que eu vim correndo! — Mizi deu alguns passos em direção a ela, a respiração finalmente se estabilizando, embora seus olhos dourados mantivessem um brilho intenso e fixo. — Eu marquei com você, não marquei? Eu sei que sou meio desastre às vezes, mas não sou furona. Muito menos com você.

Sua engoliu em seco, sentindo o peito dar um aperto familiar, mas dessa vez aquecido por algo perigoso.

— Você... queria conversar.

— É. Eu quero — Mizi deu mais um passo, diminuindo a distância entre as duas até que Sua pudesse sentir o aroma suave de baunilha que parecia seguir a garota em todo lugar. A expressão de Mizi perdeu todo o deboche habitual, tornando-se surpreendentemente aberta e desarmada. — Olha, Sua... sobre o que eu disse mais cedo. Eu não tava zoando com a sua cara. Eu sei que parece doideira, mas é a verdade mais pura que eu já falei nesta escola inteira. Eu gosto de você.

O coração de Sua deu uma cambalhota tão violenta que ela quase perdeu o equilíbrio.

— Mizi...

— Deixa eu terminar antes que eu perca a coragem — Mizi interrompeu suavemente, a voz descendo para aquele tom baixo, aveludado e irresistivelmente magnético. — Eu gosto de tudo em você. Gosto do jeito que você leva suas coisas a sério, de como fica bonita até quando tá me dando bronca por correr no corredor. Gosto do jeito que você desenha quando acha que ninguém tá olhando, da forma como você organiza os seus livros... e desses seus olhos. Porra, você não tem noção do que esses olhos roxos fazem comigo. Você é a garota mais incrível daqui, Sua. E eu passei tempo demais achando que alguém tão perfeita nunca olharia pra uma bagunça feito eu.

O ar pareceu sumir dos pulmões de Sua. O mundo inteiro pareceu congelar ao redor das duas. As palavras de Mizi ecoavam em sua cabeça como uma melodia inacreditável.

— Mizi... — Sua começou, a voz falhando ligeiramente, antes de forçar a garganta para soar firme. — Eu também gosto de você.

Mizi travou. As sobrancelhas cor-de-rosa se arquearam em puro choque.

— O quê?

— Eu gosto de você — Sua repetiu, dando um passo involuntário para frente, o rosto queimando em um tom vivo de escarlate, mas sem recuar no olhar. — E não é de agora. Não é porque você é a garota mais bonita da escola ou porque metade dos alunos babam por você. Eu gosto de você desde o primeiro ano. Antes de todo mundo começar a prestar atenção em você. Eu sempre gostei.

Mizi abriu e fechou a boca duas vezes, parecendo genuinamente desorientada, uma visão raríssima para quem a conhecia.

— Você... tá falando sério? Não é zoeira pra se vingar da idiotice de hoje cedo?

— Eu tenho cara de quem brinca com essas coisas? — Sua perguntou, com um leve traço da sua típica seriedade do conselho estudantil. — É sério, Mizi. Eu gosto de você há anos.

No segundo seguinte, o rosto de Mizi se iluminou de uma maneira que Sua nunca tinha visto antes. Não era aquele sorriso meio sarcástico ou sedutor que ela desfilava pelos corredores; era um sorriso puro, aberto, incrivelmente brilhante e contagiante.

Antes que Sua pudesse processar a mudança, braços fortes e quentes a envolveram pela cintura, puxando-a para um abraço apertado.

O impacto tirou os pés de Sua do chão por uma fração de segundo. O calor do corpo de Mizi a envolveu, a maciez do cardigã bordô contra sua bochecha e aquele cheiro inebriante preenchendo todos os seus sentidos. Naquele instante, foi como se todo o peso dos últimos anos, todo o medo e a angústia da invisibilidade simplesmente evaporassem. O mundo ao redor de Sua ganhou cores vibrantes, tão intensas que ela quase sentiu vontade de chorar de alívio. Ela enterrou as mãos nas costas de Mizi, retribuindo o abraço com uma força que nem sabia que tinha.

Era o paraíso. Não havia outra palavra.

Depois de alguns longos segundos que pareceram durar uma vida inteira, Mizi afrouxou o abraço, mas não se afastou por completo. Seus braços continuaram descansando de leve na cintura de Sua, e ela inclinou a cabeça para o lado, exibindo aquele sorriso travesso e irresistível.

— Então quer dizer que você era minha admiradora secreta esse tempo todo, senhorita perfeitinha? — Mizi murmurou, a voz rouca provocando arrepios imediatos na nuca de Sua. — Se eu soubesse disso antes, teria me metido em confusão muito mais vezes só pra te ver me dar advertência.

Sua empurrou levemente o ombro dela, revirando os olhos, mas sem conseguir conter um sorriso tímido.

— Você é ridícula.

— E você tá com a cara toda vermelha. É uma gracinha — Mizi riu, soltando-a finalmente e sentando-se no banco de madeira, esticando as pernas compridas cobertas pelas meias arrastão. — Senta aqui. A gente ainda tem uns minutos antes daquele sinal desgraçado tocar.

Sua hesitou por um instante antes de se acomodar ao lado dela, deixando a pasta no colo. O constrangimento inicial começava a dar lugar a uma leveza inédita entre as duas.

— O que você estava fazendo antes da aula de história? — Sua perguntou, tentando manter um tom casual de conversa.

— Ah, você não quer saber — Mizi apoiou os cotovelos nos joelhos, rindo sozinha. — Eu tava tentando colar chiclete debaixo da mesa do Ivan na sala de química pra ver se ele grudava a calça do time, mas o idiota percebeu e quase jogou um tubo de ensaio vazio na minha cabeça. A gente parecia dois primatas disputando território.

Mizi começou a gesticular de forma exagerada, imitando a cara de espanto do Ivan com as sobrancelhas franzidas e a postura arrogante do jogador, fazendo uma careta tão perfeita e absurda que quebrou totalmente a reserva de Sua.

Sua soltou uma risada.

Não foi um risinho educado de corredor. Foi uma risada espontânea, doce e melódica, que fez seus ombros pequenos tremerem. Ela levou uma das mãos à boca para tentar conter o som, os olhos roxos brilhando com uma alegria genuína e descomplicada.

Mizi simplesmente paralisou.

O deboche sumiu do rosto da garota mais alta. Mizi ficou imóvel, os lábios entreabertos, os olhos dourados cravados em Sua como se estivesse presenciando o nascer do sol mais espetacular de sua vida. Uma onda de fascínio puro e desmedido a atingiu com a força de um trem.

Sua notou o silêncio repentino e parou de rir, piscando confusa. Olhou para Mizi, que parecia hipnotizada.

— O que foi? — Sua perguntou, levando a mão ao rosto, subitamente insegura. — Tem alguma coisa na minha cara? Sujeira de giz?

— Não — Mizi sussurrou, a voz saindo com uma suavidade quase reverente, sem um pingo de deboche. — Não tem nada na sua cara. É que você... porra, Sua. Você é fofa demais. Essa sua risada é a coisa mais linda que eu já ouvi nesta vida.

O sangue subiu para o rosto de Sua com tanta força que ela teve certeza de que suas bochechas entrariam em combustão espontânea. Ela baixou a cabeça, incapaz de sustentar aquele olhar tão cru e desarmado, fitando o próprio colo enquanto mexia nos dedos da mão.

Mizi observou a reação com um carinho que mal cabia no peito. Bem devagar, movendo a mão sobre a madeira fria do banco, ela aproximou seus dedos longos da mão de Sua. Com delicadeza, quase com medo de que a garota recuasse, Mizi deslizou a palma contra a dela e entrelaçou seus dedos nos de Sua.

A mão de Sua era pequena, macia e estava fria pelo nervosismo. A mão de Mizi era maior, quente e firme. O contraste era perfeito.

Sua sentiu o calor do toque subir pelo seu braço, o coração martelando contra as costelas como um tambor desgovernado. Ela olhou para as mãos unidas e, quando levantou o olhar, percebeu que Mizi havia se inclinado para mais perto.

Muito mais perto.

E os olhos dourados de Mizi não estavam em seus olhos.

Estavam fixos, com uma intensidade sufocante, em seus lábios.

*Espera aí*, o cérebro de Sua gritou, entrando em curto-circuito absoluto. *Ela vai me beijar? Ela tá olhando pra minha boca! Meu Deus, ela vai...*

Sua quase teve um treco. A respiração dela prendeu na garganta, os dedos apertaram instintivamente a mão de Mizi e ela sentiu o chão sumir sob seus pés. Mas não recuou. Ela não queria recuar nem se o colégio inteiro desabasse ao redor delas.

Mizi subiu a outra mão com uma calma desconcertante, tocando a curva da bochecha de Sua com a ponta dos dedos, antes de fechar a distância restante.

O beijo começou com um roçar suave, quase tímido, uma pergunta silenciosa que Sua respondeu no mesmo instante em que fechou os olhos e inclinou o rosto. Não tinha nada a ver com o beijo vazio e confuso que Sua presenciara no corredor dias antes. Este beijo era quente, calmo, carregado de uma ternura profunda e de uma verdade que não precisava de palavras. Os lábios de Mizi eram macios e tinham gosto doce de menta, movendo-se com um carinho paciente, como se ela tivesse todo o tempo do mundo para memorizar cada detalhe da garota em seus braços.

Quando se separaram, a respiração de ambas estava curta. Mizi manteve a testa encostada de leve na de Sua por um segundo, sorrindo contra seus lábios.

— Eu queria fazer isso há muito tempo — Mizi confessou, num murmúrio suave.

O sinal estridente da escola tocou naquele exato momento, cortando a bolha mágica em que estavam.

Sua soltou um sobressalto, arregalando os olhos ao perceber a realidade voltando com força total. Mizi riu baixo, achando a reação adorável, e se levantou do banco com a flexibilidade de costume. Ela estendeu a mão para Sua.

— Vem, senhorita conselheira. Não quero ser a culpada por você chegar atrasada na sua sala.

Sua segurou a mão dela e se levantou, ajeitando as roupas mecânica e desajeitadamente. Elas caminharam juntas até a entrada do corredor dos armários, onde se separaram apenas com um aperto de mãos cúmplice e sorrisos que nenhuma das duas conseguia apagar do rosto, indo cada uma para a sua respectiva aula.

***

No final da tarde, quando as aulas finalmente acabaram e os corredores começaram a esvaziar, Sua saiu do prédio principal com a mochila nos ombros. Para sua surpresa, encostada na mureta do estacionamento, estava Mizi.

Ela ainda usava o cardigã bordô e o coturno preto, mas tinha prendido parte do cabelo rosa em um coque desajeitado no topo da cabeça.

— Oi — Mizi disse, descolando da mureta assim que a viu. — Eu vou com você até a sua casa.

— Não precisa, Mizi, é um pouco longe...

— Eu não perguntei se precisava, perguntei se eu podia ir — Mizi piscou, ajeitando a alça de sua pequena bolsa tiracolo. — E você não vai me deixar ir embora agora, vai?

Caminharam lado a lado pelas calçadas arborizadas da cidade. A conversa fluiu de maneira estranhamente natural, entre piadas sobre os professores chatos e desabafos leves sobre a rotina. Havia um respeito tácito no ar: sabiam que estavam apenas começando, dando os primeiros passos de algo novo e frágil.

Quando finalmente pararam em frente ao portão da casa de Sua, a tensão doce voltou a pairar entre elas.

Mizi deu um passo à frente. Não tentou beijá-la novamente, demonstrando uma delicadeza que Sua não sabia que a garota popular possuía. Em vez disso, puxou-a para um abraço demorado e acolhedor, descansando o queixo no topo da cabeça de Sua.

— Até amanhã, Sua.

— Até amanhã, Mizi — Sua respondeu, com o coração flutuando.

Mizi se virou e desceu a rua, acenando de costas antes de virar a esquina.

Sua destrancou o portão e entrou na residência como se estivesse pisando em nuvens. No entanto, o choque de realidade a atingiu assim que fechou a porta de entrada.

Na sala de estar, jogado no sofá com uma postura deplorável, estava Ivan.

Ele vestia uma regata preta, calça de moletom cinza e estava com uma expressão de puro enterro. O olhar vago encarava o teto branco, os braços pendurados para fora do estofado e a chave do carro jogada no tapete. O silêncio ao redor dele era quase opressor.

Sua parou no corredor, tirando os sapatos e franzindo o cenho.

— Ivan? Que cara de velório é essa?

Ivan soltou um gemido abafado, cobrindo o rosto com uma almofada.

— Minha vida acabou, Sua. Só me deixa morrer em paz aqui mesmo.

Sua cruzou os braços, aproximando-se do sofá.

— O que você fez agora? Bateu o carro de novo? O diretor ligou pra mãe?

— Pior — Ivan puxou a almofada para o lado, revelando olhos negros cheios de uma angústia genuína e um desconforto patético. — O Till.

Sua ergueu uma sobrancelha, a curiosidade falando mais alto.

— O que tem o Till?

Ivan bufou, olhando para os próprios nós dos dedos como se fossem a coisa mais interessante do universo.

— Ontem na casa da Hyuna... a gente tava na cozinha e... eu perdi a cabeça. Eu beijei ele. À força.

Sua arregalou os olhos.

— Você fez O QUÊ?!

— Eu beijei ele, porra! — Ivan passou a mão pelo cabelo preto, puxando os fios com força e sentando-se de supetão. — Ele tava me irritando, tava falando de um jeito que me deu nos nervos e eu simplesmente não aguentei. Pensei que se fizesse aquilo, ele ia calar a boca ou... sei lá o que eu pensei. Ele me empurrou, ficou puto pra caralho e não falou uma palavra comigo o dia todo hoje. Ele nem olhou na minha cara, Sua. Fingiu que eu não existia.

Sua encarou o irmão por alguns segundos, alternando entre a incredulidade e a pura exasperação.

— Ivan, você é um idiota completo! — Sua exclamou, batendo com a pasta na perna dele. — Um idiota, burro, troglodita!

— Ei! Doeu, caralho!

— É pra doer mesmo! Você não pode simplesmente sair beijando as pessoas à força só porque não sabe lidar com os próprios sentimentos, seu babaca! O Till já é traumatizado e esquentado por natureza, e você me faz uma palhaçada dessas?

Ivan encolheu os ombros, parecendo subitamente muito menor do que sua altura de atleta sugeria.

— Eu não sabia o que fazer...

— Pois agora você vai ter que aprender — Sua disse, com a autoridade implacável do conselho estudantil. — Você vai engolir esse seu orgulho idiota de capitão do time, vai procurar o Till amanhã e vai pedir desculpas. De verdade. Sem piadinha sarcástica, sem ficar rindo da cara dele. Você vai explicar por que fez isso e assumir a responsabilidade. É o mínimo que você deve a ele se quiser que ele volte a respirar no mesmo ambiente que você.

Ivan encarou a irmã mais nova, surpreso com a firmeza das palavras. Ele engoliu em seco e murmurou:

— Você acha que ele vai me mandar pra merda?

— Com certeza ele vai — Sua deu de ombros. — Mas você mereceu. Agora levanta daí e vai lavar essa cara.

Sem esperar pela resposta dele, Sua deu meia-volta, subiu as escadas em passos rápidos e entrou direto em seu quarto.

Ela bateu a porta de madeira, girou a chave na tranca duas vezes e encostou as costas contra ela.

Ficou ali por três segundos.

Quatro segundos.

Cinco.

O ar simplesmente explodiu de seus pulmões.

Sua largou a mochila e a pasta no chão com um baque surdo, correu para a própria cama e se jogou de barriga para baixo, afundando o rosto inteiro no travesseiro para abafar o grito agudo de pura histeria que vinha guardando o dia inteiro.

Ela começou a chutar as pernas no colchão, debatendo-se como uma criança desgovernada.

*A MIZI ME BEIJOU?!*

Ela puxou o travesseiro, os olhos roxos brilhando loucamente no quarto na penumbra, as mãos voando para os próprios lábios que ainda formigavam com a lembrança do toque suave.

*A MIZI GOSTA DE MIM! DE VERDADE! ELA GOSTA DE MIM!*

Sua rolou para o outro lado da cama, rindo alto no quarto vazio, o coração batendo a duzentos por hora.

Mizi tinha corrido pelo colégio inteiro só para não deixá-la esperando. Mizi tinha confessado que reparava nela há tempos. Mizi tinha achado a sua risada a coisa mais linda do mundo. Mizi a chamou de fofa! Entrelaçou os dedos com ela, beijou a sua boca e ainda a acompanhou até a porta de casa com o sorriso mais deslumbrante que já existiu na face da Terra.

— Ela gosta de mim... — Sua sussurrou para o teto, abraçando o travesseiro contra o peito com toda a força do mundo, com o rosto mais vermelho e feliz que já tivera em toda a sua vida. — Ela realmente gosta de mim.

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