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Meu aliado perfeito

O Naufrágio dos Sentidos e o Retorno do Passado

A manhã seguinte à estreia de "Cats" trouxe um sol pálido que mal conseguia aquecer as vidraças do meu quarto, mas o clima dentro de casa estava longe de ser frio. O som de buzinas insistentes e gritos entusiasmados vinha da calçada, quebrando o silêncio tenso que ainda pairava entre meus irmãos e eu.

— Ela já vai! Parem de demolir a campainha! — gritou Andre da cozinha, embora houvesse um sorriso relutante em seu rosto.

Abri a porta e fui imediatamente atingida por um turbilhão de cores e energia. Sarah, Pérola e Gabriel estavam parados ali, parecendo que tinham acabado de ganhar na loteria. Sarah usava um lenço de seda que flutuava ao vento, e Gabriel segurava uma cópia impressa do que parecia ser o novo roteiro.

— Titanic, amiga! Titanic! — Sarah gritou, pulando em meu pescoço. — Você tem noção do que isso significa? O figurino! O drama! O oceano!

— Nós vamos ser o centro das atenções de Beacon Hills de novo — Pérola disse, os olhos brilhando. — E desta vez, a coreografia vai ser épica. O diretor disse que quer algo "imersivo".

— Vamos logo, o carro está esperando — Gabriel me puxou pelo braço, rindo. — Não podemos deixar o navio partir sem a nossa Rose.

Despedi-me de Andre e Lucca com um aceno rápido. Eles ainda pareciam preocupados, as sombras de Derek e Scott ainda pairando sobre a nossa varanda, mas eu precisava desse momento de normalidade com meus amigos. Entramos no carro de Gabriel e o trajeto até o teatro foi preenchido por cantorias desafinadas e planos mirabolantes para a nova peça.

Ao cruzarmos as portas do Teatro Municipal, o ar mudou. O cheiro de serragem e tinta fresca indicava que a cenografia de "Cats" já estava sendo desmontada para dar lugar ao gigante de ferro. Caminhamos até o centro do palco, onde o espaço parecia vasto e cheio de possibilidades.

— Imaginem só — disse Gabriel, abrindo os braços no meio do palco vazio —, o gelo subindo por aqui, a água refletindo as luzes... vai ser divino.

Começamos a rir e a ensaiar alguns passos improvisados, rodopiando pelo tablado de madeira. Eu me sentia leve. Por alguns minutos, não havia lobisomens, não havia possessividade e não havia o medo de que meu gelo machucasse alguém. Éramos apenas jovens artistas vivendo um sonho.

No entanto, o som de passos pesados ecoando pelo corredor lateral interrompeu nossa diversão. O diretor do teatro, um homem de meia-idade sempre estressado chamado Sr. Harrison, surgiu das sombras, mas ele não estava sozinho.

— Ah, que bom que já chegaram! — exclamou Harrison, limpando o suor da testa. — Quero apresentar o novo integrante do elenco. Tivemos uma desistência de última hora e, por sorte, este jovem talento estava na cidade e se ofereceu para o papel de Cal Hockley.

Meu coração parou. O ar ao meu redor estalou, e uma fina camada de geada cobriu instantaneamente a sola dos meus sapatos. Ao lado do diretor, com um sorriso que eu conhecia bem demais e que ainda povoava meus pesadelos, estava Liam.

— Olá, querida — disse Liam, sua voz deslizando como veneno sobre veludo. — Sentiu minha falta?

O silêncio que se seguiu foi gélido. Sarah e Pérola trocaram olhares de puro choque; elas sabiam exatamente o que Liam representava na minha vida antes de eu me mudar para Beacon Hills. Ele não era apenas um ex-namorado; ele era uma sombra obsessiva que quase me destruiu antes de eu descobrir meus poderes.

— O que você está fazendo aqui, Liam? — perguntei, minha voz saindo mais baixa do que eu pretendia, enquanto minhas mãos começavam a formigar com a energia reprimida.

— Eu disse a você que não conseguiria ficar longe por muito tempo — ele deu um passo à frente, ignorando a tensão óbvia. — E que papel melhor para nós do que um noivado conturbado em um navio prestes a afundar? É quase poético.

— Ele é... o Cal? — Gabriel perguntou ao diretor, a voz carregada de descrença. — Sr. Harrison, isso não é uma boa ideia. Eles têm... história.

— História é ótimo para a atuação, rapaz! — Harrison retrucou, alheio ao perigo. — Agora, vamos ao trabalho. Onde estão os assistentes? Isaac! Stiles! Scott! Venham aqui agora!

Do fundo do palco, os três apareceram. Isaac carregava alguns cabos de iluminação, Stiles estava com um tablet e Scott parecia estar conferindo a segurança das cordas de sustentação. No momento em que viram Liam perto de mim, a atmosfera do teatro mudou de "ensaio" para "zona de guerra".

Scott endireitou a postura, seus olhos fixos em Liam com uma intensidade que faria qualquer homem normal recuar. Isaac soltou os cabos, que bateram no chão com um estrondo metálico, e Stiles parou de digitar, seu rosto assumindo uma expressão de puro sarcasmo perigoso.

— Algum problema aqui? — perguntou Scott, sua voz de Alfa vibrando baixo, o suficiente para fazer os pelos dos meus braços se arrepiarem.

— Nenhum problema, ajudante — Liam zombou, medindo Scott de cima a baixo. — Só estou cumprimentando minha namorada.

— Ex-namorada — corrigi imediatamente, sentindo o gelo subir pelas minhas pernas, endurecendo o tecido da minha calça.

— Detalhes, querida — Liam estendeu a mão para tocar meu rosto, mas antes que pudesse encostar, Isaac se materializou entre nós, segurando o pulso de Liam com uma força que claramente o estava machucando.

— Eu não faria isso se fosse você — disse Isaac, um sorriso frio nos lábios, seus olhos brilhando em um dourado sutil que Liam, em sua arrogância humana, não percebeu como um aviso sobrenatural.

— Solte-o, Isaac! — gritou o diretor Harrison, horrorizado. — O que deu em vocês hoje? Estamos aqui para trabalhar!

Isaac soltou Liam com um empurrão desdenhoso. Stiles se aproximou de mim, colocando a mão protetoramente em meu ombro.

— Tudo bem? — sussurrou Stiles no meu ouvido. — Se quiser que eu "acidentalmente" derrube um refletor de dez quilos na cabeça dele, é só dar o sinal.

— Eu estou bem, Stiles — menti, embora estivesse tremendo de raiva e nervosismo.

— Ótimo! — Harrison bateu palmas. — Para começarmos a entrar no clima, quero que você, nossa estrela, cante o tema principal. "My Heart Will Go On". Quero sentir a emoção, o romance, a entrega. Liam, fique perto dela para criarmos a química visual.

Senti o estômago revirar. Scott e Isaac se posicionaram nas laterais do palco, como sentinelas prontas para o abate. Stiles foi para a mesa de som, mas seus olhos nunca deixaram Liam.

A música começou. As notas de flauta ecoaram pelo teatro vazio, trazendo uma melancolia que combinava perfeitamente com o frio que eu estava sentindo.

— "Every night in my dreams... I see you, I feel you..." — comecei a cantar, fechando os olhos para tentar esquecer que Liam estava a apenas alguns centímetros de mim.

Minha voz flutuava, e com ela, o meu poder. O gelo começou a se formar no teto do teatro, criando estalactites de cristal que refletiam as luzes azuis que Stiles havia programado. Era lindo e aterrorizante.

— "Near, far, wherever you are..."

No momento em que eu me preparava para subir o tom, para a parte mais emocionante da música, senti a mão de Liam deslizar pela minha cintura de forma possessiva e vulgar, puxando-me para perto dele com uma força desnecessária.

— Você ainda é minha — ele sussurrou contra meu ouvido, sua voz cortando a melodia como uma faca. — Esse show vai ser a nossa volta, quer você queira ou não.

O toque dele foi o gatilho. O gelo que eu estava controlando com tanto esforço explodiu.

Uma rajada de vento congelante varreu o palco, derrubando os suportes de partituras e fazendo as luzes piscarem violentamente. A música parou com um som de distorção quando Stiles largou os controles para correr em minha direção.

— "Across the distance..." — tentei continuar, mas minha voz falhou quando Liam me apertou mais forte, rindo do meu desespero.

— Pare com isso, Liam! — gritei, e o chão sob nossos pés congelou instantaneamente, fazendo-o escorregar e cair de costas no palco.

Scott não esperou. Ele saltou sobre o palco com uma agilidade que nenhum humano possuía, agarrando Liam pelo colarinho e levantando-o do chão como se ele não pesasse nada.

— O ensaio acabou — rosnou Scott, seus olhos agora claramente vermelhos, brilhando na penumbra do palco. — Se você tocar nela de novo, eu não vou me importar com quem está assistindo.

— Scott, solte-o! — o diretor gritava, mas ninguém o ouvia.

Isaac estava ao meu lado em um segundo, envolvendo-me em seus braços, tentando aquecer o frio que agora saía de mim em ondas incontroláveis.

— Está tudo bem, eu estou aqui — sussurrava Isaac, enquanto eu via o gelo começar a cobrir as poltronas da primeira fila.

Stiles chegou logo depois, olhando para o caos com uma expressão de pânico e fascínio.

— Gente, o diretor está chamando a segurança! — avisou Stiles. — Scott, solta esse idiota antes que você revele mais do que deve!

Scott jogou Liam no chão com desprezo. Liam tossia, olhando para Scott com uma mistura de medo e ódio puro.

— Vocês são loucos — gaguejou Liam, levantando-se e limpando a poeira da roupa. — Isso não vai ficar assim. Harrison, você viu o que esses... esses animais fizeram?

O Sr. Harrison estava pálido, olhando para o gelo que cobria metade do seu palco e para os olhos de Scott que voltavam lentamente ao normal.

— Eu... eu só quero uma peça de sucesso — balbuciou o diretor. — Todos para fora! Por hoje chega! Limpem esse gelo... seja lá como isso apareceu aqui!

Sarah, Pérola e Gabriel se aproximaram de mim, ainda em choque.

— Amiga, o que foi isso? — perguntou Sarah, tocando em um pedaço de gelo no palco. — Isso não foi efeito especial...

— Vamos para casa — eu disse, minha voz saindo rouca. — Eu preciso sair daqui.

Enquanto caminhávamos para a saída, senti o olhar de Liam queimando em minhas costas. Mas ele não era o único. Scott, Isaac e Stiles caminhavam ao meu redor, uma barreira de proteção física e sobrenatural.

— Ele não vai chegar perto de você novamente — Derek Hale apareceu na porta dos fundos, encostado em seu Camaro preto. Ele devia estar ouvindo tudo do lado de fora. Sua expressão era de uma fúria contida que fazia o ar vibrar. — Eu deveria ter matado esse humano quando tive a chance.

— Ele é apenas um homem, Derek — falei, sentindo o cansaço me abater. — Mas ele trouxe o inferno com ele.

— Então nós vamos queimar o inferno — disse Scott, abrindo a porta do carro para mim. — Juntos.

O ensaio de "Titanic" havia começado com risos e sonhos, mas terminou com a promessa de um naufrágio muito mais perigoso. O gelo que eu carregava dentro de mim não era mais um segredo, e o passado que eu tentava enterrar estava sentado na primeira fila, pronto para ver o mundo congelar.

Enquanto o carro de Derek se afastava, olhei pelo vidro traseiro e vi Liam parado na calçada do teatro, sorrindo. Ele não sabia que estava brincando com lobos, mas ele estava prestes a descobrir que, em Beacon Hills, até as rosas de gelo tinham espinhos que podiam matar.

— Stiles — chamei baixinho dentro do carro.

— Sim?

— Descubra tudo o que puder sobre como o Liam conseguiu esse papel. Ele não veio para Beacon Hills por acaso.

Stiles assentiu, seus dedos já voando sobre a tela do celular.

— Pode deixar. Se houver um podre, eu vou achar. E se não houver, eu invento um para mandar ele de volta para o buraco de onde saiu.

Eu encostei a cabeça no banco, sentindo o calor de Isaac ao meu lado e a presença protetora de Derek ao volante. O primeiro ato de Titanic tinha sido um desastre, mas o segundo... o segundo seria uma guerra. E desta vez, eu não deixaria o navio afundar sozinha.