meu amor por voce
O Escritório de Vidro e Brinquedos
A luz da manhã de Mônaco refletia suavemente nas águas do Mediterrâneo, criando padrões dançantes de claridade que entravam pelas janelas do enorme apartamento. No dia seguinte ao susto da febre, a mansão suspensa dos Piastri parecia ter recuperado um pouco de seu ritmo habitual, embora o silêncio ainda fosse a regra de ouro. Anna estava melhor. A febre havia cedido, deixando para trás apenas um rastro de cansaço e aquela palidez delicada que fazia Lily querer envolvê-la em algodão doce.
Oscar, fiel à sua promessa silenciosa, não pisou na empresa. Ele transferiu o comando de suas operações globais para o escritório do quinto andar, um santuário de vidro, couro escuro e tecnologia de ponta, onde ele podia monitorar o mercado financeiro enquanto permanecia a poucos passos da família.
No andar de baixo, Lily estava na cozinha gourmet, conversando em voz baixa com Agatha e o chef de cozinha sobre o cardápio do almoço. Anna precisava de algo nutritivo, mas leve.
— Eu estava pensando em um risoto de abóbora bem cremoso, Agatha — comentou Lily, ajustando o cabelo atrás da orelha. — Ela gosta da textura, e é fácil de digerir. O que você acha?
— É uma excelente ideia, senhora Piastri — respondeu a governanta, anotando algo em seu tablet. — E podemos fazer um suco de pêra, que ela aceita melhor quando está com a garganta sensível.
Enquanto as duas mulheres discutiam os detalhes da nutrição de Anna, a pequena menina, vestida com um pijama de seda rosa pálido e meias antiderrapantes, observava da fresta da porta da sala de estar. Ela estava com um livro de ilustrações sob o braço e sua pelúcia favorita, um coala cinza, apertada contra o peito.
Anna olhou para a mãe. Lily estava distraída, gesticulando suavemente enquanto falava com o chef sobre temperos. A menina sabia que, se pedisse para ir até o papai, a mamãe provavelmente diria que ele estava em uma ligação importante e que ela deveria descansar no sofá. Mas Anna não queria o sofá. Ela queria o som do teclado de Oscar. Queria o cheiro de café e papel novo que sempre cercava o pai.
Com a habilidade silenciosa que muitas crianças autistas desenvolvem para evitar estímulos indesejados, Anna se afastou da porta. Ela caminhou nas pontas dos pés pelo corredor de mármore, evitando as áreas onde seus passos poderiam ecoar. Ela chegou ao elevador privativo que conectava os andares internos, mas decidiu que o som do elevador era muito óbvio. Em vez disso, ela se dirigiu à escadaria em espiral, subindo degrau por degrau, parando a cada poucos segundos para ouvir se alguém a seguia.
No quinto andar, o escritório de Oscar Piastri era um ambiente de poder. Três monitores curvos exibiam gráficos complexos e fluxos de dados em tempo real. Oscar estava sentado em sua cadeira ergonômica, usando um fone de ouvido discreto, falando em um tom de voz baixo e firme com um diretor em Londres.
— Os números do terceiro trimestre não mentem, Marcus — dizia Oscar, os olhos fixos em uma planilha. — Se não ajustarmos a logística agora, teremos um gargalo em dezembro. Eu quero o relatório de contingência na minha mesa virtual até...
Um som quase imperceptível de fricção na porta de vidro chamou sua atenção. Oscar parou de falar no meio da frase. Ele viu uma pequena mão espalmada contra o vidro temperado. Lentamente, a porta correu para o lado, e uma cabecinha castanha apareceu.
Anna entrou, olhando para o chão, mas com um sorriso tímido brincando nos lábios.
— Marcus, aguarde um momento — disse Oscar ao microfone, sua expressão mudando instantaneamente. A frieza do CEO derreteu como gelo sob o sol. — Tenho uma emergência de nível prioritário aqui. Ligo de volta.
Ele desconectou o fone e o deixou sobre a mesa, afastando a cadeira para dar espaço.
— Ora, ora... o que temos aqui? — perguntou Oscar, a voz agora doce e acolhedora. — Uma pequena fugitiva?
Anna não respondeu de imediato. Ela caminhou até o centro do escritório, olhou para o tapete persa de tons fechados e, com uma determinação silenciosa, começou a "se instalar". Ela colocou o coala em cima de uma das pilhas de pastas de couro de Oscar e abriu seu livro de ilustrações bem ao lado dos pés dele.
— Papai trabalha — disse ela, finalmente olhando para ele. — Anna fica.
Oscar sentiu um calor no peito que nenhum negócio bilionário jamais proporcionaria. Ele poderia ter dito que era perigoso ela subir sozinha, ou que ele precisava de silêncio absoluto para a próxima chamada de vídeo com Tóquio. Mas, ao olhar para aqueles olhos claros e para o rostinho ainda um pouco abatido pela gripe, ele soube que o escritório nunca esteve tão bem decorado.
— Tudo bem, minha princesa — sussurrou ele, inclinando-se para acariciar o rosto dela. — Se você vai ficar no meu escritório, precisa de um posto de comando à altura.
Oscar levantou-se e buscou uma manta de cashmere que ficava no sofá de leitura do escritório. Ele a dobrou no chão, ao lado de sua cadeira, criando um ninho macio para ela. Anna sentou-se ali, organizando seus poucos pertences com uma precisão metódica.
Enquanto isso, no terceiro andar, o pânico começou a se instalar.
— Anna? — chamou Lily, entrando na sala de estar com um copo de água. — Querida, a mamãe trouxe...
O silêncio foi a única resposta. Lily olhou atrás das cortinas, debaixo da mesa de jantar e até no closet de brinquedos. Nada.
— Agatha! — Lily chamou, a voz subindo um oitavo de tom. — Você viu a Anna? Ela estava aqui agora mesmo!
Agatha apareceu rapidamente, o rosto preocupado.
— Não, senhora. Pensei que estivesse com a senhora na sala.
Lily sentiu o coração disparar. Anna raramente saía de perto deles, especialmente quando não estava se sentindo bem. A possibilidade de ela ter tentado descer para a área da piscina ou se escondido em algum dos muitos cômodos dos cinco andares fez o estômago de Lily revirar.
— Procure no quarto andar, Agatha! Eu vou olhar no segundo — ordenou Lily, já correndo em direção às escadas.
Elas procuraram por dez minutos, chamando o nome da menina em tons cada vez mais desesperados. Foi quando Lily parou no corredor e olhou para cima. O quinto andar. O território sagrado de Oscar durante o horário comercial. Anna tinha uma fixação pelo pai, e Lily sabia que a menina era muito mais esperta do que deixava transparecer.
Lily subiu as escadas quase sem fôlego. Ao chegar à porta do escritório, ela parou bruscamente.
A cena diante dela era quase surreal.
Oscar estava sentado em sua mesa, com o notebook aberto, mas ele não estava digitando. Ele estava com uma das mãos estendida para baixo, permitindo que Anna usasse seus dedos como "estacionamento" para os pequenos bonecos que ela havia trazido escondidos nos bolsos do pijama. O homem mais poderoso do setor de tecnologia estava, naquele momento, servindo de suporte para um cenário imaginário de chá e dragões.
Lily encostou-se no batente da porta, o peito subindo e descendo pela corrida, mas o pânico foi substituído por uma onda de alívio e amor.
— Oscar... — ela sussurrou, chamando a atenção dele.
Oscar olhou para cima e colocou um dedo sobre os lábios, indicando silêncio. Anna estava concentrada, sussurrando algo para o coala enquanto apontava para um gráfico de barras na tela de um dos monitores extras.
— Ela disse que as barras verdes parecem árvores, Lily — sussurrou Oscar, com um brilho de puro divertimento nos olhos. — Então estamos plantando uma floresta nos lucros da empresa.
Lily entrou no escritório, caminhando suavemente até eles. Ela se ajoelhou ao lado de Anna, que nem sequer se sobressaltou, já que o ambiente estava calmo.
— Você me deu um susto, mocinha — disse Lily, beijando a têmpora da filha. — Por que não avisou a mamãe que vinha ver o papai?
Anna olhou para a mãe, depois para o pai, e soltou uma pequena risada travessa.
— Papai é o meu porto — disse ela, usando uma frase que Lily sempre dizia a ela.
Oscar estendeu a mão para Lily, puxando-a para que ela se sentasse no braço de sua cadeira.
— Deixe ela ficar, Lily. Ela não está fazendo barulho, e honestamente... o dia está muito melhor com essa consultora especial aqui embaixo.
— Mas você tem aquela reunião com o conselho em vinte minutos, não tem? — Lily perguntou, preocupada em não atrapalhar.
Oscar olhou para Anna, que agora tentava imitar sua postura, sentada ereta na manta, fingindo ler um dos relatórios impressos dele.
— Vou fazer a reunião com a câmera fechada se for necessário — decidiu ele. — Ou melhor, vou deixar aberta. Se eles não conseguirem lidar com o fato de que sou pai antes de ser CEO, o problema é deles. Mas olhe para ela, Lily. Ela está calma. A respiração está limpa.
Lily observou a filha. Era verdade. A agitação que a gripe e o autismo costumavam causar quando misturados parecia ter evaporado. A presença de Oscar, com sua energia estável e silenciosa, era o melhor remédio para Anna.
— Tudo bem — cedeu Lily, sorrindo. — Mas eu vou trazer o risoto para cá. E Agatha vai trazer um café reforçado para você, porque acho que sua manhã vai ser longa com essa ajudante.
— Eu adoraria — respondeu Oscar, olhando para a esposa com uma admiração profunda. — Obrigado por cuidar de tudo, Lily. Eu sei que não é fácil quando ela decide que só eu sirvo.
— Nós somos uma equipe, Oscar — disse ela, inclinando-se para dar um selinho rápido nele. — E eu entendo perfeitamente por que ela quer ficar aqui. Eu também ficaria se pudesse.
Lily saiu para buscar a comida, deixando os dois em seu mundo particular.
Pelos próximos quarenta minutos, quem quer que estivesse do outro lado das chamadas de vídeo de Oscar Piastri viu um homem focado, preciso e implacável em suas decisões. O que eles não viam, abaixo da linha da câmera, era que a mão esquerda de Oscar estava constantemente acariciando os cabelos de Anna, ou que, de vez em quando, ele fazia uma pausa de dois segundos para confirmar se o "dragão" de brinquedo da filha podia voar por cima do teclado.
— Sim, o investimento em Cingapura está aprovado — disse Oscar para a tela, sua voz soando como autoridade pura.
Ao mesmo tempo, ele sussurrou para baixo:
— Não, princesa, o dragão não pode comer o mouse, ele é o guia do papai.
Anna soltou uma risadinha abafada e escondeu o rosto na manta.
Quando Lily voltou com a bandeja de prata, encontrou a cena mais doce de sua vida. Oscar havia terminado a reunião e agora estava sentado no chão, no tapete persa, ao lado de Anna. Ele estava lendo o livro de ilustrações para ela, interpretando as vozes dos animais com uma seriedade cômica que fazia Anna gargalhar — um som raro e precioso que iluminava todo o apartamento.
— Hora do almoço para a realeza — anunciou Lily, colocando a bandeja sobre a mesa de centro do escritório.
Anna se aproximou da comida, atraída pelo cheiro bom do risoto. Oscar ajudou a menina a se sentar adequadamente e, por um momento, o escritório de bilhões de dólares tornou-se apenas uma sala de jantar familiar.
— Sabe, Lily — comentou Oscar, enquanto observava Anna comer com apetite pela primeira vez em dois dias. — Eu estava pensando em reformar a ala leste deste andar.
— Para quê? — perguntou ela, curiosa.
— Para fazer uma sala de jogos e estudos para ela, bem aqui do lado do meu escritório. Com isolamento acústico e tudo o que ela precisa. Assim, nos dias em que ela quiser o papai, ela não precisa fugir. Ela já terá o espaço dela aqui.
Lily sentiu os olhos marejarem. Oscar não apenas aceitava a presença da filha; ele a desejava. Ele não via a condição de Anna ou suas necessidades especiais como um fardo para sua carreira, mas como uma parte integrante de quem ele era.
— Ela ia adorar isso, Oscar.
— E você também terá um espaço lá — continuou ele, pegando a mão de Lily. — Para que possamos estar todos juntos, mesmo quando o mundo lá fora estiver exigindo demais de mim.
Anna, percebendo o clima de carinho, esticou a mão suja de risoto e tocou as mãos unidas dos pais.
— Família — disse ela, uma das palavras que ela usava quando se sentia completa.
— Sim, meu anjo — respondeu Oscar, puxando-a para um abraço de urso, ignorando qualquer mancha de comida em sua camisa social cara. — Família. E nada no mundo é mais importante do que isso.
Naquela tarde, o CEO bilionário não fechou nenhum outro contrato. Em vez disso, ele aprendeu tudo sobre dragões, coalas e a cor preferida de Anna para as árvores dos lucros. E Lily, observando-os, soube que, não importava o quão alto eles morassem em Mônaco, os pés daquela família estariam sempre plantados no solo fértil do amor incondicional.