Melhor amigo
O Eclipse de Vidro e Neon
A música eletrônica pulsava através das paredes da mansão de Hoseok, fazendo o chão vibrar sob as solas dos tênis de Jungkook. O ar estava saturado com o cheiro de perfume caro, fumaça de gelo seco e o calor humano de centenas de adolescentes celebrando o fim do semestre. Para a maioria, era a noite da liberdade; para Jungkook, era apenas mais um campo de batalha onde ele precisava manter Nari sob seu radar constante.
Ele estava encostado em uma pilastra perto da mesa de bebidas, segurando um copo plástico com refrigerante que já havia perdido o gás. Seus olhos escuros escaneavam a pista de dança com a precisão de um falcão. Ele já havia afastado dois garotos do segundo ano que tentaram se aproximar de Nari com segundas intenções, usando apenas seu olhar mais intimidador e sua presença física silenciosa.
— Você vai acabar abrindo um buraco no chão de tanto encarar a multidão — disse Jimin, surgindo ao seu lado com um sorriso ladino. — Relaxa, Kook. Ela está apenas dançando com as meninas.
— Eu estou relaxado — mentiu Jungkook, dando um gole na bebida morna. — Só estou garantindo que ninguém derrube bebida no vestido novo dela. Ela estava tão animada com ele.
Jimin soltou uma risada anasalada, balançando a cabeça.
— Você é um caso perdido. Por que não vai lá e dança com ela de uma vez? Em vez de ficar aqui parecendo um segurança de boate mal-humorado.
Jungkook não respondeu. Ele não podia dizer a Jimin que o simples pensamento de tocar a cintura de Nari no meio de toda aquela gente fazia suas mãos tremerem. Era mais fácil ser o protetor distante, o amigo que cuidava das bordas, do que enfrentar o abismo de seus próprios sentimentos no centro da pista.
De repente, a música mudou. O batido frenético deu lugar a um remix mais lento e sensual, com luzes roxas e azuladas varrendo o ambiente. Jungkook endireitou a postura instantaneamente. Seus olhos localizaram Nari perto da cabine do DJ. Ela estava rindo, os cabelos levemente bagunçados pelo movimento, o rosto iluminado pelos flashes de neon.
E então, o estômago de Jungkook despencou.
Vindo da direção oposta, Taehyung se aproximou dela. Ele estava impecável, usando uma camisa de seda entreaberta que parecia brilhar sob as luzes da festa. Ele disse algo no ouvido de Nari que a fez soltar uma gargalhada cristalina, aquela que Jungkook guardava na memória como se fosse uma música sagrada.
— Ah, não — murmurou Jungkook, os nós dos dedos ficando brancos ao redor do copo plástico.
— O que foi? — Jimin tentou olhar, mas Jungkook já estava se movendo.
Ele atravessou a multidão como uma bala, esbarrando em ombros e ignorando os protestos de quem estava no caminho. Ele precisava chegar lá. Precisava interromper qualquer que fosse a piada que Taehyung estava contando. Precisava trazer Nari de volta para a "zona de segurança" que ele havia construído ao redor deles dois durante anos.
Mas a multidão estava densa, um mar de corpos suados que parecia conspirar contra ele. Quando ele finalmente conseguiu uma linha de visão clara, seus pés travaram no lugar. O copo plástico escapou de sua mão, derramando o líquido pegajoso no chão, mas ele nem sentiu.
No canto da sala, sob a sombra de uma palmeira decorativa, Taehyung tinha as mãos apoiadas na parede, cercando suavemente o espaço de Nari. Ela não parecia estar tentando sair. Pelo contrário, ela olhava para Taehyung com uma intensidade que Jungkook nunca tinha visto direcionada a ninguém — nem mesmo a ele.
Taehyung inclinou o rosto, sussurrando algo mais. Nari mordeu o lábio inferior, um gesto que Jungkook conhecia como sinal de nervosismo, mas não era o nervosismo de medo. Era antecipação.
E então aconteceu.
Taehyung reduziu a distância restante e pressionou seus lábios contra os de Nari. Foi um beijo lento, profundo, o tipo de beijo que muda o status de uma relação em segundos. Nari fechou os olhos e, para o horror absoluto de Jungkook, levou as mãos ao pescoço de Taehyung, puxando-o para mais perto, entrelaçando os dedos nos cabelos dele.
O mundo ao redor de Jungkook ficou mudo. A música alta tornou-se um zumbido distante, e o calor da festa transformou-se em um frio glacial que subia por suas pernas. Ele sentiu como se estivesse assistindo à sua própria execução em câmera lenta. Cada segundo daquele beijo era uma facada em sua alma, uma prova irrefutável de que ele tinha esperado demais, silenciado demais, protegido demais.
Ele sempre achou que o "ciúme de amigo" era uma barreira eficaz, algo que manteria os outros longe enquanto ele criava coragem. Ele achava que Nari era dele por direito de tempo e convivência. Mas ali, sob as luzes psicodélicas, ele percebeu que o tempo não garantia nada se não fosse acompanhado de verdade.
— Jungkook? — A voz de Jimin soou atrás dele, agora carregada de preocupação. — Ei, cara, não olha... vamos sair daqui.
Jungkook não conseguia se mexer. Ele viu quando eles se separaram, as testas ainda encostadas, Taehyung sorrindo aquele sorriso quadrado que Jungkook tanto invejava, e Nari com as bochechas coradas, parecendo flutuar. Ela parecia... feliz. De um jeito diferente.
A raiva, a tristeza e a frustração se misturaram em um coquetel explosivo dentro dele. Ele não conseguia mais ficar ali. Ele deu meia-volta e saiu correndo em direção à varanda da mansão, buscando o ar frio da noite para tentar apagar o incêndio em seu peito.
Ele se apoiou no parapeito de pedra, os ombros sacudindo com a respiração pesada. As lágrimas de frustração picavam seus olhos, mas ele se recusava a deixá-las cair. Ele era o Jeon Jungkook. Ele era o melhor amigo. Ele era o protetor. E ele tinha acabado de falhar miseravelmente.
— Kook? — A voz dela.
Ele congelou. Ele não queria vê-la agora. Não com o gosto do beijo de outro homem ainda fresco em seus lábios.
— Vai embora, Nari — disse ele, a voz rouca, sem se virar.
Ouviu o som dos saltos dela contra o piso da varanda. Ela se aproximou até ficar ao lado dele, o cheiro de morango que ele tanto amava agora parecendo um veneno.
— O que aconteceu? O Jimin disse que você saiu correndo como se estivesse passando mal. Você está doente? Bebeu algo estragado?
Jungkook soltou uma risada amarga, virando o rosto para encará-la. Seus olhos estavam vermelhos, e a expressão de dor era tão evidente que Nari recuou um passo, confusa.
— Eu vi, Nari — disparou ele. — Eu vi você e o Taehyung.
Nari piscou, o rubor voltando às suas bochechas, mas desta vez acompanhado de uma pontada de culpa.
— Ah... você viu. Kook, eu ia te contar, eu só... aconteceu. O Tae tem sido muito doce ultimamente e...
— "Doce"? — Jungkook cuspiu a palavra. — Ele é um idiota que joga charme para todo mundo! Eu te avisei sobre ele mil vezes! Eu te protegi de caras como ele a vida toda para você simplesmente se jogar nos braços dele na primeira festa?
Nari franziu a testa, a confusão dando lugar a uma irritação crescente.
— "Me protegeu"? Jungkook, do que você está falando? O Tae não é um vilão de filme. Ele é nosso amigo! E eu não sou uma criança que precisa de guarda-costas.
— Você não entende nada! — Jungkook deu um passo à frente, a voz subindo de tom, a birra e o ciúme transbordando sem controle. — Eu odeio ele! Eu odeio o jeito que ele olha para você, odeio que ele tenha te beijado, odeio que você tenha deixado!
Nari soltou um suspiro pesado, cruzando os braços. Para ela, aquele era apenas mais um dos episódios de possessividade infantil de Jungkook. Ela achava fofo quando era sobre um garoto qualquer na livraria, mas agora, com alguém que ela realmente gostava, estava começando a ser sufocante.
— Chega, Jungkook! — disse ela, firme. — Esse seu ciúme de amigo passou dos limites. Eu entendo que você tenha medo de que as coisas mudem entre nós, que o nosso tempo de final de semana diminua, mas você não pode controlar com quem eu fico. Isso é egoísmo!
— Egoísmo? — O coração de Jungkook quebrou em mais mil pedaços. — Você acha que isso é ciúme de amigo? Você realmente acha que eu passo 24 horas por dia pensando em você, cuidando de você e afastando cada idiota que respira perto de você porque eu sou um "amigo protetor"?
Nari hesitou, a intensidade no olhar dele fazendo-a vacilar pela primeira vez.
— O que você quer dizer com isso?
Jungkook deu mais um passo, ficando tão perto que ela podia sentir o calor emanando dele. A máscara de "Kook, o amiguinho fofo" caiu completamente, revelando o homem que sofria em silêncio há anos.
— Eu quero dizer que eu morro um pouco toda vez que você sorri para outro cara! — ele gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu quero dizer que eu não suporto a ideia de ninguém te tocar porque eu queria ser o único a fazer isso! Eu não quero ser o seu irmão, Nari! Eu nunca quis!
Nari ficou estática. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som abafado da música vindo de dentro da casa. As palavras dele ecoaram em sua mente como trovões. Ela olhou para Jungkook — o garoto que ela conhecia desde que usavam fraldas — e, pela primeira vez, viu a dor crua de um homem apaixonado.
— Kook... — sussurrou ela, a voz falhando. — Você... você gosta de mim? Desse jeito?
Jungkook soltou um soluço seco, cobrindo o rosto com as mãos por um segundo antes de olhar para ela novamente, com uma expressão de derrota total.
— Eu não gosto de você, Nari. Eu sou completamente louco por você. Há anos. Cada final de semana, cada filme que a gente assistiu, cada vez que você segurou minha mão... para você era amizade. Para mim, era o motivo de eu continuar respirando.
Nari sentiu o chão sumir. Todas as vezes que ele fez birra, todas as vezes que ele afastou pretendentes, todas as vezes que ele ficava emburrado quando ela falava de outros meninos... não era proteção fraternal. Era um grito de socorro que ela, em sua cegueira confortável, escolheu ignorar como "fofura".
— Eu não sabia... — disse ela, as lágrimas começando a surgir em seus próprios olhos. — Kook, eu juro que eu nunca imaginei. Você sempre foi tão... você. Eu achei que éramos intocáveis como amigos.
— Nada é intocável, Nari — disse ele, a voz agora baixa e sem vida. — Especialmente o coração de alguém que precisa ver a pessoa que ama beijando outro bem na sua frente.
Ele se afastou, limpando o rosto com as costas da mão. O ciúme que antes era barulhento e infantil agora tinha se transformado em uma tristeza silenciosa e digna.
— Jungkook, espera! — Nari tentou segurar o braço dele. — Podemos conversar? Eu não queria te machucar, eu... eu e o Tae, a gente só está começando a ver o que acontece...
Jungkook parou e olhou para a mão dela em seu braço. Antigamente, aquele toque o faria ganhar o dia. Agora, queimava como brasa.
— Divirta-se na festa, Nari — disse ele, soltando-se suavemente. — Eu acho que meu tempo como seu "segurança" acabou por hoje. E talvez por muito tempo.
— O que isso significa? — perguntou ela, a voz trêmula. — Você vai parar de falar comigo?
Jungkook olhou para o horizonte, onde as luzes da cidade brilhavam indiferentes à sua agonia.
— Significa que eu não consigo ser apenas o seu melhor amigo enquanto você olha para ele daquele jeito. Eu tentei, Nari. Deus sabe o quanto eu tentei fingir que aquele bico e aquela birra eram só brincadeira. Mas eu não consigo mais fingir.
Ele caminhou em direção à saída da varanda, deixando Nari sozinha sob o luar. Ela ficou parada, olhando para o espaço vazio onde ele estivera, sentindo um vazio estranho e súbito no peito. O beijo de Taehyung, que minutos antes parecia o início de um conto de fadas, agora parecia pesado, carregado com as consequências de um segredo que ela nunca quis ver.
Lá dentro, a festa continuava. Taehyung a procurava na multidão, pronto para continuar o que haviam começado. Mas Nari não conseguia se mexer. Ela olhou para a porta por onde Jungkook desapareceu, percebendo, com um aperto no coração, que o ciúme que ela sempre achou "fofo" era, na verdade, a coisa mais real que ela já tinha recebido de alguém.
E, pela primeira vez em sua vida, Nari não tinha certeza se o beijo de um príncipe valia a perda de seu dragão protetor.
Jungkook caminhou pela rua deserta, o som de seus próprios passos sendo a única companhia. Ele sentia o peito vazio, como se tivesse deixado tudo o que era naquela varanda. A birra tinha acabado. O ciúme tinha sido exposto. E, no fim das contas, a verdade não o libertou — apenas o deixou sozinho no escuro, imaginando se algum dia o cheiro de morango deixaria de ser o cheiro da sua maior saudade.