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Meu aliado perfeito

O Despertar do Oceano de Cristal

A sala de estar da nossa casa em Beacon Hills parecia um jardim botânico improvisado. O perfume de centenas de rosas, orquídeas e tulipas era tão denso que quase se podia mastigá-lo. Andre e Lucca circulavam entre os arranjos com expressões que misturavam orgulho fraternal e uma desconfiança latente, típica de quem sabe que cada pétala ali carregava a intenção de um estranho.

— Se chegar mais um vaso, vamos ter que nos mudar para o quintal — comentou Andre, segurando um cartão dourado entre dois dedos, como se fosse algo contagioso. — "Para a voz que congelou meu coração". Brega. Muito brega.

Lucca soltou uma risada curta, movendo uma pequena corrente de ar para espalhar o cheiro sufocante dos lírios.

— Deixe a menina, Andre. Ela brilhou. O teatro inteiro ficou de pé. E, honestamente, depois daquela "conversa" nos bastidores com o projeto de alcateia, ela merece um pouco de adoração normal.

Eu estava sentada no tapete, rodeada por papéis de presente rasgados e caixas de bombons finos. Meus dedos ainda formigavam, um resquício da adrenalina da noite anterior. O sucesso de "Cats" tinha sido absoluto, mas o que realmente martelava na minha mente não eram os aplausos, mas o calor das mãos de Derek e o brilho escarlate nos olhos de Scott.

— O que é isso? — perguntei, notando um envelope de papel pardo, pesado e lacrado com cera vermelha, escondido sob um buquê de íris azuis.

Peguei o envelope. Não havia remetente, apenas o selo oficial do Teatro Municipal de Beacon Hills. Meus irmãos se aproximaram imediatamente, a postura relaxada desaparecendo em um instante.

Abri o lacre com cuidado. Dentro, um cartão de gramatura alta trazia letras cursivas, elegantes e quase agressivas em sua perfeição.

— "Você pode fazer de novo? Só que agora... Titanic?" — li em voz alta, sentindo um calafrio que não tinha nada a ver com meus poderes.

— Titanic? — Andre franziu o cenho. — Eles querem que você cante Celine Dion enquanto o palco afunda? Isso é perigoso. Água e o seu gelo...

— É um desafio — interrompeu Lucca, seus olhos azuis analíticos fixos no papel. — E um convite para algo maior. O diretor do teatro não escreveria isso se não soubesse que você tem controle sobre... bem, sobre o que aconteceu ontem.

— Ou talvez não tenha sido o diretor — sussurrei.

A caligrafia era firme, decidida. Tinha o peso da autoridade de Scott, mas a elegância sombria de Derek. Ou talvez fosse Stiles, o mestre das marionetes, testando meus limites.

Afastei-me dos meus irmãos, sentindo uma necessidade súbita de ar puro. O interior da casa estava quente demais, carregado demais com as expectativas deles e as memórias do que aconteceu no camarim.

— Vou para o jardim. Preciso pensar — avisei, saindo pela porta de vidro antes que eles pudessem protestar.

O ar da noite em Beacon Hills estava fresco, mas para mim, era quase morno. Caminhei até o canteiro de lírios brancos que eu mesma havia plantado. Eles brilhavam sob a luz da lua, puros e silenciosos. Sentei-me no banco de pedra e fechei os olhos.

Sempre que me sentia sobrecarregada, havia uma música que servia como minha âncora. Não era uma música de palco, nem algo para ser performado. Era apenas para mim.

— "If only I knew what my heart was telling me..." — comecei a cantar baixinho, a voz saindo como um sussurro melodioso. — "Don't know what I'm feeling, is this just a dream? Ah, if only..."

À medida que as notas saíam da minha garganta, a temperatura ao meu redor começou a despencar. Não era o gelo agressivo da noite anterior, nascido do medo e da luxúria. Era algo fluido, melancólico. As pétalas dos lírios começaram a ser recobertas por uma camada de cristal tão fina que parecia seda.

— "Am I falling for a hunter? Or am I the prey?" — improvisei a letra, sentindo as lágrimas arderem.

O jardim começou a se transformar. A grama sob meus pés estalou, tornando-se branca. O gelo subiu pelo banco de pedra, desenhando padrões de fractais que brilhavam com uma luz azul pálida. Eu podia sentir a energia fluindo dos meus dedos para a terra, uma conexão elemental que me fazia sentir poderosa e, ao mesmo tempo, terrivelmente sozinha.

— Você canta melhor quando acha que ninguém está ouvindo.

Sobressaltei-me, e o gelo ao meu redor reagiu, disparando pequenas estacas em direção à voz. Derek Hale saiu das sombras das árvores, desviando-se com uma agilidade sobrenatural. Ele não parecia assustado; parecia faminto.

— O que você está fazendo aqui, Derek? — perguntei, tentando controlar a respiração. — Meus irmãos vão sentir seu cheiro.

— Eles estão ocupados discutindo sobre quem vai te proteger mais — Derek disse, aproximando-se com passos lentos e predatórios. Ele parou a poucos centímetros de mim, o frio que eu emanava parecendo não afetá-lo. — E eu não vim para brigar com eles. Vim ver a Rainha de Gelo no seu elemento.

— Você leu a carta? — apontei para a casa. — Titanic. Eles querem que eu faça Titanic.

Derek soltou um riso baixo, um som que vibrou no meu peito.

— Foi ideia do Stiles. Ele acha que, se você conseguir controlar a transição da água para o gelo sob pressão, ninguém em Beacon Hills poderá tocar em você. Nem mesmo os Alfas de fora que estão começando a circular a cidade.

— E o que você acha? — desafiei, dando um passo à frente, invadindo o espaço dele.

Derek estendeu a mão e tocou uma das flores congeladas. Sob o seu toque, o gelo não derreteu; ele brilhou mais intensamente.

— Eu acho que você é uma força da natureza — ele sussurrou, seus olhos verdes fixos nos meus. — E eu quero estar no centro da tempestade com você. Scott quer te guiar, Isaac quer te servir, Stiles quer te entender... mas eu? Eu quero que você se perca em mim.

Ele segurou meu rosto com as duas mãos. O calor da pele dele era um choque contra o meu frio interno.

— Você está com medo da peça porque sabe que, se cantar aquela música, se evocar o oceano, não haverá mais como esconder quem você é — Derek continuou, a voz rouca. — Mas você não precisa se esconder.

— Derek... — tentei falar, mas ele selou meus lábios com um beijo que interrompeu qualquer pensamento.

Diferente do beijo no teatro, este não era apenas possessivo. Era uma promessa. Senti o gelo ao nosso redor subir, criando uma cúpula translúcida que nos isolava do mundo, do jardim e dos meus irmãos. Dentro daquele casulo de cristal, o tempo parou.

— Eles estão vindo — Derek disse, afastando-se subitamente, seus sentidos de lobo captando o movimento na casa. — Pense na proposta. Titanic não é apenas uma peça. É o seu teste final.

Antes que eu pudesse responder, ele desapareceu nas sombras, tão rápido quanto havia chegado. O gelo que formava a cúpula desmoronou em pó de diamante, cobrindo-me com um brilho etéreo.

— Maninha? — a voz de Andre veio da varanda. — Está tudo bem? A temperatura aqui fora caiu uns vinte graus de repente.

— Está tudo bem, Andre! — respondi, limpando o rosto e tentando acalmar o coração.

Voltei para dentro, mas meus olhos não saíram do envelope pardo sobre a mesa. Titanic. O navio que afundou por causa do gelo. A ironia não passava despercebida por mim.

Naquela noite, eu não dormi. Fiquei sentada na janela, observando a floresta de Beacon Hills. Eu sabia que Scott estava lá fora, em algum lugar, vigiando. Sabia que Isaac provavelmente estava no telhado do teatro, sonhando com a próxima cena. E Stiles... Stiles provavelmente estava pesquisando mitologias sobre ninfas de gelo e sereias.

O destino do teatro para mim era um caminho sem volta. Se eu aceitasse o papel de Rose, se eu transformasse o palco em um oceano congelado, eu estaria declarando guerra a qualquer normalidade que ainda me restasse.

— Se é para afundar o navio — sussurrei para a escuridão do meu quarto, sentindo uma pequena ponta de gelo crescer na ponta do meu dedo —, que seja com o maior espetáculo que este mundo já viu.

Peguei o celular e digitei uma mensagem para o número que Stiles havia deixado discretamente no meu camarim na noite anterior.

"Eu aceito. Mas quero o gelo real. E quero todos vocês no palco comigo."

A resposta veio em segundos.

"Oceano ou geleira, nós estaremos lá. O show deve continuar. — S."

Eu sorri, sentindo o poder monstruoso dentro de mim ronronar como um gato satisfeito. Beacon Hills queria um monstro? Eu daria a eles uma deusa. E no centro de tudo, entre o fogo dos meus irmãos e a fome dos lobos, eu finalmente descobriria se o meu gelo era capaz de queimar mais do que qualquer chama.