Voltar ao resumo

Me or me

Gravidade em Chamas

O despertador sequer precisou tocar duas vezes.

Às seis da manhã, Sua já estava encarando as portas abertas do seu guarda-roupa como se decifrasse a equação mais complexa da sua vida. Seu quarto cheirava a lavanda, mas a mente dela estava pura combustão. Depois de quase uma hora trocando de combinação três vezes — algo absolutamente inédito para quem sempre planejava a roupa na noite anterior —, ela finalmente se decidiu.

Vestiu uma camisa de botões azul-celeste impecavelmente engomada, combinada com um colete de tricô branco com decote em V, saia plissada preta de cintura alta e meias cinzas que subiam até o meio das coxas, calçando seus oxfords brilhantes. Prendeu uma presilha prateada discreta no cabelo preto recém-escovado, passou um hidratante labial com cheiro suave de amora e olhou-se no espelho. Suas bochechas ainda queimavam só de lembrar do dia anterior.

Ela queria estar bonita. Queria que Mizi olhasse para ela e visse algo além da garota certinha com pilhas de papel no conselho.

No andar de baixo, Ivan parecia uma assombração funcional. Vestia uma jaqueta bomber azul-marinho sobre uma camiseta branca básica, jeans pretos rasgados nos joelhos e tênis surrados. Ele mal tocou no café da manhã, girando uma maçã na mão enquanto olhava para a porta com uma tensão palpável nos ombros largos.

— Você vai falar com ele, não vai? — Sua perguntou enquanto colocava a alça da mochila no ombro.

— Vou, caralho. Não precisa me lembrar a cada cinco minutos — resmungou Ivan, ajeitando o colarinho, a arrogância habitual engolida por um nervosismo rasteiro.

Quando chegaram à Anakt Academy, o movimento habitual dos corredores já estava a todo vapor. Os armários metálicos batiam, risadas ecoavam e fofocas flutuavam pelo ar. Logo no pátio perto da arquibancada, Ivan avistou a silhueta inconfundível de cabelos cinzas desgrenhados.

Till estava encostado na mureta de concreto, parecendo pronto para cometer um homicídio. Vestia uma camiseta preta de manga longa sob uma camiseta cinza de banda de post-punk rasgada na gola, calça cargo escura cheia de fivelas e suas indefectíveis munhequeiras de pano. Ele rabiscava com tanta força em seu caderno que a ponta do grafite ameaçava perfurar o papel.

Ivan engoliu o próprio orgulho — um esforço quase hercúleo — e caminhou até lá com passos pesados.

— Till.

Till ergueu os olhos verdes com a rapidez de uma lâmina desembainhada. Seus nós dos dedos ficaram brancos ao apertar o lápis.

— Sai de perto de mim, Ivan. Não tô com saco pras tuas gracinhas hoje.

Ivan parou a dois passos de distância, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta bomber para disfarçar o desconforto.

— Eu não vim fazer gracinha — Ivan soltou o ar com força, a mandíbula travada. — Eu vim... porra, eu vim pedir desculpas. Pelo que rolou na casa da Hyuna.

Till congelou, as sobrancelhas franzidas em um choque desconfiado.

— O quê?

— É isso que você ouviu, caralho. Eu passei dos limites. Não devia ter feito aquilo sem você querer. Foi uma merda de atitude, beleza? — Ivan desviou os olhos pretos para o chão, parecendo odiar cada sílaba, mas mantendo a seriedade que Sua havia exigido dele. — Eu não queria foder com tudo. Desculpa. De verdade.

Till continuou mudo por longos segundos, o peito subindo e descendo depressa sob a camiseta gasta, antes de bufar e fechar o caderno com um estalo seco.

— Você é um babaca imbecil, sabia? — resmungou Till, a voz ainda rouca de raiva, mas sem a frieza cortante de antes. — Se fizer aquilo de novo, eu quebro o teu nariz com um cano de ferro.

— Justo — Ivan soltou uma risada curta, o alívio disfarçado sob o sorriso de canto habitual enquanto dava as costas para deixar o garoto processar o pedido.

***

Enquanto isso, Sua tentava focar nas primeiras aulas, mas sua mente vagava em órbitas cor-de-rosa. Ela supunha que Mizi só iria procurá-la depois da saída ou mandaria alguma mensagem escondida pelo celular, como sempre acontecia quando alguém queria evitar falar com o conselho na frente de todo mundo.

Ela não poderia estar mais enganada. Mizi não era o tipo de garota que esperava permissão para existir.

No intervalo, o refeitório estava fervilhando. Sua estava sentada em uma das mesas laterais ao lado de Hyuna e Luka. Hyuna usava um top tomara que caia amarelo vibrante com uma jaqueta corta-vento preta aberta e calças jeans folgadas com correntes de plástico coloridas, teclando no celular com uma velocidade assustadora. Luka estava ao seu lado, vestindo uma camisa social de manga curta marrom claro sobre uma blusa branca e calças cáqui, explicando calmamente a rotação dos elétrons enquanto empurrava para Hyuna potinhos de frutas que ela comia no piloto automático.

— Eu só acho que se você visualizasse o átomo como um sistema planetário em miniatura, a prova de amanhã faria muito mais sentido, Hyuna — Luka dizia em seu tom suave e paciente.

— Luka, amor da minha vida, eu mal consigo visualizar a minha vontade de viver às dez da manhã, imagina átomo — respondeu Hyuna sem desgrudar a cara da tela.

Sua riu de leve, abrindo sua garrafa de água. Foi nesse exato momento que o burburinho da mesa principal cessou.

Mizi estava no meio do refeitório. E ela estava deslumbrante.

Hoje, Mizi usava um top cropped lilás de alcinhas finas sob uma camisa xadrez em tons de roxo e azul-marinho completamente aberta, deixando a cintura lisa e bronzeada à mostra. O short jeans de lavagem clara tinha a cintura alta bem marcada pelo inconfundível cinto de couro com fivela prateada, e botas pretas de cano médio completavam o visual imponente. O longo cabelo rosa com pontas azuis estava preso em um meio-rabo alto, balançando livremente conforme ela se movia.

Lyn e Vivian vinham logo atrás, rindo de alguma idiotice. Lyn vestia uma regata vermelha e minissaia preta; Vivian, um vestido delicado verde-água com um casaquinho felpudo. Mas Mizi simplesmente parou no meio do caminho, virou-se para as duas e disse com a voz baixa e tranquila:

— Vão na frente, meninas. Eu tenho um assunto pra resolver.

Lyn deu uma piscadela travessa, achando que era sobre Ivan, enquanto Vivian apenas assentiu em silêncio.

Sem hesitar nem por um segundo sob os olhares de metade dos alunos da escola, Mizi deu meia-volta e marchou em linha reta em direção à mesa de Sua.

O coração de Sua despencou direto no estômago.

— Mas que porra...? — Hyuna ergueu os olhos do celular, surpresa ao ver a garota mais popular da escola marchando até eles.

Luka ajeitou os óculos na ponte do nariz, piscando confuso.

Mizi parou na ponta da mesa, ignorando solenemente os dois. Ela apoiou uma das mãos no quadril, inclinando o corpo ligeiramente para a frente. Aquele perfume inebriante de baunilha e frutas vermelhas caiu sobre a mesa como um feitiço. Os olhos dourados de Mizi estavam fixos exclusivamente em Sua, com um brilho divertido e profundamente confiante.

— E aí, perfeitinha — a voz de Mizi saiu rouca, lenta, deliciosamente sedutora. — Larga essa mesa. Vem passar o intervalo comigo.

Hyuna engasgou com um pedaço de maçã. Luka ficou estático, olhando de Mizi para Sua com a boca entreaberta.

Sua sentiu o sangue subir com força total para o rosto, ficando tão escarlate quanto uma cereja madura.

— M-Mizi? Aqui?

— Onde mais seria? — Mizi deu um sorrisinho de canto, estendendo a mão livre com as unhas compridas pintadas de azul. — Vai me deixar plantada aqui na frente de todo mundo ou vem logo?

Sua nem pensou. Como se estivesse sob um transe magnético irresistível, ela segurou a mão de Mizi, levantando-se da cadeira tão rápido que quase derrubou sua garrafa de água.

— Eu... eu já volto, pessoal — Sua murmurou sem jeito, sendo puxada pelo corredor entre as mesas sob os olhares estupefatos de dezenas de estudantes que nunca tinham visto Mizi encostar em alguém que não fosse Ivan daquela maneira.

— Caralho... — Hyuna murmurou, os olhos azuis arregalados enquanto acompanhava as duas sumirem pelas portas duplas. — O que diabos acabou de acontecer aqui?

***

Mizi conduziu Sua pelos corredores externos, ignorando os poucos alunos vadios, até chegarem ao recanto isolado atrás da biblioteca. A sombra fresca dos carvalhos e a parede de tijolos vermelhos criavam o refúgio perfeito, longe de qualquer testemunha.

Assim que chegaram ao banco de madeira descascada, Sua soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo.

— Mizi! Você enlouqueceu? O colégio inteiro viu você me puxando daquela mesa!

Mizi soltou uma risada melodiosa, encostando-se na parede com os braços cruzados, encarando Sua de cima a baixo com um deleite descarado.

— E que se foda o colégio inteiro — Mizi disse, com aquela voz aveludada que fazia a espinha de Sua estremecer. — Eu passei a manhã toda ouvindo professor chato falar de fórmula enquanto só conseguia pensar em você. E, olha... que golpe baixo essa roupinha hoje, hein? Esse colete branco com essas meias... puta merda, Sua. Você tá linda pra caralho.

Sua cobriu o rosto com as duas mãos, sentindo o calor irradiar por sua pele.

— Para com isso... você me deixa sem graça.

— Não paro — Mizi deu dois passos lentos, puxando gentilmente as mãos de Sua para baixo, revelando o rosto vermelho e os olhos roxos cintilantes. Ela admirava Sua com uma reverência genuína, quase boba, tocando a presilha prateada no cabelo curto da garota. — É sério. Você é a garota mais foda, mais inteligente e mais perfeita desse lugar de merda. Eu fico até boba só de olhar pra você. Não sei como demorei tanto pra perceber.

Antes que Sua pudesse formular qualquer frase coerente para rebater aquele excesso de carinho, Mizi sentou-se no banco de madeira. Com um movimento ágil e surpreendentemente firme, ela segurou Sua pela cintura e a puxou.

Em um piscar de olhos, Sua estava sentada de lado no colo de Mizi.

O cérebro de Sua simplesmente parou. O contato do calor das coxas de Mizi sob as suas, a proximidade esmagadora daquele top cropped lilás e o cheiro doce preenchendo o ar a deixaram completamente zonza.

— M-Mizi... aqui fora...?

— Ninguém vem aqui, relaxa — Mizi murmurou, com um sorriso brincalhão contra a mandíbula de Sua.

Segurando o queixo de Sua com os dedos quentes, Mizi uniu seus lábios aos dela. Foi um beijo terno, idêntico ao do dia anterior, suave e cheio de carinho reprimido. Sua suspirou contra a boca dela, relaxando aos poucos no abraço, fechando os olhos enquanto os lábios macios de Mizi a acalmavam.

Quando o ar começou a faltar, elas se separaram por meros milímetros. As duas respiravam depressa, as testas coladas.

— Mizi, a gente... — Sua começou a sussurrar, tentando recuperar o mínimo de sanidade.

Ela não teve a menor chance.

Mizi inclinou a cabeça num ângulo diferente e voltou a tomar seus lábios. Só que, desta vez, não havia nada de tímido ou delicado.

Mizi entreabriu os lábios com firmeza e deslizou a língua para dentro da boca de Sua.

Um choque de voltagem pura atravessou o corpo inteiro de Sua.

Ela entrou em pane mental absoluta. *ERA UM BEIJO DE LÍNGUA.*

A língua de Mizi era quente, assertiva, explorando cada canto de sua boca com uma fome que Sua jamais sonhara experimentar. Ao mesmo tempo em que aprofundava o beijo, a mão direita de Mizi escorregou pela saia plissada de Sua e pousou, pesada e firme, diretamente na pele exposta de sua coxa, bem acima da meia cinza.

O aperto da mão de Mizi em sua coxa fez um gemido abafado escapar da garganta de Sua.

O som úmido do beijo ecoava no silêncio do recanto da biblioteca, deixando Sua ainda mais desorientada. Seus dedos enterraram-se com força desesperada no tecido do cropped lilás de Mizi, puxando-a para mais perto porque ela sentia que, se soltasse, simplesmente desfaleceria. Uma onda de calor repentina, estranha e densa começou a subir do fundo do seu estômago direto para sua intimidade, fazendo o arrepio percorrer sua espinha com uma força tão crua que suas pernas tremeram no colo da garota mais alta.

Quando Mizi finalmente se afastou, foi apenas pela necessidade cruel de oxigênio. Uma linha tênue de saliva se desfez entre seus lábios entreabertos.

Sua estava arquejando, com o peito subindo e descendo descontroladamente, as pupilas completamente dilatadas e o rosto brilhando em um rubor escarlate que descia até o pescoço. Ela estava em puro êxtase, vulnerável, exposta.

Mizi mantinha a mão apertando a coxa de Sua com possessividade suave. Os olhos dourados da garota de cabelo rosa brilhavam com uma intensidade predadora e descarada, observando o estrago maravilhoso que acabara de causar na garota mais certinha do colégio.

— Porra... — Mizi sussurrou, a voz ainda mais rouca, mordendo o próprio lábio inferior inchado. — Você beija bem pra caralho, sabia?

Sua cobriu a boca com as costas da mão, incapaz de articular qualquer som enquanto o sinal estridente tocou, anunciando o fim do intervalo e cortando o feitiço ao redor delas.

Mizi riu, um riso baixo e vitorioso. Ela ajudou Sua a descer de seu colo com cuidado, ajeitou a saia plissada da menor com carinho e entrelaçou os dedos nos dela enquanto caminhavam de volta para o prédio, deixando Sua praticamente flutuando em um transe febril pelo resto da tarde.

***

No final das aulas, Mizi estava esperando Sua perto do portão principal, como prometido.

Caminharam lado a lado pela calçada sob o sol suave do final da tarde. Ivan havia mandado uma mensagem avisando que iria direto para a casa de Till tentar consertar de vez as coisas com uma partida de videogame e que a mãe estaria de plantão no hospital até tarde da noite. A casa estaria deserta.

Quando chegaram ao portão de ferro branco da casa dos irmãos, Sua parou, mexendo nervosamente na alça da mochila.

— Mizi... você quer entrar um pouco?

Mizi ergueu as sobrancelhas cor-de-rosa, um sorriso travesso dançando nos lábios.

— Na sua casa? O capitão do time não vai surtar se me vir lá?

— O Ivan foi pra casa do Till — Sua desviou o olhar, sentindo as bochechas esquentarem novamente ao omitir cuidadosamente que estariam totalmente sozinhas. — Não tem ninguém.

— Então eu topo — Mizi deu de ombros, seguindo-a com passadas largas.

Dentro da residência silenciosa, Sua conduziu Mizi até o segundo andar, abrindo a porta do seu refúgio pessoal.

O quarto de Sua era o oposto do caos vibrante de Mizi: estantes de livros meticulosamente organizadas por ordem alfabética, uma escrivaninha arrumada com canetas perfeitamente alinhadas, paredes em tons suaves de lavanda e vários cadernos de desenho empilhados em uma prateleira baixa.

— Fica à vontade — Sua disse, o nervosismo fazendo a voz falhar. — Eu vou tomar um banho rápido pra tirar o suor do dia. Pode mexer nas minhas coisas se quiser.

— Vai lá, cheirosa — Mizi piscou, jogando sua pequena bolsa em cima da cadeira da escrivaninha e se esparramando na cama macia de Sua com os braços abertos, aspirando o perfume familiar de Sua que impregnava os lençóis.

Assim que ouviu o barulho do chuveiro ligando no banheiro do corredor, Mizi levantou-se com a curiosidade típica de quem está apaixonada até os ossos.

Ela começou a folhear os livros na estante, passando os dedos pelas lombadas bem cuidadas. Sorriu ao encontrar anotações fofas nas margens de livros de literatura clássica. Depois, pegou um dos cadernos de desenho de capa escura. Ao abrir as páginas, deparou-se com ilustrações magníficas feitas com grafite e aquarela: paisagens urbanas, flores detalhadas... e, para sua surpresa arrebatadora, vários esboços inacabados de seu próprio rosto. Mizi desenhada enquanto ria no corredor; Mizi dormindo na mesa da biblioteca; os traços do cabelo ondulado capturados com uma delicadeza que quase fez os olhos de Mizi arderem de emoção.

— Minha futura namorada é uma artista de verdade... — Mizi murmurou para si mesma, sentindo o peito transbordar de um orgulho bobo.

De repente, a porta do quarto se abriu com um estalo rápido.

— Ai, droga, eu esqueci a mi...

Sua congelou no meio do quarto.

Ela havia acabado de sair do chuveiro. O cabelo preto pingava gotas de água fresca sobre os ombros pálidos. Uma toalha felpuda branca estava enrolada ao redor do corpo pequeno, terminando perigosamente na altura das coxas, deixando os ombros, o colo e as pernas completamente à mostra.

Mizi se virou devagar, o caderno de desenho ainda aberto nas mãos. Seus olhos dourados desceram pelo corpo úmido de Sua com a lentidão de quem apreciava uma miragem pecaminosa.

Sua olhou para a própria toalha. Olhou para Mizi. Olhou para as próprias roupas limpas dobradas na ponta da cama.

— AAAAAAH! — Sua soltou um guincho estridente, cobrindo o peito com os braços, a cara pegando fogo em um tom de vermelho nunca antes registrado pela ciência.

Ela disparou em direção à cama, agarrou a muda de roupa com uma velocidade sobrenatural e saiu correndo de volta para o banheiro, batendo a porta e trancando-a com três voltas na chave.

Dentro do quarto, Mizi caiu de costas na cama, explodindo em uma gargalhada tão alta e gostosa que seus olhos lacrimejaram.

— PUTA MERDA, SUA! — Mizi gritou rindo, chutando o ar com as botas. — VOCÊ É A COISA MAIS FOFA QUE JÁ PISOU NESTA TERRA! NÃO PRECISA TER VERGONHA DE MIM NÃO!

Três minutos depois, a porta do quarto se abriu devagarzinho. Sua apareceu usando um short de moletom cinza largo e uma camiseta preta folgada que engolia sua silhueta. Ela ainda tinha as orelhas queimando de vergonha e os braços cruzados contra a barriga.

— Não fala nada — Sua murmurou com uma voz minúscula, sentando-se emburrada na beirada do colchão.

Mizi enxugou uma lágrima de riso no canto do olho, sentando-se de pernas cruzadas ao lado dela.

— Desculpa, juro que parei — Mizi sorriu com tanta doçura que qualquer traço de raiva se desfez no ar. — Mas sério... você tava uma graça.

— Mizi! — Sua escondeu o rosto nas mãos novamente.

— Tá bom, parei, parei! — Mizi riu, esticando o braço e puxando uma escova de cabelo que estava na cômoda. Ela virou de costas para Sua, jogando a longa cascata de fios cor-de-rosa sobre os ombros da garota menor. — Ó, pra você parar de ficar brava comigo: faz uma trança no meu cabelo? Eu sou um desastre tentando fazer em mim mesma.

Sua piscou, surpresa pelo pedido, mas pegou a escova com dedos cuidadosos.

Sentadas na cama, o clima tenso se dissipou em uma calma reconfortante. Enquanto Sua desembaraçava pacientemente as mechas macias com cheiro de frutas e trançava os fios rosas e azuis com maestria, as duas conversavam sem parar. Falavam sobre suas músicas favoritas, sobre a idiotice crônica de Ivan, sobre como Vivian parecia estar lidando melhor com a amizade delas e sobre o sonho secreto de Sua de cursar artes visuais na faculdade.

Mizi ouvia cada palavra com uma atenção fascinada, inclinando a cabeça para trás de vez em quando para olhar nos olhos roxos de Sua e soltar algum comentário debochado que fazia Sua rir baixinho.

Quando Sua terminou a trança perfeitamente alinhada, Mizi tocou os fios com a ponta dos dedos.

— Ficou incrível — Mizi elogiou com sinceridade.

— Não combina muito com você — Sua riu de leve, e com delicadeza desfez o penteado, soltando os fios novamente para que caíssem em suas ondas naturais e rebeldes ao redor do rosto da garota mais alta. — Você fica melhor toda bagunçada.

Mizi olhou as horas no relógio da parede e soltou um suspiro frustrado. Eram quase seis da tarde.

— Tenho que ir antes que minha mãe comece a ligar achando que eu fui sequestrada — Mizi se levantou, ajeitando a camisa xadrez.

Sua a acompanhou até a porta de entrada. Antes de cruzar o batente, Mizi parou, puxou Sua pela nuca e deu um beijo rápido e estalado em seus lábios, fazendo a menor prender a respiração.

— Até amanhã, Sua. Não sonha muito comigo — Mizi piscou, com aquele olhar devastador, antes de descer os degraus da varanda.

Sua fechou a porta e trancou a fechadura. Caminhou até a janela da sala e viu Mizi caminhando pela calçada com passos firmes, balançando os cabelos e colocando os fones de ouvido.

No segundo em que Mizi dobrou a esquina da rua e sumiu de vista, o silêncio da casa foi estraçalhado.

— PUTA QUE O PARIU! — Sua explodiu, agarrando a própria cabeça com as duas mãos.

Ela correu escada acima como se sua vida dependesse disso, entrou no quarto e se jogou com tudo na cama, afundando a cara no edredom e soltando um grito ensurdecedor de histeria pura.

Ela começou a chutar o colchão, rolando de um lado para o outro feito uma louca, o coração batendo a mil por hora contra o peito.

*ELA ME BEIJOU DE NOVO! DUAS VEZES!*

*E FOI DE LÍNGUA, MEU DEUS DO CÉU, FOI DE LÍNGUA!*

Sua puxou o ar com força, olhando para o teto com as mãos apertadas contra a própria coxa, onde os dedos de Mizi haviam deixado uma marca invisível que ainda parecia queimar sob o moletom.

*A MIZI PEGOU NA MINHA COXA, CARALHO!*

A lembrança da mão grande e quente apertando sua pele nua fez aquela mesma sensação de choque elétrico descer diretamente para sua intimidade. Ela puxou o travesseiro com força, mordendo o tecido para não gritar de novo.

— Ela veio na minha casa... ela me viu de toalha... e por que porra eu fiquei daquele jeito quando ela botou a mão na minha perna?! — Sua sussurrou freneticamente para o quarto vazio, sentindo o calor consumir seu corpo inteiro.

A garota perfeita do conselho estudantil estava em ruínas completas, devastada pelo toque da garota de cabelos rosa. E, enquanto abraçava o travesseiro que ainda cheirava à baunilha de Mizi, Sua percebeu, com um sorriso delirante nos lábios, que nunca tinha sido tão feliz em toda a sua vida.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.