Melhor amigo
O Silêncio das Estrelas Mortas
A manhã de segunda-feira na escola tinha um peso diferente para Jungkook. O ar parecia mais denso, o barulho dos armários batendo soava como disparos de canhão e o corredor principal, que antes era o palco de suas brincadeiras matinais com Nari, agora parecia um campo minado. Ele caminhava de cabeça baixa, o capuz do moletom cinza cobrindo parte do rosto, os fones de ouvido no volume máximo para abafar qualquer tentativa de aproximação.
Pela primeira vez em anos, ele não parou na frente do portão para esperar por ela. Ele não comprou o leite de morango favorito dela na loja de conveniência da esquina. Ele simplesmente seguiu o fluxo dos alunos, sentindo-se como um fantasma em seu próprio corpo.
— Kook! Ei, Kook! — A voz de Nari ecoou atrás dele, carregada de uma hesitação que ele nunca tinha ouvido antes.
Jungkook não parou. Ele sentiu o coração dar um solavanco violento contra as costelas, mas apertou o passo. Ele não podia olhar para ela. Não depois de ter despejado sua alma na varanda da festa de Hoseok. A vergonha de ter sido tão vulnerável e a dor de saber que ela agora pertencia a outro eram uma combinação letal para sua sanidade.
— Jeon Jungkook, eu sei que você está me ouvindo! — Ela correu e segurou a alça da mochila dele, forçando-o a parar no meio do corredor.
Ele suspirou, fechando os olhos por um segundo antes de tirar apenas um dos fones. Ele não se virou completamente, mantendo o corpo inclinado para longe.
— O que foi, Nari? Eu tenho aula de física agora.
— O que foi? Você sumiu o domingo inteiro! Não atendeu minhas ligações, não respondeu as mensagens... eu fiquei preocupada. — Ela deu um passo para o lado, tentando encontrar o olhar dele, mas Jungkook fixou os olhos em um cartaz de aviso na parede.
— Eu estava ocupado. — A voz dele era fria, desprovida de qualquer traço daquele tom brincalhão que sempre usava com ela.
— Ocupado? Kook, sobre o que aconteceu na festa... — Ela baixou o tom de voz, percebendo que alguns alunos começavam a observar. — Eu pensei muito no que você disse. Eu não queria que as coisas ficassem estranhas entre a gente por causa daquela... confissão.
— Não está estranho — disse ele, finalmente olhando para ela, mas seus olhos estavam vazios, como estrelas que já haviam morrido há muito tempo. — Só está diferente. Você tem o Taehyung agora. E eu... eu só estou seguindo minha vida.
— Mas a gente ainda é amigo, não é? — A voz de Nari tremeu levemente. A ideia de perder a presença constante de Jungkook era aterrorizante para ela, algo que ela só começou a processar quando o silêncio dele se tornou absoluto no dia anterior.
— Amigos? — Jungkook soltou uma risada curta e sem humor. — Nari, eu te disse que não consigo mais ser "só o amigo". Você ouviu o que eu disse, mas parece que não entendeu. Eu não vou ficar aqui assistindo você e ele de mãos dadas como se nada tivesse mudado.
— Você está sendo infantil de novo! — exclamou ela, a frustração começando a superar a culpa. — É só um beijo, Jungkook! É só um começo! Por que você tem que estragar tudo com essa sua birra?
Jungkook sentiu uma pontada de raiva. "Birra". Ela ainda chamava seus sentimentos mais profundos de birra.
— Se você acha que o que eu sinto é birra, então realmente não temos mais nada para conversar. Com licença.
Ele se soltou do aperto dela com um movimento brusco e caminhou em direção à sala de aula, deixando-a parada no corredor, com a mão ainda estendida no ar, sentindo um frio que nem o aquecedor da escola conseguia dissipar.
As primeiras três aulas foram um borrão. Jungkook sentava-se no fundo, longe do lugar habitual ao lado de Nari. Ele via, pelo canto do olho, como ela olhava para trás constantemente, buscando o contato visual que ele se recusava a dar. Ele também via Taehyung entrar na sala e dar um beijo casto na testa dela, e cada vez que isso acontecia, Jungkook sentia como se uma parte de sua alma fosse arrancada com uma pinça.
No intervalo, o boato já corria: havia uma aluna nova.
Jungkook estava sentado em uma mesa isolada no refeitório, mexendo na comida sem apetite, quando a porta se abriu e uma garota que ele nunca vira antes entrou acompanhada pela coordenadora. Ela tinha cabelos longos e escuros, olhos amendoados e uma expressão de quem estava um pouco perdida naquele mar de adolescentes barulhentos. O nome dela, anunciado pouco depois, era Minji.
Normalmente, Jungkook não daria a mínima. Mas então ele viu Nari e Taehyung sentados a algumas mesas de distância. Nari estava olhando para ele com uma expressão de profunda tristeza, ignorando o que Taehyung dizia.
Um plano, talvez cruel, talvez apenas desesperado para estancar a própria hemorragia emocional, começou a se formar na mente de Jungkook. Ele precisava de uma distração. Ele precisava mostrar a Nari — e a si mesmo — que ele não era apenas um satélite orbitando o planeta dela.
Quando Minji passou perto de sua mesa, procurando um lugar para sentar, Jungkook fez algo que nunca fazia com estranhos. Ele sorriu. Não o sorriso de coelho que ele guardava para Nari, mas um sorriso charmoso, de canto, o tipo de sorriso que ele sabia que tinha um efeito devastador nas garotas da escola.
— Ei — disse ele, a voz calma e convidativa. — O lugar aqui está vago. Se você quiser fugir da confusão das mesas maiores, pode sentar comigo.
Minji parou, surpresa. Ela olhou para o garoto bonito de moletom cinza e retribuiu o sorriso, parecendo aliviada por encontrar um rosto amigável.
— Obrigada. O refeitório aqui é meio... intimidador no primeiro dia. — Ela se sentou à frente dele, colocando sua bandeja na mesa.
— Eu sou o Jungkook — disse ele, estendendo a mão. — Terceiro ano. E você deve ser a Minji, certo? Ouvi os professores comentando.
— Sim, sou eu. Acabei de me mudar de Busan.
— Busan? — Jungkook arqueou as sobrancelhas, genuinamente interessado agora. — Eu também sou de lá! Nasci perto de Mandeok-dong.
A conversa fluiu com uma facilidade surpreendente. Minji era doce, inteligente e tinha um senso de humor leve. Jungkook, por sua vez, estava sendo mais comunicativo do que nunca. Ele ria alto, gesticulava e mantinha o olhar fixo nela, ignorando completamente o resto do refeitório.
Mas seus ouvidos estavam aguçados. Ele ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada com força na mesa de Nari.
— O que o Jungkook está fazendo? — A voz de Nari soou abafada, mas audível para quem estivesse prestando atenção.
— Conhecendo a aluna nova, ué — respondeu uma de suas amigas. — Olha só, ele parece estar se divertindo. Eu nunca vi o Kook ser tão simpático com alguém que não fosse você, Nari.
Jungkook sentiu uma pontada de satisfação sombria. Ele continuou a conversa com Minji, contando histórias sobre Busan e oferecendo-se para mostrar a escola a ela depois das aulas.
— Você faria isso? — perguntou Minji, os olhos brilhando. — Eu realmente não quero me perder no caminho para o laboratório de química.
— Claro — disse Jungkook, levantando-se e pegando sua bandeja. — Podemos ir agora, se você quiser. O intervalo está acabando.
Enquanto eles caminhavam em direção à saída do refeitório, eles tiveram que passar pela mesa de Nari. Jungkook não diminuiu o passo. Ele não olhou para ela. Ele estava ocupado demais ouvindo Minji falar sobre seu livro favorito.
— Kook! — Nari chamou quando ele estava a apenas alguns passos de distância.
Ele parou, mas não se virou totalmente. Ele manteve o corpo voltado para Minji, como se ela fosse sua prioridade absoluta.
— Sim? — Ele perguntou, o tom de voz neutro.
— A gente... a gente ia terminar aquele projeto de história na biblioteca hoje, lembra? — Nari perguntou, a voz carregada de uma esperança desesperada.
Jungkook olhou para o relógio de pulso, fingindo calcular o tempo.
— Ah, o projeto. Eu já fiz a minha parte ontem à noite, Nari. Deixei o arquivo no drive compartilhado. Você pode terminar o resto com o Taehyung, já que ele também é da nossa turma. Eu prometi mostrar o campus para a Minji agora.
Nari olhou para Minji, e pela primeira vez, a garota nova sentiu a tensão elétrica no ar. Minji acenou timidamente para Nari, que apenas retribuiu com um olhar gélido que Jungkook nunca vira nela.
— Mas Jungkook, a gente sempre faz os projetos juntos... — insistiu Nari, a voz começando a falhar.
— As coisas mudam, Nari. Você mesma disse isso na festa, lembra? — Ele deu um sorriso educado, mas frio. — Vamos, Minji? O laboratório fica no segundo andar.
Eles saíram, deixando Nari para trás. Ela sentou-se lentamente, sentindo uma dor aguda no peito que não conseguia explicar. Por anos, ela fora o centro do universo de Jungkook. Ela estava acostumada com o ciúme dele, com a birra dele, com o fato de que ele sempre estaria lá, independentemente do que acontecesse. Ver aquele espaço ser ocupado por outra pessoa — e ver que ele parecia perfeitamente bem com isso — era como levar um soco no estômago.
— Ele só está tentando te provocar, amor — disse Taehyung, colocando a mão sobre a dela. — É o jeito dele de lidar com o fato de que você está comigo. Não liga para isso.
Nari olhou para a mão de Taehyung, mas não sentiu o calor que sentira na festa. Ela sentiu apenas uma saudade avassaladora do "Kook" que trazia leite de morango e fazia bico quando ela demorava a chegar.
Enquanto isso, no corredor do segundo andar, o sorriso de Jungkook desapareceu assim que eles dobraram a esquina. Ele se sentia exausto, como se tivesse corrido uma maratona.
— Ela é sua namorada? — perguntou Minji, com uma voz suave.
Jungkook parou diante da porta do laboratório e olhou para a garota nova. Ela era inteligente; percebera o jogo de cena imediatamente.
— Não — respondeu ele, a voz pesada. — Ela é minha melhor amiga. Ou era. É complicado.
— Ela pareceu bem chateada — comentou Minji, encostando-se na parede. — E você pareceu bem determinado a mostrar que está bem.
Jungkook soltou um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos.
— Desculpe por te usar daquele jeito no refeitório. Não foi justo com você.
Minji deu de ombros, sorrindo de forma compreensiva.
— Tudo bem. Como garota nova, eu precisava de um guia de qualquer jeito. E ser vista com o garoto mais popular do terceiro ano não é exatamente uma tragédia social. Mas, Jungkook... — Ela o olhou seriamente. — Fingir que não se importa dói mais do que admitir que está sofrendo.
Jungkook não respondeu. Ele apenas abriu a porta do laboratório e indicou o interior.
— Aqui é o laboratório de química. O professor Kim é rigoroso com o horário, então tente não chegar atrasada.
O resto do dia seguiu em um padrão agonizante. Jungkook continuou a ignorar Nari, focando toda a sua atenção em Minji. Ele a acompanhou até o armário, sentou-se perto dela na última aula e até se ofereceu para caminhar com ela até o ponto de ônibus.
Nari assistia a tudo de longe, sentindo-se como uma estranha em sua própria vida. Ela tentava se concentrar em Taehyung, mas toda vez que ele tentava beijá-la ou segurar sua mão, ela se pegava procurando por Jungkook, esperando ver o bico de ciúme, a reclamação engraçada, a birra que ela sempre achara fofa.
Mas Jungkook não fazia birra. Ele não reclamava. Ele apenas sorria para Minji e passava por Nari como se ela fosse parte da mobília da escola.
Na saída, o céu estava cinzento, prenunciando chuva. Nari estava parada perto do portão principal com Taehyung, esperando o motorista dele, quando viu Jungkook e Minji saindo juntos. Eles estavam rindo de algo, e Jungkook colocou a mão no ombro dela para guiá-la através da multidão.
Nari não aguentou mais.
— Tae, eu esqueci um livro no armário. Pode ir na frente, eu pego um ônibus depois.
— Tem certeza? Eu posso esperar — disse Taehyung, confuso.
— Não, tudo bem. Pode ir. Te ligo mais tarde.
Ela não esperou a resposta. Ela se virou e correu, não em direção aos armários, mas em direção ao ponto de ônibus para onde Jungkook e Minji estavam indo. Ela os alcançou pouco antes de chegarem à calçada principal.
— Jungkook! — Ela gritou, a voz embargada.
Ele parou, mas não soltou o ombro de Minji. Ele se virou lentamente, a expressão de tédio forçado ainda em seu rosto.
— O que foi agora, Nari? Eu já disse que não vou fazer o projeto hoje.
— Não é sobre o projeto! — Ela parou na frente dele, ofegante, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — É sobre você! Você não pode fazer isso! Você não pode simplesmente me apagar da sua vida e agir como se eu fosse um nada!
Minji, percebendo que a situação era íntima demais, deu um passo para trás.
— Jungkook, eu vou indo na frente. A gente se vê amanhã?
— Eu te ligo mais tarde, Minji — disse ele, sem tirar os olhos de Nari.
Quando Minji se afastou, o silêncio entre os dois tornou-se ensurdecedor.
— Eu não estou te apagando, Nari — disse Jungkook, a voz agora baixa e perigosa. — Eu estou apenas dando a você o que você pediu. Espaço. Liberdade para ficar com quem você quiser sem o seu "amigo ciumento" fazendo birra por perto. Não era isso que você queria?
— Não desse jeito! — Ela soluçou, dando um passo à frente e segurando a jaqueta dele. — Eu sinto sua falta, Kook. Eu sinto falta de como a gente era. Eu não gosto desse Jungkook frio que olha para essa garota nova como se ela fosse mais importante do que dez anos de amizade!
Jungkook sentiu uma risada amarga subir pela garganta.
— Engraçado. Você sente falta da minha atenção, mas não quer o que vem com ela. Você quer o melhor amigo que te adora e te protege, mas quer o Taehyung para te beijar. Você quer tudo, Nari, mas o mundo não funciona assim.
— Você está sendo cruel — ela sussurrou, as lágrimas escorrendo livremente agora.
— Cruel é passar anos amando alguém em silêncio e ver essa pessoa achar que a sua dor é "fofa" — rebateu ele, os olhos brilhando com uma intensidade que a fez recuar. — Eu cansei de ser o seu brinquedo favorito que você só tira da caixa quando quer se sentir amada. Se você quer o Taehyung, fique com ele. Mas não espere que eu fique aqui assistindo e aplaudindo.
— Mas você e a Minji... você gosta dela? — A pergunta saiu antes que ela pudesse evitar, carregada de um ciúme que ela nunca soube que era capaz de sentir.
Jungkook olhou para a direção onde Minji tinha ido e depois voltou para Nari. Um sorriso triste e cansado surgiu em seus lábios.
— A Minji é legal. Ela me vê, Nari. Ela não me vê como um irmão ou como um acessório de estimação. Ela me vê como um homem. E talvez seja disso que eu precise agora. De alguém que não tenha que descobrir quem eu sou depois de dez anos de convivência.
Ele se virou para ir embora, mas Nari o segurou novamente.
— Jungkook, por favor... não vai embora assim.
Ele parou e olhou para a mão dela em seu braço. Com um movimento lento, ele retirou a mão dela, dedo por dedo.
— Boa noite, Nari. Vá para casa. O Taehyung deve estar esperando a sua ligação.
Ele se afastou, caminhando sob a chuva fina que começava a cair. Nari ficou parada no meio da calçada, vendo a silhueta dele se distanciar. Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, que o Jungkook que fazia birra tinha ido embora. E o homem que ficara em seu lugar não era mais dela para guardar.
Pela primeira vez em dez anos, Nari sentiu o verdadeiro peso da ausência de Jungkook. E, enquanto as luzes da rua se acendiam uma a uma, ela percebeu que o ciúme que ela sempre fingira não ver era a única coisa que realmente a mantinha aquecida. Agora, restava apenas o frio e o silêncio de uma amizade que ela mesma, em sua busca por algo novo, tinha ajudado a destruir.
Jungkook, por sua vez, não olhou para trás. Ele sentia a chuva lavar o seu rosto, misturando-se com as lágrimas que ele finalmente se permitiu derramar. Ele tinha Minji agora como uma distração, tinha a escola, tinha Busan em suas memórias. Mas, enquanto caminhava sozinho, ele sabia que não importava quantas garotas novas chegassem ou quantos quilômetros ele colocasse entre eles; seu coração ainda batia no ritmo daquela garota que achava que o seu amor era apenas uma birra de criança.
E essa era a sua maior e mais silenciosa tragédia.