Meus olhos em voce
O Alívio das Sombras e o Peso do Sangue
O caminho de volta para a cobertura de Mia foi silencioso, mas não era um silêncio desconfortável. Era aquele tipo de quietude que surge quando as palavras já não são suficientes para expressar a imensidão do que se sente. Jungkook dirigia o carro luxuoso de Mia com as mãos firmes no volante, embora seu coração estivesse em um ritmo frenético. Ao seu lado, ela parecia uma boneca de porcelana que havia sido levemente restaurada por um sopro de vida após o jantar com os meninos.
Quando estacionaram na garagem do prédio de alto padrão, o contraste entre a realidade de Jungkook — os becos sujos e os telhados frios — e o mundo de Mia se tornou evidente mais uma vez. Mas, para ele, nada daquilo importava. O mármore, os seguranças na entrada e o elevador panorâmico eram apenas molduras para a única coisa que realmente tinha valor: a garota que agora se apoiava em seu ombro, lutando contra o cansaço.
— Meu pai não está — disse Mia, assim que a porta do elevador se abriu diretamente dentro da sala de estar. — Ele viajou para o Japão em uma reunião de emergência. Ele sempre foge para o trabalho quando não consegue lidar com o que está acontecendo aqui.
Jungkook a ajudou a caminhar pelo tapete felpudo. A iluminação era suave, realçando as obras de arte nas paredes que Mia tanto ignorava.
— Talvez ele só precise de um tempo, Mia — Jungkook tentou soar compreensivo, embora sentisse uma pontada de raiva pelo homem que deixava a filha sozinha naquele estado.
— Ele teve dezenove anos de tempo, Kookie. — Ela sorriu tristemente. — Vamos para o meu quarto. A sala é grande demais e me faz sentir pequena.
Eles subiram a escada em caracol. No quarto de Mia, o ambiente era diferente do resto da casa. Era acolhedor, com prateleiras cheias de livros, discos de vinil e fotos espalhadas. Não havia a frieza do luxo, apenas a essência dela.
Mia se jogou na cama king-size, soltando um suspiro longo. Jungkook sentou-se na beirada, observando-a. Por um momento, a aura de doença pareceu recuar. Eles começaram a conversar sobre as bobagens que aconteceram no jantar: a forma como Jin quase derrubou Meilin ao tentar dançar com o frango na mão, e a cara de indignação de Yoongi quando Namjoon tentou cantarolar sua música nova desafinado.
Eles riram. Riram até que as costelas de Mia doessem e Jungkook perdesse o fôlego. Era uma risada limpa, que afastava os fantasmas do câncer e do abandono.
— Você é o melhor deles, sabia? — disse Mia, recuperando o fôlego e olhando para ele com os olhos brilhando sob a luz do abajur.
— Eu sou apenas o caçula que vocês decidiram adotar — ele brincou, mas seu olhar se tornou intenso.
Jungkook se inclinou, aproximando seu rosto do dela. O tempo pareceu desacelerar. Ele podia sentir o calor da respiração dela e o perfume suave que ainda resistia à quimioterapia. Com uma delicadeza que beirava a adoração, ele selou seus lábios nos dela. Não foi um beijo de despedida, nem um beijo de urgência. Foi uma promessa.
— Eu não vou sair do seu lado — sussurrou ele contra os lábios dela, as mãos emoldurando o rosto pálido. — Nunca mais. Eu não me importo com o que aconteça amanhã. Eu estou aqui agora.
— Jungkook... — o nome dele saiu como um suspiro.
— Eu te amo, Mia. Eu amo cada pedaço de você, inclusive a sua dor. Deixa eu carregar um pouco dela hoje?
Naquela noite, entre os lençóis de seda e o silêncio da cobertura, eles se entregaram um ao outro. Foi uma união que transcendia o físico. Para Jungkook, era a primeira vez que ele se sentia verdadeiramente visto, não como o "menino quebrado", mas como um homem capaz de amar e ser amado. Para Mia, era a reafirmação de que ela ainda era uma mulher, ainda era um ser de desejo e vida, apesar das células que tentavam traí-la.
Fizeram amor com uma lentidão reverente, descobrindo cada curva e cada cicatriz. Jungkook beijou cada marca que a doença e o tratamento haviam deixado, tratando-as como medalhas de honra de uma guerreira. No ápice da entrega, não havia câncer, não havia passado, não havia medo. Havia apenas o toque, o calor e a certeza de que pertenciam um ao outro.
Quando o silêncio voltou a reinar, eles ficaram abraçados, os corpos entrelaçados sob o edredom pesado. A respiração de Mia estava calma, e ela apoiava a cabeça no peito de Jungkook, ouvindo as batidas fortes de seu coração.
— Jungkook? — chamou ela baixinho.
— Oi, meu amor.
— Tem uma coisa que eu nunca contei a ninguém. Nem para o Jin, nem para a Sarah.
Jungkook acariciou o braço dela, sentindo a suavidade da pele.
— Você não precisa contar se não quiser.
— Eu quero. Eu quero que você saiba tudo. — Ela se esticou e pegou um pequeno porta-retratos de prata na gaveta da mesa de cabeceira.
Ela o entregou a ele. Na foto, uma mulher de uma beleza estonteante sorria para a câmera. Seus traços eram quase idênticos aos de Mia, mas havia uma frieza nos olhos que Mia nunca possuiu.
— Essa é a minha mãe — disse Mia, a voz ganhando um tom sério e sombrio.
Jungkook observou a foto.
— Ela era linda, Mia. Exatamente como você.
— Ela era uma modelo famosa. O mundo a amava. Mas ela... ela odiava a ideia de me ter.
Jungkook franziu a testa, sentindo o peso das palavras dela.
— Como assim?
— Ela nunca quis ser mãe. Quando descobriu que estava grávida de mim, ela sentiu que a carreira dela ia acabar. Ela tentou de tudo para que eu não nascesse, Jungkook. Todo tipo de droga, remédios... ela levava o corpo dela ao limite todos os dias, esperando que eu simplesmente parasse de bater aqui dentro.
Mia fez uma pausa, e Jungkook a apertou mais forte, sentindo uma onda de proteção avassaladora.
— Até que um dia, no sétimo mês, ela teve uma overdose. Foi pesado demais. Os médicos conseguiram me tirar às pressas, um milagre de sete meses, mas o corpo dela não resistiu. Ela morreu para que eu vivesse, mas a verdade é que ela não queria que nenhuma de nós duas estivesse aqui.
— Meu Deus, Mia... — sussurrou Jungkook, chocado com a crueldade daquela história.
— É por isso que meu pai é do jeito que é — continuou ela, olhando para o teto. — Ele a amava desesperadamente. Ele se sente culpado por ela ter morrido, e ao mesmo tempo, ele me vê como o único pedaço dela que sobrou. Ele é amoroso e superprotetor porque tem medo de que, se eu for embora, ele perca a única prova de que ela existiu. Ele gasta milhões em tratamentos porque não consegue aceitar perder a "sua modelo" pela segunda vez.
Jungkook sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. A história de Mia era marcada por uma rejeição que começara antes mesmo do primeiro suspiro, assim como a dele fora marcada pelo abandono e pela invisibilidade.
— Nós somos iguais, não somos? — ele perguntou, a voz rouca. — Dois erros que o mundo tentou apagar, mas que se recusaram a sumir.
Mia virou-se para ele, os olhos úmidos.
— Sim. Mas eu não sou um erro agora. Eu sou a garota que te ama. E você não é invisível. Você é o meu mundo inteiro.
Jungkook tomou o porta-retratos da mão dela e o colocou de volta na mesa, virado para baixo. Ele então a puxou para um beijo longo e profundo, tentando apagar com seus lábios toda a dor daquela história.
— Sua mãe não sabia o que estava perdendo — disse ele entre os beijos. — Mas eu sei. E eu vou te valorizar por nós dois. Por ela, pelo seu pai, por todo mundo.
Eles ficaram ali, aninhados um no outro, enquanto a noite de Seul avançava lá fora. Pela primeira vez em muito tempo, o quarto de Mia não parecia um lugar de espera pela morte, mas um santuário de vida. O "menino quebrado" e a "menina que estava partindo" haviam encontrado, no meio de seus cacos, a peça que faltava para que pudessem, finalmente, se sentir inteiros.
— Fica comigo até eu dormir? — pediu Mia, a voz já pesada pelo sono.
— Eu vou ficar com você até o sol nascer — prometeu Jungkook. — E depois disso também.
E ele cumpriu. Ele ficou acordado, observando o peito dela subir e descer, velando seu sono como se fosse o tesouro mais precioso da Terra. Naquela noite, Jungkook entendeu que a vida não era sobre quanto tempo temos, mas sobre o que fazemos com os momentos que nos são dados. E ele usaria cada segundo para amar Mia Lencov, a garota que o ensinou a ser visível.