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Melhor amigo

O Labirinto de Vidro e a Fragilidade do Nós

O quarto de Jungkook estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho intermitente do computador. Ele encarava a tela, mas seus olhos não processavam as informações sobre os biomas terrestres. Sua mente era um disco arranhado, repetindo a imagem de Nari chorando na calçada sob a chuva fina. Ele queria ter voltado. Queria ter corrido até ela, envolvido-a em seus braços e dito que tudo não passava de um pesadelo, que ele ainda era o seu "Kook". Mas o orgulho ferido e a imagem dela nos braços de Taehyung eram âncoras pesadas demais.

Do outro lado da cidade, Nari não conseguia dormir. O silêncio da casa parecia amplificar o vazio que a ausência de Jungkook deixara. Ela olhou para o mural de fotos em seu quarto. Lá estava a foto da cabine, onde ela o beijara na bochecha. Na época, parecera um momento divertido. Agora, ela via a tensão nos ombros dele, o brilho de algo desesperado em seus olhos. Como ela pôde ser tão cega? Como pôde confundir um amor daquela magnitude com simples possessividade infantil?

A terça-feira amanheceu cinzenta e úmida. Jungkook chegou cedo, mas desta vez não estava sozinho. Minji caminhava ao lado dele, rindo de algo que ele dissera. Ele parecia mais relaxado, embora o sorriso não chegasse totalmente aos olhos. Ele estava tentando, genuinamente tentando, construir algo novo sobre as ruínas do que perdera.

— Você parece melhor hoje — comentou Minji, enquanto paravam perto dos armários. — Menos... assombrado.

— É o café — mentiu Jungkook, forçando um tom leve. — E a companhia. Obrigado por ontem, Minji. De verdade.

— Não precisa agradecer. Mas saiba que ela está nos olhando. De novo.

Jungkook não precisou perguntar quem. Ele sentia o olhar de Nari como uma queimadura na nuca. Ele respirou fundo e, em um ato de rebeldia contra a própria dor, inclinou-se e afastou uma mecha de cabelo do rosto de Minji. Foi um gesto suave, mas carregado de intenção para quem assistia de longe.

Nari, parada a poucos metros, sentiu o ar escapar de seus pulmões. Taehyung estava ao seu lado, falando sobre o treino de basquete, mas as palavras dele eram apenas ruído branco. Ela via Jungkook sendo gentil com Minji, via o modo como ele parecia dedicar toda a sua atenção à garota nova, e sentiu uma onda de ciúme tão avassaladora que suas mãos tremeram.

— Nari? Você está ouvindo? — perguntou Taehyung, tocando seu ombro.

— Eu... eu esqueci que preciso falar com o professor de literatura — mentiu ela, a voz falhando. — Te vejo na aula, Tae.

Ela saiu apressada, mas não foi para a sala dos professores. Ela seguiu Jungkook e Minji até o corredor lateral, onde o movimento era menor.

— Jungkook! — chamou ela, a voz ecoando nas paredes de azulejo.

Ele parou, mas não soltou a mão de Minji, que agora ele segurava por puro reflexo defensivo. Ele se virou lentamente, a expressão endurecida.

— Outra vez, Nari? Eu tenho aula agora.

— Eu só... eu queria saber se você vai ao ensaio da banda hoje à tarde — disse ela, buscando qualquer desculpa para mantê-lo ali. — Você prometeu que me ajudaria com a afinação da guitarra.

Jungkook olhou para ela com uma indiferença que doía mais do que qualquer grito.

— Eu não vou poder ir. Combinei de levar a Minji para conhecer a biblioteca pública depois da escola. Ela precisa de alguns livros para o seminário de história.

Nari olhou para Minji, e o ciúme que ela sempre achara "fofo" em Jungkook agora se manifestava nela de forma bruta e descontrolada.

— A biblioteca pública? — Nari soltou uma risada nervosa. — Sério, Jungkook? Você odeia aquele lugar. Diz que cheira a poeira e mofo. Você só está indo para... para me evitar.

— Eu estou indo porque quero ser útil para alguém que valoriza a minha presença — rebateu ele, a voz subindo de tom. — E se isso significa te evitar, então é apenas um bônus.

— Você está agindo como uma criança! — gritou Nari, a frustração transbordando. — Só porque eu estou com o Taehyung, você decide que agora a sua vida gira em torno da garota nova? Isso é patético!

Jungkook soltou a mão de Minji e deu um passo à frente. A aura de proteção que ele sempre tivera em relação a Nari fora substituída por uma barreira de gelo.

— Patético é você achar que o mundo para quando você decide brincar de romance com o cara que eu sempre te disse que não servia para você. Patético é você vir aqui cobrar lealdade de um "melhor amigo" que você descartou na primeira oportunidade.

— Eu não te descartei! — As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Nari. — Eu só queria ser feliz! Eu achei que você ficaria feliz por mim!

— Feliz? — Jungkook riu, um som seco e sem alma. — Nari, você me pediu para assistir você se apaixonar por outro. Você me pediu para ser o espectador da minha própria ruína. E agora que eu decidi sair do teatro, você fica brava?

Minji, sentindo-se cada vez mais um peão em um jogo que não entendia completamente, tocou o braço de Jungkook.

— Jungkook, vamos. A aula vai começar.

Ele assentiu, mas antes de se virar, olhou nos olhos de Nari uma última vez.

— Você disse que meu ciúme era fofo, Nari. Que era coisa de irmão. Pois bem, o "irmão" foi embora. O que você está vendo agora é apenas um homem que cansou de esperar por alguém que nunca teve a intenção de chegar.

Ele se virou e caminhou para longe, deixando Nari desabada contra a parede do corredor. Ela soluçava baixinho, o peito doendo como se tivesse sido pisoteado. Ela percebeu, tarde demais, que o ciúme de Jungkook não era uma birra de criança; era o escudo que ele usava para proteger o que restava do seu coração. E agora que o escudo fora quebrado, não havia nada que a protegesse da própria solidão.

O resto do dia foi um borrão de dor para Nari. Ela tentou se concentrar nas aulas, mas a imagem de Jungkook e Minji rindo no pátio a perseguia. Taehyung tentou animá-la, mas a presença dele parecia subitamente intrusiva. Ela percebeu que, embora gostasse do charme e da atenção de Taehyung, ele não a conhecia. Ele não sabia que ela chorava assistindo comerciais de comida de cachorro, ou que ela detestava o som de chuva no telhado de zinco. Jungkook sabia. Jungkook sabia tudo.

Na saída da escola, a chuva voltou a cair, desta vez mais forte. Nari estava parada sob o toldo da entrada, observando os carros passarem. Ela viu Jungkook abrir um guarda-chuva grande e preto e abrigar Minji sob ele. Eles caminharam juntos, os ombros se tocando, desaparecendo na névoa cinzenta da tarde.

Um impulso súbito e desesperado a tomou. Ela não pegou o ônibus. Ela não ligou para Taehyung. Ela começou a caminhar, correndo sob a chuva, em direção à casa de Jungkook. Ela precisava falar com ele. Não com o Jungkook frio da escola, mas com o seu Kook. Ela precisava saber se ainda restava alguma coisa sob aquele gelo.

Quando chegou à casa dele, estava encharcada. Suas roupas grudavam no corpo e o cabelo pendia em mechas pesadas. Ela tocou a campainha repetidamente, o coração batendo na garganta.

A porta se abriu e Jungkook apareceu. Ele estava usando uma camiseta de algodão simples e calças de moletom. Ao vê-la naquele estado, sua primeira reação foi de choque, seguida imediatamente pela velha preocupação que ele não conseguia extinguir.

— Nari? O que você está fazendo aqui? Você está encharcada!

— Eu precisava... — Ela ofegou, tentando recuperar o fôlego. — Eu precisava te ver.

Jungkook suspirou, abrindo espaço para ela entrar.

— Entra logo. Você vai pegar uma pneumonia.

Ele a levou até a sala e foi buscar uma toalha. Nari ficou parada no tapete, tremendo de frio e de adrenalina. Quando ele voltou, ele jogou a toalha sobre a cabeça dela e começou a secar seu cabelo com movimentos bruscos, mas que ainda carregavam uma ternura residual.

— Você é louca — resmungou ele. — Por que não pegou um táxi? Por que veio correndo na chuva?

— Porque eu tive medo — sussurrou ela, a voz abafada pela toalha.

Jungkook parou de secá-la. Ele se afastou um pouco, cruzando os braços.

— Medo de quê?

— Medo de que você realmente goste da Minji. Medo de que você tenha me substituído de verdade.

Jungkook soltou uma risada amarga e jogou a toalha no sofá.

— E por que isso importa, Nari? Você tem o Taehyung. Você tem o namorado perfeito, o cara popular, o beijo de cinema. Por que você se importa com quem eu estou?

— Porque não é a mesma coisa! — gritou ela, as lágrimas se misturando à água da chuva em seu rosto. — O Taehyung é legal, ele é incrível, mas ele não é você! Ele não faz birra quando eu não dou atenção, ele não me conhece como você conhece... eu sinto falta da sua chatice, Jungkook! Eu sinto falta de você me protegendo de coisas que nem existem!

— Você sente falta do seu brinquedo — rebateu ele, a voz agora carregada de uma tristeza profunda. — Você sente falta de ter alguém que te idolatra incondicionalmente enquanto você dá o seu coração para outro. Isso não é amor, Nari. Isso é egoísmo.

— Não é verdade! — Ela deu um passo à frente, segurando a camiseta dele com as mãos trêmulas. — Eu fui cega, Jungkook. Eu achei que o que a gente tinha era tão sólido que nada podia mudar. Eu achei que você sempre estaria lá, independentemente do que eu fizesse. Eu não percebi que eu estava te machucando porque eu não conseguia imaginar minha vida sem você.

Jungkook olhou para as mãos dela em sua camisa. Ele sentiu a velha vontade de puxá-la para perto, de perdoar tudo e voltar ao que eram. Mas a imagem dela beijando Taehyung na festa ainda queimava em sua mente como um ferro quente.

— O que você quer de mim, Nari? — perguntou ele, a voz quase um sussurro. — Você quer que eu pare de ver a Minji? Quer que eu volte a ser o seu "Kook" e finja que não dói ver você com ele?

— Eu quero que você me perdoe — disse ela, olhando-o nos olhos. — Eu quero que você saiba que eu... eu não sei o que eu sinto pelo Taehyung. Eu achei que era amor, mas agora que você se afastou, tudo parece cinza. Eu não consigo ser feliz com ele se você não estiver por perto.

— Isso não é suficiente — disse Jungkook, afastando as mãos dela suavemente. — Você quer que eu seja o seu plano de fundo. E eu cansei de ser coadjuvante na minha própria vida.

— E se eu terminar com ele? — A pergunta pairou no ar, pesada e definitiva.

Jungkook sentiu um choque percorrer seu corpo. Ele olhou para Nari, buscando qualquer sinal de hesitação.

— Você faria isso? Por mim?

— Eu faria qualquer coisa para ter você de volta — admitiu ela, a voz firme apesar do choro. — Eu percebi que a "birra" que eu tanto achava fofa era a única coisa que me fazia sentir segura. Sem o seu ciúme, eu me sinto perdida.

Jungkook sentiu uma onda de emoções conflitantes. Parte dele queria acreditar, queria se jogar naquele abismo. Mas outra parte, a parte que fora quebrada na varanda da festa, ainda estava na defensiva.

— Não faça promessas que você não pode cumprir, Nari. Você gosta do Taehyung. Ele te faz rir.

— Ele me faz rir, mas você me faz sentir viva — rebateu ela. — Há uma diferença.

Jungkook deu um passo para trás, passando a mão pelos cabelos molhados. Ele olhou para Nari, encharcada e vulnerável em sua sala, e sentiu a barreira de gelo começar a rachar. Mas as rachaduras eram dolorosas.

— Vá para casa, Nari — disse ele, a voz cansada. — Vá para casa e pense no que você realmente quer. Não tome decisões baseadas na culpa ou na saudade momentânea. Se você terminar com ele só porque está com medo de me perder, a gente vai acabar se destruindo de novo em um mês.

— Mas Jungkook...

— Vá para casa — repetiu ele, com mais firmeza. — Eu preciso de tempo. E você também.

Nari olhou para ele por um longo momento. Ela viu a dor, o amor e a exaustão em seu rosto. Ela assentiu lentamente, pegando a toalha e secando o rosto uma última vez.

— Eu vou. Mas eu não vou desistir de nós, Kook. Eu demorei dez anos para perceber o que estava bem na minha frente, mas agora que eu vi, eu não vou deixar escapar.

Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, virou-se para ele.

— O ciúme que você sente... eu nunca mais vou fingir que não vejo. Porque agora eu sei que ele é o jeito que o seu coração encontrou de dizer o meu nome.

Ela saiu para a chuva, deixando Jungkook sozinho no silêncio da casa. Ele se sentou no chão da sala, encostado no sofá, e cobriu o rosto com as mãos. Ele queria acreditar nela. Queria mais do que qualquer coisa no mundo. Mas ele sabia que o caminho de volta para a confiança era muito mais longo do que o caminho para a decepção.

Enquanto isso, Nari caminhava sob a chuva, mas desta vez não sentia frio. Ela tinha uma clareza que nunca tivera antes. Ela sabia o que precisava fazer. Ela sabia que o "ciúme de amigo" fora a mentira mais confortável que ela já contara a si mesma, e que a verdade — a verdade crua e avassaladora de que ela também amava Jungkook — era a única coisa que poderia salvá-los.

A guerra entre o passado e o presente estava longe de terminar, mas pela primeira vez, as linhas de batalha estavam claras. Jungkook não era mais o garoto que fazia birra; ele era o homem que exigia ser amado por inteiro. E Nari estava finalmente pronta para dar a ele nada menos do que tudo.

A noite caiu sobre a cidade, e enquanto Jungkook olhava para a chuva através da janela, ele se perguntava se o eclipse de neon de sua vida estava finalmente dando lugar a um novo amanhecer. O ciúme ainda estava lá, uma fera adormecida em seu peito, mas agora, talvez, ele não precisasse mais rugir no escuro. Talvez, apenas talvez, ele pudesse finalmente ser transformado em algo que ambos pudessem chamar de lar.