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Meu aliado perfeito

O Reflexo da Alma nas Águas de Calisto

O silêncio da casa era opressor, uma ressonância do caos que havia explodido no teatro. Andre e Lucca tentaram me impedir de sair, seus rostos carregados de uma preocupação que beirava a sufocação, mas eu não conseguia ficar entre quatro paredes. O cheiro de Liam ainda parecia impregnado na minha pele, uma mistura de colônia cara e memórias traumáticas que nem mesmo o perfume das flores de Derek ou a presença reconfortante de Isaac conseguiam apagar. Eu precisava de espaço. Precisava de algo maior do que eu, algo que não tentasse me possuir ou me proteger o tempo todo.

Caminhei pela trilha familiar que levava à pequena enseada isolada, a poucos minutos da nossa propriedade. O som do oceano sempre foi meu refúgio, mas hoje, o rugido das ondas parecia um eco do meu próprio tumulto interno. A areia estava fria sob meus pés descalços, e o vento salgado açoitava meu rosto, carregando consigo o gosto da tempestade que se formava no horizonte.

Sentei-me na beira da água, onde a espuma das ondas morria na areia, e abracei meus joelhos. O gelo em minhas mãos não era mais uma escolha; ele fluía involuntariamente, congelando os pequenos grãos de areia ao meu redor, transformando o solo em um tapete de cristais quebradiços.

— Por que eu? — sussurrei, a voz embargada pelo choro que eu vinha segurando desde que vi o rosto de Liam. — Por que sou uma aberração?

Escondi o rosto entre as mãos, sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelos dedos e, no momento em que tocavam a pele congelada, transformarem-se em pequenas pérolas de gelo que caíam ruidosamente no chão.

— Poseidon! — chamei em um grito abafado, um apelo desesperado para a imensidão azul que se estendia à minha frente. — Se você é o pai das águas, se este poder vem de algum lugar que não seja o inferno, me responda! Por que eu não posso ser apenas uma garota comum? Por que tenho que carregar esse monstro dentro de mim?

O mar pareceu responder ao meu lamento. A maré, que antes recuava calmamente, avançou com uma força súbita. As ondas se ergueram, mas não quebraram de forma caótica. Elas começaram a se moldar, esculpidas por uma vontade invisível.

Ergui a cabeça, soluçando, e o que vi me tirou o fôlego. A água não era mais apenas líquido; ela se transformou em figuras translúcidas e brilhantes. Golfinhos feitos de pura corrente marinha saltavam sobre as cristas das ondas, deixando rastros de luz fosforescente no ar. Cavalos-marinhos gigantes, majestosos e feitos de espuma, galopavam sobre a superfície, suas crinas de spray oceânico brilhando sob a luz da lua.

Era um espetáculo de beleza pura, uma resposta elemental à minha dor. O gelo em minhas mãos parou de latejar. A água estava me mostrando que o poder não precisava ser destruição; ele poderia ser arte. Ele poderia ser vida.

No centro desse turbilhão de criaturas fantásticas, a água começou a girar, formando um pilar de cristal líquido que se elevava a metros de altura. A pressão do ar mudou, tornando-se doce e fresca, como o cheiro da chuva em uma floresta antiga. Lentamente, a coluna de água começou a ganhar contornos humanos.

Meus olhos se arregalaram e meu coração falhou uma batida. A figura que emergiu da água não era um deus antigo ou um monstro marinho. Era uma jovem, com cabelos que pareciam feitos de algas prateadas e olhos que carregavam a profundidade de um abismo oceânico.

— Calisto? — minha voz foi um sopro, um som quase inaudível diante do barulho do mar.

A figura sorriu, um sorriso que eu guardava em um compartimento trancado da minha memória, datado de anos atrás, antes do acidente, antes do luto, antes da magia. Era minha irmã. Calisto, que o mundo acreditava ter partido para sempre, estava ali, envolta em uma aura de espíritos da água que dançavam ao seu redor como vaga-lumes marinhos.

— Você sempre teve o hábito de chamar pelos nomes errados quando está triste, minha pequena Rose de Gelo — disse ela, sua voz soando como o tilintar de conchas ao vento.

— Calisto... é você mesma? — Levantei-me, cambaleante, a areia congelada estalando sob meus pés. — Eu vi você... eu vi o mar te levar...

— O mar não me levou para me destruir, irmã — disse Calisto, aproximando-se sem que seus pés tocassem a areia, flutuando sobre uma fina película de água. — Ele me reclamou. Eu sou a Guardiã agora, a voz que acalma as marés e protege o que está escondido nas profundezas. E você... você não é uma aberração.

Ela estendeu a mão, e eu, tremendo, estendi a minha. Quando nossos dedos se tocaram, não houve o choque térmico que eu esperava. O gelo em minha pele encontrou a fluidez da dela, e uma sensação de paz absoluta percorreu meu corpo, acalmando o rugido do poder que Scott, Derek e Isaac tanto tentavam controlar.

— Por que isso está acontecendo agora? — perguntei, as lágrimas voltando a cair, mas agora de alívio. — Liam voltou. O teatro é um caos. Aqueles homens... eles olham para mim como se eu fosse um prêmio, uma arma ou uma possessão. Eu me sinto perdida.

Calisto tocou meu rosto, seus dedos frios e úmidos limpando o rastro das minhas lágrimas.

— Você se sente perdida porque está tentando se definir através do olhar deles — explicou ela, com uma sabedoria que ultrapassava seus anos de vida humana. — Derek vê a sua força e quer domá-la para não se sentir sozinho em sua própria escuridão. Scott vê o seu potencial e quer guiá-la para manter o equilíbrio que ele tanto teme perder. Isaac busca em você o calor que lhe foi negado, e Stiles... Stiles quer desvendar o mistério porque tem medo do que não pode explicar.

— E Liam? — perguntei, estremecendo ao mencionar o nome.

— Liam é a âncora que tenta te puxar para o fundo — o rosto de Calisto tornou-se severo, e as ondas atrás dela rugiram em concordância. — Ele é o passado que se recusa a morrer. Mas você não é mais aquela menina indefesa, irmã. Você é o gelo que pode paralisar exércitos e a água que pode dar a vida.

— Eu tenho medo de machucá-los — confessei. — Tenho medo de que, se eu me entregar a esse Titanic que eles criaram, eu realmente acabe afundando todo mundo.

Calisto soltou uma risada leve, e ao redor de nós, os animais de água saltaram em uma celebração silenciosa.

— O Titanic afundou porque o gelo e a água foram vistos como inimigos — disse ela, olhando profundamente nos meus olhos. — Mas em você, eles são um só. O gelo é apenas a água que decidiu ser firme. A água é apenas o gelo que decidiu fluir. Você é a ponte, Rose.

Ela se afastou um pouco, e os espíritos da água começaram a girar ao seu redor, preparando-se para o retorno às profundezas.

— Ouça o seu coração, não o rugido dos lobos — aconselhou Calisto. — Use o teatro. Não como uma máscara, mas como um espelho. Mostre a eles quem você realmente é, e aqueles que forem dignos não terão medo de se afogar na sua imensidão.

— Calisto, não vá! — tentei segurá-la, mas minhas mãos atravessaram a água fria.

— Eu nunca fui embora — sussurrou ela, sua forma começando a se dissolver em névoa salina. — Estou em cada chuva que toca seu rosto e em cada cristal de gelo que você molda. Proteja seus irmãos, Andre e Lucca. Eles carregam o fogo e o vento, mas você... você é a alma deste mundo.

Com um último brilho prateado, Calisto desapareceu. As criaturas fantásticas mergulharam de volta no oceano, e o mar retornou ao seu ritmo calmo de maré baixa. O gelo ao meu redor derreteu, tornando-se água pura que a areia absorveu avidamente.

Fiquei ali por um longo tempo, respirando o ar salgado, sentindo-me, pela primeira vez em anos, completa. A dor de ver Liam ainda estava lá, mas não era mais um peso morto; era apenas um obstáculo a ser superado.

Quando me virei para voltar para casa, vi quatro silhuetas paradas no topo da duna, observando-me à distância. Scott, Derek, Isaac e Stiles. Eles não se aproximaram, respeitando o meu momento, mas a presença deles era palpável. Eu podia sentir o cheiro de floresta de Derek, a preocupação vibrante de Stiles, o calor de Scott e a ansiedade de Isaac.

Caminhei em direção a eles, meus passos firmes na areia úmida.

— Vocês viram? — perguntei quando cheguei perto o suficiente.

— Vimos a água fazer coisas que a ciência não explica — disse Stiles, guardando o celular no bolso, seu rosto pálido de espanto. — E vimos você... conversando com o oceano.

— Ela estava aqui — eu disse, olhando para Derek. — Minha irmã.

Derek deu um passo à frente, seus olhos verdes estudando meu rosto com uma intensidade nova. Ele não tentou me tocar ou me reivindicar. Havia um respeito ali que eu não tinha visto antes.

— O cheiro de vocês mudou — comentou Isaac, aproximando-se cautelosamente. — Não há mais medo.

— Não — respondi, olhando para Scott, que mantinha uma expressão solene. — O medo acabou. Se o Sr. Harrison quer Titanic, ele vai ter. Mas não vai ser a história de um naufrágio.

— Vai ser o quê, então? — perguntou Scott.

— Vai ser a história de como o oceano e o gelo reivindicaram o que é deles — respondi, e senti uma pequena corrente de água serpentear por entre meus dedos, mesmo sem mar por perto. — E Liam... Liam vai descobrir que algumas âncoras são pesadas demais para se carregar.

— Estamos com você — disse Derek, e pela primeira vez, a palavra "nós" não soou como uma ameaça de posse, mas como uma promessa de alcateia.

— Eu sei — falei, começando a caminhar de volta para a casa onde Andre e Lucca nos esperavam. — Agora, vamos ensaiar. Temos um mundo para congelar e um passado para afogar.

Enquanto caminhávamos sob a luz da lua, eu sabia que a batalha no teatro seria apenas o começo. Mas com a bênção de Calisto e a força desses homens ao meu lado, eu não era mais a presa. Eu era a tempestade. E Beacon Hills estava prestes a sentir o frio mais belo de sua história.